Intelectuais da educação (30/11/13)

Esta semana participei no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o IFCS, da UFRJ, do encontro extraordinário do Grupo de Pensamento Social no Brasil da ANPOCS, que já vem se firmando como atividade paralela ao encontro anual. Este ano, além da apresentação dos trabalhos dos jovens pesquisadores que escolheram essa área do conhecimento para estudar, por iniciativa de André Botelho, o encontro homenageou três grandes damas das Ciências Sociais Brasileiras: Ângela Castro Gomes, Lucia Lippi de Oliveira e Elide Rugai Bastos. Uma homenagem de trabalho, digamos assim, pois os textos apresentados pelos que homenageavam, faziam um balanço crítico da produção acadêmica das autoras. Isto deu à homenagem um caráter consistente que permitirá a divulgação das análises em publicações acadêmicas. De qualquer maneira não deixou de haver muita emoção por parte das homenageadas e da platéia, um combinado de gente que se conhece há muito tempo e de gente jovem, empenhada em conhecer o Brasil do ponto de vista dos pensamentos concebidos sobre ele.

Na platéia estava também Helena Bomeny e revendo agora os comentários que fiz sobre um dos trabalhos que fui convidada a analisar, percebo que cometi falha grave ao não citar e recomendar à jovem doutoranda Ana Cristina Rocha que se dedica ao estudo da influência norte-americana nos métodos da educação básica no Brasil dos anos 1930, o livro de Helena, Os intelectuais da educação. Lançado em 2000 pela editora Zahar, em suas 85 páginas obtemos um panorama da história do ensino fundamental no Brasil, além de um diagnóstico de seus problemas e dos projetos alternativos que se apresentaram ao longo do século XX para enfrentá-los.

A ênfase do livro de Helena recai sobre as propostas de Anísio Teixeira e de seus contemporâneos da chamada Escola Nova. O livro conta como o problema da educação foi tratado (ou ignorado) no Império; como eram precárias as estatísticas até o começo do século XX e como a elite sempre priorizou o ensino superior em detrimento da escola primária. Não sei se é possível concordar com o argumento de que havia intencionalidade na exclusão da grande massa do sistema educacional mas, de qualquer maneira, a própria insensibilidade com que o problema foi tratado seria tão ou mais criminosa do que a intenção. Mais dramática ainda foi a forma como os excluídos da sociedade, a massa formada pelos negros e pardos após a Abolição, foi posta de lado como inútil e irrecuperável, priorizando-se o aprimoramento da mão-de-obra através da imigração européia. Pior para quem assim pensou. Pois os imigrantes vinham de países onde o problema da educação tinha outro tratamento e com uma consciência de seus direitos que era totalmente o avesso da prática do mercado de trabalho num Brasil recém saído da escravidão.

A década de 1910 viu o surgimento de inúmeras ligas de defesa nacional que desempenhariam papel importante na luta pela educação popular. Este projeto seria aprimorado nos anos 1920 pela Associação Brasileira de Educação, no movimento que ficou conhecido como Escola Nova. Novos ventos sopravam da América e o maravilhoso encontro de Anísio Teixeira com Monteiro Lobato no Estados Unidos proporcionaria um outro encontro fundamental para o pensamento educacional no Brasil. Lobato aproximou Anísio de Fernando de Azevedo em 1929. A amizade e a colaboração entre esses dois últimos se prolongaria por toda a vida. O Manifesto dos pioneiros da educação nova, redigido por Fernando de Azevedo e lançado em 1932 com a assinatura de 26 educadores brasileiros, foi o primeiro grande documento sobre o problema da educação no Brasil. Os pioneiros defendiam com fervor a escola pública, gratuita e laica e esta bandeira encontraria na Igreja Católica o seu mais ferrenho adversário.

As escolas católicas ocupavam a maior parte do mercado de escolas particulares no Brasil, uma tradição que vinha da colônia, do tempo dos jesuítas: educação era assunto de padre. Em defesa dessa tradição Alceu Amoroso Lima, o maior intelectual católico da década de trinta se lançará, junto com o Padre Leonel Franca, num combate intenso contra as propostas da Escola Nova. Com o fracassado golpe comunista de 1935, a reação aproveitou o momento e juntou os inimigos no mesmo saco, condenando os liberais inspirados no modelo educacional norte-americano, Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo ao ostracismo. Mais uma vez a educação pública foi posta para escanteio.

Os anos 1950 marcam a entrada das massas na cena política. As imagens das multidões no enterro de Vargas, em 1954, e no comício da Central, em 1963, são inequívocas. Aquele gente se agita e se manifesta. As coisas haviam mudado. Mas o discurso das elites continuava o mesmo. Exemplar é o debate entre Darcy Ribeiro e Carlos Lacerda. Darcy acusa Lacerda de ser o coveiro da escola pública. Os pioneiros da educação, em 1959, lançariam novo documento: o “Manifesto dos educadores mais uma vez convocados”, redigido ainda por Fernando de Azevedo foi assinado por 189 pessoas. Mas o projeto da Escola Nova era um sonho condenado. O regime militar implantado em 1964 que se estenderia até meados dos anos 70 nada fez pela educação de base. Antes, impediu a continuação do trabalho inspirado na obra de Paulo Freire: a educação pela liberdade. O MOBRAL, programa de alfabetização de adultos, único projeto educacional em que os militares investiram, destinava-se mais a maquilar as estatísticas sobre o analfabetismo no Brasil do que a resolver o problema.

Resumindo aqui o livro de Helena Bomeny, presto também minha homenagem a ela, Ângela, Elide e Lúcia, colegas e amigas, todas elas também professoras que, ao lado da obra impressa, podem se orgulhar de terem formado levas de outros brilhantes intelectuais que darão continuidade às reflexões sobre este mesmo velho Brasil que tanto nos intriga, apaixona e desafia.

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