Cultura Nacional: sempre a se reinventar (23/3/13)

Vem de muito longe o temor da globalização cultural. Esta é confundida com o colonialismo cultural em que os países tecnologicamente mais pobres seriam bombardeados pelos modelos cultural dos países ricos. O que implicaria no desaparecimento da especificidade cultural dos primeiros. Todo o mundo ficaria igualzinho ao pessoal das séries de TV americana que a gente via de tarde. E, de fato, ao longo da história, os modelos de beleza e de comportamento dos países mais desenvolvidos, com população em sua maioria, branca acabavam fazendo com que sonhássemos ser iguais a eles. Eu, por exemplo, quando era menina, bem pequena, tive uma caixa de sabonete em que guardava meus lápis de cor que eu simplesmente adorava. Tudo que eu queria era me transformar naquela linda menina loira, de cabelos cacheados e olhos muito azuis que enfeitavam a tampa. Eu desejava até que houvesse algum meio de nascer de novo para ser daquele jeito. E aquelas famílias maravilhosas, com o papai chegando do trabalho, sempre de terno, a mamãe linda, com seu avental, sempre alegre e sorridente, cercada por seus maravilhosos eletrodomésticos e seus filhos travessos e felizes? Era mesmo tudo o que a gente queria ser.

Foi logo após o meio deste século que MacLuhan cunhou o termo Aldeia Global para definir o fenômeno da globalização cultural promovido pela cultura de massas. O que aconteceu de lá para cá? Lembro bem de quando a TV chegou ao sertão do nordeste. Tornou-se corriqueira a imagem da população da pequena cidade de interior reunida na praça, paralizada em torno de um único aparelho de TV. Antes da TV, muito antes, fora o cinema. O fascínio da juventude do sul da Itália (tão parecido com o nordeste brasileiro) pelo cinema americano inspirou muitos diretores italianos. Será que a cultura da população do interior da Itália foi drasticamente transformada pelo cinema? O que a gente pode ver na filmografia de Frederico Fellini, em filmes como “Noites de Cabiria” e “Ginger e Fred” é que essas coisas são acolhidas, absorvidas e transformadas quando entram em contato com um outro povo e sua cultura.

        A humanidade não cansa de nos surpreender com o inusitado, com as soluções mais inesperadas, com os fenômenos mais intrigantes. Quem esperaria assistir, desde o final do século XX, ao recrudescimento dos costumes associados à cultura muçulmana? No tempo do feminismo, da liberação sexual, da legalizaçao dos casamentos homossexuais, quem esperava ainda ver as cenas de mulheres  envoltas em véus? Se elas nos assustam pelo que temos notícia das violências associadas à inferiorização da mulher em alguns países do Oriente Médio, ver nas grandes cidades europeias, belas e resolutas mulheres envoltas em seus véus por escolha delas mesmas, não deixa de ser algo desconcertante. O véu e outros assessórios exóticos que vemos mulheres asiáticas e africanas usanndo em Londre e Patris são escolhas culturais, símbolos de resistência e de afirmação do que lhes é peculiar em contraste com o que lhes impõe o Ocidente.

Creio que os que temem tanto a subversão das culturas pela cultura de massas as vêem como muito frágeis, sujeitas a se destruirem ao menor contato. Ao mesmo tempo, são irreais os projetos dos que pensam em preservá-las em sua pureza, isolando de qualquer influência externa as manifestações folclóricas, por exemplo. Como manifestações vivas da cultura elas se transformam também ao contato com o mundo exterior até porque seus atores vivem nele. É só observar como foram se adaptando algumas danças e festas populares no Norte e Nordeste. Nem sempre a mudança é para melhor, mas, enfim, talvez só por causa dela é que aquela tradicão tenha se mantido viva.

A MPB, esta mesma que toca no rádio, é a nossa forma de expressão cultural mais respeitada internacionalmente. Ela vem se transformado desde a gravação do primeiro samba, em 1917, “Pelo telefone”, expressão pura do povo da Pequena África, região do Estácio, bairro do Rio. Depois que Pixinguinha e os oito batutas desembarcaram em Paris, no começo dos anos 1920, sob o patrocínio de Arnaldo Guinle, o samba mudou. Se lá chegaram cantando: “nous sommes les batutas/ nous faisons tout le monde danser le samba”, eles voltaram de lá marcados pelo jazz que então corria solto em Paris. E foi a entrada dos metais pesados junto com a batida rítmica dos instrumentos de percussão que gerou essa coisa nova e sensacional que foi o samba dos anos 1920 e 1930. E que de lá para cá não cansa de se reinventar.

Nesta matéria vale à pena contrastar a atitude de Mário de Andrade, valente protetor do nosso folclore e do nosso patrimônio cultural, pouco simpático à MPB que tocava no rádio, com a de Oswald Andrade e a concepção antropofágica, inspirada nos índios que devoravam o colonizador. A idéia é de que ao devorar a cultura do outro, ao invés de nos transformarmos no outro, enriquecemos a nossa própria cultura, criando algo novo. Sem dúvida o trabalho de Mário de Andrade e de Rodrigo Mello Franco em defesa do nosso patrimônio cultural foi admirável e é indispensável. Foram eles  que formularam para o Estado uma política de preservação que nos garantiu a existência hoje dos chamados  tesouros do patrimônio: Ouro Preto,  Missões, Goiás Velho. No eixo desta discussão está o papel que cabe ao Estado, no que diz respeito à preservação da cultura nacional. Preservar do esquecimento, do desaparecimento as manifestações culturais tradicionais é sua obrigação. No entanto, cultura pressupõe liberdade, inclusive de se transformar. É preciso estar aberto ao novo. No meio de tanta novidade, muita coisa descartável haverá. Estas, como o próprio nome diz, desaparecerão sem deixar vestígios. E o que estiver destinado a permanecer, permanecerá. 

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