Mendes Fradique, Vitória e algumas batalhas acadêmicas (17/5/14)

Vim poucas vezes a Vitória mas, em todas elas, vim por obra e graça de Mendes Fradique, pseudônimo de José Madeira de Freitas que nasceu em 1893, em Alfredo Chaves. Por isto e também porque concretizou-se a profecia de um colega que disse que eu ia me tornar a maior especialista no mundo em Mendes Fradique (por falta de concorrentes, é claro), toda vez que o Espírito Santo se lembra dele, manda me chamar. Desta vez vim para participar do já tradicional Café Literário promovido pelo SESC e pude aproveitar mais esta oportunidade de lembrar aos capixabas quem foi esse autor maldito que tanto sucesso fez no Brasil dos anos 1920, sendo depois esquecido, ou apenas lembrado pelo que ficou como marca negativa de sua trajetória: a adesão ao integralismo.

Da primeira vez que vim a Vitória, creio que em 1994, foi para participar de outra feira de livros organizada por Francisco Aurélio Ribeiro. Fiz então duas boas amizades que gosto de conservar: Luiz Busatto, responsável pela edição fac-similar da “Gramática Portuguesa pelo Método Confuso”, publicada em 1984 e aquele que considero o maior nome da literatura capixaba contemporânea: Reinaldo Santos Neves. Na sessão de autógrafos que se seguiu, dividi mesa com a célebre escritora e ilustradora de livros infantis, Ângela Lago. Enquanto a fila de pequenos leitores de Ângela dobrava a esquina, eu só fui salva do completo abandono pelo aparecimento de dois velhinhos da Academia Espiritosantense de Letras que tinham conhecido o Mendes Fradique.

Mendes Fradique foi o tema de minha dissertação de mestrado, defendida no antigo IUPERJ (hoje IESP/UERJ) em 1991 e publicada pela editora Bertrand Brasil, em 1993. Antes mesmo da publicação do livro, realizei no BNDES uma grande exposição sobre o Rio de Janeiro de Mendes Fradique. O livro mereceu algumas resenhas na grande impressa, mas sempre um tanto reticentes, pois o integralismo de Madeira de Freitas acabava se sobrepondo à importância de sua obra anterior. Creio que foi por esse caminho que seguiu a publicada por Sergio Augusto no Estadão e que acabou por provocar resposta de outro ex-integralista e velho amigo de Madeira de Freitas, Miguel Reale.

Nos últimos tempos, Mendes Fradique tem me aparecido em muitas encruzilhadas. Uma deles é a coletânea “Quinze médicos intérpretes do Brasil” organizada por Gilberto Hochman, da Fundação Oswaldo Cruz, e na qual se inclui artigo meu sobre Mendes Fradique/Madeira de Freitas. Livro que vai ser publicado pela Editora Hucitec, na Coleção Pensamento Político e Social, dirigida por Élide Rugai e André Botelho. Mendes Fradique escreveu várias e divertidas crônicas tendo os médicos e a medicina como tema, além de um romance: “Dr. Voronoff” (1926), obra de ficção em torno dos experimentos do famoso médico russo. Como precisava rever este livro perguntei à bisneta de Mendes Fradique, Victoria Saramago se a família me cederia um exemplar desse. Marcos, filho de minha saudosa amiga Aparecida Saramago que tanto me estimulou nos estudos sobre o pai, não só me cedeu este e outros livros, como algumas belas fotografias.

Recentemente participei de duas bancas de doutorado em que tive que defender novamente a minha dissertação sobre Mendes Fradique. É que, sendo convidada para avaliar trabalhos que lidavam com os mesmos temas constantes naquele meu livro, constatei que o mesmo não constava das bibliografias. Creio, e disse isto nas duas ocasiões, que quem convida alguém para uma banca deve se certificar antes o que aquele escreveu sobre o assunto. Como considero que as teses que defendi ali continuam boas e úteis, precisei demonstrá-lo. Afinal se a gente não defende o nosso trabalho quem há de, não é mesmo?

No tempo em que Cristiane Costa era editora do “Caderno Idéias”, do “Jornal do Brasil”, ela me pediu para resenhar um livro sobre humor. Eu era então a pessoa que, no Rio de Janeiro, mais vinha produzido sobre o tema, entre artigos e livros que contemplavam as obras de J. Carlos, Nássara, Carlos Estevão, além do humor e da caricatura em geral. Qual não foi meu espanto ao constatar que o autor, velho conhecido nosso, tendo sido já convidado para vir à Casa Rui algumas vezes, usava os mesmos textos de Mendes Fradique que eu usara em meu livro, com a mesma finalidade analítica, sem ter se dado ao trabalho de sequer incluir meu livro na bibliografia. Para não dizer que não havia referência à minha tese, havia sim, uma, no final da nota de número duzentos e tanto. em letra bem miudinha.

O que fiz eu? Nada. Não fiz a resenha e engoli a raiva, pois lembrei do que uma vez me disse o sábio Francisco de Assis Barbosa, cujo centenário, aliás, se comemorou no dia 13 de maio último: ninguém atira pedra em balão que está subindo. Denúncias de plágio relacionadas com obras de sucesso acabam por dar ao denunciador um ar de despeito, de inveja. E afinal, pelos critérios convencionais, meu livro não tinha sido plagiado. Não havia na obra do outro, um só parágrafo copiado da minha. Mas como disse um colega da Casa Rui a quem pedi que o lesse, era evidente que o meu trabalho fora usado como fio condutor de obra que valia-se do jargão acadêmico para dar um ar de maior densidade analítica do que haveria na minha.

O engraçado disto tudo é que na resenha que fizera de meu livro, Wilson Martins criticara justamente o “ranço acadêmico” de que ele estaria impregnado. Imagine se ele lesse o que e como escrevem os autores de trabalhos sobre o assunto que vieram depois daquele. De resto, se preciso travar essas pequenas batalhas em defesa de minha obra, poderei sempre me orgulhar de ter em meus arquivos carta em que Antonio Candido, motivado pela leitura de meu livro, me convidava, em nome da editora para organizar a edição que a Cia das Letras preparava da “História do Brasil pelo método confuso” e que seria lançada em 2004 com introdução e notas minhas.

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