Estava esperando o sinal abrir quase na esquina da 19 de Fevereiro com a Voluntários da Pátria. Distraidamente, olhava um mendigo que estava na esquina. Era um desses tantos que a gente vê perambulando pelas ruas do Rio, tipo do mendigo maluquinho, ainda jovem (entre 30 e 40 anos?), pequeno, magro, saco nas costas; bermuda e camiseta tipo “engole ele paletó que o defunto era maior"; pés descalços ou metidos em uma sandália velha. Eu os vejo sempre por aí, e às vezes cruzo com algum, na Lagoa. Quando passam, deixam um mal cheiro no ar e o movimento natural que a gente tem é de se afastar o mais rápido possível, até tapando o nariz. Em geral, são negros, ou mais precisamente cafuzos, se (ainda não for politicamente incorreto dizer que alguém é cafuzo), pois têm uma pele escura, bem escura, mas os traços são mestiços e os cabelos bastos, amarfamanhados, dão à cabeleira um estilo rastafári. O aspecto geral é de sujeira, ausência de banho ou de qualquer outro cuidado de higiene e, talvez, a rigidez do penteado se deva mais a isto do que àquilo.
De onde eu estava, vi o mendigo estender um copo de plástico para alguém, com ar de quem pede algo, acompanhando o pedido com um sorriso cheio de dentes escuros, estragados. Alguém que não estava no meu campo de visão, pois tinha uns três carros na minha frente. Pensei que o gesto era para receber umas moedas, apesar do inusitado do copo de plástico, mas foi aí que vi a pessoa com quem ele falava se debruçar para derramar ali, com a ajuda de uma colher, parte da vitamina de açaí que estava tomando em um copo com a marca da casa de sucos que fica naquela mesma esquina. Era uma moça. Dessas moças bonitas que tem aqui no Rio: corpo bem feito e rijo, altura entre a média e mignon; lindos e longos cabelos, levemente ondulados; roupa despojada, calça jeans, camiseta justa e uma suéter amarrada na cintura.
“Um ar esnobe de quem nada quer”, como dizia aquela música antiga que, talvez pelos autores não terem se dado conta ainda do que são esse seres irresistíveis e de infinitas possibilidades que são as meninas da zona sul do Rio. E completava: “cigarrinho aceso em sua mão/ toca moderninho violão,/ diz que o amor é coisa que não quer” para terminar no refrão “lá vai ela e pensa que é mulher”. E os autores eram Evaldo Gouveia e Jair Amorim que ainda pensavam nas moças do Rio como aquelas que do violão tinham apenas o formato do corpo e aquele ar lânguido e disponível das beldades com duas polegadas a mais que tanto agradavam aos homens dos anos 1950 ou 1960. Beldades como aquelas moças de maiô que, na praia, cercam João Gilberto e Tom Jobim, numa foto clássica do tempo da bossa nova.
A menina do Rio, tal como a vejo e conheci desde que aqui cheguei em 1977, é bem diferente disto e pensa, sim, sabe, tem certeza de que é mulher. Tão mulher que pode até amar outras mulheres. Apesar do cigarrinho (hoje, talvez substituído pela vitamina de açaí), apesar de saber tocar violão ou guitarra, da calça jeans e da camiseta, é muito mulher. E por ser tanto talvez faz um pouquinho de medo aos homens. É a mulher que surgiu das grandes transformações que revolucionaram os costumes naquelas duas décadas de ouro, 1960 e 1970. Tão sedutora ou mais do que as misses que as antecederam, mas cheia de decisão, marchando resoluta pela grande e violenta cidade que conhece tão bem.
A “Garota moderna” que vi na esquina da Voluntários, já ia atravessar a rua quando foi abordada pelo mendigo que, com o seu melhor sorriso banguela, deve ter lhe pedido um real ou, quem sabe, que lhe pagasse um lanche. Isto suponho, porque estava longe e não vi nem ouvi. Suponho também que talvez tenha sido ela mesma que lhe propõe partilhar o suco de açaí. O fato é que só a entrevi quando curvou-se um pouco para despejar parte do seu suco de açaí no copo do mendigo. Depois seguiu pela Voluntários no lado oposto da rua, lépida e fagueira, os cabelos “lindos como eu nunca vi”, brilhando e balando ao vento. Imagem da beleza, da limpeza e da juventude sadia, no sentido oposto de seu amigo mendigo, seu avesso, que vinha na minha direção, feliz da vida, com seu meio copo de vitamina de açaí.
Essa cena, quase um flash, me tocou o coração e quase me levou às lágrimas. Estou ficando emotiva. O fato é que fiquei querendo um bem danado àquela menina desconhecida. Talvez seja porque nesses tempos eu veja emergir por todo lado uma juventude tão estúpida, egoísta e auto-centrada, tão pouco sensível ao sofrimento do outro, que quando a gente encontra alguém capaz de um gesto tão simples, fica com vontade de abraçar e agradecer pelo fato de que ainda existam jovens assim. Jovens de outro quilate, como as tantas que havia no meu tempo de faculdade, no tempo mesmo daquelas da música do Evaldo Gouveia. Como as tantas que vieram um pouco antes e que foram trucidadas pela Ditadura. Como as tantas que, por sua generosidade, pela capacidade que tiveram de compreender a realidade brasileira e pelo esforço que fizeram para tentar minorar o sofrimento dos pobres, lutando pela redução da desigualdade, pagaram um alto preço.
Hoje, que o mundo virou de ponta cabeça. Hoje, onde, até mesmo nos lugares onde os direitos sociais pareciam absolutamente garantidos, estão sendo a todo o dia usurpados, como acontece nos países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos; hoje, quando até mesmo os mais valentes desanimam diante do rigor com que a sociedade, mesmo na Democracia, ainda pune os que ousaram lutar pela redução das desigualdades; hoje, diante do avanço avassalador das forças do atraso e do obscurantismo, a esperança dos desencantados da minha geração reside em gente como a menina que ainda é capaz de dividir seu suco de açaí com o mendigo.
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