É uma sensação muito boa o filho da gente gostar dos discos que a gente gostava na idade dele. Dá uma certa aflição porque parece que ele e seus amigos foram abduzidos e levados para quatro décadas atrás, mas, diante das últimas abduções de jovens pelas marchas das famílias, melhor assim. A verdade é que ondas libertárias agitam a juventude de tempos em tempos, por circunstâncias histórias as mais variadas. Se a gente entra numa universidade pública brasileira de hoje parece que está entrando em uma do meu tempo: cabelos, roupas, hábitos e até mesmo idéias voltaram e formam um vínculo muito especial entre essa e a nossa juventude. Juventude daquele Gil que aparece na capa de “Louvação”, um mulato forte e barbado que empunha seu violão com ar desafiador.
“Louvação” trazia muitas canções que se tornariam sucesso, a começar por “Procissão”. Tinha também “Lunik 9” que dizia assim: “Poetas, seresteiros, namorados, correi!/ É chegada a hora de escrever e cantar/ Talvez as derradeiras noites de luar”. É que o homem ainda estava se preparando para chegar à lua, talvez quando lá chegasse isto alterasse as noites de luar e Gil antecipava com esta outras de suas criações futuristas. Canções como “Roda”, “Mancada” e “Rancho da rosa encarnada” fizeram relativo sucesso. Mas as que eu gostava mesmo e das quais ainda hoje gosto eram: “Beira-mar”, “A rua” e “Viramundo”. Das duas primeiras, menos cantadas e menos conhecidas, me orgulho de ter descoberto a beleza por minha própria conta.
Beira-mar
Essa linda canção, com letra de Caetano Veloso, fala do mar de uma maneira que evoca as sensações de quem viveu à beira-mar. Verso e melodia se unem de forma tão apropriada que a gente parece estar sendo balançando pelas ondas de um mar calmo. Diz o poeta para começar: “Na terra em que o mar não bate/ Não bate o meu coração/ O mar onde o céu flutua/ Onde morre o sol e a lua/ E acaba o caminho do chão”. E a seqüência é todo um repertório de imagens lindas, molhadas, salgadas e tangidas pelo vento: “Nasci numa onda verde/ Na espuma me batizei/ Vim trazido numa rede/ Na areia me enterrarei/ Na areia me enterrarei/ Ou então nasci na palma/ Palha da palma no chão/ Tenho a alma de água clara/ Meu braço espalhado em praia/ Meu braço espalhado em praia/ E o mar na palma da mão.” Naturalmente que o poeta fala de seu próprio mar, o mar da sua terra, a Bahia: “Mas o mar não é todo mar/ Mar que em todo mundo exista/ O melhor, é o mar do mundo/ De um certo ponto de vista/ De onde só se avista o mar/ A ilha de Itaparica”. E a Bahia “só tem uma”. Finalmente, vem a exaltação do azul, da cor do mar: “É por isso que é o azul/ Cor de minha devoção/ Não qualquer azul, azul/ De qualquer céu, qualquer dia/ O azul de qualquer poesia/ De samba tirado em vão/ É o azul que agente fita/ No azul do mar da Bahia/ É a cor que lá principia/ E que habita em meu coração/ E que habita em meu coração.”
A rua
A rua
A primeira música que amei nesse disco foi “A rua”, com letra do poeta piauiense Torquato Neto. É uma canção que remete a lembranças de uma infância de menino do interior e, talvez por conta da localização geográfica, me lembre tanto as histórias de “Cazuza”, do maranhense Viriato Correia. De fato, no refrão, fica revelado o lugar exato da rua: “Ê, São João, ê, Pacatuba/ Ê, rua do Barrocão/ Rio Parnaíba passando/ Separando a minha rua/ Das outras, do Maranhão.” Era o que tornava específica a rua onde Torquato Neto passou a infância mas o resto da canção cabe em todas as doces memórias de quem viveu em lugares assim: “Toda rua tem seu curso/ Tem seu leito de água clara/ Por onde passa a memória/ Lembrando histórias de um tempo/ Que não acaba.” E daí seguem-se as lembranças reunidas nas referências às cirandas, ao sino que anuncia a procissão e às pessoas como “Das Dores, que morreu cedo/ Luzia, que se perdeu/ Macapreto, Zé Velhinho”. Esses últimos talvez fossem os mesmos meninos que corriam atrás de bandas que passavam como o rio Parnaíba, o rio que passava no fim da rua e que “molhava seus lajedos/ Onde a noite refletia/ O brilho manso/ O tempo claro da lua.”
Viramundo
Viramundo
A letra de “Viramundo” é do Capinam e cantando-a, junto com a música do Gil, a gente se dá conta do quanto a gente era valente pois dizíamos: “Sou viramundo virado/ Nas ondas da maravilha/ Cortando a faca e facão/ Os desatinos da vida/ Gritando para assustar/ A coragem da inimiga/ Pulando pra não ser preso/ Pelas cadeias da intriga…” Como a gente acreditava que ia vencer todos aqueles desafios, que ia ver “o virador deste mundo/ Astuto, mau e ladrão/ Ser virado pelo mundo/ Que virou com certidão”. A gente acreditava que com nossa valentia ainda havia de virar esse mundo em “festa, trabalho e pão”. Não deixa de dar um certo desalento constatar que tantos anos depois, dois daqueles jovens que impulsionaram suas vidas a partir de mensagens como a dessa música, Dirceu e Genoíno, sofrem, no estado democrático de direito, uma cruel perseguição à qual a sociedade brasileira, a mesma que lutaram por transformar, assiste com indiferença ou até mesmo aplaude. Só nos resta esperar que surja uma nova geração de valentes que consiga finalmente virar este mundo em festa, trabalho e pão.
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