Questão de atitude (9/7/11)

Antigamente eu tinha horror a brigar. Não suportava gente encrenqueira.

Aquela mulher que arma confusão na fila do banco porque alguém passou na frente ou que reclama do atendimento no guichê; a que discute no trânsito; a que vai tomar satisfação quando outra dá em cima do marido; a que grita em reunião de trabalho com os colegas ou com os filhos pequenos na rua.

Enfim, a famosa barraqueira.

Nunca fui barraqueira nem me tornei uma na maturidade mesmo tendo reconsiderado muito a minha visão do conflito. Ao longo de uma vida de mais de 30 anos no mundo do trabalho a gente aprende umas coisinhas, não é mesmo? Coisa simples do tipo protestar quando um colega lhe pisa nos calos; rebater críticas indevidas; questionar o chefe quando abusa de seu poder; não se deixar humilhar ou ser tratado de maneira injusta; saber ser firme e objetivo na resposta sem jamais ser injurioso para não perder a razão.

Claro que o medo de perder um emprego é um fato. E a possibilidade de seu chefe tornar sua vida um inferno é real. Mas, mesmo diante dessas circunstâncias, não se deve deixar ninguém ultrapassar o limite dos seus direitos garantidos pelas leis do país. Afinal existe uma legislação trabalhista que rege as relações entre patrão e empregado na iniciativa privada e funcionário e chefe no serviço público. Adicionou-se agora mesmo o princípio do "assédio moral" para definir e caracterizar aquelas situação subjetivas em que a perseguição ao funcionário se dá, menos pelo grito do que através de atribuições que não lhe concernem ou que são humilhantes. O melhor a fazer, no caso do funcionário público que está se sentindo vítima de assédio moral, é pedir que tudo que lhe seja solicitado o seja por escrito.

Outra coisa que se aprende também é que boa parte da atitude que as pessoas adotam para com você tem a ver com a sua postura (física mesmo), o jeito como você chega e o tom que você dá às suas solicitações. No ambiente frio das repartições e guichês de atendimento ao público alguma firmeza vai ter sempre maior eficácia do que a doçura. Inseguros, tímidos, balbuciantes, gaguejantes são o alvo preferencial dos que gostam de destratar os mais fracos. E o mundo do trabalho está cheio deles. Por isso uma certa auto-confiança real ou encenada ajuda muito. Não que seja o caso de adotar uma atitude agressiva. Mas de ter firmeza e de, caso sinta da parte do seu interlocutor a tentativa de lhe inferiorizar, falar alto e grosso. Em alguns casos, vai ser mesmo preciso que você que dê uns gritos. Quando, por exemplo, você liga para a sua operadora de telefone e já vai no terceiro ou quarto atendente que lhe pede para repetir todos os mesmos dados que você já disse aos que o atenderam antes aí só mesmo dando uns bons gritos. É claro que eles estão se valendo de sua boa educação para lhe enrolar e só vão resolver mesmo o problema depois que você fizer uma meia dúzia de ameaças endereçadas ao gerente da área do pobre infeliz que está do outro lado da linha.

E isto não tem nada a ver com o "você sabe com quem está falando?" Na verdade, é a reposta que se deve dar a quem vem com essa do "você sabe com quem está falando?", tentativa de intimidação baseada em uma suposta hierarquia social que não deve ter valor algum numa sociedade democrática. Independente da questão de classe o que importa é a questão do respeito que lhe é devido seja qual for a sua situação social. Você está ali, como cidadão ou como consumidor e tem o direito de ser bem atendido.

Infelizmente, em um país em que os pobres são sempre desconsiderados, quando você está vestido de maneira mais singela, digamos assim, tipo saí do jeito que estava em casa e fui na padaria da esquina, pode ser que alguém se ache no direito de te tratar como trata os subalternos. Afinal, moreninha (sim, existe preconceito racial no Brasil) e vestida desde jeito, deve trabalhar em alguma casa de família por aqui. Em geral - talvez pela falta de polidez nos modos ou por não terem aprendido o que é um comportamento politicamente correto - é a gente mais simples que com maior frequência adota esse tipo de atitude. Evidentemente que alguns sinais exteriores de uma cultura de elite, no jeito de falar logo restabelecem o status quo. Mas, naturalmente também, ninguém vai se prestar a falar difícil só para se impor à caixa do supermercado.

E isto não é privilégio nosso. Lembro de uma amiga que viveu na França por um tempo e que dizia que os franceses, mais precisamente os de Paris, eram de uma antipatia atroz. Tratavam mal quem quer que fosse e eram os reis de dar esporro principalmente se viam que você vinha do Terceiro Mundo. Ela descobriu que o segredo para lidar com eles era falar mais alto, pelo menos dois tons acima.

Mundo hobbesiano? Distante do reino das fadas e dos gnomos em que alguns acreditam viver? Pode ser mas são as armas que a gente adquire na luta cotidiana e que a experiência vai afiando a ponto de passarem a fazer parte de sua maneira de estar no mundo. Não significa que haja nesse tipo de enfrentamento qualquer forma de paixão. Ao contrário, são os ajustes da vida prática, do espaço do trabalho, onde sempre haverá conflito, mas sempre haverá espaço para a negociação.

A linguagem do mundo longe do lar é bem próxima da linguagem da selva. Mas, depois de estabelecidos os campos, depois que se sai desse Estado de Natureza inicial, depois de definidas as regras do jogo, aí começa o convívio civilizado, os dados estão na mesa e nem você avança no meu terreno nem eu avanço no seu. Pois isto tem um preço. Que pode ser alto. Creio que podemos chamar a isto de Contrato Social.

Um comentário:

  1. Concordo com tudo o que disse, Isabel. A gente vai ficando mais velho e mais crítico, exigente de nossos direitos mesmo. Haja paciencia aqui no Brasil, mesmo...
    Ontem, fui ao supermercado a noite, e ao estacionar o carro, vi uma moça uniformizada, talvez uma empacotadora. Ela tinha uma expressão apreensiva, triste... percebi que chorava e passava todo o tempo a mão nos olhos enxugando as lagrimas. Nao consigo ver esse tipo de manifestação e não dar a mão. Fui a ela e disse que se estava sentindo vontade de chorar, chorasse mesmo. Ela falava de traiçao, que estava mto decepcionada com o namorado. Eu completei que caminhasse um pouco mais a frente, par nao ficar chorando ali em frente ao seu trabalho, para nao se expor.E disse que se alguem a traia de forma tão crua como ela dizia, que essa pessoa nao merecia um lagrima dela. Ela me agradeceu, e percebi que minhas palavras fizeram efeito.

    Quero dizer que, acho que é com as pessoas mais humildes que deveriam ter mais cuidado, mais carinho. Afinal, já têm tanta carência, nao é mesmo?...

    Outra coisa que não resisto a me meter hoje em dia: jovens adolescentes de mais de 15 anos falando palavroes escabrosos na frente de velhinhas. Outro dia perguntei a tres deles, na padaria, se gostariam que viessem uns rapazotes que nem eles e falassem assim na frente da avó deles. Não obtive resposta. Pegou la dentro!

    Adorei seu texto, sua auto-crítica, sua sensibilidade e maturidade

    Precisamos nos encontrar para falar de tempos idos, vividos, e os que hão de ser ainda.

    Um abração
    André

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