Nossas canções (19/11/11)

Ouvi dizer que Chico Buarque negocia com sua plateia a inclusão das músicas novas, pois ninguém as quer ouvir. Todo o mundo pede "Apesar de você", "Chama o ladrão" ou até alguma mais antiga como "Olé, olá". A plateia do Chico que é composta, em sua maior parte, de gente da minha geração quer ouvir mesmo são aquelas canções que estão ligadas à sua memória afetiva. E a memória afetiva da gente tem seu melhor repertório nos anos 1960 e 1970.

Meu saudoso amigo, Luis Carlos Saroldi me entrevistou uma vez para seu programa da Rádio MEC: "As dez mais da sua vida". Antes da entrevista eles lhe pedem que lhes mande a lista das músicas para que sejam tocadas durante o programa. Não lembro de tudo agora mas sei que a primeira de todas que lembrei foi daquela música gaiata, com a letra toda em proparoxítonas que começava assim: "Amei Angélica, mulher anêmica/de cores pálidas/ de gestos tímidos..." Eu disse na entrevista que esta música era a cara do ambiente bem-humorado da casa dos meus pais onde esse disco da dupla Jararaca e Ratinho, que reunia outras canções divertidas fazia muito sucesso. Não me lembro se incluí também o "Presidente bossa nova", de Juca Chaves que, pelos mesmos motivos, foi outro hit da minha infância.

Tenho certeza que entraram duas músicas do Gil, ambas do primeiro disco dele que foi também o primeiro disco que comprei na vida. Tenho até hoje com o meu nome escrito na letra dos meus treze anos pois é de 1968. Melhor: tinha. Na verdade guardava todos os meus velhos LPs vida até que meu filho, hoje com 21 anos, os adotou e os ouve numa vitrola que lhe deu o Antonio Gomes. A primeira das duas músicas do disco do Gil que incluí foi: "Beira-mar", com letra do Caetano que começa assim: "Na terra em que o mar não bate/não bate o meu coração/o mar onde o céu flutua,/ onde morre o sol e a lua/ e acaba o caminho do chão". O resto vai por aí e é a mais bela poesia.

A outra era uma com letra do Torquato Neto que dizia "Toda rua tem seu curso,/ tem seu leito de água clara/ por onde passa a lembrança/ lembrando historias de um tempo/ que não se acaba". Era me lembrava muito o livro do Viriato Correia, "Cazuza" e, de fato, Torquato fala da sua rua como situada na margem piauiense do rio Parnaíba "que separava minha rua das outras do Maranhão", que era a terra do Viriato e onde o Cazuza do seu livro passou a infância.

Depois vinha uma música do Milton Nascimento artista que eu conheci e aprendi a gostar por causa de meus amigos de Belém do Pará, Mena e Zé Pinheiro. É aquela que diz: "Que notícias me dão dos amigos/ Que notícias me dão de você/ Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã, resistindo na boca da noite um gosto de sol"... Música que ficou na minha lembrança sempre associada à partida desses amigos tão especiais de volta para Manaus, para onde o pai deles, diretor da Shell tinha sido transferido. Amizades de adolescência com aquela intensidade que esse tipo de amizade tem.

Depois vinha o pessoal do Ceará e do seu repertório duas foram, para mim, inesquecíveis. Uma mais óbvia: "Doroty Lamour", a mais marcante e cantada das canções daquele tempo. Acho engraçado porque a gente cantava e falava mesmo "Doróte", pois no tempo em que foi composta não havia esse cuidado tão exagerado que existe hoje com a pronúncia exata das palavras da língua inglesa. Quando falei da música a um amigo carioca muito cioso nessa matéria, ele exclamou: mas o nome é "Dóroti". Foi só aí que caiu a ficha. E como ficamos nós que amamos cantar mesmo é "Doróte" Lamour desde a nossa adolescência? Por mim continuamos e fazemos como os portugueses que aportuguesam os nomes de todos até do João Lenon.

A outra canção cearense era "Além do cansaço". Eu adoro essa canção, especialmente a letra amargurada que o Brandão fez para a ela: "Quando não houver mais música no ar/ nem houver sorrisos em volta./ Quando nada na tarde morta além do cansaço da vida falar./ Quando o cigarro irritar a garganta,/ A bebida os lábios queimar,/ E a presença de alguém que ainda canta/ Não consiga no peito cantar,/ Quando a rua, a casa e a porta/ Não mais falem de ir ou chegar,/ Quando não mais houver poesia/ Na simples canção de uma mesa de bar./ É preciso entender que perdida/ pela vida uma estrada caminha/ e que uma cidade sozinha/ não comporta a procura da vida./ É preciso entender que a vida/ quer um jeito de resistir/ é preciso entender que agora/ a aurora não pode esperar por vir." A música é amargurada mas, ao contrário do que se podia esperar, trás uma mensagem de esperança no final. Quer dizer, fora da nossa cidade pode haver uma alternativa. Mensagem que talvez tenha me ajudado na difícil decisão de partir de Fortaleza para o Rio de Janeiro.

Creio que incluí ainda "Paisagem Inútil", do Caetano e "Retrato em branco e preto" do Chico e do Tom, que acho a música mais bonita sobre relacionamentos difíceis. Na verdade, quando viu minha lista, o Saroldi, perguntou: mas não tem nada dos anos 1980 para cá? Foi aí que me dei conta que não. Eu não vibrei muito com o rock ingênuo da Blitz, do Kid Abelha, nem mesmo com a obra de Rita Lee pós-Mutantes. Para mim era coisa para animar festinha, nada marcante nem empolgante. Hoje então, não consigo ouvir mais nada de novo. Ou melhor, consigo ouvir e até aprendi a gostar de alguns velhos sucessos do rock-and-roll, aqueles que todo o mundo, menos eu, ouvia quando tinha vinte anos. Mas nesta matéria não tenho autonomia de voo e sigo a orientação do meu alterego pop, Mario Bag, conhecedor profundo da história do rock.

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