J. Carlos e a caricatura na Primeira República (5/11/11)

Uma mudança se verificou na atitude geral das elites pensantes cariocas no alvorecer da Primeira República. A República mudou o feitio da Capital Federal, sumiu da cena pública o velho monarca e sua corte, o pouco estimado Conde D´Eu, a nobreza mais ligada a D. Pedro II. Enfim, sumiram os personagens principais da cena política, com seus hábitos, os rituais da monarquia e o prestígio que esta gozava junto às cortes da Europa.

Vivia-se uma síndrome parecida com a que sucedeu à Independência, só que em momento diferente de sentimento nacional. Na Independência estavam os ânimos nacionalistas exaltados, queriam os brasileiros a independência em todos os sentidos, muitos jornais proclamavam a superioridade do caboclo, do mulato sobre os portugueses e europeus em geral. A literatura romântica exaltava o índio, redimia o escravo, proclamava a grandeza do continente americano.

A República veio no tempo do primado da ciência e do racionalismo com suas teorias definitivas sobre a inferioridade dos trópicos e das raças mestiças. Mesmo os homens mais cultos, mais sábios, curvavam-se humilhados ao diagnóstico definitivo: estávamos condenados ao atraso e a República só vinha agravar este estado de coisas. Para a Europa, contava muito termos aqui governando um remanescente das mais antigas casas da nobreza de lá. Era Habsguro e Bragança e o longo reinado de Pedro II, com sua imagem de amigo das letras, das ciências e das artes que nos distinguiam das tantas republiquetas latino americanas em que os ditadores se sucediam em frequentes golpes militares.

O primeiro grande esforço republicano foi, cessada a fase das escaramuças militares no período Deodoro/Floriano, o de recuperar a credibilidade do país e com ela o crédito junto à economia internacional. No esforço de identificação do Brasil com a velha Europa aliaram-se políticos, empresários e intelectuais. Neste cenário, a caricatura brasileira, tal como a literatura e a poesia viveu um período de calmaria. Ao invés do estilo agressivo com que se fustigaram o ministros e ao próprio Imperador trocavam os caricaturistas amabilidades com os presidentes. O humor roçava o ingênuo nas imagens de Prudente de Moraes, Campos Sales e Rodrigues Alves. Este último, aliás receberia de Kalixto e Raul Pederneiras, em edição de O Malho de 1904, na data de seu aniversário, uma homenagem francamente carinhosa.

A caricatura não cessou, pelo contrário, ela incrementou-se nas mais variadas publicações, viu nascer uma miríade de novos caricaturistas, impulsionados pela novidade do traço e da técnica de Julião Machado. Mas tornou-se arte amável, conciliadora, conivente com o projeto nacional de legitimação da nova República. Foi apenas no governo Hermes da Fonseca (1910/1914) que ela adotou uma atitude mais agressiva. O período, aliás, foi o mais fértil em fornecer personagens e temáticas para a caricatura, dentre os quais merecem destaque Rui Barbosa e seu rival o gaúcho Pinheiro Machado no Senado. Os dois, junto com Hermes e o Barão do Rio Branco foram os que mais forneceram assunto para a caricatura na Primeira República. Mesmo assim, quando se compara essas tantas caricaturas do período verifica-se que não atingem o grau de agressividade das que se fizeram nos últimos anos da monarquia e das que se farão do final da década de 20 em diante, quando aqui chega o uruguaio Andrés Guevara, cujo traço agudo atingirá de cheio o governo autoritário de Artur Bernardes (1922/1826).

O tom da caricatura brasileira, durante quase toda a primeira metade do século XX será dado, sobretudo, pelo que se tornou o maior caricaturista brasileiro de todos os tempos: José Carlos de Brito e Cunha, ou J. Carlos. A caricatura de J. Carlos será sempre marcada pelo seu estilo elegante, de humor menos agressivo, que jamais conhece o ataque pessoal, a ofensa, ou mesmo a crítica de caráter político mais acerbo. Com uma enorme capacidade de trabalho e uma disciplina que fugia aos padrões do tempo, sem falar é claro no seu talento superior, J. Carlos ocupará o primeiro lugar na cena deixando a longa distância mesmo os mais talentosos artistas, tais como Kalixto e Raul Pederneiras. Sua enorme versatilidade permitirá que se ocupe tanto da caricatura política como da de costumes, como do desenho de propaganda.

A caricatura tem um papel notável na imprensa deste período. No Rio eram inúmeras as revistas que se sustentavam basicamente na caricatura, no texto humorístico e na coluna mundana. J.Carlos estreou, em 23 de agosto de 1902, na revista O Tagarela. Logo depois surgiram O Malho (1902), Fon-fon! (1907) e Careta (1908), revistas que tiveram vida longuíssima para os padrões da imprensa nativa: todas duraram mais de 50 anos. Em todas elas J. Carlos teve atuação destacada. Desenhou também para a revista infantil O Tico-tico para a O Cruzeiro. De 1935 até 1950, ano de sua morte, foi o editor artístico da Careta.

Em 1906, seu estilo já é inconfundível. Vale-se de recursos inéditos, amplia as possibilidades da caricatura impressa. Já é o grande caricaturista que elabora a figura tirando o máximo de proveito dos detalhes marcantes, sem prejuízo da arte e do bom acabamento. Os originais que deixou, cerca de 1000, são limpos, coloridos, bem acabados, como se o seu destino não fosse só o da impressão.

J. Carlos praticamente morreu na redação da Careta. Ali, no dia 29 de setembro de 1950, o artista tombou fulminado sobre a sua mesa de trabalho, vítima de um edema cerebral. Morreu, três dias depois, em 2 de outubro, aos 66 anos de idade.

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