Lembrai-vos de 64 (29/10/11)

A cena do linchamento de Kadafi não me sai da cabeça.

Foi algo tão chocante, tão brutal que, acredito, mesmo quem detestasse o Kadafi teria sentido pena da forma como ele foi massacrado. As imagens de seu martírio, com o rosto todo ensanguentado, as roupas rasgadas, sendo arrastado por uma multidão de jovens armados que o insultavam, humilhavam, lhe batiam, puxavam-lhe os cabelos e que finalmente o cercaram e o liquidaram bem diante dos nossos olhos são as cenas mais chocantes que se viram na televisão nos últimos anos. Penso naquelas pessoas que o conheceram de perto, que estiveram com ele em cerimônias oficiais, trocaram sorrisos e cumprimentos e que mesmo conviveram com eles por vários dias. Será que essas pessoas não sentiram um pouco pelo sofrimento dele naquele momento tão dramático? Será que nenhuma delas vai falar nada? Que sente muito, que não deveria ser assim, que lamenta pelo sofrimento dele e de sua família? Será que nem o Papa, em nome dos sentimentos normais que todo cristão deve manifestar diante do sofrimento de qualquer ser humano, vai dar uma declaração condenando esse massacre?

Certamente haverá quem diga que ele fez por merecer, que era um ditador cruel e sanguinário, que terá provocado a morte de outros tantos inimigos em condições ainda piores. Pois é. E daí? Por conta de disto temos que ser iguais? Temos que nos brutalizar também e assistir calados e até com um sorriso de aprovação a cena de um ser humano sendo linchado? É esse o tipo de justiça que queremos para o nosso mundo? Será que esses jovens armados e embrutecidos que espancaram Kadafi serão bons democratas? Será que uma ordem democrática pode ser constituída assim a partir do linchamento do chefe de Estado deposto? E consta que o filho dele também foi eliminado de forma covarde. E que seus aliados foram executados em um hotel e que o comboio em que ele fugia com outras tantas pessoas foi antes bombardeado.

Sua execução teria sido assim planejada e patrocinada pela OTAN, pela liga que reúne os países mais ricos e supostamente mais avançados do planeta. E se assim for, estamos todos a mercê desses senhores e de suas armas. Pois se seu aliado de ontem pode se converter em inimigo de hoje e se foi a própria OTAN quem conduziu a guerra, bombardeando o país pelo alto e armando os supostos rebeldes, logo, logo pode chegar a nossa vez. Nas cenas de combate de rua, víamos jovens descalços, alguns adolescentes, com armas poderosas que certamente não tinham antes. Essa gente foi armada e será difícil de desarmar.

Ao lado da Líbia está a Síria, possível próximo alvo da OTAN. Depois, deve chegar a vez do Irã e assim, pouco a pouco, todo o Oriente Médio terá sua ordem política e social alterada por força das nações ricas do planeta. Um novo colonialismo que estimula o fanatismo religioso contra a ordem moderna ocidental. O mais estranho é que essa receita já deu em Osama Bin Laden e no Paquistão, antigo aliado dos EUA, com sua bomba atômica.

É preciso desconfiar das notícias que nos chegam desses lugares remotos dando conta da violência dos regimes. A imprensa foi um forte aliado de Bush no processo que levou à invasão e destruição do Iraque. Agora não parece ser diferente. É só comparar o espaço que notícias sobre qualquer violência em países inimigos dos EUA ganham nas páginas dos jornais e o quase silêncio, a nota de pé de página quando se sabe o que passam as mulheres na Arábia Saudita. As mulheres, aliás, que serão as primeiras vítimas do fundamentalismo religioso que parece ser a orientação a ser dada na Líbia pelo governo que está se instaurando lá.

"Quando vires as barbas do teu vizinho arder, põe as tuas de molho", diz o dito popular. Em recente artigo no seu blog, o sempre lúcido Mauro Santayana lembra que "em nome da contenção da expansão do Brasil sobre o Atlântico Sul, por causa do pré-sal, ou da ´defesa´ da natureza na Amazônia, pode se montar uma coalizão, entre países europeus e os Estados Unidos, para agir ao arrepio da ONU, de um dia para o outro, com a mesma facilidade com que se montou a agressão contra o Iraque".

É preciso estar atento e forte.

Em outros tempos também, depois do Oriente - Vietnã e Coreia - chegou a nossa vez. Os inimigos de fora se aliaram aos inimigos de dentro e perpetraram o golpe que levou o Brasil a um atraso de mais de 30 anos em seu processo de desenvolvimento. Hoje ouvimos as mesmas vozes e vemos até os mesmos símbolos - as vassourinhas - que marcaram a onda conservadora que antecedeu ao golpe militar de 1964. Em nome da "democracia", contra o perigo do comunismo, alegando que estávamos mergulhados em um "mar de lama" essas forças, estimuladas por uma imprensa poderosa, pediram e apoiaram o golpe militar de 1964. O golpe, baseado nesses temas pueris, foi na verdade voltado justamente contra o projeto desenvolvimentista que vinham sendo desenhado pela forças progressistas nos anos 1950. O golpe de 1964 foi contra a reforma agrária, o aumento do salário mínimo, a redistribuição da riqueza, o poder desmedido das multinacionais e dos grandes bancos.

Não há, a princípio, no cenário próximo sinais de união das forças conservadoras no sentido de deter os avanços que os últimos anos garantiram para o povo brasileiro. No entanto, essas forças continuam aí, abrigadas sob novas bandeiras, valendo-se da imprensa para promover campanhas de desmoralização, iludindo os ingênuos da classe média com promessas de uma ordem política irreal. Ordem esta, que, no fundo, ao meter a classe política toda no mesmo balaio da desonestidade, descrê da democracia e aponta mesmo é para saídas elitistas e autoritárias, bem diversas das escolhas do voto popular.

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