Para Gabriel Lustosa (10/3/12)

Em 12 de Fevereiro de 2008, Lustosa da Costa, postou mensagem, na página que a família mantém no Yahoo, contando que o ministro Ubiratan Aguiar tinha lhe telefonado especialmente para lhe contar sobre o papo que mantivera com nosso sobrinho, Gabriel, no avião que os levava de Fortaleza para Brasília. Quando o ministro falou que era amigo do Lustosa, Gabriel, então com 12 anos, lhe perguntou: “O senhor já leu a biografia dele?”. Ubiratan confirmou, dizendo-lhe que até já tinha escrito sobre o tio dele. Conta Lustosa que Gabriel ainda quis saber se Ubiratan Aguiar conhecia também seu tio, o ex-ministro e deputado, Paulo Lustosa; se sabia quantos anos tinha a sua avó; se já visitara Sobral, etc e etc. O ex-presidente do TCU confessou ao Lustosa que ficara encantado com o garoto, com o genuíno orgulho que demonstrava pela família paterna e concluiu: “Papo de adulto”.

O fato é que o Gabriel, caçula dos netos homens de D. Dolores, conserva, aos dezesseis anos as mesmas inteligência, delicadeza e vivacidade que tanto encantaram o ministro e, como meu filho, Chico Bento, também escolheu Fortaleza para ser feliz. É um rapaz lindo, simpático e gentil que qualquer pessoa adoraria ter como filho.

Desde pequeno revelou-se um negociante e tanto. Por isso é que, talvez, seu tio, José Benevides Martins, tem tanta simpatia por ele. É que o Benevides é o único homem de negócios numa família de beletristas. Bem sucedido empresário da área de medicamentos que acaba de ser homenageado pelo Conselho de Farmácia do Ceará, Benevides trouxe para a família um talento que, segundo seu Costa, ninguém lá em casa tinha: vender, comprar e negociar. Por isso tem tanta identidade com esse menino que, quando criança, gostava de projetar empreendimentos, fábricas, as grandes empresas que um dia criaria.

A adolescência é, a meu ver, a quadra mais difícil da vida. É quando temos os sonhos mais grandiosos, quando definimos nosso caráter, quando descobrimos a sexualidade, o amor, quando as amizades são mais intensas. É nessa fase da vida que a presença paterna é mais importante. Pelo exemplo, pela amizade, pelo carinho, o pai mostra ao filho que caminho seguir. Que valores morais e espirituais devem orientar a vida de um homem. Mesmo que essa relação seja marcada pelo conflito, pela rebeldia tão própria da adolescência, a relação com o pai é vital para que sintamos o chão firme debaixo dos nossos pés. A confiança de que, mesmo que erremos, teremos a mão forte e amiga do nosso pai para nos amparar.

Creio que o pai-sonho-de-consumo de todo o mundo deve ser assim que nem meu irmão médico, o Dr. Carlos Efrem, pai de nove filhos e que não faz e nem nunca fez diferença nenhuma entre eles. Amando, ouvindo, aconselhando e protegendo a todos igualmente, ele chega a ser um chato quando se trata dos filhos. Com um pai assim, mesmo a adolescência mais difícil se passa em uma zona de conforto.

Meu pai foi um pai notável, mas também justo. Ele não tinha esse espírito tão marcado pelo absoluto sentimento de paternidade que tem o Carlos. Neste, a paternidade chega a impedir de ver um defeito sequer nos filhos. Papai, não. Papai via nossos defeitos e fazia, sim, suas escolhas. Eram escolhas justas. Entre quem o amava e respeitava e quem havia com arrogância e desprezo, ele ficava mesmo com os primeiros. Eu também, no lugar dele, faria o mesmo. Não tenho essa enorme capacidade de perdoar que marcam naturezas como a de mamãe, Clélia e Carlos.

Hoje quando penso na adolescente arrogante e presunçosa que fui, lembro como esse período foi marcado pelo conflito com meu pai, do qual me afastei por tantos anos. E lamento tudo o que perdi por conta dessa atitude. Pois hoje meu pai é a figura masculina que mais admiro na integridade de seu caráter; nas tantas lições de vida orientadas por seu bom senso extraordinário que nos deu; na sua personalidade viva e inteligente de rapaz de origem modesta que teve que driblar muitos obstáculos para viver e manter sua enorme família com dignidade; também por seu irresistível charme pessoal e pelas histórias exemplares que sabia contar.

Gabriel vai chegando aos 17 anos, sem nenhuma arrogância ou presunção; cheio apenas de sonhos e esperanças, cercado pelo carinho da família da qual ele tanto se orgulha de fazer parte. Diz um ditado que a gente tem que ter cuidado com o que sonha porque esse sonho pode se tornar realidade. É fato. Às vezes, a gente deseja tanto uma coisa e quando consegue: que tédio. Ou, a coisa não era nada daquilo com que a gente sonhou. Mas esse não é o tipo de pensamento para se ter na passagem da adolescência para a juventude. Nessa fase é preciso sonhar e ter forças para lutar pelo que se sonha. Mesmo que depois a gente constante que não era bem aquilo que a gente queria. Ou que aquilo que a gente queria não ‘tava com essa bola toda. O pior é desistir antes, é dar tudo por perdido, é não ir à luta do que se quer.

No começo da vida, os sonhos nos conduzem, nos empurram pra frente, nos dão um rumo a seguir. Por isso concluo essa crônica em que saúdo o sonho de Gabriel de, tal como o meu Chico, viver nessa cidade tão bonita, luminosa e acolhedora com uma linda canção de Chico Buarque e Ruy Guerra, que conheci na voz da Maria Betânia:
“Sonhar mais um sonho impossível/ Lutar quando é fácil ceder/ Vencer o inimigo invencível/ Negar quando a regra é vender/ Sofrer a tortura implacável/ Romper a incabível prisão/ Voar num limite provável/ Tocar o inacessível chão/ É minha lei, é minha questão/ Virar este mundo, cravar este chão/ Não me importa saber/ Se é terrível demais/ Quantas guerras terei que vencer/ Por um pouco de paz/ E amanhã se este chão que eu beijei/ For meu leito e perdão/ Vou saber que valeu/ Delirar e morrer de paixão/ E assim, seja lá como for/ Vai ter fim a infinita aflição/ E o mundo vai ver uma flor/ Brotar do impossível chão”.

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