Profissão: ator (18/5/13)

Quarta-feira fui ao Teatro Dulcina com meu amigo Almir Telles ver Emiliano Queiroz em seu espetáculo “Na sobremesa da vida”. Acho que, nos últimos anos, só fui ao teatro quando convidada pelo Almir. É que Mario Bag é adepto do slogan daquela campanha de apoio às artes cênicas aqui no Rio que dizia: “Vá ao Teatro”, no caso dele sempre com o complemento criado pelo pessoal do Casseta & Planeta: “mas não me chame”. De modo que, acabo só indo ao teatro quando algum amigo ou amiga me chama e, quem me chama de tempos em tempos é o cearense Almir Terceiro Telles.

Conterrâneo estabelecido no Rio há mais de cinqüenta anos, Almir se tornou meu amigo por aqui mesmo. Tínhamos um amigo comum, o Merlin. Figura adorável que conheci no Museu da República nos anos 80, Merlin liderava a equipe responsável pela restauração de todos os metais, grades, portões, trincos e fechaduras centenários da Casa que um dia foi do Barão de São Clemente e, depois, abrigou a Presidência da República até a mudança da capital para Brasília. Eu trabalhava lá desde 1983 quando fizeram a grande restauração da bela casa, inclusive jateando as paredes externas e revelando a riqueza do mármore cor de rosa que a reveste. Foi o Merlin quem me apresentou ao Almir, amigo com quem dividiu por um tempo casa em Copacabana.

Homem do teatro, loiro, alto, bonito e simpático, Almir foi um dos primeiros galãs da TV Ceará, Canal 2. Cedo veio para o Rio onde fez teatro, cinema e televisão mas se consagrou mesmo foi como o grande mestre da arte da interpretação na CAL e em alguns colégios da Zona Sul. Muita gente boa que hoje brilha na telinha foi seu aluno. A gente se deu bem de cara, ainda mais porque soube logo ou algum tempo depois, que ele fora amigo de adolescência do Claudio Pereira. O querido Pereira cujas historias do tempo do Liceu contadas pelo Almir complementaram as que contou Fausto Nilo, também aluno do mesmo colégio. Alguém que foi amigo do Pereira em tempo tão pretérito sempre teria lugar na minha vida pois a ligação que eu e alguns de meus familiares tínhamos com ele é difícil de classificar: Pereira era um pouco menos que irmão. Mas era muito mais que nosso amigo.

Graças ao Almir é que fui apresentada a Emiliano Queiroz, anos atrás, em um espetáculo dirigido por Bia Lessa. O teatro estava em reforma e essa diretora genial escolheu levar “Medeia”, com um elenco de celebridades em meio aos escombros e a poeira. O efeito foi bárbaro. Emiliano com seu manto preto parecia enorme. Depois, tive o gosto de contar com sua ilustre presença no lançamento de um de meus livros, sempre trazido pelo Almir. 

Claro que como toda cearense da minha geração eu tinha visto Emiliano Queiroz ainda na TV Ceará, fazendo propaganda de eletrodoméstico, creio eu. Usava um pega-rapaz e se despedia dizendo: para quem fica, tchau. Naquele tempo era o único canal de TV que tínhamos e em seu cast brilhavam: Ary Sherlock, Jório Nerthal, Carla Peixoto, João Ramos, para falar dos que ainda me lembro. A gente não tinha muita chance de ver esse pessoal na TV porque lá em casa às oito, hora que tocava o “boa noite garotada”, com aquela musica tão triste do boi da cara preta, a gente era mandada para a cama,  à revelia, claro. Ainda assim, me lembro do Jorio Nerthal com mangas bufantes declamando o navio negreiro e da Carla Peixoto com uma espécie de cicatriz que lembrava uma ameixa seca no canto da boca fazendo a vilã de alguma novela. Que pena que nada disso ficou gravado.

Ver Emiliano relembrando seus 76 anos de vida e mais de 50 de palco, narrando, cantando, e dançado por quase duas horas foi uma viagem encantadora. Porque “nosostros”, simples mortais, sentimos um fascínio tremendo pelos artistas, por suas vidas tão diferentes das nossas. São vidas que nos atraem e atemorizam pelo que têm de imprevisível, de arriscado e de transgressor. Neles parece que sobrou algo da vida nômade de seus ancestrais mambembes que percorriam as estradas em suas carroças se apresentando pelas cidades do interior séculos atrás. Do tempo em que sua profissão era assunto de polícia e todos tinha carteirinha da secretaria de costumes. Talvez seja por isso que haja algo de perigoso no ator. Talvez porque desconfiemos deles, talvez porque achemos que podem sempre estar encenando. Mesmo grandes damas como Tônia Carreiro e Fernanda Montenegro, que tive oportunidade de apertar a mão em breves encontros, senhoras muito educadas e discretamente vestidas, nos deixam desconfiados. Há algo de enganador em seus gestos, quase como uma imperceptível piscada de olho, deixando a gente na dúvida se foi isto mesmo ou se apenas imaginamos.

O fato da vida de artista que vi ser encenada no palco do Teatro Dulcina ser a vida de um cearense de Aracati que passou parte da infância em Russas, a adolescência em Fortaleza e que daí partiu para conquistar o mundo tem um gosto todo especial. O soldado raso que sonhava em ser ator de cinema, o James Dean caboclo que encarou a dureza de tentar a vida em São Paulo, voltou ao Ceará para depois renascer e seguir trajetória de sucesso, enche de orgulho os conterrâneos. Viveu tanta coisa, correu tantos riscos, se expôs ao azares dessa vida incerta feita de alternância entre o esplendor e a miséria e saboreia a sobremesa da vida na melhor forma possível.  Contando ainda, como brincou em “caco”enfiado no texto com um cafezinho, quem sabe mesmo um licor, antes de se despedir.

Foi bom estar mais uma vez com Emiliano e Almir, amigos de um mundo com que essa barnabé sempre flertou à distância. Encontrá-los é bom para lembrar que nem sempre fui tão careta assim. É reencontrar a jovem que um dia fui, neles que, a qualquer momento, podem ser convidados a subir ao palco como menino, menina, homem, mulher, nenhuma ou todas essas opções ao mesmo tempo.

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