Outros "casebres" e o rival do Romário (4/5/13)

Outro dia, disse a uma amiga que tem mania de se desvalorizar que ela que agora vive momento excepcional na carreira e que tratasse de superar essa mania. Minha amiga é daquele tipo que, quando acena de longe para alguém e o outro, por não ter visto, ou por qualquer outro motivo não corresponde diz: “Eu acenei mas ele não me viu. É porque eu sou um NADA mesmo...” Minha amiga é bonita, charmosa, elegante, tem livros publicados e muitos amigos que lhe querem bem. A carreira avança de sucesso em sucesso e ela recebe convites para participar de congressos e dar cursos no exterior. No entanto, continua na mesma ladainha. Na mesma atitude de deslumbramento com uns e outros que considera almas superiores.

É a “síndrome do casebre” de que já tratei aqui em outra coluna. Apelido que eu e Mario Bag demos a um colega de profissão, que a toda comparação que se fazia entre ele e outros desenhistas dava um jeito de dizer que a situação dele era pior… "Não moro numa casa, moro num casebre… Quando viajo, durmo em palhoças...", ele dizia. Quando vemos um caso semelhante, de alguém com a auto-estima em baixa, dizemos: "Fulano é o maior casabre!".

 Essa síndrome não depende de raça, cor, posição social, religião ou talento. O artista plástico Ângelo Venosa me contou que seu sogro, que imigrou para o Brasil fugindo da onda anti-semita que varria a Europa na primeira metade do século XX, padecia desse mal. Quando se estabeleceu em Campos dos Goitacazes com um armarinho que vendia de tudo, ao invés de imitar a concorrência que não economizava em mania de grandeza: Império dos Tecidos, Reino das Sedas, Paraíso das Linhas, Rainha da Moda, Agulha de Ouro, etc. escolheu dar à sua loja o nome de “A Razoável”… Nada de propaganda enganosa, quem quisesse o melhor fosse procurar na vizinhança, ali era tudo mais ou menos ( era razoável...).

Tem muita gente assim, que não sabe se dar valor e se coloca em posição de inferioridade no primeiro momento... Na hora de negociar salário ou preço de trabalho fica a mercê do explorador. Já na própria atitude, o cara assume postura subalterna e aí, como diz o vulgo: "neguim monta em cima…". Conheço um designer, gente boníssima e talentosa que, para conversar o emprego em tempo de vacas magras e grande concorrência na área assume até tarefas de boy. Sempre que solicitado, acorre prestimoso, com um sorriso nos lábios, dizendo com bom humor: “Tá na mão, chefia!”... Como nasceu no Ceará, terra que exporta muitos garçons para o Rio, alguns colegas o apelidaram de "designer garçom". Com isto tem conservado o emprego mas com ele, também, o salário modesto.

    Essas coisas marcham juntas, a excessiva humildade de uns estimula a arrogância de outros. E, às vezes o cara nem tem tanto talento assim, mas faz uma pose, bota uma banca, dar-se tais ares, que o povo acredita e paga mais por isto do que pelo que o trabalho do outro realmente vale. No meio acadêmico estamos cansados de encontrá-los. Às vezes, o sujeito nunca fez nada, nunca completou um trabalho, nunca publicou, mas acredita tanto em sua inteligência e em sua superioridade que trata os outros com a maior empáfia. De fato, é um cara inteligente, de fato, é culto. Mas e daí? O que fez com este capital inicial?

Com o passar dos anos a gente vai se surpreendendo com alguns fenômenos tais como encontrar, muitos anos depois, aquele colega da faculdade ou de pós-graduação do qual zombávamos, por conta de sua ingenuidade ou falta de cultura, com uma carreira reconhecida e consolidada. Ele a foi construindo passo a passo, enquanto construía o seu próprio self. Ele amadureceu no processo ao realizar trabalhos difíceis, cumprindo prazos para publicar artigos, terminando trabalhos que exigiam dedicação, participando ativamente da vida acadêmica.

Aqueles cuja inteligência foi exaltada desde cedo tem muita dificuldade de se adaptar ao cotidiano do mundo do trabalho. A expectativa elevado que têm de si mesmos faz com que achem tudo o que fazem insatisfatório. Pois não podem errar. Não podem arriscar desmentir a lenda que foi criada em torno deles. Estão aprisionados nesse ideal que nunca se realiza. Sonham de mãos vazias… Vão ficando para trás enquanto os outros, os menos brilhantes seguem em frente, crescendo a partir de seus esforços. Alguns daqueles sujeitos que considerávamos brilhantes naquele tempo, revelam-se depois tão mesquinhos, tão ressentidos, tão sem grandeza e sem brilho pessoal… Fazem até a gente pensar: "Será que eles eram mesmo tão brilhantes assim?"... Não eram ou não desenvolveram as qualidades com que a vida lhes dotou? Inconformados, irônicos  e amargurados, sentem-se injustiçados pelo fato de fulano e sicrano, umas bestas do tempo da faculdade, estarem onde estão.

Acho que esse caminho fica mais fácil quando a gente adquire uma consciência plena dos próprios limites e possibilidades. Saber que nunca vai fazer determinados trabalhos porque não tem talento, nem vocação para eles, à vezes é bom. Em compensação, ter outros talentos e outras vocações que, se bem trabalhados, com a consciência de que o caminho se faz ao andar, que a natureza e o espírito da gente vão se forjando ao longo dele, entre alegrias e decepções, garantirão uma carreira bem sucedida é melhor ainda. 

Para concluir, um exemplo que é justamente o contrário do espírito do "casebre":
Lembro do sujeito que, na porta do bar do Abílio, na Tijuca, varria as guimbas de cigarros na calçada, fazendo muitas criticas ao Romário, então no auge de sua carreira. Detrás do balcão, o Abílio, com seu sotaque lusitano característico não se conteve: “Mas tu tens uma inveja do baixinho, hein?” Ao que o outro, parando de varrer e apoiando-se no cabo da vassoura, camisa rasgada, calça velha, remendada e enodoada; pés sujos calçados em umas sandálias havaianas gastíssimas, perguntou, indignado: “Eu? Inveja do Romário? Me diga uma coisa, Abílio, porque é que eu ia ter inveja do Romário?”

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