Outro dia, li na coluna de Ancelmo Góis nota sobre o falecimento da mulher de Noca da Portela, que fora sua companheira por mais de 58 anos. O sambista teria comentado: “No domingo, ela tomou uma cervejinha sem álcool, aí eu pensei: “a nega velha melhorou”. Quando li, lembrei que, há alguns anos, Mario Bag me contou ter visto no balcão do bar do saudoso Abílio, na Tijuca, um homem do povo pedir: “Abílio me vê um pedaço bom desse pernil que eu quero levar prá nega velha saborear”.
É bonita essa expressão “nega velha”ou “nega réia” como a gente diz no Ceará, quando usada assim no contexto de um velho casal de negros (ou não), unidos por uma história em que talvez, no começo, ela fosse neguinha, depois “minha nega” e, finalmente, “nega velha”. Em todas as situações sendo esse o tratamento da intimidade afetuosa, e talvez mesmo, na última, respeitosa. Pois a nega velha, companheira da vida inteira, não foi destronada no coração por nenhuma outra negra ou branca e continua ali, poderosa, reinando sobre a família, cercada de mimos, seja a cervejinha sem álcool ou o pedaço de presunto do bar do Abílio.
Pensei nisto a propósito da morte da minha querida amiga Nice e de sua longa história com o Estrigas. Estrigas, diga-se que só ela, chamava de Nilo, pois foi como Nilo Firmeza que o conhecera no começo da vida de ambos, quando nem imaginavam que passariam o restos dela juntos. Eu os conheci através de meu cunhado, marido da Dadal, o Edmilson Brito, de quem o Estrigas é primo distante. Não me lembro que idade eu tinha mas talvez me tenham levado por conta de minha vocação nunca levada adiante para as artes plásticas. Depois estabeleceram-se outros laços de família, pois minhas tias Abigail e Dagmar moravam no Mondubim e, creio que através das atividades igreja do bairro acabaram ficando amigas de Nice. Aliás, a famosa carne de caju foi inventada pela Nice para um almoço oferecido a um padre que visitava a paróquia. Envergonhada da falta de recursos para oferecer uma coisa boa, tia Dagmar recorreu à Nice e ela inventou a receita, espremendo os suco dos cajus e usando a fibra como se fosse pedaços de lagosta. Bem temperado o negócio enganou bem.
Depois dessa aproximação familiar me tornei eu mesma uma amiga do casal a que visitava de tempos em tempos no Mondubim. Tenho até um lindo retrato pintado pelo Estrigas naquele tempo. Eu ainda tinha pretensões artísticas mas mesmo depois de renunciar a elas, ao longo desses tantos anos, sempre que ia a Fortaleza os visitava.
Era um conjunto tão harmônico, a casa, o casal, a vida do casal e a maneira como recebiam os amigos que a gente fica imaginando o que será daqui prá frente. Ver o Estrigas vindo abrir o portão, quando, lá de dentro já a Nice arrumava as cadeiras no jardim em meio às suas flores, das quais tanto se orgulhava. Tão diferentes os dois e tão inseparáveis, nessa relação que os velhos casais constroem ao longo de uma vida. Vida que teve ter tido seus embates mas que através da conciliação, de acordos e de silêncios acaba por resultar em uma relação equilibrada onde o respeito, a amizade e a solidariedade se confundem com o amor.
Com meus pais também havia algo assim. Uma relação entre iguais, com pequenas implicâncias (papai dizia pelas costas de mamãe: “Maria tá moquinha”), mas de convivência sempre respeitosa, cordial, boa. Também havia ali uma aliança em tudo que dizia respeito aos filhos, onde ela ou ele nunca se colocavam um contra o outro. Talvez isto fosse fruto de algum pacto estabelecido em algum passado remoto, mas o fato é que nunca brigaram por disto e sempre se uniram contra o que consideravam comportamentos inadequados dos filhos.
Creio que esse tipo de aliança, esse tipo de amor é o que há de mais bonito no filme de Michael Haneke: “L’amour”. Ali, Jean-Louis Trintgnant e Emmanuelle Riva (preterida no Oscar por uma jovem e banal atriz americana) vivem um casal de idosos, cuja convivência tem a mesmas harmonia dos exemplos acima e que se vê diante de uma situação difícil. Aquela vida tão boa e tranqüila de velhos intelectuais franceses em ótimo apartamento, com idas a concertos e recebendo eventualmente a visita de amigos, é interrompida pelo AVC que acomete a mulher. É no processo de degeneração física dela, da resistência dele a qualquer tentativa de afastá-los, na paciência e nos cuidados com que se dedica à mulher doente que está o amor. A meu ver é isso que o filme tem de mais bonito e que liga essa história às minhas histórias contadas acima.
Viver junto é algo difícil. Duas pessoas são sempre duas pessoas cada uma com seus ímpetos, suas paixões, seus interesses. Em uma relação em que um submete o outro impondo seus próprios ímpetos, paixões e interesses e impedindo que este último possa livremente manifestar suas vontades isto não existe. Pode haver submissão e anulação ou pode haver rancor acumulado pelos anos de opressão, mas não a harmonia, não a solidariedade e a compreensão de um casal equilibrado.
Naturalmente só a maturidade, só a soma das tantas coisas vividas, mesmo das tantas disputas que se travaram ao longo da história comum e das acomodações e acordos que delas resultaram é que emergiu uma relação assim econômica do ponto de vista dos excessos que as paixões da juventude exacerbavam. Enfim, só uma vida compartilhada para compreender que o amor é muito mais do que nosso romantismo infanto-juvenil dos contos de fada nos ensinaram. Não há príncipes aparecendo no final da história para salvar a princesa.
O artista argentino Quino tem uma cartum que expressa bem isto. Um casal de velhinhos, um homem e uma mulher, sentados um diante do outro. Ele pergunta a ela, segurando-lhe a mão com delicada intimidade: “Não se ofenda, Elcira, mas nós éramos amigos, parentes, esposos, o que?” (Link).
Que importa? Estavam ali, um diante do outro, compartilhando o final de uma história tão antiga que não lembram mais como começou. No final, o que importa mesmo é poder sentir ainda o calor de uma mão tão conhecida, tão amiga.
Que importa? Estavam ali, um diante do outro, compartilhando o final de uma história tão antiga que não lembram mais como começou. No final, o que importa mesmo é poder sentir ainda o calor de uma mão tão conhecida, tão amiga.
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