No entanto, começaram as reuniões e, a partir da terceira e da sugestão que uma colega fez de um título para o projeto, mesmo eu que não estava levando muita fé, me vi envolvida. A definição do título e do público-alvo abriu uma janela e possibilitou as conexões. Daí em diante a conversa fluiu. Com um ou outro ruído pelo meio. Mas como todos são pessoas de boa vontade, a coisa vai marchando bem. Na verdade, eu acho que isto também se deve à maturidade dos agentes. Ao ceticismo e à ausência daquele espírito de competição tão louvado pelos neoliberais como estímulo à economia. Nesse grupo ninguém está competindo por nada, nem por cargos, nem por salários. Queremos o que é melhor para a instituição porque sabemos que nós passaremos e ela ficará. E gostaríamos que ela conservasse para as próximas gerações o espírito que cremos caracterizá-la. Não é um jogo de vida ou morte, não é nada associado à sobrevivência, pois estamos perto de nos aposentar, a coisa tem mais a ver com ideal.
Tenho urticária quando me convidam para uma reunião. Trauma de ter participado de algumas reuniões herdeiras do espírito da terapia de grupo, dos “brainstorms” das agencias de publicidade, ou do tipo laboratório do qual o pessoal de teatro gostava tanto antigamente. Já deixei de ganhar bom dinheiro pela minha recusa em participar de reuniões assim. Reuniões em que o nível de subjetividade é tão elevado que até lembram aquela anedota do sujeito que foi contar a historia de um acidente de carro acontecido na véspera e começou dizendo: “Primeiro, a terra esfriou. Depois, vieram os dinossauros”. Fala sério. Tem gente que para qualquer assunto, mesmo o mais banal, promove uma reunião onde fala, como me disse brincando um amigo chileno: do mundo e de seu ao redor. Talvez a reunião seja o momento propício para obrigar uma platéia aprisionada em uma sala a ouvir sua longa e monótona peroração.
Para um debate produzir a luz prometida pelo aforismo que dá título a este artigo é preciso que o objetivo da reunião seja bem claro e que os pontos a serem discutidos sejam previamente estabelecidos. É preciso que haja uma base comum de conhecimentos, valores e interesses. Mas também é preciso que os envolvidos tenham capacidade de negociação, capacidade de reconhecer a superioridade de uma proposta diferente da sua. Por outro lado, se as divergências intrínsecas forem tão profundas, se não houver um mínimo de identidade, de interesse comum, de vontade comum, a coisa não avança.
Eu, por exemplo, tenho opiniões políticas que divergem das de muitos amigos meus. Hoje, que todos nos reencontramos no facebook, o contraste entre as opiniões fica logo evidente. No começo, eu usava a rede apenas para fazer um social, evitava a todo o custo incluir opiniões políticas, aquilo ali era para a gente se divertir, confraternizar, falar dos filhos, postar fotos do tempo da faculdade. Mas aí vieram as eleições presidenciais de 2010 e não deu mais para segurar. O destino político do Brasil veio para o centro da cena e o facebook foi o espaço onde eu, que estava no exterior, trabalhei intensamente pela minha candidata. Especialmente no segundo turno. Foi a janela para o mundo da qual me era possível expressar opiniões e sentimentos.
Evidentemente que nem todos os amigos tinham a mesma opinião que eu. Acho até que a maior parte deles não estava movido por aquele sentido de urgência que me acometeu, ou tinha outros candidatos e outras opiniões sobre os destinos políticos do Brasil. Fazer o que? Ficar bem caladinha e deixar que eles expressarem opiniões que eram diametralmente diversas das minhas sem dizer nada? Falar o que pensava, não deixar nada sem comentário ou resposta e travar debates acalorados com pessoas queridas com as quais eu acabaria me desentendendo? Neste caso eu acho que a discussão não ilumina nada e pode até criar uma zona escura em que você não reconheça mais aquele amigo ou parente querido, para só ver o adversário político. Algumas opiniões são tão enraizadas, tão viscerais que só algum abalo sísmico pode alterá-las. Podem ter origem em coisas que não têm nada a ver com a razão. Fazer o que?
Creio que minha atuação política é e continuará sendo daquele tipo que hoje chamam de “ativismo de sofá”. Não tenho mais o entusiasmo que tinha na juventude pela rua. A vontade de me juntar a manifestações como a das campanhas pela Anistia e pelas Diretas, não creio que venha mais a ser despertada nesta “encadernação” (como dizia minha saudosa amiga Rejane). Talvez eu precise sair à rua contra o financiamento das campanhas políticas pelos interesses econômicos que moldam assembléias loteadas entre representantes dos bancos, das empreiteiras, dos planos de saúde, das empresas de transportes e de instituições religiosas enriquecidas a partir da cobrança de dízimo de seus incautos fieis. Por enquanto vou repartindo com amigos do facebook artigos de jornais e de blogs que expressam de maneira satisfatória minha opinião. É bom saber que essas análises são lidas mesmo pelos que com elas não concordam. Significa que, mesmo estando em desacordo, ele/ela ouviu/leu aqueles argumentos. E eu acho que, dessas leituras, alguma coisa sempre fica. Um pouco de luz.
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