(Para o Chico, morador da antiga Rua do Príncipe)
Quem chega de viagem, vindo pela Avenida Brasil no sentido da zona sul, depois de atravessar o elevado da praça XV, desembarca no Aterro e logo a vê a igrejinha branca. Outeiro da Glória: delicado como uma capelinha de cidade de interior, emoldurado pelas palmeiras imperiais que, de longe, nos acenam, imagem que aquece o coração do viajante como a primeira saudação da cidade amada. Sua beleza singela compete em desvantagem com a paisagem grandiosa de cartão postal do Pão de Açúcar e da Baía de Guanabara. Mas seu apelo tem algo de mais especial: é para os iniciados nos segredos do Rio...
Também é coisa de iniciado o conhecimento de toda aquela região de casario e prédios antigos que circundam a igrejinha. Casario que faz dos bairros da Glória e do Catete seqüências da Lapa e do centro velho do Rio que sobreviveu ao bota-abaixo promovido no começo do século pelo Prefeito Pereira Passos. São os vestígios de um Rio de Janeiro que desapareceu. Um Rio de Janeiro que, de vez em quando, a gente entrevê nas páginas de Machado ou de Lima Barreto. Um Rio de casas assobradadas, de corredores compridas, chão de tábua corrida, com suas janelas de duas folhas e seus florões, arte meio rústica dos mestres de obra portugueses... É uma paisagem urbana que as pessoas olham todos os dias sem se aperceber mas que representa aquele aspecto da história da cidade no que ela tem de mais íntimo, mais familiar. O cotidiano das famílias de classe média que, no Rio de Janeiro bem menos violento dos tempos d’antanho, punham suas cadeiras nas calçadas para ver o bonde passar. E das janelas abertas onde, outrora, se postavam mocinhas namoradeiras. As procissões e os carnavais se sucedendo através dos anos, cruzando aquelas ruas tão nossas.
Muito se perdeu: Catete e Glória, já não são os mesmos do tempo dos presidentes e do tempo ainda mais longínquo do Imperador. Perderam muitas das suas características particulares. Sumiram as pensões familiares das primeiras décadas deste século. Casas de cômodo de um certo nível em que se abrigavam famílias vindas do interior ou grupos de estudantes boêmios. Creio que já não se encontra ali nenhum exemplar daquele comércio tão característico do velho centro do Rio que ainda cheguei a conhecer: comércio de balcões e prateleiras escuras, papel grosso para embrulhar a mercadoria, barbante descendo do teto e um indefectível dono português a escrevinhar a contabilidade da empresa.
Mas ainda se avista, seguindo pela Rua da Glória em direção à Bento Lisboa e antes de se passar defronte do prédio da histórica delegacia, o casario da rua Barão de Guaratiba com suas paredes amarelas e portas vermelhas, casas emparelhadas, de interior sombrio e aluguel barato. Ainda estão lá os prédios da Beneficiência Portuguesa; do Templo Positivista; do Palácio de São Joaquim; o antigo Asilo de São Cornélio, o prédio do High Life, outrora espaço de bailes carnavalescos trepidantes, ainda resiste mas virou repartição do INCRA. Ainda enfeitam a Glória a linda estátua de São Sebastião, padroeiro da cidade; o velho relógio e o pequeno muro que um dia já separou a Glória do mar. No Catete ainda persistem alguns hotéis tradicionais e, claro, os prédios históricos dos museus da República, do Folclore e do Telefone e do Colégio Amaro Cavalcante, no Largo do Machado. O economista Carlos Lessa recuperou e devolveu à cidade casarão na esquina da Pedro Américo a que chamou Ameno Resedá (será que era ali mesmo a sede daquele rancho carnavalesco?). Bem que ele podia completar o serviço e achar um lugar para a desaparecida gafieira Flor do Abacate.
O Catete já foi o coração do Brasil. Viu, por exemplo, naquele fatídico 24 de agosto de 1954, a cidade passar debaixo de suas janelas na direção do Palácio do Catete para dar adeus ao presidente suicidado Getúlio Vargas. Viu sucessivas levas de manifestantes que preferiam, vivendo aqui o Papai grande (que é como o povo do começo do século XX chamava o presidente), recorrer diretamente a ele, deixando de lado o prefeito. Revoltas como a da Vacina que pôs em armas os meninos da Escola Militar ou da Chibata, liderada por João Cândido, o Almirante Negro, que apontado os canhões dos grandes navios na direção do Palácio do Catete assustou os moradores. Tantas histórias... A posse e a saída dos presidentes sob os aplausos ou as vaias da multidão. A mudança de alguns para a vizinhança, como os paulistas Prudente de Moraes e Campos Sales, instalados na Pensão Bethoven, na Glória, antes de seguirem para São Paulo. O assassinato de Pinheiro Machado, em 1915, na portaria do luxuoso Hotel dos Estrangeiros que ficava bem ali na praça José de Alencar, hoje feia e banal rotunda onde só se destaca a estátua de Machado de Assis, “cochilando no banco da frente”, como disse Mendes Fradique.
Manuel Bandeira lamentou na Elegia inútil as mudanças de nome das ruas do Rio: Lágrimas, duas a duas/ choraram dentro de mim,/ Ao ver que o prefeito Alvim,/ mudou o nome a tantas ruas. Muitas delas ficavam do Catete e seus nomes: Eram lindo assim: Rua Bela da Princesa/ ( que distinção, que beleza! Nome que cheira a jardim). De fato, era bem mais bonito que “Correia Dutra”. Bandeira também diz que: Muito nome foi mudado,/ mas o novo não pegou;/ nunca ninguém falou/ senão Largo do Machado. Pois não colou a tentativa de mudar o nome tradicional do Largo do Machado para Praça Duque de Caxias. Aqui o poeta abre um parêntese para incluir referência especial ao Largo: (Este nome pode ser, quando muito, acrescentado, assim, Largo do Machado de Assis gosto de dizer. Na do Catete, contou-me Z., o mestre escreveu Brás Cubas, Darás na casa se subas pela rua de seu nome.) Grande Catete, até esta glória te estava reservada: a de ser o berço de uma das maiores (senão a maior) obra de nossa literatura...
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