Um poeta moderno fez uma versão da “Oração aos moços” de Rui Barbosa, em que ele fez seguir a sentença que se tornou clássica “de tanto ver triunfar as nulidade” por vários pontinhos e completou “criei alguma esperança”. De fato, quando a gente olha um universo vasto de celebridades construídas a partir de obras medíocres ou mesmo de obra nenhuma, graças a uma série de fatores que levam ao sucesso, pensa que deve ser fácil. Que se fulano que não é tão bom quanto eu está lá no alto da escada, o lógico é que eu não só o alcance mas que até o ultrapasse. Mas, não é. O sucesso se faz da soma de muitas variáveis que podem ou não incluir talento mas também uma boa dose de sorte e de senso de oportunidade. Mas o sucesso é também algo fugaz que pode abandonar seu portador a qualquer momento. Basta pensar nas celebridades de capa de revista de verões passados e que hoje quando alguém lembra delas mal conseguem figurar em sessões do tipo “por onde anda”.
A busca do sucesso é em si uma tarefa inglória e muitos filmes bons já resultaram das estratégias que aquele que quer ser famoso adota para chegar lá. Acho que o mais marcante para mim é o filme em que a aparente vilã Bette Davis contracena com a suposta inocente mocinha Anne Baxter. No Brasil passou como título de “A malvada” e é sensacional a surpresa que a gente tem ao longo da fita ao constatar a inversão dos papeis. A cena final da mocinha/vilã recebendo o Oscar por sua atuação como atriz e agradecendo emocionada à outra é uma das melhores da história do cinema. Mas esse artigo não é sobre esse tipo de dedicação e investimento que se vale de golpes baixos para obter o que almeja. Nem para outras atitudes mais imediatas e radicais de quem, para aparecer na mídia, faz qualquer negócio, até escândalo. Tudo para alcançar aquela sensação agradável de chegar a algum lugar e ser logo reconhecido pelo porteiro, pelo garçom, pelas pessoas em volta e de ser saudado, homenageado, bajulado.
Se este desejo é mais evidente entre os que fazem parte do show business, não é muito diferente para os que buscam o sucesso através do reconhecimento de uma obra literária ou científica. Chegar lá, achar a cura de uma doença incurável ou a formula matemática que levará ao Nobel; desenvolver a tese que mudará os rumos de uma área do conhecimento; escrever o livro premiado, etc. Enfim, todas essas fantasias que habitam a mente na juventude de qualquer pessoa em qualquer carreira. São fantasias legitimas e representam estímulo para continuar.
Acontece que, ao contrário do que pode fazer alguém famoso ainda na infância, como no cinema ou na TV, nessas outras áreas, o sucesso costuma ser o coroamento de uma longa vida de trabalho. O fato é que se quem é bom já nasce feito, o investimento nas qualidades inatas ao longo da vida é que garante a realização do valor inicial. Quantas pessoas brilhantes não conhecemos no colégio e na faculdade e que hoje, depois dos cinqüenta, constatamos que nada realizaram daquelas promessas que pareciam anunciar no seu alvorecer? Eram talentos e vocações que não se concretizaram por falta de investimento. Ao mesmo tempo, pessoas menos brilhantes, colegas apagados que não se destacavam em anda além do tanto que se dedicavam aos estudos, fizeram excelentes carreiras. A meu ver a verdade ainda está naquele lugar-comum que diz que uma carreira faz-se mesmo com 10% de inspiração e 90 %. É o trabalho que garante a construção do “self” em todas as suas potenciais dimensões.
Por isso, eu que antes via com um certo ar crítico a mudança que vem ocorrendo modelo da formação acadêmica no Brasil, a partir dos anos 1990, tendo a rever essa posição. Antes da nova política, as teses de mestrado e doutorado se arrastavam por anos pois seu autor estava construindo uma obra definitiva que deveria marcar época. A tese de doutorado então, devia ser o ponto culminante de uma carreira, de modo que seu autor devia mesmo dedicar décadas à sua produção. Esse tempo elástico, no entanto, em que o doutorando ficava entregue a si mesmo, sem data final para concluir o trabalho, mostrou-se contraproducente. Muita gente boa passou anos no exterior e voltou de lá sem a tese e sem nenhuma perspectiva de concluí-la.
O novo sistema incluiu também uma cobrança maior sobre o aluno desde seu ingresso na universidade. Hoje, o estudante de graduação está envolvido em projetos de pesquisa; é obrigado a apresentar trabalho em seminários e congressos; a completar a formação pela presença em cursos e eventos extra-universidade. Com isto, desde cedo, ele obtém a consciência da importância de investir na carreira. A entrada na universidade é hoje, de fato, uma entrada no mundo do trabalho, uma entrada no sistema. No bom sentido. A união da atividade de ensino com a de pesquisa se tornou um fato no Brasil e, não se pode negar que o resultado foi positivo. Apesar das queixas contra o excesso de trabalho que resultou da mudança, o professor universitário de hoje é muito mais dedicado e produtivo do que os de antigamente. Suas carreiras ganharam um sentido maior a partir do esforço investido na pesquisa ao lado dos alunos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário