A triste vida de um homem engraçado (12/1/13)

Ao terminar de ler a biografia do Barão de Itararé publicada pelo jornalista Claudio Figueiredo, "Entre sem bater" (Casa da Palavra), a conclusão a que se chega é que a sua não foi exatamente uma vida feliz. Ao contrário, parece até que ele nasceu marcado pelo signo da fatalidade. Fazendo um balanço geral dos seus infortúnios podemos relacionar: o suicídio da mãe; o AVC que o deixou hemiplégico ainda na juventude; as mortes da segunda, da terceira mulher, da filha de 19 anos e o suicídio da última companheira. Isto sem falar no fato de ter tido um pai ignorante por escolha e autoritário por natureza; de ter protagonizado um drama sentimental escandaloso que se arrastou por sete anos; de ter amargado prisões, perseguições e dificuldades econômicas e de ter terminado a vida como um velho pobre e solitário. Apesar dessa carga dramática que tirariam o humor de qualquer um, Apparício Torelly foi o brasileiro mais estimado de seu tempo justamente pela imensa capacidade que tinha de fazer os outros rirem.

A morte precoce da mãe, fez com que passasse os primeiros anos da vida no Uruguai, voltando ao Rio Grande do Sul para ser educado em um colégio de padres. O ateu Apparício Torelly, seria eternamente reconhecido aos jesuítas pela excelente educação que lhe deram. A partir de 1912, foi o enfant terrible da recém-criada Faculdade de Medicina de Porto Alegre, curso que não concluiu. Apporely marcou sua passagem pela vida universitária por uma irreverência e uma militância que resultou em vários, divertidos e, talvez, um tanto quanto inventados episódios auto-biográficos. No inicio da carreira jornalística, entre 1919 e 1924, trabalhou em diversas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Em uma delas, São Gabriel, acabou casando-se, em 1921, com a filha de uma liderança política local. O casamento lhe deu três filhos, Ary, Arly e Ady mas se desfez em 1924, quando Apporelly partiu para o Rio de Janeiro.

Em 1925, fez sua estreia no jornal O Globo, passando no ano seguinte para o recém-criado jornal de Mario Rodrigues, A Manha, onde estabeleceu duradoura parceria com o caricaturista paraguaio Andrés Guevara, que fixaria a imagem plástica definitiva do Barão de Itararé. Ainda em 1926, fundou seu próprio jornal: A Manha. O sucesso de Apporelly já era imenso, quando seus velhos companheiros de vida estudantil em Porto Alegre, Flores da Cunha, Oswaldo Aranha e Benjamin Vargas o encontraram no Rio de Janeiro, depois da Revolução de 1930.

Foi em dezembro daquele ano que "o nosso querido diretor", como era chamado nos editoriais de A Manha, foi elevado por decreto do novo governo, a Barão de Itararé. Ao longo dos anos seguintes, criatura e criador se confundiriam em um único personagem aos olhos dos leitores. Para Cláudio Figueiredo, a essência do talento humorístico de Apporelly estava em sua imensa habilidade para "brincar com as palavras, desmembrando-as, estabelecendo as relações mais inesperadas entre as partes ou, ao contrário, jogando com duplo sentido e fundindo palavras diferentes".

No entanto, naquela mesma década de 1930, a participação em jornais orientados pelo PCB, revelariam uma faceta menos divertida de Apporelly, onde prevaleceria o tom sectário com que atacava não só aos integralistas mas também a gente como Villa Lobos, Anísio Teixeira e Bertha Lutz. Com a repressão à chamada Intentona Comunista de 1935, o cerco se fechou sobre o PCB e Apporelly foi preso, ficando mais de um ano detido. Todo o contexto de pensamentos e ações que marcaram os confrontos entre esquerda e direita naquele período é estabelecido por Cláudio Figueiredo revelando que a atuação clandestina de Apporelly foi muito mais efetiva do que até então se pensava.

Sua trajetória, daí em diante, estaria estreitamente associada à militância na esquerda e, em 1947 ele foi eleito vereador pelo PCB, tendo o mandato cassado com a proibição do partido no ano seguinte. Em 1949, por insistência e empenho de Guevara a dupla lançou o primeiro Almanhaque como prévia para o reaparecimento de A Manha. Mas o jornal circularia apenas e de forma esporádica até o final dos anos 1950, período que Apporelly passou quase todo em São Paulo. Sua última década de vida no Rio de Janeiro foi marcada pela mesma obsessão com a Ciência que o atormentava desde a juventude. A isto se aliaram estudos esotéricos. Para os velhos amigos, ouvir-lhe as longas exposições sobre o horóscopo biônico ou o quadrado mágico era algo desconcertante. Poucos de seus vizinhos, em Laranjeiras, identificavam naquele velhinho alvo, magro, irritadiço e excêntrico, de barbas brancas, a figura risonha e dionisíaca do Barão de Itararé.

Um aspecto notável nessa biografia é a revelação da amargura de Apporelly com a sina de ter de fazer do talento para ser engraçado um meio de vida.

Na descrição que dele faz em "Memórias do cárcere", Graciliano Ramos já intuía o sofrimento que aquilo lhe custava: "Meu pobre amigo Apporelly, a sofrer, amável e risonho, lançando trocadilhos em atitude profissional. Doía-me a paciência triste dele, aparentemente alegre".

Mas para não terminar essa crônica sobre um dos maiores humoristas da história do Brasil sem honrar o talento que lhe deu fama, escolhi a passagem do livro de Figueiredo, que mais me agradou. Seus 25 anos de carreira jornalística foram comemorados com um banquete na Associação Brasileira de Imprensa - ABI, no dia 9 de junho de 1944. Ao agradecer aquela homenagem que lhe prestavam jornalistas, escritores e artistas, Aporelly começou dizendo que aqueles tantos discursos e demonstrações de carinho o tinham emocionado de tal maneira que ele ficara com a voz embargada. Fez então uma pausa, encarou a plateia onde estavam, entre outros, Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Samuel Weiner, Ruben Braga, Roquete Pinto, Vinicius de Moraes, Álvaro Moreyra e perguntou: tem algum desembargador aí?

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