Maturidade e competência (23/2/13)

Sempre que me encontro com jovens em começo de carreira não resisto a lhes dar conselhos. Ainda mais se esses jovens seguem carreira próxima da minha. O conselho mais insistente é de que façam o mestrado imediatamente apos se formarem. Não deixem passar o tempo para ver qual é a sua. Como dizia o Cazuza, “o tempo não pára” e se você demora muito para entrar na carreira que seguirá por toda a vida pode ter dificuldade para achar um lugar. Feliz ou infelizmente a época do romantismo profissional na área de humanas acabou. O longo período para maturar um tema e fazer dele algo de inédito e inovador deixou de ser o objetivo do doutorado para ser o da própria carreira. Só depois de ter aprendido os métodos e técnicas de pesquisa fazendo a monografia, depois a dissertação e, em seguida a tese, em tempos definidos matematicamente pelas agencias financiadoras, que você vai, de fato, entrar na carreira.    

Há inconvenientes nessa pressão? Sem dúvida. O ritmo de trabalho especialmente em uma atividade subjetiva como as Ciências Humanas, depende de cada um. Há os que escrevem com facilidade e conseguem trabalhar concentrados no mesmo tema durante todo o tempo. Mas há também os que, apesar do interesse pela matéria, do gosto pelos estudos, mergulham às vezes por razões emocionais em longos períodos de dispersão e não conseguem trabalhar de jeito nenhum. Fazer o que? As regras têm que ser iguais para todos. A vantagem do segundo caso é que quem realmente tem talento e vocação pode, mesmo que com atrasos, vir a destacar-se na profissão. Como essas qualidades não estão inscritas na testa do estudante, o jeito é a instituição aplicar o critério geral.

Conversando com três jovens amigas esta semana ouvi o que seus orientadores haviam indicado como caminho a seguir para realizar suas dissertações. Uma tinha recebido vasta bibliografia a ser enfrentada antes de começar a pesquisa. Não quis me meter mesmo que ainda informalmente no processo de trabalho de minha amiga mas lhe disse que eu jamais consegui trabalhar assim. Todas as vezes que tentei começar o trabalho procurando conhecer antes as questões teórico-metodológicas, o desânimo me impediu de avançar.

Um tema que me é caro, a caricatura brasileira, foi primeiro descoberto quando pesquisava para meu livro “Historia de presidentes”. Para ilustrá-lo, tanto do ponto de vista plástico quanto textual, passei vasculhei a imprensa ilustrada brasileira desde o tempo da Proclamação da República até o governo Juscelino Kubistchek.  A qualidade e a quantidade do material que encontrei me impressionou. Daí em diante quis saber mais sobre aqueles artistas, sobre suas publicações, suas trajetórias e qual o papel político que, de fato, a caricatura tivera naqueles contextos. Só depois é que a caricatura em si começou a ser problematizada e aí foi preciso recorrer a uma bibliografia que desse conta das questões que apareceram.

Assim, a meu ver, é preciso começar o trabalho pela parte mais prazerosa e também mais automática. Levantar e colecionar o material, dividi-lo em assuntos e/ou cronologicamente, ler e olhar tudo, ganhando familiaridade com ele para só depois começar a pensar sobre ele. Ou seja começar como colecionador – com os prazeres, as obsessões e os desafios que isto implica -  e terminar como analista, como o crítico de tudo o que reuniu. Naturalmente que isto é uma perspectiva pessoal e que para mim vem funcionando bem ao longo desses 30 anos de trabalho em pesquisa. Não sei se serve para outros mas fica como sugestão.
  
A vida do jovem pesquisador é hoje muito diferente do que era quando comecei. Então era a falta de prazo para concluir que funcionava como desestimulo ao trabalho. Hoje quem terminar dentro do prazo sob o risco de perder os créditos. Por isso, muitas teses padecem com a falta de maturidade de seu autor. Da falta de experiência com pesquisa; da falta de convivência com a bibliografia e mesmo da falta até de uma inteligência emocional que só o tempo vivido nos dá. São estudos que, por isso, precisam ser analisados mais pelo observância pelo autor dos métodos e teorias que orientam o trabalho acadêmico do que pelo que representavam efetivamente de contribuição para o avanço daquele ramo das Ciências Sociais.

Por isso, também venho acompanhando com interesse o debate sobre as novas regras para o ingresso na carreira de professor universitário. Ao que parece, os concursos agora só vão contemplar candidatos que ingressem na carreira em seu nível inicial e que para concorrer nesse nível o candidato precisa ter apenas a graduação. No meu tempo vi com espanto alguns colegas se formarem e, no ano seguinte já passarem a freqüentar a universidade como docentes. Não sei o que os que foram alunos daqueles professores teriam a dizer sobre sua competência.

Naturalmente que o fato de que o candidato precisa ter apenas a graduação não impede que os que têm pós-graduação se candidatem. Mas sendo os salário inicialmente muito baixos, é bem provável que esses pós-graduados que venham a se candidatar não formem exatamente no time dos mais qualificados. Há muita gente que ficou na carreira sem produzir muito ou sem freqüentar o meio acadêmico mas que tem titulo suficiente para barrar um candidato mais jovem. O problema mesmo, a meu ver, desse sistema é a má qualidade do serviço que será oferecido. Não sei como o movimento estudantil se comportou com relação a essa questão que emergiu na última greve das universidades públicas mas deixo aqui uma questão: você, estudante universitário prefere ter como professor alguém que acabou de se formar, ou que fez uma carreira mais ou menos ou alguém que se qualificou ao longo dos anos e que, por isso mesmo, só ingressará no magistério se receber salário correspondente à maturidade de seu trabalho e de sua competência?

Outros carnavais (16/2/13)


Eu não brinquei o carnaval. Na verdade, faz milênios que eu não brinco carnaval. De verdade mesmo, eu acho que nunca brinquei carnaval. Não com o humor e a alegria com que vejo meus amigos brincando. Todo mundo fantasiado, todo mundo pela rua indo atrás dos blocos. Eu bem que tentei.

Lembro que na adolescência, Angelina Ellery, irmã da Angélica, mulher do Paulo, convidou a mim e à Clélia para entrar em um grupo que ia pular o carnaval, creio que no Náutico. Ela e as amigas, todo o mundo mais ou menos da nossa idade, bolaram uma fantasia que tinha a ver com o uniforme da NASA. Por gentileza, ou talvez pressionada pela irmã que queria agradar as cunhadas, Angelina teve que incluir no seu bloco aquelas duas irmãs tão sem graça, tão matutas como devíamos ser nós no meio da turma de meninas que a gente mal conhecia de vista. E haja complexo. Adolescência é fogo.

Depois disto lembro de dois carnavais que passei na Bahia no final dos anos 1970. Aí eu brinquei. Atrás do trio elétrico e na Praça Castro Alves. Tenho vagas lembranças mas são boas lembranças. Também estive durante um carnaval em São Luis do Maranhão. Um sujeito amigo do meu namorado que contava com ele para farrear ficou um pouco desapontado quanto viu que ele vinha comigo. Ouvi-o comentar com o outro: "mas onde é que já se viu trazer farinha pra farinhada?".

A farinha era eu e a farinhada era o carnaval com suas infinitas possibilidades. Também fui algumas vezes ver o carnaval na Rio Branco, no Rio. Naquele tempo era ali que se fazia o carnaval alternativo pois o resto da cidade era um deserto só. Era muito divertido o carnaval do Centro por conta dos travestis cujas fantasias eram sempre as mais originais. Lembro de um hilário vestido de Chapeuzinho Vermelho.

Quando começaram a renascer os blocos de bairro cheguei a acompanhar alguns mas só me animei mesmo foi com o Bloco das Carmelitas, em Santa Tereza. No começo o bloco era pequeno e você encontrava todo o mundo nele até porque todo o mundo que a gente gostava morava em Santa Teresa. Então o desfile das Carmelitas tinha aquele clima de festa de interior. Outro a que acompanhei arrastada por Ângela Porto foi o Escravos da Mauá. Fui com meu saudoso amigo Luis Carlos Saroldi e me surpreendi com a beleza que era andar à noite pelo Centro vazio do Rio junto com aquele pequeno grupo de foliões saindo do Largo da Prainha, passando pelo final da Rio Branco e terminando no Morro da Conceição. Só uma vez fui assistir ao desfile no Sambódromo, na ótima companhia de meus colegas de Casa Rui, Beto (Roberto Abreu) e Zé Manuel. A boa lembrança que tenho é de ir para o Centro, de encontrar um bando de gente fantasiada no metrô, do movimento do público nas arquibancadas e da volta para casa já com o dia claro.

Eu já desfilei em duas escolas de samba. É verdade que eram de grupos de acesso. A primeira foi a Paraíso do Tuiuti cujo dirigente era o nosso colega da Casa Rui, o Waltinho. Apesar de ser carnaval nossa fantasia era de caipira. Não sei porque o sapato tinha que ser branco. Como na hora eu não tinha sapato branco pintei de branco um velho sapato preto e fui. Quando a escola saiu, chovia a cântaros. Das arquibancadas vazias um espectador solitário debaixo de um guarda-chuva acompanhava nossa performance. As roupas ficaram encharcadas e a tinta do meu sapato começou a descolar. A gente tremia de frio e o Beto falou que o pessoal ia achar que aqueles tremores todos eram efeitos especiais. Tenho a impressão que Luciana Fróes e a então pequena Pat Malta participaram dessa aventura. Também fui na Unidos de Santa Cruz arrastada pela Monica Pimenta Velloso, biógrafa de Mario Lago que era tema do enredo daquele ano.

Quase participei da estréia da Acadêmicos de São Clemente em 1986. O tema era Rui Barbosa mas pelos intrincados caminhos do samba-enredo e pelas ainda mais intrincadas interpretações que deles fazem os carnavalescos, tinha uma ala de gente fantasiada de remédio. Foi nessa ala que a turma da Casa Rui entrou. Eu ganhei uma caixa com tarja preta, muito desconfortável e desgraciosa, mas um convite de última hora para viajar me livrou do mico. Cedi a fantasia ao meu colega Marcos Bretas.

Quando estava para ser selecionado o samba-enredo da São Clemente sobre Rui Barbosa recebi a visita de dois conhecidos do bairro, seu Quintino e seu Papinha. Eram mecânicos de automóvel e eu sempre os via quando saía pela rua Assunção, nos fundos da Casa Rui, onde funcionam muitas dessas oficinas a céu aberto. Um alto, magro, de cara muito amarrota e triste, sempre exalando um inconfundível cheiro de cachaça. Era o seu Papinha. O outro negro forte, ótimos dentes, belos olhos, grisalho e muito simpático. Era o Seu Quintino. Eles queriam dicas para competir com um samba para a São Clemente. Levei-os imediatamente até a Chefe do Setor Ruiano, Rejane de Almeida Magalhães. Rejane se empolgou, deu detalhes da trajetória do Rui, até revelar que ele fora ministro plenipotenciário do Brasil em Haia e na Argentina. Foi por essa parte que os sambistas improvisados mais se interessaram. Do jeito que o pessoal que faz samba-enredo gosta de palavra difícil, se o samba dos meus amigos tivessem emplacado era certamente íamos ver a escola cantando: "Plenipotenciário! Ele foi plenipotenciário..."

Este ano só vi carnaval pela TV e pelo Facebook pois passei-o ao lado de mamãe que tem 98 anos e nunca foi foliã. O carnaval tem um efeito tão contagioso que mesmo que você não seja carnavalesco, o carnaval chega a você. A inesperada renúncia do Papa em plena segunda-feira de carnaval foi uma inspiração a mais para os foliões que logo improvisaram fantasias a partir do tema. Quem diria que um papa tão antipático à causa da diversidade daria assunto para a maior festa da diversidade?

Nássara: rei do Carnaval (9/2/13)

Quando resolvi reunir em livro as tantas entrevistas que fiz com o Antonio Gabriel Nássara (Nássara: o perfeito fazedor de artes, Relume Dumará, 1999) não imaginava que mais do que o caricaturista quem iria brilhar ali seria o compositor popular. Desde o estrondoso sucesso de "Formosa", no carnaval de 1933 até o começo da década de 1950, Nássara foi quase imbatível como autor das marchinhas que animavam o carnaval carioca desde os anos 1920. Se Lamartine Babo e Braguinha foram compositores com um maior número de sucessos, Nássara foi o campeão dos concursos que, desde que Pedro Ernesto assumiu a prefeitura do Rio, deram mais movimentação ao pré-carnaval.

Na contracapa do disco "Carnaval de Nássara", gravado em 1956, por Pixinguinha, Orestes Barbosa conta da sensação que teve quando ouviu Formosa sendo cantada nas ruas: "Era no Largo da Carioca. (...) Num carnaval que já vai longe... Era um sábado. E era cedo. (...) Vinha um grupo de mascarados à paisana. Na frente dos foliões (uma mescla de vadios e rapazes de família) vinha um magricela simpático, de camisa de meia, calça cinza, cantando e mostrando um sorriso que ostentava os dentes salientes - parecia até que os dentes é que cantavam com o sorriso, esticando o pescoço fino - muito simpático e novo ao meu olhar. O rapaz chamava a atenção, pelo ritmo e pela originalidade com que ´batia´ um chapéu de palha. Era Luís Barbosa. E o estribilho eletrizava a multidão: Foi Deus quem te fez formosa!/ Formosa, oi, formosa!/ Porém, este mundo te tornou/ Presunçosa! Presunçosa!"

Nas vozes de Francisco Alves e Mário Reis, Formosa foi o maior sucesso do carnaval de 1933. No ano seguinte, Tipo sete, de Nássara e Alberto Ribeiro, obteve o primeiro lugar no concurso da prefeitura. Nássara concorria também com Maria Rosa: "Cadê Maria Rosa, tipo acabado de mulher fatal que tem como sinal uma cicatriz, dois olhos muito grandes, uma boca e um nariz" que havia sido desclassificada sob a acusação de plágio. Maria Rosa fora feita como sátira à opereta Rose Marie com que fora inaugurado o Teatro João Caetano. Nássara ficara com a música na cabeça e a partir dali compôs: Maria Rosa... Mas também participava da competição Ride palhaço, de Lamartine Babo. Quando surgiu a acusação de plágio o júri foi alertado para o fato de que, se Maria Rosa era plágio da opereta, Ride Palhaço também era plágio da ópera Il Pagliacci. As duas músicas foram desclassificadas e Tipo sete levou o prêmio.

Segundo Nássara, fora o Lamartine o grande criador daquela fórmula. O compositor descobria uma melodia clássica, arranjava-a em ritmo carnavalesco e atirava no ouvido do povo, com alguma letra maliciosa. "O povo que estava condenado a só cantar marchinhas de melodias portuguesas, passou a solfejar melodias de Chopin, Mozart, e até Wagner compareceu algumas vezes no carnaval carioca, sem receber um níquel de direito autoral".

Em 1937, especulava-se sobre as próximas eleições para a Presidência da República. Entre os possíveis candidatos estavam Oswaldo Aranha e Armando Salles de Oliveira. O jornal A Noite resolveu promover concurso de marchinha sobre as eleições. Luís Peixoto, seu organizador, perguntou ao Nássara: "Você não vai concorrer?" E completou: "Faz aí qualquer coisa... A gente sabe que quem vai ficar é o Getúlio mesmo, não é?". Foi assim que nasceu o refrão da música feita em parceria com Cristóvão de Alencar e que dizia: E o homem quem será?/ Será seu Manduca/ ou será seu Vavá?/ Entre esses dois meu coração balança/ porque na hora agá quem vai ficar é seu Gegê. Foi um sucesso e ganhou o prêmio. Já Seu Manduca e Seu Vavá, virtuais candidatos à Presidência da República, dançaram. Quem ficou mesmo foi o seu Gegê.

Nássara não ganhou o concurso em 1938, quando concorreu com Periquitinho verde, outro grande sucesso. Quem ganhou foi Pastorinhas que João de Barro tinha feito com Noel Rosa, morto naquele ano. Despeitado, Nássara espalhou que quem vencera não fora João de Barro, mas "a alma de Noel". O grande sucesso do carnaval de 1941, e de muitos outros carnavais foi Alá-lá-ô, parceria com Haroldo Lobo, gravada por Carlos Galhardo e com arranjo de Pixinguinha. Nássara dizia que Pixinguinha fora o "verdadeiro responsável" pelo grande sucesso de Alá-la-ô, em virtude da maravilhosa orquestração com que a música foi gravada e chegou às ruas.

Durante a guerra, em 1942, Nássara e Frazão lançaram a engraçadíssima Danúbio azul. A campanha dos alemães no sul da Rússia, culminou com a derrota de Stanlingrado, dando início à derrocada alemã. Com a metafórica invasão do Danúbio pelo Volga, Danúbio azul era uma dupla gozação: tanto aos alemães, derrotados pelos russos, quanto à valsa de Strauss. No refrão, o rio era vaiado: Danúbio azul, fiau, fiau/, mudou de cor, fiau, fiau,/ quis se meter, fiau, fiau,/ a lutador, fiau, fiau. O final dizia: Mas o Volga/ não deu folga/ e o Danúbio... azulou... Rimar "Volga" com "folga" é tudo de bom. Segundo Sérgio Augusto Danúbio azul quase foi incluída entre os números do filme Samba em Berlim, de Luís de Barros mas "ficou de castigo na sala de montagem, por ordem da censura que implicou com a cara de Stálin desenhada no cenário."

No final da década de 1940, Nássara conheceu Wilson Batista de quem se tornou parceiro. A mais famosa composição da dupla, a marcha Balzaquiana, foi gravada em 1950 por Jorge Goulart para o centenário de Balzac. Na biografia de Wilson Batista, Bruno Ferreira Gomes inclui um depoimento onde Batista narra a sobre a forma como ele e Nássara a compuseram. Além de ser um belo registro de como se dava o processo criativo no meio musical carioca daquele tempo, o texto proporciona um passeio pelo centro do Rio, em um tempo em que se podia andar por ali de madrugada, sem medo.

Irmãs Cajazeiras (2/2/13)

É assim que os meninos nos chamam quando querem nos criticar pelas costas. Dizem que somos iguais àquela trinca de solteironas da novela o "Bem-Amado" que passava o tempo todo tricotando, falando da vida alheia, conspirando. Enfim. As informações não conferem. Primeiro: dos "meninos" acima mencionados, alguns já se foram e o mais novo tem 56 anos. Segundo: não somos uma trinca, somos um quarteto e terceiro: não passamos o tempo todo conspirando, nem falando da vida alheia. Só um pouquinho.

Na verdade somos quatro irmãs separadas por alguns tantos anos uma da outras. Estamos entre os 50 e tantos e os 70 e poucos, justamente naquela fase em que essas idades se confundem. Ou seja, é aquela fase da vida em que um dia você está bem, com ótimo visual que chega a parecer dez anos menos, mas dias depois você pode estar meio pra baixo, cansada e de mau-humor e aí passa por ter dez anos mais. Assim foi que o tempo nos uniu e nos aproximou. Eu e Clélia, a dupla mais nova sempre esteve perto. Diferença pequena de dois anos com a vantagem para ela de que todo o mundo sempre pensou e pensa até hoje que é a mais nova. Diferença média para a Dadal, Socorro Lustosa que eu chamo assim desde pequena e nem sei mais por que. No Colégio das Irmãs Dorotéias quando ela estava no Normal, a gente ainda estava no Primário. Dadal tinha poderes sobre nós, delegados por nossos pais, de modo que então, aos nossos olhos infantis, parecia muito mais velha que nós. Dava bronca, mandava tomar banho, reclamava de nosso desleixo. Até porque sempre foi muito arrumadinha.

Lúcia esteve estudando em colégio de Minas Gerais e, algum tempo depois de voltar, já estava noiva do Zé Benevides com quem se casou. De modo que esteve um tanto distante de nós naquele começo da vida. Mesmo assim, o momento mais emocionante daquela fase foi para mim aquele em que, creio, aos nove anos, atravessei a nave da igreja da Piedade levando as alianças em seu casamento. Momentos de tensão. Foi a primeira minha missão de grande responsabilidade. Enfim, o fato serve para mostrar como a diferença então parecia enorme. Era a irmã mais velha que se casava enquanto a gente ainda brincava de bonecas.

Pois bem, o tempo foi passando, cada uma seguiu com a sua vida mas em um lugar sempre nos encontramos: a casa de papai e mamãe. Dizia o Fred que quando a pessoa apontava lá no começo do longo corredor da casa da Barão de Aracati, só via as cabeças se inclinando nas cadeiras de balanço para verificar quem estava chegando. Éramos nós e mamãe que, segundo ele, estávamos lá falando dos irmãos e das cunhadas. Com aquele excesso de crítica que as mulheres tem umas com as outras ficávamos falando das criaturas que o destino colocara na vida dos nossos irmãozinhos, tão bonzinhos, ingênuos e despreparados que tínhamos que proteger. Pobres cunhadas. O tempo também cuidou de aplainar essas diferenças e hoje, atuais e ex-cunhadas fazem parte da família estendida que nas noites de Natal e no aniversário de mamãe celebram conosco uma vida que foi enriquecida pelos tantos sobrinhos bacanas que nos deram.

A morte de papai mais nos uniu em torno de dona Dolores. Ao longo do tempo, esses encontros de irmãs, ao cair da tarde, na sala de visitas dela foram adquirindo um sabor tão especial, um gosto de quero mais que foram fazendo do grupo, um grupo de amigas próximas e queridas. A evolução dessa amizade pode ser acompanhada pelas fotos que obrigatoriamente fazemos a cada reunião familiar. A foto das quatro irmãs. Seria bom compará-las ao longo dos anos para ver como foi que fomos ficando tão parecidas, tão próximas que parecemos ter todas a mesma idade.

A dor também nos uniu. A longa doença do Edmilson, mostrou a grande mulher que é a nossa Dadal. Socorro esteve ao lado de seu leito na UTI todos os dias, em pé horas a fio velando pelo companheiro de uma vida, não medindo esforços para confortá-lo. E imagino como sua presença deve ter sido tranquilizadora para ele. Ele que não hesitava em dizer que das quatro irmãs, a sua era a mais bonita. Chico de Brito, sertanejo valente que tinha medo da morte. Lembro tanto da última vez que o vi, no leito do hospital, com a doença já irreversível que o consumia. Entramos eu e Clélia na UTI, ficamos um pouco ao seu lado, conversamos amenidades e quando me despedi, pois estava em Fortaleza apenas para o feriado, me olhou com tristeza e perguntou: "Quer dizer que eu nunca mais vou te ver?" Ele sabia que ia morrer. Eu é que não sabia que aquele cunhado que tinha me visto menina, que era obrigada a levar os três irmãos caçula da namorada ao cinema com seu magro salário do BNB, dava tanta importância assim a me ver. Um acaso me fez estar em Fortaleza durante os últimos dias de sua vida. Já incomunicável, fora do ar. Fomos ao hospital e Dadal quando me viu, me abraçou apertado e chorou dizendo: seu compadre está muito mal.

A dor também nos uniu em torno da Lúcia no ano que passou. A linda família que formou com Benevides ao longo de 50 anos que a fatalidade que se abateu sobre eles não permitiu comemorar, floresceu em um elenco de netos maravilhosos. Nos almoços felizes do Icaraí, encontro habitual da família no final do ano, suas filhas, Evelucia, Sellene e Fabiana, tornam-se membros também desse grupo feminino tão cúmplice. A alegria e a força extraordinária de Lúcia sofreram tremendo baque com a partida do neto João Felipe, o Felipe Melo. A dor que revela o que temos de mais autêntico mostrou a avó frágil amparada pela filha, Evelucia, mãe-coragem que fez da passagem do filho caçula um momento de iluminação mística que salvou toda a família do naufrágio.

Sem dúvida, a partida do Lustosa pouco depois, filho que era presença constante ao lado da mãe, mais unidas nos fez ficar em torno de dona Dolores. Conforta o coração sabermos que temos umas as outras, que podemos contar essa permanente solidariedade construída ao longo de uma vida feita de alegrias e tristezas, mas uma bela vida.

Outras histórias de morte (26/1/13)

Toda hora, em meio a uma conversa, quando a gente lembra de alguém do qual nunca mais ouviu falar surge a questão: fulano morreu? Morreu sim, morreu não e fica a duvida no ar. Por conta disto duas amigas a quem quero bem, Barbara Harrington e Mathilda Kovac pensaram em criar um serviço de utilidade pública o "Disque-morreu". Assim, na mesma hora em que a duvida se manifestasse você ligaria para lá e resolveria. Creio, no entanto, que o serviço das minhas amigas, hoje, com o Google matando todas essas charadas a um clique não encontraria patrocinadores. De qualquer maneira, para quem já foi famoso - e gostava disto - a possibilidade de que alguém tenha duvida se você ainda está vivo é já uma forma de estar morto.

***

Quando Américo Jacobina Lacombe fez 70 anos recebeu telefonema de seu velho amigo Antonio Carlos Vilaça. Com aquela voz inconfundível que quem teve a sorte de receber seus telefonemas lembra - voz arrastada, com meneios e doçuras angelicais como a do monge que ele de fato era -, Vilaça parabenizou Lacombe pelo aniversário. Naquele tempo o Vilaça era quem escrevia a coluna do obituário do "Jornal do Brasil" e, a prática era que, quando qualquer pessoa importante fizesse 70 anos se escrevesse logo o obituário. Vai que o dito-cujo empacota de repente, ninguém tem nada na gaveta e é preciso escrever na carreira? Aproveitando o ensejo do telefonema Vilaça informou ao Lacombe que já estava escrevendo seu obituário e se ele tinha alguma sugestão, se gostaria de melhorar ou acentuar algum aspecto.

***

Página antológica da "Clara dos Anjos" é a em que Lima Barreto descreve um enterro no cemitério de Inhaúma, subúrbio do Rio. Aproveitando para alfinetar o governo, ele diz que este nem a morte facilita aos pobres e o melhor exemplo disto era a dificuldade de acesso aos cemitérios. Os caminhos ?para chegar ao cemitério de Inhaúma eram péssimos, intrincados e cheio de voltas inúteis. Os enterros dos pobres eram feitos a pé, com o cortejo percorrendo um longo caminho poeirento até chegar ao campo-santo. Segundo Lima Barreto, os acompanhantes desses cortejos seguiam muito tristes e, em cada botequim que passavam, "quebravam o corpo" com uma boa dose de cachaça. Teve um enterro assim, em que o corpo acabou não chegando a seu destino.

"Beberam tanto, que o esqueceram no caminho. Cada qual que saía da venda, olhava o caixão e dizia: Eles que estão lá dentro, que o carreguem. Chegaram ao cemitério e deram por falta do defunto. "Mas não era você que o vinha carregando?" - perguntava um. "Era você" - respondia o outro; e, assim, cada um empurrava a culpa para o outro. Estavam cansadíssimos e semi-embriagados. Resolveram alugar uma carroça e ir buscar o camarada falecido, que já tinha duas velas piedosas a arder-lhe à cabeceira. E o pobre homem, que devia receber dos amigos aquela tocante homenagem, dos camaradas levarem-no a pé ao cemitério, só a recebeu a meio, pois, o resto do caminho para a última morada, ele a fez graças aos esforços de dois burros, que estavam habituados a puxar carga bem diferente e muito menos respeitável."

***

Foi numa manhã ensolarada de domingo que enterraram o Bola, rei-momo do carnaval carioca por vários anos. Abriram-se duas covas rasas pois o caixão não coube no jazigo da família. Durante o velório que foi no Sambódromo, o pessoal do Circo Garcia, palhaços, vedetes, trapezistas, circulava com desenvoltura em torno do caixão. A viúva, muito distinta e bela usava uma malha transparente que revelava as formas que ajudaram a alegrar a vida do Bola. Uma senhora discretamente circulava recolhendo dinheiro dos circunstantes. Era a bilheteira do circo que aproveitava o movimento para atrair ali o respeitável público.

Entre os que foram dar adeus ao rei, candidatos a sucessor, competiam em volume em torno do caixão. Bandeiras das mais diversas escolas de samba enfeitavam a cena e o som do bumbo fazia o ritmo. Animados pelo som de eu vou tomar um porre de felicidade baixaram às covas rasas os 278 quilos do rei do carnaval. Uma jornalista que cobria a cena ouviu alguém que passava em frente ao Sambódromo perguntar o que estava acontecendo, informado que era o velório do Bola o sujeito caiu na gargalhada.

***

Outro dia matamos saudades de Martine Kunz em visita a d. Dolores. Naturalmente que não faltaram na conversa histórias do nosso saudoso Claudio Pereira. Lembramos então de como ele, depois de um certo tempo, passara a comemorar seus aniversários. É que, desde 1972, quando um acidente de carro o deixara paralítico, os médicos tinham dado ao Pereira apenas mais seis anos de vida. A partir de então ele passou a fazer nos aniversário contagem negativa, cada ano era mais um ano perdido ou um ano ganhado? Contrariando as previsões dos médicos, Pereira viveu mais 36 anos depois daquela fatalidade que mudou sua vida mas não seu espírito irreverente.

A última vez em que estive com ele, aliás, foi em janeiro de 2010. Entre um longo tratamento e o processo final que o mataria em maio daquele ano, ele encontrou saúde e disposição para voltar à velha vida boemia. Eu que o visitara no hospital e na casa dele em condições bem complicadas não pude deixar de dizer: "Pereira, você não tem sete vidas não, você tem é nove". Perguntei se, enquanto estava internado, soubera da morte daquele que fora, desde o começo de sua vida uma espécie de "outro", daquele rival terrível e com o qual, no entanto, tinha tanto em comum: Augusto Pontes. Ele me disse que, apesar das recomendações para não lhe darem a notícia, uma amiga desavisada lhe telefonara contando. Não me disse como a recebeu. Creio que reagiu como reagia a tudo, continuava no jogo e esperando a sua vez. Mas talvez desconfiasse que a nona vida estava se esgotando pois aproveitou nosso último encontro para garantir que eu de fato escreveria sua biografia como prometera.

Erros e erratas (19/1/13)

Eu implico com erratas. Depois que livros e artigos meus são publicados, quando constato erros, prefiro não incluí-los. Parto de um raciocínio absolutamente matemático. A maior parte das pessoas que lerão aquele livro ou artigo não é composta de especialistas. Dentre os especialistas que leriam, nem todos conhecem o problema específico presente naquele erro (que pode ser de conteúdo, ortográfico ou mesmo gramatical). Dentre estes também, nem todos lerão o texto com uma lupa em busca de erros e pode ser que passem por eles sem notar (é pelo que rezo todos os dias). Já os que vão ler com lupa por razões de pouca simpatia ou rivalidade acharão erros até nos maiores acertos da obra. Melhor não alertá-los para os que podem lhes escapar. Aliás, basta incluir errata para o pessoal da oposição ir logo dizendo: "Viu? O livro dela está cheio de erros". Enfim, não sou eu quem vai dar munição a eles. Prefiro ficar com a elegância e a pose de Machado na errata da segunda edição de "Memórias Póstumas de Braz Cubas": "Alguns erros escaparam, que a inteligência do leitor suprirá".

Pablo Neruda disse certa vez que erratas são como cáries na linha impressa: "doem em profundidade quando os versos tomam o ar frio da publicação". Pois, a seu ver, o romance passa mais facilmente por cima dos erros de composição e linotipia porque tem uma geografia mais montanhosa. Já a poesia seria muito mais sensível a esses obstáculos: "a poesia ressente-se amiúde do ruído das colherinhas de café, dos passos da gente que entra e sai, da risada inoportuna". No mesmo texto ele conta o caso de um poeta cubano que teve poema publicado em uma revista junto com uma errata. "Donde debía decir ´Yo siento un fuego atroz que me devora´ el impresor cambió radicalmente las preferencias eróticas del poeta al reproducir ´Yo siento un fuego atrás que me devora´. Aí não teve jeito, tiveram que jogar toda a edição ao mar.

Em sua deliciosa biografia, Uma vida (Ed. Casa da Palavra), Plínio Doyle inclui uma série de erratas que colecionou junto com os milhares de livros de literatura brasileira que compunham a sua maravilhosa biblioteca. A mais interessante delas é a incluída no livro "Flor de Sangue", de Valentim Magalhães, publicado pela Laemmert, em 1897. Na página 385 o editor incluiu a seguinte errata: "À página 285, 4ª linha, em vez de estourar os miolos, leia-se cortar o pescoço". Plínio conta que tal errata foi excesso de zelo do revisor. Na trama, um médico, por conta de uma desilusão amorosa, cortara a carótida com o próprio bisturi. Na página 274, a cena é descrita com as cores mais vivas: "Um jorro de sangue, em repuxo impetuoso e alto, esguichou, cobriu o espelho, salpicou tudo em volta do lavatório". Algumas páginas depois, alguém comentou a respeito: "em vez de deixá-la e simplesmente estourar os miolos...". Era só uma sugestão dada a posteriori possivelmente por conta do espetáculo da cena do crime, pois como se viu, o sujeito tinha mesmo se matado cortando a garganta.

Lá em casa, mamãe encapava todos os livros e cadernos escolares com papel madeira e firmava na capa, com sua linda letra o título da obra. Alguns desses livros eram dicionários de uso frequente por parte de toda a família. Uma vez, com o dicionário todo encapadinho no maior capricho, ela escreveu com sua melhor grafia: "Dicionário de Inglês". Depois, para sua decepção, constatou que o dito cujo era, na verdade, um dicionário de francês. Não teve dúvida, para não estragar todo o trabalho, mamãe mandou uma virgula depois do "Inglês" e escreveu: "digo, de Francês".

No tempo em que as emissões de dramas televisivos eram feitas ao vivo foi apresentada a história de Joana d´Arc. Era a cena mais dramática da trama: o momento em que a heroína é capturada e vai ser executada. No entusiasmo da encenação, o ator que fazia o líder dos soldados, esquecido de qual devia ser a sua fala, conclamou seus seguidores: "vamos enforcá-la!". Ao que seu lugar-tenente sugeriu, com delicadeza: "não seria melhor queimá-la?".

Algumas coisas da vida, de fato precisam de errata. Ou, pelo menos, de legenda. Lembro de um daqueles filmes da Tânia Quaresma sobre o Nordeste em que na entrevista com uma sertaneja em sua casinha de taipa, o cachorro começou a latir. Ela ordenou então, seguidas vezes: "Cala a boca, Resúvio! Quieto, Resúvio!". Depois o entrevistador obteve o esclarecimento: o nome do cachorro era por causa do vulcão, o Vesúvio. Não funcionou a homenagem que amigo roqueiro de Mario Bag quis fazer ao grupo Crosby, Stills, Nash & Young. Na impossibilidade de dar todos esses nomes ao seu cachorro, ele optou pelo primeiro: Crosby. Mas a empregada dele sempre que falava do bicho dizia: "ô seu fulano, o Cróvis não quis comer nada hoje". Em um ônibus na zona norte do Rio, a turma da escola pública zoava um colega anunciando: "Imagine que a professora pediu para ele escrever na prova o nome de um animal da Amazônia e ele cravou lá: morangotango".

Não tem a ver com errata mas tem a ver com o conhecimento de línguas estrangeiras. Mario Bag em Paris, sem falar uma palavra de francês se virava como podia fazendo suas compras no supermercado. Precisando comprar um rolo de papel metálico para cozinha e não conseguindo achar tentou explicar em inglês para um vendedor coreano que chamou outro colega mais ilustrado, que por sua vez chamou outro. Logo formou-se um grupo com todos em volta dele tentando compreender a explicação. E o Bag se esforçava: "I need a kind of metal-paper to pack my sandwich". Finalmente, um mais esclarecido matou a charada e voltou lá de dentro com a mercadoria desejada. Aproveitou para ensinar um pouquinho de francês ao Bag. "Say with me, the name is" - e abrindo bem a boca como a gente faz quando fala com gringo achando que isto melhora alguma coisa - completou: "a - lu - mi - ni - um".

A triste vida de um homem engraçado (12/1/13)

Ao terminar de ler a biografia do Barão de Itararé publicada pelo jornalista Claudio Figueiredo, "Entre sem bater" (Casa da Palavra), a conclusão a que se chega é que a sua não foi exatamente uma vida feliz. Ao contrário, parece até que ele nasceu marcado pelo signo da fatalidade. Fazendo um balanço geral dos seus infortúnios podemos relacionar: o suicídio da mãe; o AVC que o deixou hemiplégico ainda na juventude; as mortes da segunda, da terceira mulher, da filha de 19 anos e o suicídio da última companheira. Isto sem falar no fato de ter tido um pai ignorante por escolha e autoritário por natureza; de ter protagonizado um drama sentimental escandaloso que se arrastou por sete anos; de ter amargado prisões, perseguições e dificuldades econômicas e de ter terminado a vida como um velho pobre e solitário. Apesar dessa carga dramática que tirariam o humor de qualquer um, Apparício Torelly foi o brasileiro mais estimado de seu tempo justamente pela imensa capacidade que tinha de fazer os outros rirem.

A morte precoce da mãe, fez com que passasse os primeiros anos da vida no Uruguai, voltando ao Rio Grande do Sul para ser educado em um colégio de padres. O ateu Apparício Torelly, seria eternamente reconhecido aos jesuítas pela excelente educação que lhe deram. A partir de 1912, foi o enfant terrible da recém-criada Faculdade de Medicina de Porto Alegre, curso que não concluiu. Apporely marcou sua passagem pela vida universitária por uma irreverência e uma militância que resultou em vários, divertidos e, talvez, um tanto quanto inventados episódios auto-biográficos. No inicio da carreira jornalística, entre 1919 e 1924, trabalhou em diversas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Em uma delas, São Gabriel, acabou casando-se, em 1921, com a filha de uma liderança política local. O casamento lhe deu três filhos, Ary, Arly e Ady mas se desfez em 1924, quando Apporelly partiu para o Rio de Janeiro.

Em 1925, fez sua estreia no jornal O Globo, passando no ano seguinte para o recém-criado jornal de Mario Rodrigues, A Manha, onde estabeleceu duradoura parceria com o caricaturista paraguaio Andrés Guevara, que fixaria a imagem plástica definitiva do Barão de Itararé. Ainda em 1926, fundou seu próprio jornal: A Manha. O sucesso de Apporelly já era imenso, quando seus velhos companheiros de vida estudantil em Porto Alegre, Flores da Cunha, Oswaldo Aranha e Benjamin Vargas o encontraram no Rio de Janeiro, depois da Revolução de 1930.

Foi em dezembro daquele ano que "o nosso querido diretor", como era chamado nos editoriais de A Manha, foi elevado por decreto do novo governo, a Barão de Itararé. Ao longo dos anos seguintes, criatura e criador se confundiriam em um único personagem aos olhos dos leitores. Para Cláudio Figueiredo, a essência do talento humorístico de Apporelly estava em sua imensa habilidade para "brincar com as palavras, desmembrando-as, estabelecendo as relações mais inesperadas entre as partes ou, ao contrário, jogando com duplo sentido e fundindo palavras diferentes".

No entanto, naquela mesma década de 1930, a participação em jornais orientados pelo PCB, revelariam uma faceta menos divertida de Apporelly, onde prevaleceria o tom sectário com que atacava não só aos integralistas mas também a gente como Villa Lobos, Anísio Teixeira e Bertha Lutz. Com a repressão à chamada Intentona Comunista de 1935, o cerco se fechou sobre o PCB e Apporelly foi preso, ficando mais de um ano detido. Todo o contexto de pensamentos e ações que marcaram os confrontos entre esquerda e direita naquele período é estabelecido por Cláudio Figueiredo revelando que a atuação clandestina de Apporelly foi muito mais efetiva do que até então se pensava.

Sua trajetória, daí em diante, estaria estreitamente associada à militância na esquerda e, em 1947 ele foi eleito vereador pelo PCB, tendo o mandato cassado com a proibição do partido no ano seguinte. Em 1949, por insistência e empenho de Guevara a dupla lançou o primeiro Almanhaque como prévia para o reaparecimento de A Manha. Mas o jornal circularia apenas e de forma esporádica até o final dos anos 1950, período que Apporelly passou quase todo em São Paulo. Sua última década de vida no Rio de Janeiro foi marcada pela mesma obsessão com a Ciência que o atormentava desde a juventude. A isto se aliaram estudos esotéricos. Para os velhos amigos, ouvir-lhe as longas exposições sobre o horóscopo biônico ou o quadrado mágico era algo desconcertante. Poucos de seus vizinhos, em Laranjeiras, identificavam naquele velhinho alvo, magro, irritadiço e excêntrico, de barbas brancas, a figura risonha e dionisíaca do Barão de Itararé.

Um aspecto notável nessa biografia é a revelação da amargura de Apporelly com a sina de ter de fazer do talento para ser engraçado um meio de vida.

Na descrição que dele faz em "Memórias do cárcere", Graciliano Ramos já intuía o sofrimento que aquilo lhe custava: "Meu pobre amigo Apporelly, a sofrer, amável e risonho, lançando trocadilhos em atitude profissional. Doía-me a paciência triste dele, aparentemente alegre".

Mas para não terminar essa crônica sobre um dos maiores humoristas da história do Brasil sem honrar o talento que lhe deu fama, escolhi a passagem do livro de Figueiredo, que mais me agradou. Seus 25 anos de carreira jornalística foram comemorados com um banquete na Associação Brasileira de Imprensa - ABI, no dia 9 de junho de 1944. Ao agradecer aquela homenagem que lhe prestavam jornalistas, escritores e artistas, Aporelly começou dizendo que aqueles tantos discursos e demonstrações de carinho o tinham emocionado de tal maneira que ele ficara com a voz embargada. Fez então uma pausa, encarou a plateia onde estavam, entre outros, Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Samuel Weiner, Ruben Braga, Roquete Pinto, Vinicius de Moraes, Álvaro Moreyra e perguntou: tem algum desembargador aí?

Afirmação da Democracia (29/12/12)

Li, anos atrás, “O recurso do método”, fascinante livro de Alejo Carpentier, cujo protagonista é o ex-ditador de um país latino-americano fictício. Cito aqui de memória a passagem que me ocorreu tomar como ponto de partida para este artigo.


O ditador, como todos os ricos e poderosos da América Latina dos anos 1950/1960, era habitué dos melhores hotéis, restaurantes e livrarias de Paris. Conhecido e festejado por artistas, intelectuais e elegantes, o ditador se sentia em casa na Cidade-Luz. Eis que, senão quando, um movimento popular revolucionário, depois de muitas derrotas marcadas pela mais dura repressão, incluindo torturas, estupros e assassinatos, conseguiu empolgar o povo e derrubar a ditadura.

Voltando a Paris, desta vez como exilado, o ex-ditador amargaria a decepção de ser tratado com frieza pelos mesmos frequentadores de uma das livrarias em que costumava ser tão bem recebido. Pior tratamento lhe reservariam alguns elegantes que sequer deram mostras de conhecê-lo quando experimentou saudá-los da mesa em que estava em seu restaurante favorito.

O que provocara a diferença no tratamento não fora a perda do poder. Fora antes a divulgação de fotografias, entre outras, em que soldados do seu exército apareciam jogando futebol com as cabeças de presos políticos decapitados. Essas e outras imagens de caráter igualmente chocante, além de relatos da imprensa finalmente liberada, contribuíram para que fossem esquecidos seus charme e cultura e só ficasse a imagem do ditador sanguinário.
       
Creio que foi só depois de sua primeira viagem à Europa, em 1872, que D. Pedro II tomou coragem para enfrentar o problema da escravidão no Brasil. O imperador que se orgulhava da própria cultura e de seu amor às Artes e à Ciência, deve ter sentido o peso negativo que se associava à sua amável pessoa por ser o monarca de um dos dois últimos país das Américas onde ainda havia escravidão. De que adiantava ser um homem dentro dos padrões do que havia de mais ilustrado e progressista no mundo de então, se ele reinava em sobre um país em que homens, mulheres e crianças eram vendidos como mercadoria, submetidos ao trabalho forçado e a castigos físicos violentos?

Outro dia li que Rosa e Silva, governador de Pernambuco que reinara por lá do final do Império até a última década da Republica Velha passava a maior parte de seu tempo entre o Rio de Janeiro e Paris. Às vezes ia a Recife e nem desembarcava, no porto mesmo, a bordo do navio reunia seu secretariado e zarpava. E isto no tempo em que o sertão, castigado pela seca e pela violência do cangaço, era um dos piores lugares do mundo para viver.  Como os parisienses cultos que tivessem por acaso conhecimento do livro de Euclides da Cunha, Os Sertões, deviam ver esse governador de uma região tão pobre que vivia esbanjando dinheiro em Paris? Não deveriam associar sua imagem sofisticada, seus bons vinhos e charutos ao povo que ele deixara para trás e em benefício do qual deveria estar governando? 

Certamente todo o luxo desses brasileiros sofisticados devia ser motivo de chacota. Mesmo recentemente, o contraste que havia entre os brasileiros que viajavam ao exterior e a realidade do país provocava comparações. Pois os muito ricos dos países muito pobres – talvez para se distinguir do povo de seus países - têm como principal característica a ostentação da riqueza, do luxo e a tentativa de obter privilégios que os europeus, por tradição, evitam reclamar.

A gente sai do Brasil mas o Brasil não sai da gente. Para o bem ou para o mal, a nossa imagem está definitivamente associada ao país em que nascemos e ao seu povo. Se a imagem desse país é positiva, como felizmente é a imagem do Brasil hoje, somos acolhidos com simpatia e até mesmo com uma pontinha de inveja.  E isto tanto para brasileiros ricos como para brasileiros pobres pois, fora daqui, somos todos apenas brasileiros.

Não é preciso ser historiador para verificar que os que fizeram pelo Brasil, os que trabalharam pelo progresso de seu povo, os que apostaram no desenvolvimento do país, de suas indústrias e de suas cidades, passaram à Historia como grandes brasileiros. Neste momento em que todos são chamados a dar sua contribuição para que o Brasil continue avançando por igual, para que mais e mais brasileiros tenham a oportunidade de desenvolver seus talentos, para que a Democracia continue se fortalecendo a cada processo eleitoral, para que o povo continue a eleger seus representantes e governantes, pois só aos eleitos pelo voto direto cabe representar e governar o povo do Brasil, meus votos são para que os membros da elite brasileira fujam da tentação do golpe.

Golpes salvacionistas são aqueles que retiram o poder dos eleitos pelo voto para dar a outros, indicados por poderosos grupos econômicos que, sob o pretexto da moralização e da maior competência estão mesmo é defendendo seus interesses contra os interesses do povo. Essas intervenções no processo democrático podem empolgar uma classe média iludida pela propaganda negativa, como aconteceu em 64, mas acabam mesmo é em ditadura. E ditaduras a gente sabe como começam, mas não pode prever jamais como terminam. Exemplar foi o destino do Correio da Manhã, entusiasta de primeira hora do golpe de 64 e de sua proprietária, Niomar Moniz Sodré Bittencourt, presa pelo mesmo regime ao qual dera seu apoio e para o qual perdeu até mesmo seu jornal. 

Os empresários que emprestaram seu apoio à ditadura militar hoje são tão execrados fora do Brasil quanto o ditador do livro de Carpentier. Eles são identificados como patrocinadores do martírio de Frei Tito. Foi a revelação no exterior das bárbaras torturas a que foi submetido aquele sacerdote cearense que fez com que o repúdio ao regime militar ganhasse amplitude internacional. Para espantar maus presságios que andaram rondando o Brasil nos últimos meses termino lançando como mensagem de final de ano o mesmo repto do passado: Democracia sempre! Ditadura nunca mais!

Natalinas 2012 (22/12/12)

Opiniões divididas

Quando meu filho era pequeno fez aquela clássica pergunta que toda criança faz em algum momento da infância: “Mamãe, Papai Noel existe?” O que responder numa hora destas? pensei eu. Para ganhar tempo devolvi a pergunta: o que você acha? E ele me disse: “Bem, lá na escola tem uma parte que acha que existe e outra parte que acha que não existe”.
Eu daria tudo para ter assistido a esse debate.

Amigo oculto

Todos os anos, quando ainda fazia o primário, a classe do Chico no Centro Educacional Anísio Teixeira – o CEAT - onde ele estudou até ir para a faculdade, tinha um amigo oculto. Todos os anos eu esquecia de comprar o presente. Como a cada nova reimpressão (já está na 13a) do meu livro “Historia dos escravos”, da Companhia das Letrinhas, recebo vinte exemplares, sempre tinha algum comigo que, na última hora, embrulhava para que ele levasse como presente de amigo oculto. Este era sorteado pela professora, com a turma formando um círculo, cada um com seu presente na mão. Da última vez que mandei o meu livrinho perguntei depois ao Chico como tinha sido. Ele me contou que um seu colega, reconhecendo o embrulho de todos os anos, teria murmurado repetidas vezes: “Tomara que não seja eu, tomara que não seja eu!”

Autorama

O sonho de Mario Bag na infância era ganhar um autorama. Uma vez, perto do Natal, ele perguntou ao pai: “Papai, quando é que o senhor vai me dar um autorama?” A resposta foi de seu Mario Mendonça, meu queridíssimo sogro cujo senso de humor terrível tive oportunidade de conhecer, foi: “Quando o Cauby casar”. Daí em diante, era a mãe do Bag que tinha que dar explicações sobre quem era esse tal de Cauby e porque ele ia demorar a casar. Cauby Peixoto, hoje, poderia se casar e ser feliz com quem ele quisesse. Nos anos 1960 era mais complicado.

Bebê barrigudo

Detestei descobrir bem antes de um dos natais de minha infância, escondidos no alto do guarda-roupa, os brinquedos pobres que íamos ganhar: bonecas de plástico, daquelas inteiriças que não mexiam os braços, nem os olhos e o cabelo era integrado, ou seja apenas uma tinta sobre a parte da cabeça feita em relevo do mesmo material para dar a idéia de cabelo. Mas teve um Natal que foi diferente. Talvez papai tenha ganho alguma gratificação no IAPC. Só hoje, quando eu também espero o Natal para receber meu 13o salário, é que esse tipo de coisa me ocorre.
Pois bem, teve um Natal em que meus pais deram para a Clélia uma boneca que era um luxo. Chamava-se Geísa, era loura e magra, deve ter custado caro. O corpo era de louça, braços e pernas articulados, aqueles furinhos no peito para sair o som e os cabelos, louros e encaracolados, eram implantados fio a fio. Creio que tinha olhos azuis, com longas pestanas, que abriam e fechavam. Na mesma ocasião eu ganhei um bebê de louça. Não me lembro de ter ficado com inveja da boneca da Clélia até o momento em que a Chaga – que, junto com a Maria e a Lili, se revezava nos cuidados com os menores dos 13 filhos de seu Costa e d. Dolores - me chamou num canto e disse: Viu, para ela deram uma boneca linda e loura e para você um boneco barrigudo. Acho até que disse que o boneco era barrigudo como eu. Eu fiquei tão chateada que taquei o boneco no chão e quebrei. Era de louça. Fiquei sem presente. Para compensar meus pais compraram um disquinho daqueles compactos coloridos. Engraçado foi que eu adorei o disquinho. Era a história do imperador da China e de seu rouxinol azul. Ouvi um monte de vezes.

Malhas Clélia

Aqui, enquanto digito essa coluna, me preparo para embarcar para mais um Natal em Fortaleza. Ao longo desses 35 anos de Rio de Janeiro devo ter passado no máximo quatro natais longe de casa. Logo que cheguei, em 1977, um ou dois anos depois, já na faculdade, e quando o Chico nasceu, em 1988, pois ele é de 28 de dezembro. O último foi o de 2010 quando estava em Paris por conta da Cátedra Simon Bolívar, IHEAL – Institut des Hautes Estudes de l’Amerique Latine - da Paris 3, que ocupei entre setembro daquele ano e fevereiro do ano seguinte.
Passar o Natal longe da barulheira que é o Natal na casa da dona Dolores é como se, naquele ano, não tivesse tido Natal. Essa festa imensa é regida pela batuta da Clélia. Antes, ela mesma comprava os presentes, escolhendo o que parecia mais adequado a cada um, de modo que, durante a festa, a mamãe fosse entregando. Depois, com o aumento gradativo da família, ficou estabelecida uma cota em dinheiro a ser entregue a cada uma das mães para que compre os presentes do marido e dos filhos e traga na noite de Natal afim de que sejam entregues pela mamãe diretamente ao presenteado.
Mesmo assim, ainda tem aqueles presentes das pessoas que trabalham no Camará, dos prestadores de serviços eventuais e de alguém que não estava no script e que resolveu aparecer. Para estes, Clélia vai ao centro da cidade, na Casa Girão - que ela deu um jeito de descobrir onde ficava, pois na nossa infância na Piedade, a única loja importante que tinha perto de casa, na Avenida Visconde do Rio Branco, era a Casa Girão - e compra um lote de camisetas em boa e resistente malha de algodão.
Mario Bag é um desses convidados que pode ou não aparecer no Natal e que, por isso, não tem presente garantido. Quando aparece pode escolher entre os mais variados tamanhos e cores das camisetas que ele apelidou de “Malhas Clélia”. Como, aliás, apelidou assim todas as obras sociais que ela lidera na família: Bolsa-Clélia, para os pobres da d. Dolores que mensalmente vão lá pedir uma ajuda; Programa Clélia de Valorização da Pessoa – ela sempre tem uma palavra de estímulo para seus amigos de facebook -, Expressobral – empresa que lidera excursões a Sobral e visita a seus pontos históricos. Super-Clélia, aliás, é um personagem criado por ele, sendo tema de várias aventuras em quadrinhos que circulam na família. Ela adora.

Manias (15/12/12)

“Mania é coisa que a gente
 tem mas não sabe porque/ 
Mania de querer bem, 
às vezes de falar mal/
Mania de só deitar 
depois de ler o jornal/ De contar sempre aumentado 
tudo o que viu e que fez/ 
De guardar fósforo usado 
dentro da caixa outra vez/ 
Eu tenho várias manias,
 delas não faço segredo/ 
Quem pode ver tinta fresca 
sem antes passar o dedo?/  De só entrar no chuveiro 
cantando a mesma canção/ 
De só pensar no cinzeiro 
depois da cinza no chão/
 Mania é coisa que a gente 
tem mas não sabe porque 
e das manias que eu tenho
 uma é gostar de você.” ( Flavio Cavalcanti)

Todo dia, quando vai dormir, mamãe se cobre com um lençol de algodão branco bem levinho. Ela verifica se a costura está para o lado de dentro e se não tiver manda virar, pois não tolera dormir com lençol pelo avesso. Que diferença faz se o lençol é todo branco? Não sei, é mania. Parece que seu pai, o vovô Piano tinha a mesma mania.
“Mania é coisa que a gente tem mas não sabe porque”, como dizia aquela antiga canção cuja autoria, me lembrou Mathilda Kovak, é do polêmico apresentador de TV dos anos 1960, Flavio Cavalcanti. Abro aqui um parêntese para os que nasceram depois. Flávio Cavalcanti tinha um programa na TV, “Um instante, Maestro!” que funcionava como um tipo de tribunal em que compositores e cantores eram postos em julgamento e, se condenados, tinham o disco destruído. Nunca esqueci da vez em que o Flavio Cavalcante quebrou o disco do Vicente Celestino que, creio, já era bem velhinho. Foi uma das cenas mais cruéis da minha infância e, apesar de Mathilda tentar me fazer consertar o passado dizendo que era tudo armação, não adianta. Fico triste só de lembrar dos olhos rasos d’água do Vicente Celestino. 


Eu não tenho várias manias como o personagem da música. Ou melhor, eu acho que não tenho. A única que assumo por conta de sua peculiaridade é uma que eu tinha quando era menina e que me acompanhou até a idade adulta: descascar paredes. Aquele tipo de parede sobre a qual a camada da tinta, talvez por já ter sido aplicada muitas vezes, se solta e racha. O prazer consiste em ir arrancando os pedaços. Se a tinta for plástica é menos bacana por que saem aqueles pedações de plástico ou não sai quase nada.


O bom é rachadura pequena na parede pintada com tinta comum, bem sequinha, que você vai tirando com a unha ou com a ajuda de algum objeto tipo espátula. E vai fazendo isto compulsivamente e com absoluta indiferença pelo fato de que a parede ficará horrível. Na infância, eu podia ficar horas arrancando os pedaços de tinta, deixando aquela sujeirada no chão e a parede exposta como um grande ferida. Na sala da Piedade, sobre um espaço assim fiz uns desenhos a lápis. Curiosamente, papai que se chateava com esse tipo de dano porque sempre sobrava para ele providenciar o conserto, deixou meus desenhos lá. Acho que gostou, ou pensou que eu levava jeito e ficou com medo de que, pintando logo a parede, eu me sentisse desestimulada para seguir uma possível vocação. Enfim, eu disse que tenho essa mania porque ainda hoje é um custo me conter diante de uma parede com aquele pedaço de tinta pedindo para ser arrancado. Fico com água na boca. Só não começo a descascar porque hoje seria eu e não o papai quem teria que mandar pintar.


Creio que essa minha mania é aparentada daquela que muita gente boa tem de ficar estourando bolhinha de plástico-bolha até doerem-lhes os dedos. De onde vem isto? Porque? Sei lá. Não serve para nada. Mas esse tipo de mania é quase coisa de foro íntimo, pois só quem convive com você no dia-a-dia vai descobrir. Manias complicadas são aquelas da conversação, aqueles cacoetes que a pessoa desenvolve sem notar e que se tornam um problema. Tem mania mais chata do que aquela das pessoas que antecipam o final da palavra que você vai dizer? Você está contando uma história e antes de terminar a frase seu interlocutor fala a última palavra ao mesmo tempo que você. Acho que isto é uma forma de ansiedade, uma espécie de vontade de ajudar o outro ou de fazer com que ele termine logo.


Mario Bag tem um amigo que quando conta alguma coisa que lhe aconteceu ou que fez cuja quantidade é incomum, inclui na narrativa uma pergunta do tipo: “Sabe quantas injeções eu tomei, sabe?” Ao que o interlocutor que, de fato, nem imagina, nem está tão interessado assim em saber, diz: “não” para ver se o amigo diz logo quantas foram. Mas aí é que está a parte maníaca da conversa. O narrador não se conforma e insiste: “chuta aí, chuta aí”. Você se recusa: “sei lá...” Ele insiste de novo: “Não: chuta aí, chuta aí, vai”. Esperando com a resposta encerrar o papo chato você chuta: “dez!” para ouvir o amigo contradizer triunfante, comemorando sua derrota: “quinze, meu camarada, quinze injeções.” Ou seja, fosse qual fosse a sua resposta ele ia dar um jeito de você errar, pois essa é a dinâmica da conversa dele.


De manias é feita a vida da gente. E, com o passar do tempo elas vão se tornando algo tão próprio da sua natureza que você até esquece que o resto da humanidade não age da mesma maneira. Nem todo o mundo acorda de manhã e corre para ler o jornal. Poucos são os que guardam fósforo usado dentro da caixa outra vez, (essa eu já tive mas foi por imitação, parei). Apesar de minha mania com tinta, jamais tive o impulso de passar o dedo em tinta fresca. 


Tive uma vez um namorado que, há vários anos, guardava jornais que pretendia ler um dia. As pilhas se acumulavam nos cantos da sala, nas gavetas e sobre a mesa, com aquela poeira preta característica que o jornal velho cria. Em curta temporada que passei na casa dele, resolvi dar uma organizada, aproveitei sua ausência e joguei boa parte daquela tralha fora. Foi um deus-nos-acuda e creio que contribuiu para o rápido desfecho do nosso relacionamento. Também, que mania essa minha de querer arrumar os papéis velhos dos outros quando nos meus ninguém toca? Tremendo autoritarismo. Há que respeitar as manias de cada um.