Sertão (22/10/11)

Te entrega corisco!/Eu não me entrego não./Eu não sou passarinho prá viver lá na prisão, Só me entrego na morte de parabélum na mão (Sergio Ricardo)

Acho que foi graças ao Beto, (Luís Roberto Vieira Costa) meu colega no cursinho do Farias Brito, que ouvi pela primeira vez esta canção. O tio dele, Valmik, tinha o LP com a trilha sonora de "Deus e o diabo na terra do sol" e a gente tanto ouviu que aprendeu todas. Inteligente, bem informado, com um extraordinário senso de humor, o Beto conhecia as canções de "Deus e o diabo" como também, creio eu, o roteiro do filme. Pois foi dele a ideia de encenarmos no sertão do Ceará uma peça baseada no mesmo roteiro. A apresentação seria em Madalena, distrito de Quixeramobim e sua terra natal. Os atores éramos eu, meu irmão, Fred e creio que a Clélia e a Vevé, Tereza Verônica, irmã do Beto, também participavam. Não me lembro de uma só palavra do tal roteiro por isso desconfio que não houve ensaio. Fizemos sim umas fotos, caracterizados de cangaceiros. Fred, então muito magro, vestido com um hábito de franciscano, fazia o papel de Antonio Conselheiro.

Houve uma apresentação, é certo. Mas tenho certeza que o povo de Madalena não conseguiu ouvir nem ver nada e também tenho a impressão de que nossa única incursão nas artes cênicas foi um retumbante fracasso. O elenco, canhestro, ficou completamente mudo e paralisado diante da plateia, bastante reduzida, que não tinha a menor ideia do que se tratava no palco. Dessa viagem só restaram umas poucos fotos e muitas boas lembranças em que se misturam as canções de Sergio Ricardo e as imagens do interior do Ceará.

Em Madalena tomei contato com aquela paisagem árida do sertão cearense. Terra de barro vermelho, sem nada em volta e que, na sombra das poucas árvores se experimenta um frescor incomparável. Era tudo muito seco no entorno da vilinha de poucas casas, umas de frente para as outras e umas poucas mais afastadas, esparsas. Numa delas viviam os pais do Beto. Ali tomei o melhor café, coado com canela e adoçado com rapadura, feito pela mãe dele. E em alguma casa vizinha comi doce feito de sangue de porco. Uma iguaria especialíssima, tão forte e tão gordurosa que hoje seria impossível de encarar.

Conheci ali um sujeito muito engraçado chamado Nemésio, o fotógrafo da cidade. Lembro até hoje da anedota que me contou. Disse que estava uma vez em Fortaleza, na praça José de Alencar, parou junto a um ambulante, comprou um pedaço de bolo e começou a comer ali mesmo. Apareceu então um conterrâneo que o criticou: "Mas, Nemésio, você comendo bolo no meio da rua, aqui, em plena Praça José de Alencar­­?". Ao que ele respondeu: "Havia bem de comprar um casa em Fortaleza só para comer bolo dentro dela..."

Foi a minha primeira viagem ao sertão da minha terra e de lá para cá não me lembro de nenhuma outra. O sertão que eu conheço é mais o das narrativas literárias do que o da experiência vivida. O sertão de "Morte e vida Severina" que vi na adolescência duzentas vezes em uma montagem no antigo teatro da EMCETUR, com o Bartolomeu no papel principal e creio que com um elenco que tinha também Olga Paiva. O sertão de Canudos e do Juazeiro que conheci apenas por causa de um trabalho de curso feito no primeiro ano da faculdade, na UFC, em torno de parte de "Os sertões", de Euclides da Cunha e, principalmente, do livro de Rui Facó, "Cangaceiros e Fanáticos".


Agora que tenho me interessado pelo tema me voltaram à lembrança todas essas fontes de inspiração e as imagens daquela viagem única e inesquecível. Viagem e experiência que me proporcionaram também o primeiro contato com o cangaço, assunto este que, como para todo o mundo de minha geração, foi conhecido assim dessa forma romantizada, poetizada pelas canções do disco de Sergio Ricardo. À estrofe que serve de epígrafe a este artigo seguia-se outra que dizia: "O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Está contada a minha história verdade-imaginação eu espero que o senhor tenha tomado uma lição que assim mal dividido este mundo anda errado que a terra é do homem não é de Deus\nem do diabo".

"Mais fortes são os poderes do povo!", era a frase exclamada no final da canção. E daquela mélange de elementos com que Glauber constituiu sua narrativa tão confusa, faziam parte tanto o misticismo popular, inspirado em Antonio Conselheiro quanto o cangaço, onde o herói guerreiro era Corisco. O misticismo levava ao conformismo e à inação. O mundo andava mal dividido e cabia a sertanejos como Corisco consertá-lo pela violência.

Só agora, fiquei sabendo um pouco mais sobre Corisco. Para se ter uma ideia de quem ele era basta que se diga que o então governador da Bahia, Juraci Magalhães conseguiu finalmente obter recursos para dar combate ao cangaço quando circulou no sudeste a historia da morte do delegado da vila de Santa Rosa, interior da Bahia, Herculano Borges. No dia 22 de setembro de 1931, Corisco capturou o delegado, pendurou-o pelos pés numa vara e com ele ainda vivo, retirou sua pele do corpo. Depois cortou-lhe as mãos, os pés e as orelhas, esquartejou-o e enfiou as várias partes do seu corpo em estacas.

Não sei que crimes terá cometido o delegado Herculano Borges, mas um sujeito como Corisco que conseguiu perpetrar ação tão bárbara, tão cruel e tão desprovida de humanidade contra outro, não merecia ter figurado como herói da minha juventude. Nada tira a beleza e o encanto da música de Sergio Ricardo, do qual continuo a ser fã. Não só nesse seu primeiro disco que conheci como na trilha sonora do seu lindo filme "Juliana do Amor Perdido". Essas coisas fazem parte da minha bagagem afetiva. Bagagem que, no entanto, na hora de contar a história como de fato aconteceu é preciso deixar de lado.

Heróis e bandidos (15/10/11)

Publiquei há pouco um livro sobre Lampião. Obra que me foi encomendada para uma coleção organizada por Lilia Schawrcz e Lúcia Garcia. A ideia da coleção é convidar escritores, jornalistas e historiadores para traçarem perfis de personagens da história do Brasil, contextualizando-os e propondo no final, alguma atividades a serem desenvolvidas em sala de aula pelo professor. Enfim, um livro paradidático que seja também agradável e útil para qualquer leitor que se interesse pelo assunto.

Há muito tempo eu tinha pensado em escrever um livro para crianças sobre Lampião partindo da história que mamãe me contou sobre a invasão de Cajazeiras na Paraíba. A história era muito boa, pois entre sustos e tiros, os cajazeirenses protegeram seus bens e suas famílias dos bandidos e enxotaram-nos da cidade. Mamãe sempre me dissera que, na verdade, o ataque fora levado a cabo por Sabino, cabra de lampião.

Quando me convidaram para escrever esse livro voltado para um público mais amplo, pensei em incluir a história que mamãe me contou. Ela tinha me dito que a invasão de cajazeiras tinha sido em 1928. Eu procurei e não achei nada sobre o assunto e, mais, vi que na data da suposta invasão, Sabino já tinha morrido.

Achei muita coisa sobre a invasão de Sousa, também na Paraíba e sobre o papel que Sabino desempenhara na mesma. Fiquei achando que mamãe se enganara, que com sua idade avançada talvez estivesse confundindo as histórias. Ou ainda, que o medo que toda a gente da Paraíba tinha dos cangaceiros era tão grande que a história que acontecera em Sousa passara a ser lembrada com tendo acontecido na própria cidade.

Mas foi aí que encontrei o livro do meu saudoso confrade de Sabadoyle, Ivan Bechara: "Carcará". Quando conheci o ex-governador da Paraíba e escritor Ivan Bechara na casa de Plínio Doyle, ele me disse que lembrava bem de mamãe e me deu um de seus livros. Não era "Carcará" e não me lembro se conversamos sobre aquele episódio nos poucos encontros que tivemos ali.

O romance dele relata minuciosamente a invasão, naturalmente incluindo elementos ficcionais. Está tudo lá e mamãe errara só na data: ela trocou o dia, 28, pelo ano, 26. De modo que mamãe tinha 12 anos e lembrava detalhadamente das sensações de pavor que tomou conta de Cajazeiras quando se soube que o bando tinha entrado na cidade. Sua irmã mais velha, Sinhá, tinha ido à igreja com os gêmeos recém-nascidos e ela ficara em casa junto com vovó Chaguinha, de resguardo, os irmãos mais novos e o pai, vovô Piano. Este queria a qualquer custo sair, mas foi convencido a ficar em casa por minha avó. O resto da história, com a corajosa e inteligente reação do povo de Cajazeiras ao ataque está muito bem contada no livro de Bechara.

Mas o que quero falar aqui é o que sempre soube e o que as pessoas da geração de minha mãe sabiam: os cangaceiros eram violentos, cruéis e impiedosos. E isto eu disse em meu livro sobre eles e sobre Lampião em particular. Não disse nada de novo. Em seu excelente livro sobre Lampião, publicado nos anos 1980, Billy Jane Chandler já havia refutado a tese de Hobsbawn sobre o banditismo social no que dizia respeito ao cangaço. Depois do livro de Chandler, inúmeros trabalhos foram publicados e, por mais entusiasta que se seja das teses sobre a necessidade da violência para mudar o mundo, essa extensa bibliografia já deveria ter consolidado a certeza de que não era de jeito nenhum o objetivo de Lampião mudar o mundo no sentido de melhorar a vida do pobre.

Lampião jamais roubou dos ricos para dar aos pobres, a muitos dos quais roubou, torturou e matou com requintes de crueldade. Sua motivação sempre foi pessoal e ele, desde a juventude, junto com os irmãos, se metera em várias brigas na vizinhança, fazendo seus primeiros inimigos entre essas pessoas às quais continuaria a perseguir pela vida afora.

De onde vem a crença de que esse bandido inteligente, astucioso e bom estrategista mas também violento e cruel era uma espécie de Robin Hood? Algumas pessoas que leram meu livro pareceram muito surpreendidas com essa constatação.

Estou convencida que esse mito foi construído no âmbito de uma certa cultura de esquerda que predominou no Brasil entre os anos 1950 e 1970. O fascínio por Lampião surgiu ainda durante o seu longo reinado. A imprensa sensacionalista, tal como ainda hoje faz com alguns bandidos, também contribuiu para fixar a imagem de Lampião, repercutindo seus crimes, batalhas e fugas mais impressionantes. Ela, junto com a literatura de cordel, ajudou a criar e a difundir toda a mítica que cercaria a imagem do cangaceiro rico, poderoso e invencível com o qual, certamente muitos moços pobres sonharam em se equiparar, vendo no cangaço uma chance de vitória sobre o triste destino que lhes estava reservado.

Mas foi só com a emergência da luta pela reforma agrária no final dos anos 1950, as famosas Ligas Camponesas, que o cangaço foi escolhido como símbolo maior da luta do povo sertanejo contra a opressão e a miséria. O herói redentor tinha que vir do meio do povo e, se a violência era o caminho legítimo para o sucesso da luta de classes, o cangaceiro tinha os elementos estéticos mais adequados para preencher a imagem daquele herói. A classe média urbana de esquerda com seu desconhecimento da realidade sertaneja sendo preenchido por imagens românticas da literatura, se traduziria em obras que buscaram sua lírica em elementos da paisagem da caatinga e em uma representação do sertanejo que era herdeira direta da descrição feita por Euclides da Cunha.

Se o sertanejo era antes de tudo um forte, concluía aquela gente bem intencionada, só podia ser com o objetivo de lutar pelos direitos de seu povo que ele se fazia cangaceiro. Quem ler com atenção a história de Virgulino Ferreira da Silva vai constatar que, infelizmente, não era bem assim.

A lição da Montanha (8/10/11)

Em "A Montanha Mágica", Thomas Mann conta a história de Hans Castorp, jovem herdeiro de uma tradicional família de comerciantes de Hamburgo. Mann relata sua infância, a história de suas perdas e de como, a partir delas, a morte passara a ter um significado todo especial para ele. Castorp era fascinado pela história de sua família, mas não via sentido em seguir a mesma profissão que seus avós; respeitava o trabalho, mas não tinha paixão nem interesse por ele. Esse desanimo diante da vida prática provocou o pequeno mal-estar que o levou ao Sanatório de Berghof, em Davos, nos Alpes Suíços.

O sanatório, uma instituição médica típica daqueles tempos em que a tuberculose ainda fazia vítimas fatais, é lugar de isolamento, onde os doentes devem se deixar estar em repouso, como se em férias permanentes estivessem. A grande diferença entre a vida no sanatório e a vida na planície era a forma como se usava o tempo. A economia do tempo no sanatório estava diretamente associado a dois fatores: a proximidade da morte, vivenciada como fenômeno natural, inevitável, liberando, com isto, os vivos dos compromisso morais que normalmente regulavam sua ação no mundo e a rotina do próprio tratamento, onde o repouso obrigatório, a espera do nada acontecer nos dias que escorriam iguais viciava e corrompia os organismos acostumados à disciplina do trabalho.

Aos poucos, a alegre irresponsabilidade com que a morte é encarada no sanatório, a sensualidade que permeava as relações ali, envolvem Castorp. A doença se lhe revela como a grande liberadora dos instintos. Alheio aos apelos de um mundo que perdera, ou que mesmo, nunca tivera encanto e significado para si, ele experimentava códigos novos, atitudes diversas e até mesmo contrárias a tudo o que se permitiria lá embaixo. Na planície, vivera sob a pressão da honra, mas no sanatório concluía que, apesar da honra oferecer consideráveis vantagens, a vergonha não as tinha menores, e que as vantagens desta última eram quase ilimitadas.

O italiano Lodovico Settembrini se empenhará em arrancar Castorp da vida ociosa que levava no sanatório para devolvê-lo ao mundo do trabalho, ao que chama de valores universais da humanidade. Settembrini, exalta a razão e o iluminismo e apela para os brios germânicos de Castorp, realçando o caráter enérgico e fleumático do povo alemão. Para Castorp, no entanto, fleumático e enérgico soavam como frio, duro e cruel. A morte era um elemento de sua natureza pois aprendera cedo a viver com ela. A vida parecia-lhe mais digna quando diante dela nos conduzíamos como que diante da morte: com respeitoso silêncio e contenção. É este argumento que agita em defesa de sua inércia e de seu desencanto do mundo.

O discurso de Settembrini é um chamado à vida contra a morte: a morte é fenômeno racional, fisiologicamente necessário e simpático, perder um tempo excessivo com a sua contemplação é roubar à vida o que lhe cabe. Para Settembrini, a morte só faz sentido como parte, complemento, berço da vida e não contra a vida. Caberia ao espírito soberano, com sua vontade livre que é quem determina o mundo moral, conservá-la em seu lugar.

Um pensamento mais organizado que o de Hans Castorp se erguerá contra o ideário de Settembrini. É o do judeu jesuíta Leo Naphta. Naphta defenderá a morte contra a vida, a doença contra a saúde, a tirania contra a liberdade, a religião contra a ciência, o terror contra o progresso. A seu ver a ciência não ensinara aos homens o caminho da felicidade, ela não respondera às questões essenciais da existência, todas as fórmulas iluministas teriam fracassado. Naphta ataca aqueles que querem curar o homem, obrigá-lo a "voltar à natureza".

Se no mundo das ideias, Castorp hesitava entre esses dois titãs, no plano dos sentimentos quem alterava os seus sentido era a russa Clávdia Chuchat. Na paixão/fixação de Castorp pôr Clávdia repete-se uma dicotomia que persegue grandes personagens da galeria de Mann: o apolíneo e o dionisíaco que se debatiam na natureza do escritor alemão filho de mãe brasileira. Clávdia é o outro, o estrangeiro, o que fascina e assusta, o que seduz e causa repulsa. É, ao mesmo tempo, o lado obscuro da alma do artista, algo que ameaça a estrutura aparentemente sólida dos valores germânicos que, na verdade, estaria suspensa sobre uma base bastante frágil.

É nessa paixão viciosa, irracional e inexplicável pelo outro, é no amor, com suas ambiguidades, com suas angústias, com seu lado de redenção e de danação que Castorp achará a saída. Castorp descobre que o respeito à morte e ao passado, que dominava sua a alma, não deveria se confundir com o repúdio à vida e ao presente, não poderia orientar o futuro sem se confundir com impiedade. O terror, tal como preconizado por Naphta, é o avesso do amor, da bondade. O amor seria a única força viva capaz de enfrentar a morte, derrotar o terror. Só ele, e não a razão, seria mais forte do que a morte; só ele, e não a razão, inspiraria pensamentos bondosos.

Mann começou a escrever "A montanha mágica" antes da Primeira Guerra Mundial e concluiu-o depois. Não é possível afirmar que o livro expresse ou antecipe até mesmo a situação da Alemanha, mas certamente ele reflete uma crise na aplicação do ideário liberal que orientava a vida europeia até então. No entanto, se o autor apresenta uma imagem caricatural destes, através do italiano Setembrini, não faz retrato mais favorável da opção conservadora e anti-liberal de Naphta. O neo-idealismo de Mann se traduz na opção de Castorp pelo amor. O apelo aos valores de humanidade encontrava seu lugar num mundo em frangalhos em que, nem a razão nem a tradição davam as respostas. A resposta para Castorp só viria em meio á barbárie da guerra: era preciso entrar em contato com o horror que o entrechoque das duas opções provocara para concluir que nenhuma delas, sozinhas, seria capaz de iluminar o caminho da humanidade.

Amigos quase familiares (1/10/11)

  Esta semana me ligou Maria Helena, neta de Pedro Ernesto Batista. Nos conhecemos desde o começo dos anos 1990 quando eu pensava em fazer minha tese de doutorado sobre o prefeito do Rio. Era em Ciência Política e eu ficara empolgada com a leitura do excelente livro de Michel Conniff. Cheguei mesmo a escrever um "paper" para um das cadeiras que cursava no antigo IUPERJ sobre a relação de Pedro Ernesto com Getúlio Vargas. Pedro Ernesto foi o cara que primeiro adotou as modernas técnicas de propaganda política e foi, no Brasil também um precursor do chamado populismo. Conceito e palavra de essência negativa com que implico pois acho que Pedro Ernesto e outros tantos tidos como populistas foram muito mais do que isto.

Maria Helena quer publicar um livro com imagens lindas Pedro Ernesto que fazem parte do álbum de família. Quer também que eu escreva algo, talvez até uma biografia, pois quando renunciei a tê-lo como tema de tese o fiz convencida de que, em termos de história política o livro do Conniff já tinha resolvido tudo e que o bom mesmo seria contar sua história. Mas, o problema é que hoje, meu Pedro é outro. Antecedendo a Pedro Ernesto, mais de cem anos: Pedro I e seu tempo a que tenho dedicado os meus estudos.

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Também na semana passada falei por telefone com Eduardo de Brito e Cunha, queridíssimo amigo que este ano completou 90 anos de pura alegria e vitalidade. Nos conhecemos através do filho dele, Oscar Henrique, meu colega dos tempos de Museu da República e por causa do pai dele, o grande caricaturista J. Carlos. Eu também quis escrever um livro sobre J. Carlos pois, no primeiro livro que publiquei, "Histórias de Presidentes", a maior parte das caricaturas é deste artista genial. Projeto que também acabei abandonando pois quando me preparava para adotá-lo como tema, descobri a imprensa da Independência e nela mergulhei e nela estou até hoje mergulhada. No entanto, publiquei sobre J. Carlos meu primeiro artigo em revista estrangeira (1985) e, creio que nele elenquei os temas mais importantes a serem trabalhados em sua obra. Assim mesmo, como a história da caricatura é algo que faz parte da minha trajetória acadêmica e sobre ela sempre sou convidada a falar, J. Carlos segue comigo.

Mas o que segue também é a amizade de Eduardo de Brito e Cunha que, desde aqueles anos 1980, quando pedi autorização para usar os desenhos de seu pai em meu livro, se tornou meu amigo. De vez em quando ele me liga para me consultar, vejam só, sobre pessoas que lhe pedem autorização para usar desenhos de J. Carlos. Aí conversamos longamente pois pouco vou a Petrópolis onde ele vive numa linda casinha, cujas paredes são cobertas de desenhos originais do grande artista. A casa de Eduardo é um verdadeiro templo dedicado à memória de J. Carlos e sua vida, desde que se aposentou do Banco do Brasil, não tem tido outro objetivo senão o de conservar o precioso acervo e atender aos que precisam consultá-lo.

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Já não vou mais falar com Aparecida Saramago, bela, elegante e delicada filha de José Madeira de Freitas, o Mendes Fradique. Aparecida morreu há poucos anos vítima de um câncer contra o qual lutou bravamente. Era ainda jovem para os padrões atuais, creio que tinha uns 70 anos. Conservava a beleza na pele muito alva, nos olhos muito claros, no nariz muito afilado e no porte delgado, altivo e bem proporcionado.

Nos conhecemos quando, depois de descobrir a "História do Brasil pelo método confuso" de Mendes Fradique, na biblioteca do Museu da República, eu ficara tão obcecada por ele que correra todos os sebos do Rio de Janeiro atrás de outras obras do autor. Em um deles, creio que no do seu Santana, na Marechal Floriano, o próprio me contou que o conhecera e onde ele morava, informando também que sua viúva ainda vivia. Fui bater lá na Tijuca, na casinha da rua Carlos de Laet, onde conheci, d. Maria Tereza, a velhinha mais bonitinha que já vi e sua filha, Aparecida. A acolhida foi carinhosa e elas ficaram muito contentes de saber do meu interesse por Madeira de Freitas, cuja vida alegre tinha terminado de maneira tão triste.

Demorei anos para escrever minha dissertação de mestrado e, neste meio tempo, morreu dona Maria Tereza, mas a amizade com Aparecida ficou. O livro foi publicado em 1992 e, no ano seguinte eu ainda consegui realizar uma enorme exposição sobre Mendes Fradique no BNDES. Aparecida ficou muito grata pois era o resgate da memória do pai que se achava esquecida. Ela dizia que eu era a filha mais nova de Mendes Fradique e fez questão de doar o pouco que restava de seus papéis ao Arquivo Museu de Literatura da Casa de Rui Barbosa.

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Também nunca mais vou falar com D. Iracema, a viúva do Nássara. Ela viveu uns poucos anos depois da morte dele e nossa amizade fora construída nas visitas que fiz ao Nássara em seu pequeno apartamento na rua Belisário Távora em Laranjeiras. D. Iracema era uma velhinha pequena, muito doce e muito gentil. Ao contrário do Nássara, cuja surdez tornava um tanto irritadiço, era de uma paciência infinita, talvez até para contrabalançar. Quando, depois da morte de Nássara, publiquei sua biografia, escrevi um capítulo sobre D. Iracema.

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Esses amigos feitos a partir da comunhão de afetos por um personagem - do meu lado afeto intelectual, do lado deles afeto familiar - acabaram se tornando de certa forma, meus parentes. Estamos juntos em todos os eventos que dizem respeito ao nosso morto querido; zelamos pela sua memória; nos injuriamos contra os que a desrespeitam e compartilhamos informações sobre qualquer documento novo que desconhecíamos e que é revelado por alguém de fora da "família". São ligações preciosas e tocantes que dizem muito sobre as infinitas formas que a amizade pode assumir.

Lembrança de Plínio Doyle (24/9/11)

  Tive uma vez um amigo importante que nunca se esquecia do dia do meu aniversário. Creio que foi, durante alguns anos, o primeiro telefonema que eu recebi nas manhãs do dia 23 de setembro, antes mesmo do de minha mãe. Chamava-se Plínio Doyle e hoje, passados quase onze anos de sua morte, quero relembrar sua figura simpática, inteligente e gentil.

Conheci Plínio Doyle na casa de Rui Barbosa por volta de 1985, quando eu ainda estava trabalhando em meu livro "Histórias de presidentes", que começara a escrever no Museu da República e terminaria na Casa. Plínio conhecia histórias e conhecia pessoas que tinham vivido as histórias. Ele também conhecia os livros onde eu poderia encontrar as coisas mais interessantes. Mas, eu não teria acesso a nada disto se o Plínio não fosse quem era: simples, acessível, bem humorado, sempre disposto a fazer novos amigos, independente da idade dos mesmos. Aos 79 anos, vítima de um AVC que o tinha deixado hemiplégico, ele estava todos os dias na casa Rui, no seu AMLB (Arquivo Museu de Literatura), que criara e ao qual dedicava boa parte do seu tempo. Logo eu era sua amiga e convidada para as reuniões do famoso Sabadoyle. O nome dessa reunião semanal, sempre aos sábados e na casa do Plínio fora inventado por um dos seus frequentadores: Raul Bopp. Nelas, se recuperava uma tradição antiga: a dos salões literários.

Advogado de grande prestígio no Rio, Plínio foi um obsessivo colecionador de livros e revistas raros. Sua coleção, hoje pertencente ao acervo da Casa de Rui Barbosa, cobre quase toda história literária do Brasil. Sempre ligado ao meio intelectual carioca, tendo sido colega na faculdade de Américo Jacobina Lacombe, Helio Viana, Octavio de Faria, Santiago Dantas, Antônio Galloti, Plínio aproximou-se de muitos outros escritores e poetas, depois de se tornar advogado do editor José Olympio. Assim, os encontros na livraria José Olympio, que ficava então no centro do Rio, passaram a ter um desdobramento nos finais de semana, em Ipanema, onde Plínio morava.

O Sabadoyle teve origem nas visitas que o poeta Carlos Drummond de Andrade fazia aos sábados a Plínio Doyle para consultar a vasta biblioteca do Plínio. Américo Jacobina Lacombe também aparecia por lá para rever o velho amigo e esses encontros, certamente muito agradáveis, foram se tornando um hábito. Aos poucos, agregaram-se outros amigos à sombra daquelas estantes acolhedoras: Raul Bopp, Pedro Nava, Joaquim Inojosa, Afonso Arinos, Alphonsus Guimaraens Filho, Prudente de Moraes Neto, Wilson Martins, Mario da Silva Brito, Silvio Meira, Ivan Bechara, Clara Ramos e muitos outros. As reuniões, propriamente, começaram em dezembro de 1964 na casa de Plínio, que ficava na rua Barão de Jaguaripe, número 62, em Ipanema. Depois ele adquiriu um apartamento no segundo andar do número 74, transferindo para lá a biblioteca de 20 mil volumes e as reuniões do Sabadoyle.

Como bem descreve outro frequentador, Homero Senna, ("Sabadoyle: historias de uma confraria literária", reeditado em 2000 pela Casa da Palavra), o grande charme daqueles encontros era o de ser um espaço da pura, simples, fantasista, descompromissada conversa. Para Wilson Martins, que sempre que vinha ao Rio batia ponto por lá, o encanto especial da reunião estava na absoluta espontaneidade e na ausência completa de pedantismo. Os que comparecem para brilhar mal podem esconder a decepção debaixo de um silêncio emburrado. De fato, o Sabadoyle não é um salão de preciosos pontificando sobre as próprias excelências; não é, tampouco, um viveiro de gênios autodesignados, repletos da própria suficiência.

As memórias dessa confraria literária puderam ser melhor recuperadas por Homero Senna graças à instituição do livro de atas. A primeira ata, feita em versos, foi do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e inaugurou o livro em onze de novembro de 1972. Logo instituiu-se a prática: depois do café com biscoitos, Plínio pedia silêncio e o autor previamente escolhido por ele fazia a leitura da ata. Eu creio que redigi umas duas ou três atas. A última delas em homenagem a Américo Jacobina Lacombe, que morreu em 1993 deixando tristes os amigos do Sabadoyle e os funcionários da Casa de Rui Barbosa, da qual era o presidente desde 1936.

Creio que, aos poucos, o desaparecimento de amigos queridos como Pedro Nava, Drummond e, finalmente, Lacombe, foram tirando o ânimo do Plínio para as reuniões. No entanto, quando morreu, em novembro de 2000, aos 96 anos, era perfeitamente lúcido e sua conversa continuava divertida e ilustrada. Visitei-o uma última vez naquele ano em sua casa e ele me contou histórias ótimas sobre Rosário Fusco que conhecera bem e sobre o qual eu não sabia nada. Por isso quando a gente perde um amigo assim, não perde só o amigo mas um verdadeiro tesouro de histórias e referências importantes acumulados e selecionadas pela sua privilegiada memória e pela aguda percepção que ele tinha do que foi interessante na vida que viveu, nas pessoas que conheceu e nos livros que leu.

Recorto do livro de Homero Senna, trechos de poema de Alphonsus de Guimaraens Filho, registrado em ata do dia 1º de outubro de 1975 por ocasião do aniversário do Plínio, para saudá-lo, hoje, onde quer que ele esteja (e espero que esteja junto com todos esses amigos acima citados) nas vésperas dos seus 105 anos de vida.

"Plínio, o Moço,

Plínio, o ameno,
Sorri com mansuetude contemplando
Livros que o contemplam.

(...)

De sua parte os livros lhe reservam

Sua ternura seca,
Sigilosa, mas plena de uma luz que alvoroça,
De um sossego tão bom de se viver.

(...)

Memórias diluídas

Como os dias que vão numa vertigem,
Cuidemos só de repetir a Plínio,
O Moço, Plínio, o Ameno,
Que, como os livros, todos
Lhe queremos um bem
Tão forte e vigoroso
Como - meu Deus, escapuliu-me!
Como a dose de anos que viveu".

Dores de amores (17/9/11)

Eu fico com essa dor / Ou essa dor tem que morrer/A dor que nos ensina/ E a vontade de não ter/Sofrer de mais que tudo/ Nós precisamos aprender/ Eu grito e me solto/ Eu preciso aprender/ Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser/ Sigo enganado ou enganando meu viver/ Pois quando estou amando é parecido com sofrer/ Eu morro de amores/ Eu preciso aprender.... - Luiz Melodia

Não fique triste, fique com tudo.

Dizem que este foi o conselho que Ivana Trump deu a mulheres que foram trocadas pelo marido por outra mais jovem ou não. O marido, no seu caso, era um biliardário e a vingança de Ivana consistia em tirar o máximo do que pudesse para ferir o traidor onde mais lhe doeria: na conta bancária. No entanto, o conselho também serve para quem não se separou de marido rico se pensarmos em um "tudo" metafórico.


Separar é sempre difícil. Para quem tomou a decisão, menos. Apesar da dúvida permanente sobre se era isto mesmo que deveria fazer, quem decidiu sair de uma relação está mais preparado para enfrentar o que vem depois. Afinal, antes de dizer que queria terminar, pensou, refletiu, apalpou-se bem. O outro, não. Sentia que não havia mais aquele entusiasmo inicial mas também não imaginava que as coisas chegassem a esse ponto. Ou talvez até imaginasse. Talvez até soubesse que era inevitável. Apenas como não era este o seu desejo, ficava, tentando ao máximo evitar situações de conflito para adiar o desfecho fatal.

Mas este dia chegou e você se viu sozinha, sem programa para o final de semana, sem aqueles telefonemas de final de noite, sem a companhia permanente dos últimos tempos: um enorme vazio a ser preenchido. Os primeiros dias são os mais difíceis e a tendência de procurar a causa em você mesma é grande. É porque sou feia; é porque sou gorda; é porque sou malfeita; é porque falo alto; é porque sou sem graça... Mesmo que nada disto seja verdade. Aí, na sequencia, a autoestima vai pro brejo. De um lado o "ninguém vai gostar de mim" e de outro o "nunca mais vou conquistar alguém tão especial".

Às vezes, você mesma nem achava isto tudo quando estavam juntos. Até achava ele meio tolo, meio chato e, naquelas fases em que ele era totalmente obcecado por você, precisava até mandá-lo passear de vez em quando para ter um tempinho só para você. Bem: agora que você tem todo o tempo do mundo só para você, que saudades. A tendência é buscar consolo para a dor e mergulhar em um frenesi de festas, encontros, namoricos rápidos. Mas isto não resolve e esses namoricos rápidos tendem a deixar a gente até mais infeliz. O ideal é mesmo viver um pouco o luto da separação e organizar a cabeça.

É preciso seguir em frente e a melhor forma de fazê-lo é solidarizar-se consigo mesma. Buscar em você e nas suas qualidades, no seu projeto de vida o conforto e a força para seguir em frente. Resgatar a boa imagem que os outros têm de você e, de todas as maneiras, evitar reencontros com o ex cuja imagem idealizada tem que ser desconstruída. Não é preciso transformá-lo em um vilão mas é preciso se convencer que ele não está com essa bola toda. Melhor ainda é preciso trabalhar para nem precisar disto pois vai estar pensando em outra coisa. Como na música do Lulu Santos: "Ainda vai levar um tempo/ Pra fechar / O que feriu por dentro/ Natural que seja assim/ Tanto pra você/ Quanto pra mim.../Ainda leva uma cara/Pra gente poder dar risada/ Assim caminha a humanidade/Com passos de formiga/ E sem vontade.../ Não vou dizer que foi ruim/ Também não foi tão bom assim/ Não imagine que te quero mal/ Apenas não te quero mais...".

Separações são boas para fazermos um balanço do que a gente realmente quer e do que a gente realmente é. Principalmente no começo da vida, quando não temos muita clareza de nada. Demora muito para a gente descobrir que jamais vai formar um todo com outra pessoa. Que ambos vão ser sempre individualidades em constante transformação e sujeitas aos apelos que o mundo lá fora oferece. Mesmo que se ame muito e se tenha a sensação de que se achou a cara metade, a possibilidade do fim paira sempre sobre qualquer relacionamento. Por uma ironia do destino, só depois da maturidade, com a vida definida, carreira estruturada e estabilidade econômica é que a gente está mesmo preparado para viver - não digo um grande amor, pois este é fruto justamente das angústias e expectativas da juventude - mas um bom e equilibrado relacionamento.

Que graça tem isto? Com vinte anos, graça nenhuma. Com vinte antes todas as sensações são intensas e definitivas e a pessoa é até capaz de morrer de amor. Sem mesmo pensar que o amor é apenas um somatório de questões a serem destrinchadas por um bom psicanalista. Questões que têm, às vezes, muito mais a ver com o nosso medo do futuro ou com o lugar que ocupamos no mundo. Então, a pessoa a que estamos ligadas representa um pouco a solução para as nossas inseguranças em quesitos que não têm a ver exatamente com o amor. E aí, a separação pode ser mesmo uma forma de nos fazer ver e de nos fortalecer. Nos convencer de que, apesar da tristeza, temos que seguir em frente. Ou melhor que, seguindo o conselho de Ivana Trump, fiquemos com tudo: tudo o que somos e com todas as nossas infinitas possibilidades. E para fechar com uma outra canção boa para essas horas, fique com Gilberto Gil e seu amor esotérico:

"Não adianta nem me abandonar/ Porque mistério sempre há de pintar por aí/ Pessoas até muito mais vão lhe amar /Até muito mais difíceis que eu prá você/Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais/ Até que nem tanto esotérico assim/Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais/ Mistério sempre há de pintar por aí/ Não adianta nem me abandonar (não adianta não)/ Nem ficar tão apaixonada, que nada/ Que não sabe nadar/Que morre afogada por mim".

O melhor dos narradores (10/9/11)

Como é bom conversar com Fausto Nilo.
 

Creio que se trata do melhor narrador que já ouvi. Daqueles que quando conta uma história prende sua atenção do começo ao fim. Lembro bem que, quando o encontrei pela primeira vez no Rio de Janeiro, em 1977, ele me impressionou pela habilidade que tinha de tornar agradável qualquer papo, incluindo temas inusitados e apresentando-os de uma forma ao mesmo tempo culta e divertida.

Fausto tem a economia precisa da boa conversa. Esta consiste em falar e deixar falar, comentando a fala do outro mas sempre acrescentando uma observação inteligente, bem humorada ou crítica, sem monopolizar a palavra. Estratégia eficaz pois a audiência, reconhecendo a superioridade do primeiro orador se impacienta esperando que ele volte ao domínio da cena. É o homem dos salões por excelência pois é nos encontros de gente escolhida que ele encontra o público que melhor aprecia sua cultura eclética e a maneira original com que elabora seus assuntos. Não se trata de um modesto, felizmente, pois penso da modéstia o que pensava Thomas Mann: é uma forma de hipocrisia. E o Fausto não é modesto, sabe do próprio valor - creio que soube desde muito cedo - e, por isso mesmo não precisa ficar alardeando seus feitos. Mas, quando é o caso, conta naturalmente episódios em que se distinguiu ou realça as qualidades de que mais se orgulha.

Sua fantástica memória também faz com que ele tenha um vasto acervo de histórias sobre a vida cultural de Fortaleza entre os anos 1950 e 1970, tempo e lugar em que fez sua formação. Ouvi-las é como passear ao lado do narrador por uma Fortaleza onde a vida se fazia essencialmente no Centro, no entorno da Praça do Ferreira. É participar de toda a ebulição cultural que marcou o movimento estudantil cearense entre o golpe militar de 1964 e o AI-5. É como sentar à mesa do bar do Anísio e tomar cuba-libre até o amanhecer, ouvindo as canções do Rodger Rogério e os impropérios do Brandão.

Por tudo isso Fausto predomina em qualquer conversa sem esforço, mesclando erudição, na medida certa (sem pedantismo), com anedotas e canções. Canções raras de um repertório nacional esquecido - pois é conhecer da MPB no que ela tem de mais recôndito - cuja beleza ele nos revela com sua boa voz sertaneja. Eu não sabia mas Fausto me contou que ele e Cláudio Pereira disputavam para ver quem conhecia mais músicas. Não qualquer música mas aquelas músicas antigas que ninguém no mundo jamais ouviu falar. De fato, eu ficava impressionada quando o Pereira saudava minha irmã com uma canção cujo tema era uma mulher com seu raríssimo nome: "Clélia, minha querida Clélia". Não sei se foi com o Pereira ou foi com o Fausto que ouvi "Nós era sete", cuja letra descobri depois ser de Antonio Maria. Sei que os dois gostavam da música e eu tentei, sem sucesso, achá-la na internet para incluí-la entre aquelas cerca de 700 canções que compõem a minha memorabilia musical afetiva e que se encerra sem incluir quase nada de novo nos anos 1980.

Na casa de Vera Duarte, no Rio, no final dos anos 70, ouvi Fausto cantar uma música da qual nunca me esqueci, que não ouvi mais em lugar nenhum e só agora achei no Google e que diz assim "Daquela peleja voltou um cacique/ Depois um caíque sozinho voltou/ Ao ver o caíque vazio vagando/ A virgem chorando tristonha falou/ Guerreiro vencido não temas a morte/ O amor é mais forte que o tronco do ipê!/ E foi altaneira guardar suas mágoas/ No fundo das águas do rio Tietê." Era kitsch mas era bonito às pampas e hoje penso como o gosto por esse tipo de canções sentimentais, cheias de gestos heroicos ou sofrimentos de amor me veio de ouvi-las cantadas por gente como o Fausto, como meu irmão Roberto Aurélio ou pelo ídolo maior da minha geração, Caetano Veloso, que ousara até ver (e fazer-nos ver) beleza em "Coração Materno", de Vicente Celestino.

Entre a adolescência em que seu parceiro constante foi Cláudio Pereira e o resto da vida em que seu grande amigo foi Augusto Pontes, Fausto definiu seus caminhos. Nunca foi como os dois um catalisador: alguém que tem sempre em torno de si seguidores, admiradores ou críticos. Cláudio e Augusto, esses dois grandes bruxos rivais que dominaram a vida cultural cearense das quatro últimas décadas do século XX, eram, cada um à sua maneira, gregários, espetaculosos, polêmicos mas totalmente vinculados a seus público e cenário. Diferente deles, Fausto, mais velho que o primeiro e mais novo que o segundo, foi sempre um indivíduo às voltas com seus próprios projetos, suas composições e sua família. Não formou uma corte de seguidores tem apenas amigos, parceiros, colegas e construiu com Silvia Parente um lar bastante acolhedor, ilha de tranquilidade alheia à trepidação da vida boemia, da qual só se escuta o eco distante.

Falo aqui de um amigo que conheci há mais de trinta anos e que, depois disto, fez em Fortaleza toda uma carreira como arquiteto - sua primeira e definitiva vocação profissional - enquanto eu fazia a minha de escritora e historiadora no Rio de Janeiro. Assim, quando de raro em raro, nos vemos, é para relembrar o passado e pouco falar do presente. Relembrar as melhores frases de Augusto Pontes; os episódios da temporada no Rio em que ele e Silvinha viviam cercados de músicos cariocas e cearenses; saber e dar notícias de gente daqui e de lá que não vemos há muito tempo. Mas confesso que me faz um bem danado quando amigos cariocas voltam de uma visita à minha cidade, falando com entusiasmo do Centro Cultural Dragão do Mar, obra de Fausto Nilo, poeta da arquitetura e da MPB, melhor contador de histórias que já conheci.

"Rempli de soi-même" (3/9/11)

Uma das coisas que mais desconcertam a gente nesta altura da vida é ver como pessoas que eram tidas como brilhantes no tempo da escola não cumpriram o que o destino lhes parecia ter reservado.

Como é que fulano, conhecedor dos clássicos, que discutia de igual para igual com o professor na sala de aula, não se tornou ele mesmo um mestre? Por que sicrano, cujas ironias e tiradas inteligentes nos impressionavam tanto, não concluiu aquela tese que prometia revolucionar o que até então se tinha escrito sobre o assunto? Por que beltrana, tão ensimesmada no tempo da escola, tão apegada aos livros, tão superior, não fez uma bela carreira e continua hoje gramando em pequenos empregos, vendo o tempo passar e os jovens ocuparem os lugares que lhe pareciam reservados?

Creio que há uma palavra para resumir bem a causa desses projetos frustrados de celebridade: presunção. A presunção de que a você está destinado um papel especial, de que sabe mais que os outros ou de que é capaz (e tem a obrigação) de fazer algo que seja realmente notável pode arruinar a carreira até dos mais talentosos. A presunção faz com que o sujeito crie expectativas elevadas sobre si mesmo, se imponha objetivos difíceis e até inalcançáveis e passe a crer que só aquilo o fará realmente digno de tudo o que esperam dele. Aí tudo o mais fica menor. Tudo o mais que faz parte da vida, do dia a dia de uma carreira, é pouco perto da grande missão à qual o sábio deve dedicar a vida.

E esse cotidiano dos pequenos trabalhos, das tarefas normais de uma carreira, são coisas a que o presunçoso tem muita dificuldade de se submeter. Aquilo não é para ele. Ele já nasceu pronto para um grande destino e não precisa passar pelas fases intermediárias para chegar ao topo. É o garoto que sonha em ser presidente da República mas não quer nem saber de se candidatar a líder de sua classe na escola. É o jovem ambicioso que se imagina diretor de uma grande empresa mas que não admite começar como estagiário. É a jovem doutora desempregada que não aceita começar em emprego que não lhe pague salário de acordo com o que acredita ser o que merece ganhar e que por isso fica fora do mercado.

E assim, o tempo vai passando e a grande obra ou a bela carreira a que estavam destinados não acontece. Pessoas que começaram muito depois deles, talentos medianos ou talentos genuínos que precisaram do trabalho para se revelar, seguiram suas vidas e fizeram mesmo surpreendentes trajetórias. Mas o presunçoso ficou travado porque nada do que empreendia estava à altura do que ele esperava dele mesmo. É um processo neurótico que faz com que o sujeito considere sempre o que fez aquém do que a sua suposta genialidade prometia e acabe por não fazer nada. Apesar disto, ou talvez por causa disto mesmo, ele tem sempre um comentariozinho irônico e depreciativo sobre a qualidade do trabalho de algum colega, sobre os dotes intelectuais de outro, sobre a visão de mundo de um terceiro. É como aquele tipo de crítico de arte que não cria nada mas que é implacável em seus comentários sobre a obra dos artistas.

Há, no entanto, que dividir os presunçosos em duas categorias. Existem aqueles a que realmente sobram talento, inteligência, brilho pessoal e que, por conta desse superávit primário, digamos assim, não investem na carreira, pois estão acostumados a ter tudo de mão beijada. A estes a vida pode pegar de surpresa mais adiante, diante da mesa do antigo colega que tanto ridicularizaram no tempo da faculdade, agora importante diretor de instituição de ponta na área em que ambos se formaram, a pedir um emprego.

Para esses, no entanto, sempre pode haver redenção, pois não há limites para a surpresa quando se trata de inteligência e talento. Como ouvi dizer uma vez no Ceará: talento é como açude arrombando, tapa um buraco aqui e outro se abre acolá. Ou seja, mesmo tendo sabotado suas enormes possibilidades, quem tem talento mesmo, pode até tardiamente superar a presunção e realizar uma grande obra. Pois fora a presunção que criara obstáculos entre ele e o seu destino. Presunção que se confunde com insegurança, pois mesmo o mais talentoso não tem ideia real de qual o tamanho de sua competência. Presunção que é também uma forma de imaturidade, de ingenuidade, de vontade de ver o mundo a seus pés.

Mas há o segundo grupo, o dos que pensam que têm inteligência e talento. Os dos meninos mimados, filhos de pais talentosos e que foram criados na convicção de que também o eram. O das moças que "se acham" e que estão só a espera de serem descobertas e que, por causa, disto não vão se meter em ofícios menores. É neste grupo que se concentram os mais amargurados, os mais frustrados, os mais indignados com o que a sorte lhes reservou, os que mais se revoltam ao verem colegas do passado ocupando lugares que acreditavam lhe estar destinados.

Diante dessas trajetórias não se pode deixar de pensar como a vida é tão menos grandiosa do que na juventude imaginávamos. De como uma carreira é feita das pequenas conquistas do cotidiano. De que é fazendo um pouco aqui e ali que se vai afinando a mão para um ofício e sendo reconhecido como alguém que faz aquilo bem e com responsabilidade. E que mesmo quem está em um bom momento na carreira não pode ficar "rempli de soi-même", como dizem os franceses. Ao contrário, é preciso continuar achando que ainda falta alguma coisa. Este é o impulso necessário para seguir em frente, porque tem sempre algo que a gente não sabe e pode aprender.

Mulheres de fases (27/8/11)

"Complicada e perfeitinha/ Você me apareceu/ Era tudo que eu queria/ Estrela da sorte/ Quando a noite ela surgia/ Meu bem você cresceu/ Meu namoro é na folhinha/ Mulher de fases."

A música dos Raimundos era bobinha e os versos são meio de pé-quebrado mas animaram muita festinha na década passada. E só agora me dei conta de como ela define bem algumas mulheres que conheço: "mulheres de fases", mulheres instáveis que mudam de sentimento de uma forma tão radical que desconcertam totalmente o sujeito apaixonado.

Na verdade, muita gente - homem ou mulher - é um pouco assim quando jovem. Conhece uma pessoa. Encanta-se. Teme não ser correspondido. É correspondido - que maravilha! Começa a namorar. Perfeição. Você não quer sair de perto e ele- que incrível - também não quer largar você nenhum segundo sequer. Que bom. Aí é que começam os problemas.

Foi rápido demais, fácil demais e intenso demais. Gastou logo. Um dos dois vai enjoar de tanto amor e outro vai ficar sobrando. Normal. Afinal a gente tem vinte anos e depois de umas tantas situações assim começa a ir mais devagar com o andor. Mas e quem tem 50 e continua na mesma?

Tenho algumas amigas assim: de paixões intensas, às vezes inconscientemente motivadas por interesses bem diversos das coisas do amor, cinderelas acima da idade que ainda acham que os homens podem resolver todos os seus problemas. Aí, quando conhecem algum que cabe na moldura apaixonam-se de imediato e não medem esforços para conquistar o objeto do desejo. Determinadas, acabam conquistando-o mesmo. No entanto, a intensidade do começo da relação é diretamente proporcional ao tédio que delas se apodera quando tudo fica estável, tranquilo, enfim, quando vira casamento. Conheço uma que, sendo uma linda mulher quando chega nessa fase, enfeia, engorda, se desleixa e mergulha em profunda melancolia, em total desânimo. A esse estado geralmente se segue um outro que é o da revisão crítica das qualidades do parceiro.

Nesse momento é que tudo se torna motivo de conflito entre o casal. Conflitos que, mesmo motivados por coisas insignificantes, se tornam inconciliáveis. Daí, o desejo de separação passa a ser nela um desejo tão intenso quanto o fora o desejo de união.

O outro não entende nada e insiste e sofre e se sente péssimo. Resiste a aceitar que tanto amor tenha se transformada em tanta rejeição. Mas o empenho da nossa heroína em se livrar do gajo tem a mesma intensidade que tivera o seu empenho em atraí-lo e ele acaba saindo de casa. É então que ela floresce, fica novamente bonita, magra, radiosa e feliz. Confiante e destemida monta logo uma nova casa, faz novos amigos e dentre eles, descobre outro cara que, nos garante, é a pessoa certa para ela, verdadeira alma gêmea pela qual logo se apaixona, a quem seduz, a quem convence de casar. Os amigos que já viram esse filme tantas vezes sabem que o ciclo todo vai se repetir.

Há uma variante que é quando a história se repete com o mesmo homem. E isto, em geral acontece quando ele, que se separara triste e com a vida desorganizada, começa a se recuperar e a sair com outra pessoa. É então que nossa amiga enlouquece. Pois algumas mulheres inverteram o velho jogo masculino da traição.

Têm uma vida sexual animada por muitos casos, namoros, etc. sem prejuízo da ligação duradoura e estável com a pessoa com a qual estejam realmente envolvidas. E não se trata de relações abertas pois uma coisa que esse tipo de mulher não suporta, nem perdoa é traição. Por algum mecanismo inexplicável ela, mesmo tendo sentido por ele, pouco tempo antes, total repulsa, não suporta a ideia de vê-lo nos braços de outra. É quando descobre que nunca deixou de amá-lo e vai a luta para trazê-lo de volta.

Aí, vale tudo, lágrimas, sedução, chantagem... Se houver filhos no meio, eles - os mesmos que antes precisavam que o pai saísse de casa pois não aguentavam ver as brigas - agora, segundo ela, estão sofrendo muito com a ausência do pai.

O sujeito resiste. Gato escaldado não quer sofrer de novo e tenta evitar de todas as maneiras ser novamente atraído para a mesma armadilha. Mas a força de vontade da mulher de fases é impressionante e ela vence mais uma vez. A história podia terminar aí, não é mesmo? Final feliz. Mas não é assim com essas mulheres, elas podem repetir esse script uma infinidade de vezes com o mesmo par ou com outros pares. Podem organizar a vida toda em torno desse amor (montar apartamento ou mudar-se para a casa da outra pessoa) para, em poucos meses, descobrir que não é nada disto, se separar e organizar rapidamente a vida em outra casa.

Pareceria apenas um jogo egoísta se, do lado das mulheres de fases, não houvesse também um dispêndio enorme de energia, de sofrimento e mesmo de recursos materiais. Pois a cada casamento e a cada separação, são móveis e eletrodomésticos que ficam pelo caminho. Fora a vida dos filhos, alterada, instável marcada pelas tantas mudanças de casa e de presença masculina ao lado da mãe. O que me espanta nesse movimento de eterno retorno não é tanto o egoísmo da situação mas a incapacidade de aprender com a experiência.

O desconhecimento dos próprios mecanismos internos e a compulsão que leva a tentar de novo e a mergulhar de cabeça, confiando que desta vez vai ser diferente. A paixão vivida assim é como uma droga de cujo prazer não se consegue privar mas que, quando o efeito vai passando precisa-se imediatamente de outra dose.

Félicie e o comissário Maigret (20/8/11)

Uma das últimas novelas de Simenon que li tendo o comissário Maigret como protagonista foi "Felicie est lá". A trama é um pouco confusa mas, como em outras novelas de Maigret, ela tem menos importância do que a construção dos tipos, do que o ambiente em que o crime aconteceu e do que a história que o antecedeu. A necessidade que Maigret tem de mergulhar profundamente na cena do crime e de se confundir tanto com os investigados a ponto de poder entender exatamente suas motivações é que compõem quase todo o corpo da narrativa. E são ainda as reações do próprio Maigret, seus humores variados, seus silêncios que lhe dão a maior parte da graça.

Em "Felicie est là" todo o enigma a ser desvendado por Maigret se concentra no personagem feminino que dá nome à novela. Esse personagem que tanto irrita Maigret, que tanto lhe parece ridículo nos primeiros contatos, vai ganhando consistência sem que altere um só aspecto de sua peculiar personalidade. É o comissário que, de um momento para outro, se vê envolvido e fascinado por aquela empregadinha de 24 anos, sempre maquilada com uma mistura de pó e rouge mal distribuída e vestida de forma ridícula: "aux vêtements baroques". Com seus ares soberanos, toda vez que fornece alguma informação, Félicie, verdadeira estátua da indignação, o faz de "très haut", como a mulher de Cesar que não pode ser nunca suspeitada.

Magra como um aspargo, reta e dura como uma tábua de passar, com um nariz pontudo que dava ao seu rosto um ar meio caprino e com sua voz aguda, o que distinguia Félicie de outras jovens domésticas era a atitude. Félicie não admitia que fosse considerada apenas como a empregada do falecido patrão, deixando no ar a suspeita de que talvez fosse, na verdade, uma filha não assumida. No modesto "bal musette" que frequentava nos finais de semana, enquanto tomava sua limonada, sempre com o dedo mindinho levantado, procurava dar a impressão que estava ali incógnita, como uma condessa disfarçada ou algo assim. Por isso as pessoas do pequeno bairro residencial, espécie de novo condomínio nos arredores de Paris, onde ela vive a chamam de "princesa" ou, por conta das roupas extravagantes que costuma usar para se distinguir das outras mocinhas de sua classe: "la perruche" (periquito). No entanto, as investigações comprovaram que Félicie era um dos sete filhos de um bêbado e de uma lavadeira de Fécamp - lugar miserável cuja descrição corresponde a uma de nossas favelas - que vivera ali até ser admitida na casa na qual era, de fato, empregada.

O que irrita Maigret em Félicie é a permanente encenação. Tudo nela parece fake, teatral e exagerado. Na cena em que se debulha em lágrimas verdadeiras, queixando-se da perseguição que sofre por parte do comissário, ele sabe bem que ela escolhera o lugar, o momento e a pose adequada para tentar mais impressioná-lo. No entanto, o modo como essa sentido de teatralização se confunde com a própria realidade de Félicie só se revela para Maigret quando vê sua reação diante da notícia de que o rapaz que amava tinha sido ferido. Realmente emocionada, Félicie pede a Maigret que a acompanhe ao hospital para vê-lo.

Quando reaparece na sala para sair, está vestida em luto completo, com um enorme véu negro, sob o qual se via seu rosto lívido, pois estava coberto por uma camada espessa de pó de arroz muito claro que dava a ela algo de fantasmagórico. Durante a viagem de trem ao centro de Paris, ela é a expressão do sofrimento contido. Imóvel, hierática, a imagem da dor, com um olhar perdido na distância, era visível, diz o narrador, que desejava que se pensasse dela: "Meu Deus, como ela sofre... e como se domina".

Félicie tinha um senso muito particular da mise en scène. Antes de chegar no hospital, ela insiste em comprar uvas, laranjas, champanhe e um enorme bouquet de lilases para oferecer ao enfermo. Pouco importava que ele não pudesse consumir nenhuma daquelas coisas. Era o gesto que contava: o espetáculo dos grandes cachos de uvas violeta, das laranjas maduras e perfumadas, da garrafa coberta de papel dourado... Ela faz questão de fazer sua entrada triunfal na enfermaria carregado todas aqueles pacotes de coisas caras e exóticas. A cena provoca risos abafados no corredor. Ainda mais porque Felicie, em mais um gesto teatral, possivelmente copiado de algo que vira no cinema, diz a uma das enfermeiras: "Faça tudo que puder para salvá-lo. Não meça despesas. Tome". Entregando-lhe uma nota de mil francos bem dobrada.

Maigret não zombava mais dela. Prestara-se a acompanhá-la pelas ruas de Paris e no hospital como um pai benevolente. E, no entanto, reconhece o narrador, ela nunca tinha sido tão ridícula como naquele momento. Mas, como então compreende Maigret, toda aquela sofisticação encenada, a vontade de se elevar acima dos demais, de ser alguém que se destaca, mesmo correndo o risco do ridículo, de alguma forma é a força que impulsiona meninas como Félicie.

Quantas "Félicies" não conhecemos ao longo da vida? A menina que "não se enxergava" como a gente dizia. Aquela que, apesar da origem modesta, tem o gosto das coisas raras, das roupas e dos ambientes suntuosos. A moça pobre do interior, de nariz empinado que, apesar de não ter nada a seu favor, "se achava", como se diz hoje. Não só "se acha" como encena todas as suas atitudes para que os outros também "achem" algo dela. Lembro como considerávamos isto quase uma afronta. Aqueles arremedos de Blanche Dubois nos despertavam os sentimentos mais inconfessáveis. E, no entanto, em muitos casos, a determinação com que elas se empenharam no papel produzia, no final, um curioso fenômeno: a menina pobre, feia e malfeita transformar-se em modelo de verdadeiras sofisticação, elegância, charme e, até, beleza. Superando a caricatura inicial com que mimetizavam os modelos - ou as sínteses dos vários modelos - que as inspiraram no começo, elas acabaram por se converter realmente em princesas.