Um longo caminho (6/7/14)

Um poeta moderno fez uma versão da “Oração aos moços” de Rui Barbosa, em que ele fez seguir a sentença  que se tornou clássica “de tanto ver triunfar as nulidade”  por vários pontinhos e completou “criei alguma esperança”. De fato, quando a gente olha um universo vasto de celebridades construídas a partir de obras medíocres ou mesmo de obra nenhuma, graças a uma série de fatores que levam ao sucesso, pensa que deve ser fácil. Que se fulano que não é tão bom quanto eu está lá no alto da escada, o lógico é que eu não só o alcance mas que até o ultrapasse. Mas, não é. O sucesso se faz da soma de muitas variáveis que podem ou não incluir talento mas também uma boa dose de sorte e de senso de oportunidade. Mas o sucesso é também algo fugaz que pode abandonar seu portador a qualquer momento. Basta pensar nas celebridades de capa de revista de verões passados e que hoje quando alguém lembra delas mal conseguem figurar em sessões do tipo “por onde anda”.

A busca do sucesso é em si uma tarefa inglória e muitos filmes bons já resultaram das estratégias que aquele que quer ser famoso adota para chegar lá. Acho que o mais marcante para mim é o filme em que a aparente vilã Bette Davis contracena com a suposta inocente mocinha Anne Baxter. No Brasil passou como título de “A malvada” e é sensacional a surpresa que a gente tem ao longo da fita ao constatar a inversão dos papeis. A cena final da mocinha/vilã recebendo o Oscar por sua atuação como atriz e agradecendo emocionada à outra é uma das melhores da história do cinema. Mas esse artigo não é sobre esse tipo de dedicação e investimento que se vale de golpes baixos para obter o que almeja. Nem para outras atitudes mais imediatas e radicais de quem, para aparecer na mídia, faz qualquer negócio, até escândalo. Tudo para alcançar aquela sensação agradável de chegar a algum lugar e ser logo reconhecido pelo porteiro, pelo garçom, pelas pessoas em volta e de ser saudado, homenageado, bajulado.

Se este desejo é mais evidente entre os que fazem parte do show business, não é muito diferente para os que buscam o sucesso através do reconhecimento de uma obra literária ou científica. Chegar lá, achar a cura de uma doença incurável ou a formula matemática que levará ao Nobel; desenvolver a tese que mudará os rumos de uma área do conhecimento; escrever o livro premiado, etc. Enfim, todas essas fantasias que habitam a mente na juventude de qualquer pessoa em qualquer carreira. São fantasias legitimas e representam estímulo para continuar.

Acontece que, ao contrário do que pode fazer alguém famoso ainda na infância, como no cinema ou na TV, nessas outras áreas, o sucesso costuma ser o coroamento de uma longa vida de trabalho. O fato é que se quem é bom já nasce feito, o investimento nas qualidades inatas ao longo da vida é que garante a realização do valor inicial. Quantas pessoas brilhantes não conhecemos no colégio e na faculdade e que hoje, depois dos cinqüenta, constatamos que nada realizaram daquelas promessas que pareciam anunciar no seu alvorecer? Eram talentos e vocações que não se concretizaram por falta de investimento. Ao mesmo tempo, pessoas menos brilhantes, colegas apagados que não se destacavam em anda além do tanto que se dedicavam aos estudos, fizeram excelentes carreiras. A meu ver a verdade ainda está naquele lugar-comum que diz que uma carreira faz-se mesmo com 10% de inspiração e 90 %. É o trabalho que garante a construção do “self” em todas as suas potenciais dimensões.

Por isso, eu que antes via com um certo ar crítico a mudança que vem ocorrendo modelo da formação acadêmica no Brasil, a partir dos anos 1990, tendo a rever essa posição. Antes da nova política, as teses de mestrado e doutorado se arrastavam por anos pois seu autor estava construindo uma obra definitiva que deveria  marcar época. A tese de doutorado então, devia ser o ponto culminante de uma carreira, de modo que seu autor devia mesmo dedicar décadas à sua produção. Esse tempo elástico, no entanto, em que o doutorando ficava entregue a si mesmo, sem data final para concluir o trabalho, mostrou-se contraproducente. Muita gente boa passou anos no exterior e voltou de lá sem a tese e sem nenhuma perspectiva de concluí-la.

O novo sistema incluiu também uma cobrança maior sobre o aluno desde seu ingresso na universidade. Hoje, o estudante de graduação está envolvido em projetos de pesquisa; é obrigado a apresentar trabalho em seminários e congressos; a completar a formação pela presença em cursos e eventos extra-universidade. Com isto, desde cedo, ele obtém a consciência da importância de investir na carreira. A entrada na universidade é hoje, de fato, uma entrada no mundo do trabalho, uma entrada no sistema. No bom sentido. A união da atividade de ensino com a de pesquisa se tornou um fato no Brasil e, não se pode negar que o resultado foi positivo. Apesar das queixas contra o excesso de trabalho que resultou da mudança, o professor universitário de hoje é muito mais dedicado e produtivo do que os de antigamente. Suas carreiras ganharam um sentido maior a partir do esforço investido na pesquisa ao lado dos alunos.

E isto nos leva ao começo desse artigo. Neste sistema não triunfam as nulidades. O que vence mesmo é o esforço continuado e a consciência de que, quem está no começo da escada, tem muitos degraus pela frente. O negócio é olhar lá para o alto sem perder de vista o degrau em que se está pisando. Talento ajuda mas o que vai mesmo definir o sucesso é a dedicação ao trabalho no dia a dia. Como o sucesso é relativo, fugaz e incontrolável, o jeito é ir trabalhando mesmo. Quem sabe, um dia desses, você não dá sorte e se torna o gênio que confirmou que há mesmo vida em outros planetas?

Verdades verdadeiras (30/8/14)

Quando a fisioterapeuta lhe perguntou pela quinta vez por que não abria os olhos durante os exercícios, mamãe lhe respondeu irritada: "para não ver cara feia". Respostas assim e um beliscão de vez em quando é o que recebem as moças que fazem parte do verdadeiro exército que todos os dias atende mamãe depois que ela quebrou o fêmur, há cerca de um ano. Fisioterapeuta, massagista, fonoaudióloga, cuidadoras, além do pessoal que já a atendia antes, passaram a fazer parte da sua vida e a obrigar ou a ajudar a fazer coisas que durante toda a vida fez sozinha. Independente e altiva, mesmo durante os anos em que precisou de andador para se locomover pela casa, ela certamente se ressente da dependência que nunca teve de ninguém, nem do marido, nem dos filhos.

Mas a verdade é que os comentários irônicos sempre fizeram parte do seu estilo. Kiko, filho mais velho do Lustosa e que está sempre ao lado dela é o alvo privilegiado de suas ironias. Uma vez quando nos preparávamos todos para subir a serra de Guaramiranga onde íamos passar o final do ano, ele comentou que também ia ficar fora. Ia na casa da mãe, depois na casa da avó e depois visitar um tio, tudo em Fortaleza. Mamãe comentou com um muxoxo de pouco caso: grandes viagens. O mesmo disse quando constatou a modéstia de presentes ganhos por alguém diante dela: grandes presentes. A um filho que, hospedado na casa dela há alguns meses, anunciou a próxima partida, jogando um verde para verde para ver se era convidado a permanecer: "acho que já demorei demais", ela disse apenas: "você é que está dizendo". Diante de um casal muito acima do peso que dançava diante dela em uma festa de família, fazendo graça para animá-la comentou: "estou aqui pensando qual deve ser o tamanho da cama de vocês".

Não que tenha maus modos. Ao contrário. É um senhora muito distinta, discreta e elegante, que sempre se apresenta bem, fala muito baixo e é muito simpática. Vendo-a agora mais fragilizada, lembrei de meu pai que não admitia que lhe chamassem de "velhinho". Velhinho, não, - dizia ele - velho. Mamãe é uma velha senhora, cuja boa estrutura física, os ossos longos e pesados lhe dão, mesmo numa situação de fraqueza, um ar imponente. Basta botar uma roupa bonita, pentear o cabelo, maquiar um pouco e a temos com a melhor das aparências.

Essas pequenas frases cortantes, são lançadas assim, baixinho mesmo e aos poucos, com um tom rude mas nunca grosseiro. Sem chamegos com os filhos mesmo quando eram pequenos, estava unicamente preocupada em ver-lhes os cadernos, acompanhar os estudos, acordar todos para que estivessem na escola na hora certa. Tinha um sentido perfeito de economia doméstica. Quando eu era criança detestava que na nossa casa o sabonete e a pasta de dentes fossem os mais baratos daquele que se vendiam no mercado em pacotões promocionais. Detestava ter que levar na merenda da escola sempre o mesmo pão com goiabada. Achava minha mãe muito sovina, pois controlava tudo que era consumido na cozinha e não gostava que a gente levasse ninguém para comer lá em casa sem avisar. Só mais tarde, quando tive minha própria casa, com meu único filho para manter me dei conta da mágica que ela e papai faziam para dar alimentação, roupa e escola para treze filhos.

Lembro de uma vez que ela me falou a propósito de uma guloseima especial: coma com parcimônia. Aproveitei que era a primeira vez que ouvia aquela palavra, para provocá-la dizendo que ia comer e depois olharia no dicionário para saber o que era parcimônia. Ela achou graça. Quando reclamou que gastei dinheiro comprando um disco, um LP para a Clélia (era a "Matança do Porco") no tempo em que LPs existiam e custavam caro, eu disse, brincando: "ô, mamãe, mas bichinha queria tanto esse disco". Ela riu, porque sempre teve um extraordinário senso de humor e acho que foi esse senso de humor sempre nos manteve próximas, apesar de sermos de temperamento tão diferente. Eu sabia que ela me achava engraçada e usava um pouco de charme para ganhá-la nessas e em outras situações. Afinal, ser a caçula das filhas garante sempre alguns privilégios, não é mesmo, Lúcia, Socorro e Clélia?

Sempre que ia de férias a Fortaleza achava meus pais mais envelhecidos do que no ano anterior. Agora, com mamãe, na verdade me surpreendo de que ela continue tão bem, tão lúcida e tão forte em sua personalidade, apesar dos cem anos completados em junho. Da última vez em que fiquei com ela um tempo mais longo, as duas ali, em suas cadeiras de balanço, cochilando, lado a lado em frente a TV, senti um certo aperto no coração ao me despedir. Ela tinha ido deitar depois do almoço mas não estava dormindo. Ia só dar um beijo e dizer que voltaria logo mas ela puxou assunto.

Que privilégio conversar com ela ali, tão senhora de si mesma, emoldurada pela cabeceira da mesma cama na qual, desde que me entendo por gente, ela sempre dormiu. Móvel que faz parte de um conjunto de cama, guarda-roupa, dois criados mudos e uma penteadeira, estilo art-déco, de madeira clara e desenhos geométricos, estranhamente modernos, muito diferentes do resto da mobília, onde predominavam uns sofás e cadeiras escuros e cheios de desenhos elaborados ou a mesa e as cadeiras muito rústicas da sala de jantar.

Mamãe estava tão animada e conversadora que até me convidou para sentar na beirada da cama. Mas avisou logo: "eu não vou chorar". Ora, eu não esperava que ela chorasse, pois conto nos dedos as vezes em que a vi chorar. Achei a maior graça e provoquei: "Como não vai chorar? Eu acho que já está chorando sim, de saudades da filha caçula". E ela desafiadora: "Está vendo alguma lágrima aqui na cara?" Não, eu não estava. Eu é que precisei disfarçar os olhos rasos d'água de, a essa altura da minha vida e da dela, poder brincar assim, arengar assim, como a gente dizia antigamente, com mamãe.

Creio que em uma outra vida ela foi a minha melhor amiga no colégio.

O polêmico José de Alencar (8/8/14)

Duas vezes d. Pedro II se referiu ao escritor José de Alencar como teimoso: depois da estréia do escritor no Parlamento: “É teimoso esse filho de padre” e em 1877, depois da morte de Alencar, quando disse: “era um homenzinho teimoso”. Teimoso, virulento e ressentido, José de Alencar, maior escritor de seu tempo, era também um político corajoso que se envolveu em polêmica difíceis, remando contra a opinião predominante em seu tempo. Nascido em Messejana, filho do padre e Senador Alencar, um dos políticos mais importantes da primeira metade do século XIX, o escritor viu na infância, reunidos em sua casa, no Rio de Janeiro, os homens que, na campanha da Maioridade puseram no trono imperador de 14 anos. Imperador ao qual, apesar de monarquista convicto, combateria durante toda a vida pública.

 Alencar estreou na imprensa no “Correio Mercantil”, em 1854, assinando a coluna “Ao correr da pena”. Tinha 25 anos e seu sucesso foi imediato mas logo abandonaria o jornal porque um de seus artigos fora censurado. Iria para o “Diário do Rio de Janeiro”, onde publicou, em 1856, sob a forma folhetins, seu romance de estréia: “Cinco minutos”.

A primeira polêmica literaria a movimentar o mundo cultural brasileiro, teve início em 1856 e marcou o começo da antipatia mutua que caracterizaria as relacoes entre D. Pedro II e José de Alencar. Eram ambos jovens - 34 e 30 anos respectivamente - e queriam associar a imagem do Brasil à representação romântica dos nossos índios. No entanto, o eleito pelo monarca para produzir a obra que sintetizaria esse projeto fora Gonçalves Magalhães, cujo poema, A Confederação dos Tamoios, foi recebido como fundador daquele movimento. José de Alencar, então redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro, publicaria ali crítica questionando a qualidade literária da obra.

Foi assim que teve início a polêmica, em que, Manuel de Araújo Porto Alegre e D. Pedro II, ambos assinando seus artigos como “o amigo do poeta”, responderiam também pela imprensa as críticas de Alencar. Nas oito cartas que publicou, Alencar dizia, entre outras coisas, que: “o senhor Magalhães não só não conseguiu pintar a nossa terra, como não soube aproveitar todas as belezas que lhe ofereciam os costumes e tradições indígenas...". Em resposta, Porto Alegre diria que a critica estética era inoportuna porque o poema não era para ser apenas “um deleite métrico, um romance em verso, mas sim um fato moral”. O artigo escrito pelo Imperador chamava a atenção para o ineditismo da temática do poema o qual deveria ser lido “com a reverência dos que murmuram o Padre Nosso da nacionalidade”.

Politico atuante do Partido Conservador, Alencar publicaria no “Diário do Rio de Janeiro”, as “Cartas políticas de Erasmo”, relatando os problemas do país e criticando a participação na Guerra do Paraguai. Na série seguinte, “Novas Cartas políticas de Erasmo”, publicadas em 1867, adotaria tom mais agressivo acusando D. Pedro II de omissão diante de um sistema político viciado, onde, devido ao Poder Moderador, os governos eram sempre corruptos e decadentes. A atuação política do autor de “O Guarani”, o levaria ao Ministério da Justiça, em 1868, onde ficaria por pouco tempo. Candidato ao senado, Alencar foi o mais votado, mas pela Constituição, seu nome teria que ser aprovado pelo imperador que o vetou. Sentindo-se injustiçado, só restaria ao escritor resmungar contra as veleidades literárias do monarca: “Não seria muito mais feliz esse povo se seu defensor perpétuo (...) estivesse agora cogitando na difícil solução da situação financeira e perscrutando os males que nos afligem?”

No final de 1875, José de Alencar se envolveria em outra polêmica, desta vez com o então jovem Joaquim Nabuco. O criador da Iracema demonstrara seu descontentamento com a frieza com que fora recebida pela crítica e pelo público sua peça “O Jesuíta”. Crítica publicada no jornal “O Globo”, que nada tem a ver com o atual, atribuiria o insucesso da peça ao estilo ultrapassado de seu autor. Alencar respondeu pelo mesmo jornal com quatro artigos intitulados “O teatro brasileiro”. A esses respondeu Joaquim Nabuco com uma série de sete artigos sob a rubrica “Aos Domingos” em que se propõe a analisar a obra do escritor. A isto, Alencar responde com outra série de cinco artigos a que deu o nome de “Às quintas”.

Nabuco vinha de mais uma temporada na Europa e daria duro combate ao que considerava visão deformada da realidade brasileira presente na obra de Alencar. Este chamaria a atitude de Nabuco de “francesismo” e ressaltaria, caráter nacionalista e inovador de obra. Era um choque de gerações e de escolas literárias em que, no contexto da imprensa brasileira duelavam Romantismo e Realismo.

Em seu último artigo, Nabuco atacou a trajetória política de Alencar, lembrando inclusive  a defesa que o escritor fizera da escravidão. Alencar dera duro combate à Lei do Ventre Livre, projeto que fora elaborado pelo político do Partido Liberal, o Senador Nabuco de Araújo, pai de seu antagonista. Alencar considerou a lei um erro, pois libertando os filhos das escravas, não eliminava a escravidão e produzia “injustiça clamorosa” porque ensinava os filhos a desprezar os pais. Alencar encerraria a polêmica com curta resposta, não publicada nos jornais, alegando que sobre esses assuntos estava habituado a discutir com o pai de Joaquim Nabuco. “Seria sumamente ridículo que depois de ter-me batido com os mais ilustres chefes liberais, eu viesse perder o meu tempo com um projeto de candidato, ou como se diz em gíria eleitoral, com um filhote.”

Coerente com seu espírito combativo, o último jornal que Alencar publicou foi “O protesto”, interrompido no sexto número, com a morte do escritor, em dezembro de 1877.

Isabel, uma princesa sem encantos (12/7/14)

Outro dia me pediram para falar da Princesa Isabel em um programa de TV. Isabel não é muito a minha especialidade. As princesas que mais conheço são sua avó, Leopoldina, sua bisavó, Carlota e por decorrência de meus estudos sobre D. Pedro I, sua tia, a rainha de Portugal, d. Maria II. É que nos estudos sobre d. Pedro e sobre sua campanha pela retomada da coroa portuguesa para a filha mais velha, Maria da Glória, coroada como Maria II, encontrei alguns elementos para entender um pouco o que foi a infância dessa rainha que, desde pequena, tinha tendência à obesidade.

Mas conhecia o suficiente sobre Isabel, filha de d. Pedro II e de d. Tereza Cristina, pois estudara uma valiosa coleção de documentos pertencentes a Luciano Cavalcanti de Albuquerque, descendente da Condessa de Belmonte que foi aia de D. Pedro II e cuja família permaneceu estreitamente ligada à família do Imperador. Suas netas forma as amigas de infância de Isabel e da irmã dela, Leopoldina e existem muitas cartas da Princesa Isabel naquele acervo. Também li sobre sua atividade no processo que levou à Abolição, da qual ela saiu glorificada como redentora dos escravos. Já nas vésperas da Proclamação da República, nos momentos que antecederam o embarque da família real para o exílio, as referências a ela são relativas à mãe angustiada, temendo que não houvesse tempo para que os filhos que estavam em Petrópolis pudessem embarcar e para a filha dedicada, como sempre, cercando os velhos pais de atenção e cuidados.

Mas, no geral, a imagem que guardei de Isabel foi a da mulher sem brilho, pouco cultivada, conservadora, muito religiosa e extremamente apegada ao marido. Isabel nascera para ser filha, mãe e esposa, o poder seria para ela um fardo e, nas vezes em que foi Regente ela se ateve ao que lhe prescrevia o ministério. Só saiu fora da linha na última Regência, em 1888 quando agiu ativamente pela Abolição, rompendo com o ministério conservador e pondo em seu lugar os liberais que produziram a Lei Áurea. Mas, mesmo neste momento histórico de grande importância, quem agia mais era a mulher católica, ferrenha defensora da Igreja que, em um pronunciamento público juraria fidelidade ao Papa Leão XIII. Papa que, aliás, a condecorara com a Rosa de Ouro justamente por considerar que, assinando a Lei Áurea, Isabel atendia às orientações da Sé Apostólica.

No ótimo dossiê sobre a Princesa, que a Revista de História da Biblioteca Nacional lançou em maio de 2012 (ano 7, n. 80), artigos de Roderick Barman, Robert Daibert Junior, Pedro Correia do Lago e Augusto de Matos dão conta de aspectos que confirmam essas impressões. Barman chama a atenção para o fato de que a vida de Isabel se moldaria a partir de suas ligações com o pai e o marido, aos quais seria sempre obedientes. Apesar de não ser burra, diz Barman, a princesa não era uma intelectual e não recebera em sua educação qualquer conteúdo que a preparasse para um dia exercer o poder. Conservadora, Isabel considerava essas coisas como pertencentes ao universo masculino.

O conservadorismo da princesa se patenteiam em algumas das cartas dirigidas ao pai em que ela censurará justamente o comportamento excessivamente liberal do monarca. Os exemplos são do livro de Robert Daibert Junior, “Isabel, a Redentora dos escravos”, (EDUSC/FAPESP, 2004) que chama a atenção para carta em que a princesa questiona o pai por ter assistido a uma sessão do Parlamento Italiano, tomando a atitude de D. Pedro II como partidária dos inimigos do Papa. Na mesma missiva, a Princesa também ironiza a visita do pai a uma sinagoga: “Duas coisas não aprovo de sua viagem: esta ida ao Parlamento italiano e o seguir rezas na sinagoga que nem se fosse um judeu!”. Em outra carta, a princesa censurará ainda mais duramente a d. Pedro II pelo fato de ter visitado na Europa a escritora George Sand, “uma mulher de muito talento é verdade, mas também tão imoral!”.

Segundo Daibert, a princesa colocava a obediência à Igreja como prioridade sobre o juramento feito à Constituição. Em defesa da Igreja ela será mesmo capaz de questionar a absoluta liberdade de imprensa que foi uma marca do reinado de Pedro II. No ambiente tensionado que se formou entre a Igreja e a imprensa, antes e depois da Questão Religiosa (1872), ela tomaria claramente a defesa dos bispos contra a Maçonaria e questionaria a liberdade com que um jornal como “O mosquito” satirizava o Papa, os bispos e a Igreja católica de um modo geral. “A constituição também não diz que a imprensa é livre uma vez que não venha a abalar as instituições, a moral e a religião. O que eu estou vendo é que a religião do Brasil vai sendo a maçonaria.”

   No final da entrevista, me perguntaram o que eu de fato achava da princesa. Não cedi à tentação de produzir um elogio do personagem. Pois na verdade, quanto mais se conhece Isabel, mais se concorda que, se tivesse reinado não teria sido tão liberal e progressista quanto fora seu pai. Ao contrário, tanto nos costumes quanto na política, sua tendência era muito mais conservadora, e seu excessivo apego à Igreja Católica certamente teria conseqüências políticas. Daí, talvez, também a falta de apoio ao seu reinado tanto do lado conservador, insatisfeito com a Abolição, quanto do lado liberal que via nela a mulher de mente acanhada e conservadora cujo poder na verdade seria exercido pelo marido, o Conde D’Eu.

Boa mãe, boa filha e boa esposa, essas serão sem dúvida, as qualidades pelas quais a Princesa Isabel merece, sim, ser louvada, em um mundo de tão poucas qualidades. Talvez por conta delas, sendo uma mulher feia, sem encantos físicos, a ausência de sobrancelhas foi um dos aspectos que chamaram a atenção do futuro marido quando a conheceu, este, nem por isto, deixou de amá-la e de ser amado por ela durante os 55 anos que durou o casamento.

D. Pedro I no cinema (5/7/14)

Vão fazer um filme sobre d. Pedro e o galã escolhido para representá-lo é Cauã Raymond. Acho boa a escolha. Já vi o artista atuando em alguns filmes e ele demonstrou ser bem mais versátil do que lhe permitem as novelas da televisão. A idade e o tipo físico também ajudam. Como d. Pedro começou a reinar muito jovem, com 22 anos e morreu muito cedo com 36, me parece que o Cauã pode facilmente aparentar uma ou outra idade. Vai ser preciso fazer um emagrecimento radical para representar o imperador em seus últimos dias. D. Pedro começou a perder peso já em 1832, nos primeiros meses de sua participação efetiva na guerra contra o irmão, d. Miguel, possivelmente por conta da doença (tuberculosa, agravada pela sífilis, suponho) mas também pela dificuldades que enfrentou no Porto. Mas no geral, d. Pedro manteve sempre boa forma física – apesar da tendência a engordar que herdara do pai – a constante atividade em que vivia e o gosto pela vida militar e pelas cavalgadas garantiram que, quando ele desembarcou na Europa em junho de 1831 fosse descrito como “un fort bel homme”.

Dos retratos que chegaram a nós de nosso primeiro imperador os que, certamente, melhor dão conta da realidade de suas feições são os que foram feitos em Paris. Nas gravuras em que aparece sozinho ou com a filha, d. Maria II e a ex-imperatriz, d. Amélia, o que se vê é um sujeito moreno, de feições um pouco brutas, lábios carnudos e bochechas salientes onde se identificam algumas marcas de varíola. Aliás, a parte debaixo da fisionomia lembra um pouco a de outro galã brasileiro que já o representou: Marcos Palmeira. O mais importante, no entanto é que, ao lado da aparência, o ator consiga captar a personalidade contraditória do imperador. Seu estilo popular, a facilidade com que interagia com o povo das ruas, chegando até a uma certa vulgaridade, o gosto pela anedota, a sensualidade exaltada. Tudo isto associado a uma hiperatividade, a um temperamento autoritário, muitas vezes, irascível, chegando até à violência. 
  
Quem for fazer o filme não vai haver dificuldade para encontrar entre tantas uma bela atriz que corresponda à jovem imperatriz, Amélia, mocinha de 17 anos e de reconhecida beleza. Nem acho que vá ser muito difícil achar alguém para compor a corruptíssima Marquesa de Santos que, apesar de descrita como muito gorda por alguns viajantes estrangeiros, tinha fama de charmosa, sedutora e interessante. A gordura aliás era, no Brasil do começo do século XIX considerada elemento positivo. Dizia-se: dai-me gordura e te darei formosura.  Não o era, no entanto, na Europa, especialmente na Áustria, onde d. Leopoldina era muito criticada por sua tendência a engordar. O assunto era sério e da gordura da arquiduquesa até Metternich se ocupava. Daí o alivio de d. Leopoldina quando viu que por aqui a gordura não era mal vista e ela nunca mais se importou com esse assunto. Seu problema é que ao engordar acentuavam-se características negativas de sua fisionomia: o pescoço largo, a papada, os ombros, as bochechas e os lábios grossos. Traços que o mau retratista Debret deixou fixados em um perfil francamente desfavorável à imperatriz.

 Mas Leopoldina é mais complexa do que isto. Ela era inteligente, sensível e sofisticada. Tinha uma alma gentil e caridosa e fora educada no ambiente privilegiado do romantismo alemão, convivendo com Goethe e Schubert. Sua ação decisiva em momentos importantes do processo de nossa Independência tanto nos dias que antecederam ao Fico (9 de janeiro de 1822) quanto nos dias em que governou o Brasil como Regente, ocasião em que d. Pedro, estando em São Paulo proclamou a Independência, revelam uma mulher capaz de entender a grandeza e a complexidade do momento que o país vivia e qual o papel que lhe estava destinado naquele contexto.

O que veio depois, a ascensão da mediocridade e do anti-patriotismo representados pela marquesa e seus amigos, em detrimento de Leopoldina e José Bonifácio, provocaram o quase apagamento da imperatriz da cena pública. Circunstância que foi agravada, no plano intimo, pelos sofrimentos, humilhações e agressões físicas de que foi uma vitima quase silenciosa, por estrito sentimento do que considerava como um dever inerente às suas funções como imperatriz e, de certa forma, como representante dos interesses da Áustria no Brasil. Que jovem atriz – pois Leopoldina morreu com 29 anos -  seria capaz de ajustar a suposta feiúra, atribuída por alguns, à essa princesa, à delicadeza de seu espírito e à superioridade natural que emanava de sua pessoa?

Mesmo que a maioria não a descrevam como bonita há quem a visto como bela e imponente. A beleza dos seus olhos foi exaltada por outros tantos e seus retratos de juventude, feitos ainda na Áustria a apresentam como uma loira e rosada menina, de aspecto muito agradável. A meu ver a atriz que mais se aproximaria do tipo, por conta dos olhos, dos cabelos e do tom da pele, se não fosse tão magrinha e tão pequena, seria Camila Morgado. Também acho que essa excelente atriz seria capaz de captar o espírito da personagem. Quem sabe se ela não topa engordar uns quilinhos para entrar na pele de Leopoldina?

Na verdade, tudo isto vai depender do tratamento que quem for fazer o filme vai dar ao tema. Desde 2008, quando aconteceram as comemorações do bicentenário da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, o tom que tem sido privilegiado nas narrativas ficcionais tem sido o da comédia, como já o fizera Carla Camurati, em “Carlota Joaquina” (1995). Confesso que nunca tive por esse filme nem o entusiasmo que ele despertou quando surgiu, nem o desprezo com que, justamente a partir de 2008, ele passou a ser tratado. Acho que o filme tem qualidades, especialmente cenográficas, mas também narrativas. A meu ver, o erro da diretora, foi ter dado às interpretações de Marcos Nanini e Marieta Severo um tom de comédia pastelão. Tomara que não repitam a dose neste que vão fazer agora.

O artista tem sete vidas (28/6/14)

Me disseram que o Estrigas estava doente, muito mal e fui preparada para vê-lo no fundo da rede como de fato já o tinha visto uma vez. Chegamos, tinha um carro de visitante no jardim e ele não estava em seu alpendre conversando com os convidados como sempre. Mau sinal, pensei. Mas quando entramos casa a dentro, qual não foi a nossa boa surpresa ao encontrar o dono dela naquela cozinha tão característica, conversando prosaicamente com o genro da enteada e um amigo deste.

Não pude deixar de lhe fazer um comentário: “Estrigas toda vez que me dizem que você está muito mal, que dessa vez não escapa, chego aqui e te encontro do mesmo jeito de sempre”. Já tínhamos conversado sobre a morte na última visita que lhe fiz no final do ano passado. Pois o Estrigas não teme a morte. Ele a encara com desassombro e, depois das últimas hospitalizações, disse que para o hospital não volta, segue com os males que tiver e se viver mais um ou dois anos está até no lucro. Quando a indesejada das gentes chegar vai encontrá-lo sereno em seu lugar.  Venha do jeito que vier, pois o velho danado não quer ninguém lá para lhe fazer companhia ou lhe garantir a segurança.

Cabeça formidável a desse misantropo, miúdo, magro e sequinho. Que  a saúde está rateando ele não nega, mas enquanto der, está no jogo. Na mesa, tomando café e comendo tapioca, com Clélia insistindo para que ele lhe pinte o retrato, disse que só pinta retrato com a pessoa vindo posar. Perguntei se não podia fazer a partir de fotografia e ele me respondeu que o que pinta não é o retrato da pessoa. É a cabeça da pessoa. E fazê-la tem muitas implicações subjetivas que o artista se propõe a revelar. Cita como exemplo o fato de ter pintado recentemente uma cabeça do Zenon. Como conhecera Zenon a vida inteira e pudera pintar-lhe a cabeça inúmeras vezes, esta última fora, por assim dizer, a síntese de todas as outras cabeças daquele velho ranzinza adorável que toda Fortaleza queria bem. Zenon para quem não sabe, é o autor daquela escultura da Iracema com o arco que hoje é símbolo da cidade, apesar de desfigurada pela intervenção infeliz de alguém que resolveu “melhorar” a obra original do artista.

A conversa fluiu animada na cozinha que tanto nos lembra de Nice. Aproveitei para contar ao Estrigas da última proeza de seu velho amigo, Nirez. É que o Nirez resolveu comemorar seus 80 anos pulando de pára-quedas. A notícia tinha feito tanto sucesso que eu soube dela através do blog do Luis Nassif. 

Estrigas exclamou incrédulo: mas, tá doido mesmo! Também falamos do livro de Martine Kunz sobre Claudio Pereira que ele acabara de ler. A francesa escreve muito bem, foi seu comentário. Adorou descobrir ali histórias sobre o Claudio que não conhecia. Na verdade nunca foram muito próximos e o Estrigas só conheceu o Pereira quando este já estava na cadeira de rodas. Fora levado pelo Sérgio Pinheiro uma vez até a famosa casa da Beira-Mar. Contou que vira ali um grupo grande de pessoas reunidas em torno de uma mesa em que estavam sentados e se encaravam Claudio Pereira e o jornalista Walter Gomes. Pensou até que os dois estavam travando uma queda de braços. Mas, evidentemente que não era isto. O que rolava ali, talvez algum ajuste de contas boêmio, permanece mistério para o Estrigas.

Depois fiquei sabendo que até o final do ano ele vai lançar um novo livro. O texto, se não me engano foi escrito em 2011 e cada capítulo corresponde a um mês do ano.  Foi digitado pela Lourdinha, sua enteada, que nos trouxe uma cópia dos originais para mostrar. Pelo que pude concluir da conversa e da rápida folheada que dei, trata-se de texto feito ao correr da pena, no qual o autor mistura leituras recentes com reminiscências. Ao livro se somam umas tantas páginas que reproduzem o antigo livro de visitas do Mini-Museu Firmeza. Fiquei bem feliz de ver minha assinatura lá, creio que desde 1977 e até mesmo uns desenhinhos meus. Tem muita gente importante assinando aquelas páginas e até um desenho de Millor Fernandes que esteve lá em 1980.

Aliás, fiquei bem impressionada com a atualidade das leituras do Estrigas. Achei ali comentários elogiosos sobre o livro de Eduardo Jardim, “A brasilidade modernista” que, apesar de ser livro de mais de trinta anos, é pouco conhecido fora do circuito acadêmico. E fiquei feliz de confirmar mais esse laço intelectual que me aproxima do meu velho amigo. Eu também gosto muito do Eduardo Jardim, autor que me revelou muito sobre Mario de Andrade neste e em outros trabalhos.

Estrigas não tem problemas de visão e lê tudo com facilidade. Uma coisa interessante que me disse foi que só há pouco tempo, lera a “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Eu, que nunca a encarei, achei curioso seu comentário sobre as impressões que lhe causara a leitura tardia dessa obra fundamental. 
Inferno e Purgatório horríveis e impressionantes, Céu morninho. Refletimos um pouco sobre como era  interessante tomar contato com uma obra assim só na maturidade, sem ter sido contaminado pelas leituras anteriores feitas na juventude. O fato é que quem já leu um livro e volta a ele, nunca mais obtém as sensações da primeira leitura. Serão outras leituras mas serão sempre releituras.

Finalmente, dando uma olhada no prefácio não pude deixar de rir das criticas ácidas de Estrigas às modernas produções do Salão de Abril. Ele que pode ser considerado um pai fundador daquela mostra faz observações bastante duras sobre o formato que o evento tomou. Observações que, na verdade, dizem respeito às criticas do próprio artista à arte contemporânea. Sem querer entrar nesse debate que não acompanho, o que me agradou ver naquelas linhas foi um Estrigas que não foge à luta. Com ele não tem mi-mi-mi de velhinho aposentado, ou de glória cearense que está acima do embate que se trava aqui em baixo. Enquanto estiver por aqui ele continua no ringue, pronto prá bater e apanhar.

Memórias fragmentadas (21/6/14)

Meu pai era um grande narrador. As histórias que contava de sua infância, da Fortaleza que conhecera no começo do século XX, tornavam-se mais fascinantes pela forma como as contava. Um detalhe de uma dessas narrativas dá bem a marca do seu estilo: a primeira impressão que guardou de Fortaleza quando aqui chegou de trem, durante a seca de 1915, junto com pais. A lembrança mais viva que ficara nas retinas do menino era a das grandes pedras polidas que ladrilhavam a calçada da estação. A grandes pedras que formavam um conjunto urbano bonito e luxuoso, elemento que certamente não se encontravam as ruas do seu Canindé. 

Ao contrário do papai, um narrador vivo e detalhista, cujas histórias sobre Sobral foram fonte importante para a grande obra que Lustosa da Costa produziu sobre aquela nossa cidade, com mamãe as respostas tem que ser arrancadas a fórceps. Sempre foi assim. Ela que é a dona das resposta curtas e secas, pontuadas pela ironia, não é boa de contar histórias. É preciso puxar por ela para obter alguma coisa sobre o que foi sua vida em Cajazeiras, na Paraíba, onde viveu infância e mocidade. É preciso puxar por ela para entender um pouco aquelas fotografias de uma família de gente elegante, bem vestida, bem penteada, com alguns elementos de cores carregadas, cabelos muito lisos e escuros, na mistura mameluca do índio com o branco, resultado evidente da união dos meus avós maternos, ele, o branco e, ela a índia.

E perguntando daqui e dali a gente fica sabendo, aos poucos, um pouco sobre seus pais tão diferentes dos nossos, ela mesma e papai. Talvez porque suas histórias tenham que ser resgatadas assim meio a força é que sempre me surpreendem com uma novidade ou despertam uma corrente especulativa sobre seu passado. Foi assim com a história que mamãe me contou há poucos dias de como o pai dela não aprovara a vocação sacerdotal de tio Oscar, seu irmão mais novo, recentemente desaparecido, que fez brilhante trajetória na Ordem dos Dominicanos em São Paulo e como professor e especialista em história da igreja pela USP, com vários livros publicados. Parece que vovô Piano achava esse negócio de ser padre uma grande besteira, um desperdício.

E esse aspecto me intrigou porque do lado do papai, as vocações religiosas eram muito estimuladas tanto que da família Ferreira Costa saíram duas freiras e um frade. E se tia Dagmar não tivesse que cuidar da minha avó Vitalina, teria também entrado para o convento. Fiquei especulando como deveriam ser diferentes as vidas na casa do velho Cipriano de Figueiredo Lustosa, lá em Cajazeiras, na Paraíba e na casa de meu avó paterno, Francisco Bento, em Fortaleza, Ceará. Fiquei com a impressão que o ambiente na primeira era mais livre, pois esse avô que não conheci e cujos fragmentos recupero aqui e ali nas conversas com mamãe, tinha algo de boêmio, de homem de negócios sertanejo que especulava com o algodão e que foi arruinado pelo crise de 1929. Pelas fotografias, a gente constata que ele dava boa vida e boas roupas a filhos e filhas. Parece que lhes dava também liberdade e que não ligava muito para os estudos dos filhos. Quem cobrava as notas e se preocupava com tudo era minha avó. Pragmático e tendo vencido nos negócios onde mais que instrução vale mesmo é a intuição, o velho Piano achava graça na farra em que viveram alguns de seus filhos homens.

Mas parece que vovô Piano também não criava empecilhos para que as filhas se instruíssem e, foi por isso que todas se tornaram professoras. Foi por isso também que mamãe, ainda mocinha, junto com irmãs e amigas chegou a produzir uma revista chamada “Flor de Liz”  e pensou em cursar a faculdade de Direito. Só não o fez por impedida por minha avó que não consentiu que a filha fosse viver em Fortaleza ou em Recife para realizar seu sonho. Tenho a impressão, pelo pouco que sei de meu avô que, se dependesse dele, ela teria ido. Pois ele também não criou nenhum empecilho para que a filha cassasse com aquele rapaz cearense bonito e bem falante das Casas Pernambucanas. Gostou dele, autorizou o casamento e ponto.

Mas na vida da gente, aqui dentro de casa, e dentro de nossas mentes, o que predominou mais foi o espírito dos Ferreira Costa do que o dos Lustosa. O que predominou foi aquela moral rígida do menino sertanejo que meu pai foi, sertão que sempre levou na alma mesmo tendo chegado a Fortaleza com seis anos. Sertão que amava e que o atraia com seus alimentos exóticos que sempre gostara de preparar. Foi a religiosidade sertaneja, aquela que nos obrigava a comparecer à missa das sete no Canindé, terra dele, que também predominou. Foi também uma cultura baseada na pobreza honesta, numa visão muito negativa de tudo que era boêmio e irresponsável. Um certo sentimento de culpa  e vergonha pela dependência do álcool que marcara a vida de meu avô paterno com uma nota humilhante sempre a ser escondida pelo que representara de ruína para a família. Foi um sentido muito forte de poupança, de controle, de construção lenta e determinada de uma pequeno patrimônio e de um nome honrado, aliado ao sonho do emprego público e da casa própria redentores.

Penso como mamãe deve ter se sentido estrangeira, com suas roupas, chapéus e sapatos bons, seu porte altivo de moça fina, no meio das cunhadas, também professoras, mas moças simples, criadas na modéstia e na discrição de uma vida muito ligada à igreja, à paróquia, que foi sempre a vida de papai. Ele que aprendera com a mãe, Vitalina, como a Igreja, tal como o Estado, eram instituições sólidas à sombra das quais um rapaz modesto mas talentoso podia crescer. E foi mesmo assim, como Congregado Mariano, estabelecendo relações que atravessavam as classes sociais em Fortaleza e depois em Sobral que ele se fez. E assim nos criamos todos, mesmo nós, os mais novos, que tivemos na Piedade, em Fortaleza, para onde meus pais voltaram depois de 15 nos de vida sobralense, a reprodução de um convívio intenso com os padres salesianos da nossa paróquia que se tornaram gente de dentro de casa. 

Mamãe fez cem anos (14/6/14)

Pensei em escrever como fizemos no convite para a festa, usando o titulo do filme de Carlos Saura, “Mamãe faz cem anos!”, usando o verbo no presente, como para indicar que se trata do dia exato da festa, do dia exato do aniversário centenário de mamãe. Acontece que minha mãe, Maria Dolores Lustosa da Costa ultrapassou a marca do centenário justamente no dia 11 de junho de 2014, véspera do primeiro jogo da Copa do Mundo ao qual, aliás, assistiu envergando camiseta verde e amarela que a Dadal (Socorro Lustosa), mandou confeccionar para toda a família. A dela trazia escrito “Vovó Dolores 100” e lhe foi dada pelo neto da Dadal,  o Caio, filhinho da Mirian, durante a festa de aniversário que aconteceu há uma semana no L’Ô. Festa íntima, juntando mais de 200 pessoas, pois a família originada pelos treze filhos de seu Costa e Dona Dolores hoje, soma àquele núcleo inicial mais  54 netos e 59 bisnetos e até um trineto. Alie-se a esse rol os genros, noras, namorados, namoradas, primos e aquelas pessoas que se juntaram à família pelo convívio e pense no tamanho da festa.

O espaço estava magnificamente decorado por Fernando Martins que conseguiu criar um clima mágico, com lindos e delicados arranjos de flores e uma iluminação bem colocada. E o luxuoso bolo de Marildes Lopes – que é de lei em todos os aniversários de d. Dolores -, compunha o cenário que a todos encantou. Mas o mais bacana mesmo foi ir vendo chegar as famílias. Ver juntos primos que não se viam há anos ou que nem mesmo se conheciam. Ver o clima de confraternização geral e no meio de tudo d. Dolores em seu belo vestido azul, serenamente posando para as fotografias. Assim, em seu entorno aparecem a família do Lustosa; a família da Lúcia; a família do Alberto (que sua viúva Vilany trouxe de Brasília quase que “au grand complet”); a família do Parsifal; a família do Paulo; a família da Socorro; a família do Elcias; a família do Carlos; a família do Eugenio Pacelli; a família do Roberto; a família do Fred; nossas pequenas famílias, da Clélia e minha e as novas famílias que se formaram a partir dos casamentos dos filhos deles.
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No ano passado, Lúcia perguntou à mamãe se ela achava que a filha viveria tanto tempo quanto ela. Mamãe disse que não. Que era tempo demais. De fato, cem anos é tempo demais e só mesmo vivendo nas condições privilegiadas de dona Dolores faz sentido viver tanto. Lembro que quando ela fez 90 escrevi sem botar muita fé: “rumo ao centenário”. E não é que ela chegou lá? Chegou, como bem lembrou o Paulo em mensagem à família, superando muitas perdas, especialmente a perda de seus três filhos homens mais velhos. A mais sofrida delas, não só porque mais recente mas também pelo significado que teve em sua vida, a do Lustosa, que nos últimos anos, mesmo morando em Brasília, estava sempre por perto e tornara-se seu mais freqüente conviva. Foi esse filho mais velho, memorialista da família, quem, com seu prestígio de escritor e jornalista firmou o nome Lustosa da Costa na sociedade cearense, fazendo dele motivo de orgulho para seus irmãos. Lembro que quando o visitei em Brasília, já doente, começando o tratamento que acabaria abreviando ainda mais sua vida lhe disse, tentando estimulá-lo a seguir lutando: “Lustosa, veja lá, não vá fazer a desfeita de faltar à festa do centenário de sua mãe”.
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Vendo aquela família toda reunida em torno de mamãe, pensei no papel central que as mães têm nas famílias. É em torno da mãe que se congregam filhos, filhas, noras, genros e netos. A casa da mãe continua sempre sendo a casa da gente. Evidentemente que, tendo mamãe cem anos quem cuida da casa e de tudo que lhe diz respeito não é mais ela. E posso afirmar que sua longevidade se deve muito à dedicação de sua filha Clélia. Clélia escolheu morar no mesmo prédio da mãe para poder se dedicar a ela diuturnamente e é graças aos seus esforços que essa família se conserva unida em torno de sua matriarca. Todos os sobrinhos dela têm uma lembrança infantil de alguma festa ou atividade promovida pela Clélia, sempre na casa dos avós, reunindo primos e primas que sem essas ocasiões talvez nunca tivessem convivido. É a Clélia quem organiza aqueles almoços dominicais da Silva Jatahy que fazem a casa de d. Dolores ser sempre alegre, clara e acolhedora para seus descendentes.

É Clélia quem com suas insistência e teimosia convence mamãe até hoje, mesmo com todas as dificuldades, a sair de casa para visitar algum parente ou amigo doentes; a ir a uma missa ou a prestigiar algum evento familiar. Mamãe reclama, reclama, resiste bravamente, mas acaba cedendo e depois adora ter ido. É graças ao empenho de Clélia que mamãe que não suporta a solidão, nunca se sente só. Foi Clélia quem teve a lembrança de trazer para o seu convívio uma companhia que se tornou indispensável na vida de mamãe, nossa prima Ceci. Com ela a Paraíba e o eco das lembranças mais remotas voltaram a fazer parte do cotidiano de d. Dolores.

E para a organização dessa grande festa não foi diferente. Quem viu tudo pronto, lindo e maravilhoso não imagina o trabalho que deu; a tensão envolvida nos preparativos; as pesquisas pelo melhor preço associado ao melhor serviço. Não imagina que, desde o ano passado, com a obsessão tão típica dos Lustosa mas com uma determinação férrea que é só dela, Clélia se ocupa da organização dessa festa, para que tudo saia perfeito, insistindo para que todos comparecessem. Foi Clélia quem achou acomodações para os que não as tinham e quem ficou no pé do Mario Bag para que ele fizesse um convite tão bonito como fora o da festa dos 90 anos. Por tudo isto é que, neste centenário de mamãe, eu e meus irmãos agradecemos a ela por permanecer conosco e à Clélia por lembrá-la, todos os dias, da importância de sua longevidade para a união da imensa família que gerou.

Angra dos Reis (31/6/14)

Estou em campanha. Em campanha para melhorar a imagem de Angra dos Reis. Não aquela Angra dos Reis dos donos de grandes lanchas que parecem mansões flutuantes; nem a Angra dos Reis dos resorts luxuosos; nem mesmo a Angra dos Reis dos que têm ali casas à beira-mar. Mas Angra dos Reis mesmo, a honesta cidade que eu só conhecia de passagem e creio que, nunca tinha visitado antes.

Acontece com Angra algo que acontece hoje com relação ao Brasil: ali também a realidade objetiva é o oposto da sensação de pessimismo que a mídia, através de campanha intensiva, vem conseguindo implantar nos corações e mentes de muitos brasileiros. A sensação de algumas pessoas que vivem em Angra dos Reis é a de que estão no pior lugar do mundo e essa sensação não corresponde à realidade.

Estive lá por quase uma semana participando de uma banca de concurso para a UFF que tem ali um campus avançado. Os dias em que eu e meus colegas de banca, Rosilda Benácchio, Fabrício Pereira da Silva, Renato Lemos e Fábio Koifman estivemos na cidade para almoçar desfizeram essa impressão. O centro é agradável, como boas lojas e tem a vantagem de estar à beira do cais, onde o estacionamento de inúmeras traineirinhas me fez lembrar o “Ver o peso”. Apesar da modernização nem sempre feliz, a cidade conservou alguns prédios históricos remarcáveis. Bem diante do cais se ergue, belo e majestoso, o três vezes centenário Convento do Carmo. Mesmo quando a gente ergue a vista para os morros, onde cresceram de forma desordenada os bairros mais pobres, a densa vegetação que envolve as casas – todas de alvenaria - nos deixa a impressão que os pobres que vivem ali não passam de todo mau. Impressão que nos foi confirmada pelo simpático motorista da UFF, o Válber, nascido e criado no Morro da Caixa D’água.

Entre o centro e a pousada em que fiquei, conheci o quarteirão mais bonito do Brasil, creio eu. Este é constituído pelo conjunto de prédios, residências e jardins da Marinha que estão instalados diante de magnífica paisagem. Tudo ali parece ter sido pensado por um arquiteto com grande capacidade de planejamento. Ao prédio central, bem situado no meio do terreno, aliam-se as demais instalações da Marinha que, na curva seguinte do caminho, são seguidas por um conjunto de casas branquinhas, de portas azuis. Belas edificações, possivelmente do começo do século XX, tendo em seu meio um modesto mas muito charmoso “Hotel de Transito”.

A bem cuidada calçada que fica do lado de lá da pista, à beira-mar, é ideal para o footing. Como cheguei à noite, a beleza do lugar era diferente da que eu veria pela manhã, pois a área em frente aos prédios da Marinha é muito arborizada, e provida de inúmeros bancos desses de praça, todos voltados para o mar, como no nosso Passeio Público. O conjunto dá um ar tão distinto e agradável que redime Angra de todos os pecados que porventura tenha. Logo depois, entra-se por uma estrada estreita que conduz a praias como a do Bonfim, com sua linda capelinha no meio do mar e à Praia Grande onde ficava a nossa pousada Comando Geral (que nome horroroso!). Mas, tomar café sentada bem defronte à uma pequena baía coalhada de barcos, tendo ao fundo a silhueta da Ilha Grande, compensa todas as deficiências das instalações.

O campus fica em Jacuencanga, nome rebarbativo de local distante uns dez quilômetros do centro da cidade e quinze da pousada onde nos hospedaram. Só entendi o sentido da distância entre o lugar em que íamos trabalhar e a universidade quando descobri que há poucos, maus e caros hotéis dentro de Angra e que, nos arredores, o que há são pousadas e hotéis de turismo muito caros para fazerem face ao valor das diárias que uma universidade pública pode pagar. A causa também é a forma da cidade se estende nos dois sentidos do litoral, em bairros mais ou menos modestos, cobrindo ampla extensão entre o mar e as montanhas, cobertas pela vegetação que considero a mais bonita das que já vi: a mata atlântica.

O campus avançado da UFF foi instalado em pequenos prédios situados ao lado do antigo estaleiro da Verolme que hoje promove naquele bairro degradado de Angra uma espécie de renascimento. Mas, por enquanto, Jacuecanga continua a ser um lugar sem encantos. Seus prédios e casas lembram alguns subúrbios do Rio, no que têm de menos gracioso. São construções mal feitas e erguidas sem planejamento algum, de forma que o traçado das ruas não obedece a qualquer lógica. Em seu entorno e bem na beira da estrada é que vimos de fato aquela Angra favelizada de que nos tinham falado.


Soube que a UFF negocia com a prefeitura a transferência do seu campus para lugar situado no extremo oposto de Jacueganga, em região onde existe tráfico de drogas e um quadro de violências que espelha o que vivemos nas favelas do Rio. Tomara que professores e funcionários unam forças para pedir que o campus seja mudado, sim, mas para o centro de Angra. Isto atenderia às necessidades de toda a região, sem privilegiar nenhuma delas e não provocaria a fuga de quadros que, como acontece hoje nas escolas públicas do Rio, não querem arriscar a vida em troca de um emprego estável. Como sonhar não custa e como me foi dito que nos primórdios da chegada da UFF em Angra, as provas eram feitas nas instalações da Marinha, sugiro ao pessoal que batalhe para que se faça algum acordo no sentido de que esta abrigue em seu aprazível terreno o campus da UFF. 

Assim essa excelente universidade fluminense, poderia se orgulhar de ter os dois campus com vista mais bonita do Brasil, quiçá do mundo. Imagino que, tantos os pobres quanto os ricos ou remediados de Angra vão preferir ver seus filhos estudando em um lugar agradável e acredito que a convivência dos universitários com os jovens marujos talvez viesse a ser proveitosa para ambos os lados.

Mendes Fradique, Vitória e algumas batalhas acadêmicas (17/5/14)

Vim poucas vezes a Vitória mas, em todas elas, vim por obra e graça de Mendes Fradique, pseudônimo de José Madeira de Freitas que nasceu em 1893, em Alfredo Chaves. Por isto e também porque concretizou-se a profecia de um colega que disse que eu ia me tornar a maior especialista no mundo em Mendes Fradique (por falta de concorrentes, é claro), toda vez que o Espírito Santo se lembra dele, manda me chamar. Desta vez vim para participar do já tradicional Café Literário promovido pelo SESC e pude aproveitar mais esta oportunidade de lembrar aos capixabas quem foi esse autor maldito que tanto sucesso fez no Brasil dos anos 1920, sendo depois esquecido, ou apenas lembrado pelo que ficou como marca negativa de sua trajetória: a adesão ao integralismo.

Da primeira vez que vim a Vitória, creio que em 1994, foi para participar de outra feira de livros organizada por Francisco Aurélio Ribeiro. Fiz então duas boas amizades que gosto de conservar: Luiz Busatto, responsável pela edição fac-similar da “Gramática Portuguesa pelo Método Confuso”, publicada em 1984 e aquele que considero o maior nome da literatura capixaba contemporânea: Reinaldo Santos Neves. Na sessão de autógrafos que se seguiu, dividi mesa com a célebre escritora e ilustradora de livros infantis, Ângela Lago. Enquanto a fila de pequenos leitores de Ângela dobrava a esquina, eu só fui salva do completo abandono pelo aparecimento de dois velhinhos da Academia Espiritosantense de Letras que tinham conhecido o Mendes Fradique.

Mendes Fradique foi o tema de minha dissertação de mestrado, defendida no antigo IUPERJ (hoje IESP/UERJ) em 1991 e publicada pela editora Bertrand Brasil, em 1993. Antes mesmo da publicação do livro, realizei no BNDES uma grande exposição sobre o Rio de Janeiro de Mendes Fradique. O livro mereceu algumas resenhas na grande impressa, mas sempre um tanto reticentes, pois o integralismo de Madeira de Freitas acabava se sobrepondo à importância de sua obra anterior. Creio que foi por esse caminho que seguiu a publicada por Sergio Augusto no Estadão e que acabou por provocar resposta de outro ex-integralista e velho amigo de Madeira de Freitas, Miguel Reale.

Nos últimos tempos, Mendes Fradique tem me aparecido em muitas encruzilhadas. Uma deles é a coletânea “Quinze médicos intérpretes do Brasil” organizada por Gilberto Hochman, da Fundação Oswaldo Cruz, e na qual se inclui artigo meu sobre Mendes Fradique/Madeira de Freitas. Livro que vai ser publicado pela Editora Hucitec, na Coleção Pensamento Político e Social, dirigida por Élide Rugai e André Botelho. Mendes Fradique escreveu várias e divertidas crônicas tendo os médicos e a medicina como tema, além de um romance: “Dr. Voronoff” (1926), obra de ficção em torno dos experimentos do famoso médico russo. Como precisava rever este livro perguntei à bisneta de Mendes Fradique, Victoria Saramago se a família me cederia um exemplar desse. Marcos, filho de minha saudosa amiga Aparecida Saramago que tanto me estimulou nos estudos sobre o pai, não só me cedeu este e outros livros, como algumas belas fotografias.

Recentemente participei de duas bancas de doutorado em que tive que defender novamente a minha dissertação sobre Mendes Fradique. É que, sendo convidada para avaliar trabalhos que lidavam com os mesmos temas constantes naquele meu livro, constatei que o mesmo não constava das bibliografias. Creio, e disse isto nas duas ocasiões, que quem convida alguém para uma banca deve se certificar antes o que aquele escreveu sobre o assunto. Como considero que as teses que defendi ali continuam boas e úteis, precisei demonstrá-lo. Afinal se a gente não defende o nosso trabalho quem há de, não é mesmo?

No tempo em que Cristiane Costa era editora do “Caderno Idéias”, do “Jornal do Brasil”, ela me pediu para resenhar um livro sobre humor. Eu era então a pessoa que, no Rio de Janeiro, mais vinha produzido sobre o tema, entre artigos e livros que contemplavam as obras de J. Carlos, Nássara, Carlos Estevão, além do humor e da caricatura em geral. Qual não foi meu espanto ao constatar que o autor, velho conhecido nosso, tendo sido já convidado para vir à Casa Rui algumas vezes, usava os mesmos textos de Mendes Fradique que eu usara em meu livro, com a mesma finalidade analítica, sem ter se dado ao trabalho de sequer incluir meu livro na bibliografia. Para não dizer que não havia referência à minha tese, havia sim, uma, no final da nota de número duzentos e tanto. em letra bem miudinha.

O que fiz eu? Nada. Não fiz a resenha e engoli a raiva, pois lembrei do que uma vez me disse o sábio Francisco de Assis Barbosa, cujo centenário, aliás, se comemorou no dia 13 de maio último: ninguém atira pedra em balão que está subindo. Denúncias de plágio relacionadas com obras de sucesso acabam por dar ao denunciador um ar de despeito, de inveja. E afinal, pelos critérios convencionais, meu livro não tinha sido plagiado. Não havia na obra do outro, um só parágrafo copiado da minha. Mas como disse um colega da Casa Rui a quem pedi que o lesse, era evidente que o meu trabalho fora usado como fio condutor de obra que valia-se do jargão acadêmico para dar um ar de maior densidade analítica do que haveria na minha.

O engraçado disto tudo é que na resenha que fizera de meu livro, Wilson Martins criticara justamente o “ranço acadêmico” de que ele estaria impregnado. Imagine se ele lesse o que e como escrevem os autores de trabalhos sobre o assunto que vieram depois daquele. De resto, se preciso travar essas pequenas batalhas em defesa de minha obra, poderei sempre me orgulhar de ter em meus arquivos carta em que Antonio Candido, motivado pela leitura de meu livro, me convidava, em nome da editora para organizar a edição que a Cia das Letras preparava da “História do Brasil pelo método confuso” e que seria lançada em 2004 com introdução e notas minhas.

A menina, o suco de açaí e o mendigo (3/5/14)

Estava esperando o sinal abrir quase na esquina da 19 de Fevereiro com a Voluntários da Pátria. Distraidamente, olhava um mendigo que estava na esquina. Era um desses tantos que a gente vê perambulando pelas ruas do Rio, tipo do mendigo maluquinho, ainda jovem (entre 30 e 40 anos?), pequeno, magro, saco nas costas; bermuda e camiseta tipo “engole ele paletó que o defunto era maior"; pés descalços ou metidos em uma sandália velha. Eu os vejo sempre por aí, e às vezes cruzo com algum, na Lagoa. Quando passam, deixam um mal cheiro no ar e o movimento natural que a gente tem é de se afastar o mais rápido possível, até tapando o nariz. Em geral, são negros, ou mais precisamente cafuzos, se (ainda não for politicamente incorreto dizer que alguém é cafuzo), pois têm uma pele escura, bem escura, mas os traços são mestiços e os cabelos bastos, amarfamanhados, dão à cabeleira um estilo rastafári. O aspecto geral é de sujeira, ausência de banho ou de qualquer outro cuidado de higiene e, talvez, a rigidez do penteado se deva mais a isto do que àquilo.

De onde eu estava, vi o mendigo estender um copo de plástico para alguém, com ar de quem pede algo, acompanhando o pedido com um sorriso cheio de dentes escuros, estragados. Alguém que não estava no meu campo de visão, pois tinha uns três carros na minha frente. Pensei que o gesto era para receber umas moedas, apesar do inusitado do copo de plástico, mas foi aí que vi a pessoa com quem ele falava se debruçar para derramar ali, com a ajuda de uma colher, parte da vitamina de açaí que estava tomando em um copo com a marca da casa de sucos que fica naquela mesma esquina. Era uma moça. Dessas moças bonitas que tem aqui no Rio: corpo bem feito e rijo, altura entre a média e mignon; lindos e longos cabelos, levemente ondulados; roupa despojada, calça jeans, camiseta justa e uma suéter amarrada na cintura.

“Um ar esnobe de quem nada quer”, como dizia aquela música antiga que, talvez pelos autores não terem se dado conta ainda do que são esse seres irresistíveis e de infinitas possibilidades que são as meninas da zona sul do Rio. E completava: “cigarrinho aceso em sua mão/ toca moderninho violão,/ diz que o amor é coisa que não quer” para terminar no refrão “lá vai ela e pensa que é mulher”. E os autores eram Evaldo Gouveia e Jair Amorim que ainda pensavam nas moças do Rio como aquelas que do violão tinham apenas o formato do corpo e aquele ar lânguido e disponível das beldades com duas polegadas a mais que tanto agradavam aos homens dos anos 1950 ou 1960. Beldades como aquelas moças de maiô que, na praia, cercam João Gilberto e Tom Jobim, numa foto clássica do tempo da bossa nova.

A menina do Rio, tal como a vejo e conheci desde que aqui cheguei em 1977, é bem diferente disto e pensa, sim, sabe, tem certeza de que é mulher. Tão mulher que pode até amar outras mulheres. Apesar do cigarrinho (hoje, talvez substituído pela vitamina de açaí), apesar de saber tocar violão ou guitarra, da calça jeans e da camiseta, é muito mulher. E por ser tanto talvez faz um pouquinho de medo aos homens. É a mulher que surgiu das grandes transformações que revolucionaram os costumes naquelas duas décadas de ouro, 1960 e 1970. Tão sedutora ou mais do que as misses que as antecederam, mas cheia de decisão, marchando resoluta pela grande e violenta cidade que conhece tão bem. 
  
 A “Garota moderna” que vi na esquina da Voluntários, já ia atravessar a rua quando foi abordada pelo mendigo que, com o seu melhor sorriso banguela, deve ter lhe pedido um real ou, quem sabe, que lhe pagasse um lanche. Isto suponho, porque estava longe e não vi nem ouvi. Suponho também que talvez tenha sido ela mesma que lhe propõe partilhar o suco de açaí. O fato é que só a entrevi quando curvou-se um pouco para despejar  parte do seu suco de açaí no copo do mendigo. Depois seguiu pela Voluntários no lado oposto da rua, lépida e fagueira, os cabelos “lindos como eu nunca vi”, brilhando e balando ao vento. Imagem da beleza, da limpeza e da juventude sadia, no sentido oposto de seu amigo mendigo, seu avesso, que vinha na minha direção, feliz da vida, com seu meio copo de vitamina de açaí.

 Essa cena, quase um flash, me tocou o coração e quase me levou às lágrimas. Estou ficando emotiva. O fato é que fiquei querendo um bem danado àquela menina desconhecida. Talvez seja porque nesses tempos eu veja emergir por todo lado uma juventude tão estúpida, egoísta e auto-centrada, tão pouco sensível ao sofrimento do outro, que quando a gente encontra alguém capaz de um gesto tão simples, fica com vontade de abraçar e agradecer pelo fato de que ainda existam jovens assim. Jovens de outro quilate, como as tantas que havia no meu tempo de faculdade, no tempo mesmo daquelas da música do Evaldo Gouveia. Como as tantas que vieram um pouco antes e que foram trucidadas pela Ditadura. Como as tantas que, por sua generosidade, pela capacidade que tiveram de compreender a realidade brasileira e pelo esforço que fizeram para tentar minorar o sofrimento dos pobres, lutando pela redução da desigualdade, pagaram um alto preço.

Hoje, que o mundo virou de ponta cabeça. Hoje, onde, até mesmo nos lugares onde os direitos sociais pareciam absolutamente garantidos, estão sendo a todo o dia usurpados, como acontece nos países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos; hoje, quando até mesmo os mais valentes desanimam diante do rigor com que a sociedade, mesmo na Democracia, ainda pune os que ousaram lutar pela redução das desigualdades; hoje, diante do avanço avassalador das forças do atraso e do obscurantismo, a esperança dos desencantados da minha geração reside em gente como a menina que ainda é capaz de dividir seu suco de açaí com o mendigo.

Meu primeiro LP (26/4/14)

O primeiro disco que comprei na vida chamava-se “Louvação”, do Gilberto Gil. Foi em 1968, eu tinha então 13 anos e, não sei como, arrumei dinheiro para comprar. Disco era caro. Na contracapa está lá escrito, com letra de adolescente, meu nome completo, talvez para garantir-me contra furtos. Eu diria que o tenho até hoje se, há alguns anos, todos os meus LPs não estivessem sob a guarda do meu filho. Isto também é a vantagem de ter um filho com gosto parecido com o que você tinha aos 20 anos e que, ainda por cima, tem a mania do disco de vinil. Graças a esse acaso, achei um destino para a minha velha discoteca que me acompanhava e foram sendo ampliada desde aquele longínquo 1968 até o final dos anos 1980, sem que eu tivesse coragem de dela me separar.

É uma sensação muito boa o filho da gente gostar dos discos que a gente gostava na idade dele. Dá uma certa aflição porque parece que ele e seus amigos foram abduzidos e levados para quatro décadas atrás, mas, diante das últimas abduções de jovens pelas marchas das famílias, melhor assim. A verdade é que ondas libertárias agitam a juventude de tempos em tempos, por circunstâncias histórias as mais variadas. Se a gente entra numa universidade pública brasileira de hoje parece que está entrando em uma do meu tempo: cabelos, roupas, hábitos e até mesmo idéias voltaram e formam um vínculo muito especial entre essa e a nossa juventude. Juventude daquele Gil que aparece na capa de “Louvação”, um mulato forte e barbado que empunha seu violão com ar desafiador.

“Louvação” trazia muitas canções que se tornariam sucesso, a começar por “Procissão”. Tinha também “Lunik 9” que dizia assim: “Poetas, seresteiros, namorados, correi!/ É chegada a hora de escrever e cantar/ Talvez as derradeiras noites de luar”. É que o homem ainda estava se preparando para chegar à lua, talvez quando lá chegasse isto alterasse as noites de luar e Gil antecipava com esta outras de suas criações futuristas. Canções como “Roda”, “Mancada” e “Rancho da rosa encarnada” fizeram relativo sucesso. Mas as que eu gostava mesmo e das quais ainda hoje gosto eram: “Beira-mar”, “A rua” e “Viramundo”. Das duas primeiras, menos cantadas e menos conhecidas, me orgulho de ter descoberto a beleza por minha própria conta.

Beira-mar

Essa linda canção, com letra de Caetano Veloso, fala do mar de uma maneira que evoca as sensações de quem viveu à beira-mar. Verso e melodia se unem de forma tão apropriada que a gente parece estar sendo balançando pelas ondas de um mar calmo. Diz o poeta para começar: “Na terra em que o mar não bate/ Não bate o meu coração/ O mar onde o céu flutua/ Onde morre o sol e a lua/ E acaba o caminho do chão”. E a seqüência é todo um repertório de imagens lindas, molhadas, salgadas e tangidas pelo vento: “Nasci numa onda verde/ Na espuma me batizei/ Vim trazido numa rede/ Na areia me enterrarei/ Na areia me enterrarei/ Ou então nasci na palma/ Palha da palma no chão/ Tenho a alma de água clara/ Meu braço espalhado em praia/ Meu braço espalhado em praia/ E o mar na palma da mão.” Naturalmente que o poeta fala de seu próprio mar, o mar da sua terra, a Bahia: “Mas o mar não é todo mar/ Mar que em todo mundo exista/ O melhor, é o mar do mundo/ De um certo ponto de vista/ De onde só se avista o mar/ A ilha de Itaparica”. E a Bahia “só tem uma”. Finalmente, vem a exaltação do azul, da cor do mar: “É por isso que é o azul/ Cor de minha devoção/ Não qualquer azul, azul/ De qualquer céu, qualquer dia/ O azul de qualquer poesia/ De samba tirado em vão/ É o azul que agente fita/ No azul do mar da Bahia/ É a cor que lá principia/ E que habita em meu coração/ E que habita em meu coração.”

A rua
A primeira música que amei nesse disco foi “A rua”, com letra do poeta piauiense Torquato Neto. É uma canção que remete a lembranças de uma infância de menino do interior e, talvez por conta da localização geográfica, me lembre tanto as histórias de “Cazuza”, do maranhense Viriato Correia. De fato, no refrão, fica revelado o lugar exato da rua: “Ê, São João, ê, Pacatuba/ Ê, rua do Barrocão/ Rio Parnaíba passando/ Separando a minha rua/ Das outras, do Maranhão.” Era o que tornava específica a rua onde Torquato Neto passou a infância mas o resto da canção cabe em todas as doces memórias de quem viveu em lugares assim: “Toda rua tem seu curso/ Tem seu leito de água clara/ Por onde passa a memória/ Lembrando histórias de um tempo/ Que não acaba.” E daí seguem-se as lembranças reunidas nas referências às cirandas, ao sino que anuncia a procissão e às pessoas como “Das Dores, que morreu cedo/ Luzia, que se perdeu/ Macapreto, Zé Velhinho”. Esses últimos talvez fossem os mesmos meninos que corriam atrás de bandas que passavam como o rio Parnaíba, o rio que passava no fim da rua e que “molhava seus lajedos/ Onde a noite refletia/ O brilho manso/ O tempo claro da lua.”


Viramundo
A letra de “Viramundo” é do Capinam e cantando-a, junto com a música do Gil, a gente se dá conta do quanto a gente era valente pois dizíamos: “Sou viramundo virado/ Nas ondas da maravilha/ Cortando a faca e facão/ Os desatinos da vida/ Gritando para assustar/ A coragem da inimiga/ Pulando pra não ser preso/ Pelas cadeias da intriga…” Como a gente acreditava que ia vencer todos aqueles desafios, que ia ver “o virador deste mundo/ Astuto, mau e ladrão/ Ser virado pelo mundo/ Que virou com certidão”. A gente acreditava que com nossa valentia ainda havia de virar esse mundo em “festa, trabalho e pão”. Não deixa de dar um certo desalento constatar que tantos anos depois, dois daqueles jovens que impulsionaram suas vidas a partir de mensagens como a dessa música, Dirceu e Genoíno, sofrem, no estado democrático de direito, uma cruel perseguição à qual a sociedade brasileira, a mesma que lutaram por transformar, assiste com indiferença ou até mesmo aplaude. Só nos resta esperar que surja uma nova geração de valentes que consiga finalmente virar este mundo em festa, trabalho e pão.

Memórias compartilhadas (19/4/14)

As crianças de hoje em dia não vão ter no futuro o mesmo volume de lembranças compartilhadas que as da minha geração tiveram. E a culpa é da ampliação das opções de canais de TV, antes mesmo da TV por assinatura e tudo o mais que nas últimas décadas veio preencher o cotidiano das crianças: jogos eletrônicos, internet, redes sociais, mp3, mp4, etc. Apesar do tanto que se criticava a TV na minha infância e adolescência, todo o mundo via TV. A "máquina de fazer doidos" com elenco de epítetos a ela associados, todos depreciativos, teve um papel central nas nossas vidas.

Acredito que quase todas as crianças de classe média brasileira assistiram às mesmas séries televisas, todas elas norte-americanas, claro, como até hoje. “Rin-tin-tin”, “Bonanza”, “Bat Masterson”, “Zorro”, aquele que na vida real era o jovem elegante, fútil e belo, d. Diego de La Vega e que, para fazer justiça, punha uma máscara, vestia sua linda roupa preta, puxava sua espada e agia, sempre perseguido pelo barrigudo sargento Garcia e assessorado por um criado mudo (sem trocadilhos), do qual não lembro mais o nome. Do Rin-tin-tin, além da ordem que o menino lhe dava para agir: “Ai-ô, Rintin!”, lembro da chamada de abertura que dizia o nome do menino e do tenente que fazia as vezes de galã da série.

Pois dessas lembranças fazem parte os complementos que tornavam esses programas tão atrativos: as chamadas de abertura e o jingle, coisas que, de tanto ouvirmos, grudavam na mente e fazem com que até hoje muita gente repita sem pestanejar aqueles textos, por vezes longos. Das músicas que acompanhavam séries a mais marcante foi a do Bat Masterson: “No velho oeste ele nasceu,/ e entre bravos se criou,/ seu nome em lenda se tornou / Bat Masterson, Bat Masterson.” Tenho a impressão que o público original do Bat Masterson, ao contrário do público do Rin-tin-tin, não era o infantil. O sujeito usava um punhal disfarçado na bengala e era todo sedutor. Se não me engano foi ali que vi pela primeira vez, a cena do cara tirar a capa e por no chão para que a bela mocinha, ao descer da carruagem não pisasse na lama que cobria todas as ruas das cidades do Velho Oeste.

Sem letra, mas de grande impacto musical era o tema de Bonanza de uma velocidade empolgante. O mesmo não posso dizer da série que hoje me parece, era caretíssima, com aquele velho pai fazendeiro e seus três filhos muito dos sem-graça: um alto, gordo e meio bobo; um juvenil cheio de arroubos e um galã sério e ponderado. Na infância mais remota, tinha “O menino do circo”, do qual não guardo quase nenhuma lembrança. Soube que o protagonista se tornou depois baterista dos Monkees, uma banda inventada pela indústria fonográfica para competir com os Beatles. Talvez a sensação que me tenha ficado como resto de lembrança daquela série foi a de um certo desconforto com a vida no circo, instável e cheia de elementos esquisitos aos quais se associava aquela música interminável e repetitiva que anima os espetáculos circenses.

Acho que gostava mais das séries familiares, como uma em que o pai estava sempre chegando do trabalho a um lar impecável, com seu terno que trazia nas mangas, na altura do cotovelo, uma espécie de remendo redondo que me impressionava muito. Tanto quanto me impressionava o fato da empregada da família, creio que se chama Heizel, ser uma velha e simpática senhora branca. “Perdidos no espaço” veio um pouco mais tarde, mas ficou na lembrança pela inesquecível imagem do robô agitando seus braços mecânicos e gritando: “perigo, perigo” e pelo impagável dr. Smith. Este era um vilão com trejeitos afeminados, tão engraçado que se tornava simpático. Graças talvez, à voz do dublador que foi considerado pelo ator americano melhor que a própria. Das séries que nos chegaram um pouco depois da infância e que, talvez por isso, não tenham deixado marcas tão fortes havia as protagonizadas por animais:  por uma cachorra “Lassie”; por uma égua, “Minha amiga, Flica” e por um golfinho, “Flipper”. Não acompanhei “Jennie, é um gênio”, nem “A Feiticeira”, que devem ter marcado o pessoal um pouco mais novo que eu.

Acho que as crianças do Rio e de São Paulo tinham um outro canal disponível - a TV Excelsior? – pois meus amigos daqui tem um repertório que incluem lembranças de séries que eu não assisti em Fortaleza. É o caso do seriado japonês National Kid, onde a terra era invadida por alienígenas chamados de “Incas venusianos” e que tinham uma palavra de ordem “Auika!” O seriado tosco, recordado por tanto cariocas e paulistas parece que só fez sucesso no Brasil, não conquistou nem a garotada do Japão... Também não passava na TV Ceará – Canal 2, a série Ivanhoé interpretado pelo futuro James Bond, Roger Moore e que tinha na abertura uma música que dizia: “Ivanhoé/ Cavaleiro justiceiro, Ivanhoé...” O engraçado da pessoa ter passado a vida dizendo e cantando “Ivanhoé”, assim mesmo como se escreve, foi descobrir na idade adulta que os ingleses que criaram a série inspirada no romance de Walter Scott, falam esse nome de uma maneira completamente diferente: Áivanrrôu. Outra que também não passava em Fortaleza era a série brasileira “Vigilante Rodoviário”, cuja canção tema dizia: “De noite ou de dia/Firme no volante/Vai pela Rodovia/O bravo Vigilante.

O carioca Mario Bag que nasceu e se criou na Tijuca, já procurou de toda maneira achar uma gravação que marcou sua infância. Era a abertura de uma série que também não passava em Fortaleza chamada “Comandante Meteoro”. Talvez porque do alto do maciço da Tijuca, ele se considerasse o próprio, ao repetir de cor, como repete até hoje, o texto épico de apresentação do herói: "No alto de uma montanha que domina uma grande cidade, fica o quartel-general de um homem que se dedica a defender a liberdade e a justiça. Um herói da guerra que nunca deixou de combater os inimigos de sua pátria. Um valoroso homem, que luta incansavelmente contra o mal e sempre o vence. Jet Jackson, o Comandante Meteoro!"

O Brasil e a França: uma história de amor não correspondido (12/4/14)

Fazem parte da tradição cultural brasileira tanto um certo fascínio pela França, mais especificamente por Paris, e uma mágoa por conta da indiferença com que esse amor e as homenagens que dele decorrem são recebidos. No começo do século XX, o então célebre humorista Mendes Fradique, queixava-se que os livros franceses descreviam o Rio de Janeiro como “um grande afluente do Amazonas, o qual banha Buenos Aires, capital do Brasil”. Também  se queixava de alguns franceses que, tratados aqui a pão-de-ló, quando voltavam para casa, saíam a tecer considerações pouco elogiosas sobre os usos e costumes da nossa gente e sobre aspectos da nossa realidade pouco condizentes com os nossos anseios civilizatórios. É longo o listão dos mal-agradecidos. O escritor Paul Adam, que por aqui andou em 1911, despertou a ira das elites locais ao ressaltar o seu caráter mestiço. O ator francês Antoine jurava ter visto cobras circulando pela Avenida Rio Branco. É peça antológica, o livro do secretário de Anatole France em que descreve os comentários maldosos que lhe teria feito o escritor francês sobre os seus anfitriões brasileiros.

Foi uma paixão longa e duradoura que teve início em 1816, embora antes já houvesse um flerte. Com a derrota de Napoleão, as relações diplomáticas e comerciais entre o Brasil e a França foram restabelecidas e o Rio de Janeiro tornou-se alvo de uma nova invasão francesa que, desta vez, em vez de corsários, foi marcada pelo desembarque de  dezenas de cabelereiros, modistas, chapeleiros e perfumistas que tomara de assalto o coração dos elegantes brasileiros. Também desembarcaram pintores, escultores e arquitetos que, liderados por Lebreton, compunham a Missão Francesa de grande influencia no formato que essas artes se fariam no Brasil daí em diante.

Ao longo do século XIX e até as duas primeiras décadas do século XX, o gosto da elite brasileira foi conformado pela cultura, pelos costumes e pela moda francesas. Até as cidades seriam reformadas para se parecerem com Paris. Poetas, escritores e artistas em geral mimetizavam em suas obras o que se produzia na Cidade Luz. Mendes Fradique foi um fruto tardio dessa tradição. Pois quando chegou ao Rio em 1910, já havia quem gostasse mais dos EUA do que de Paris. Apesar do fascínio pela França, o cronista manifestava mágoa pelo descaso com que Paris sempre tratou o esforço de civilização das elites brasileiras. O que mais intrigava Mendes Fradique era a indiferença dos franceses por talentos como os de Carlos Gomes, Rui Barbosa e Guiomar Novais, por exemplo. Por isso, o escritor, avesso ao futebol, comemorou a vitória do Brasil sobre a França, nas Olimpíadas de 1925, onde o craque brasileiro, Friedenreich,  se destacou.

“Assim, não há como negar que o resultado obtido pelo pontapé foi muito mais eficiente que todas as formas de propaganda tentadas até hoje pelo Brasil entre o amável povo francês. (...) Começamos atuando ao nível pára-raios da Torre Eif­fel, com Santos Dumont.Era muito alto o processo e, talvez por isso, os franceses não nos levaram a sério. Resolvemos descer um pouco e comparecemos lá, ao nível da cabeça de Rui Barbosa, que era baixinho. E a França - moita...! Ainda estávamos talvez muito alto, então descemos ainda mais um pouco, descemos ao nível das mãos de Guio­mar Novais. E a França - moita... Descemos então um pouquinho mais, descemos ao nível das pernas do Duque. Aí a França começou a grelar-nos com um pouco menos de desinteresse e consagrou o "maxixe". Só então é que o Brasil parece haver desconfiado que o negócio "estava quente" e desceu, decidido, até o nível do pé. Foi a conta.”

Pois bem, quase 90 anos depois da publicação dessa crônica de Mendes Fradique estamos na mesma. Foi essa a impressão que me ficou depois de visitar em Paris, no mês passado três exposições que tinham tudo a ver com o Brasil de hoje, e não com o Brasil que macaqueava Paris no começo do século XX. Constatei decepcionada que, na grande exposição de Arte Bruta, do Montmartre, onde a gente encontra artistas com trajetórias parecidas com a do nosso Bispo do Rosário e dos tantos talentos revelados pelo trabalho de Nise da Silveira, não tinha nenhum vestígio de Brasil. Até o vídeo que passava ao lado, com exemplos de arquitetura rústica que nos remetiam imediatamente à Casa da Flor, aqui no Rio, esta não aparece. O mesmo sentimento tive vendo a ótima exposição em cartaz no Museu da Imigração – fica em lugar maravilhoso, em frente ao Parque Daumesnil, onde fui a convite de Janice Melhem que mora ali perto. A mostra era sobre quadrinhos e caricaturas produzidas por imigrantes ou tendo a imigração como tema, mas o Brasil que teve tanto artista exilado por lá, não comparece. Mais tristeza ainda é ver que mesmo na mostra de caricaturas da Biblioteca Nacional deles lá, não figura um só artista brasileiro. Faço aqui um meã culpa, pois há muitos anos sou vinculada ao grupo especializado em estudos sobre a caricatura que o organizou, o EIRIS (http://www.eiris.eu)  e podia ter trabalhado mais pelo reconhecimento da produção recente do Brasil nessa matéria. Dei minha contribuição em um dos últimos números da revista “Ridiculosa”, resumindo a historia da nossa caricatura, mas isto ainda é muito pouco.


Na verdade, a íngua portuguesa continua a ser o grande obstáculo para a difusão da cultura brasileira por lá. As escolas francesas oferecem o espanhol como segunda ou terceira língua mas nunca o português. O resultado é que para ser lido por lá é preciso escrever em francês ou mandar traduzir. O que custa os olhos da cara. Por isso, foi com certa melancolia que, no taxi para o aeroporto, vi um cartaz de uma exposição sobre futebol onde a imagem era a da camisa da seleção brasileira, única coisa que ainda nos distingue por lá. Além do carnaval, claro. 

Foi bonita a festa, pá (5/4/14)

Foi só há poucos dias que descobri que o “pá”, do primeiro verso da música de Chico Buarque, “Tanto mar”, é uma forma abreviada de dizer “rapaz”, assim como hoje o pessoal às vezes diz no Rio “rapá”, comentando alguma coisa interessante a um amigo. A descoberta veio junto com outras sensações durante o seminário “Memórias do golpe militar no Brasil (1964) e da Revolução dos Cravos em Portugal (1974)”, organizado por Rita Godet, professora da Universidade de Rennes 2, na Bretanha, no dia 31 de março. Rita é especialista em literatura brasileira e autora de importantes estudos sobre Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e amigo Antonio Torres, o glorioso triunvirato baiano, do qual o último autor é um amigo querido de nós duas.

A primeira parte do seminário, nos deixou com a grata impressão de que a música do nosso Chico Buarque foi o laço mais estreito entre o Brasil e Portugal naquele período. Tanto o historiador português Andre Belo, quanto a brasileira radicada na França, Kátia Bernardon, quanto o francês Jean-Claude Caudrec tomaram a música do Chico como tema ou fonte de inspiração para suas apresentações. Em sua fala, Kátia demonstrou como a mesma música de Chico, “Tanto mar”, proibida pela censura quando foi composta para saudar a Revolução dos Cravos, teve a letra modificada quando, finalmente pode ser ouvida.

É que, após o abraço fraterno que uniu todos os portugueses que tinham lutado pelo fim da ditadura salazarista, a realidade da política, com seu jogos menos nobres, motivaria uma leitura bem menos otimista do futuro de Portugal e de seu povo. Vale à pena comparar o conteúdo das duas letras. No primeiro verso, onde se lia: “Sei que estás em festa pá/fico contente/e enquanto estou ausente/guardo um cravo para mim”, passou a se ler: “Foi bonita a festa pá/fiquei contente/ ainda guardo renitente/um velho cravo para mim”. E renitente porque no verso seguinte em vez de dizer como na primeira versão: “Eu queria estar na festa, pá”, Chico diz: “Já murcharam tua festa, pá”.

Jean-Claude Caudriac contou a história de sua própria recepção do “Fado tropical”, de Chico Buarque e Rui Guerra. Primeiro, a música chegou a ele tardiamente como tendo sido criada por Chico para homenagear a Revolução dos Cravos. As imagens que misturam elementos da paisagem e da cultura brasileiras e portuguesas seriam a forma que os autores tinham encontrado de juntar as histórias dos dois países. No entanto, a própria análise dos versos, especialmente os que acentuam aspectos relativos à violência, dava margem a dúvidas. Parecia estranho falar de mãos que torturam, esganam e trucidam numa canção que celebraria a amizade entre dois povos. Jean-Claude correu atrás de informações e descobriu que o “Fado tropical” na verdade tinha sido composto em 1972, dois anos antes da Revolução dos Cravos e que fazia parte do libreto de um musical, “Calabar” que nunca chegou a ser encenado pois foi proibido pela censura.

Andre Belo contou como a Revolução dos Cravos foi vivida por ele, ainda um garoto, e por sua família. As divisões entre esquerda e direita, o drama dos parentes os que tinham vivido nas antigas colônias africanas e que tinham retornado a Portugal sem nada. Na minha parte, procurei resumir o impacto da ditadura na minha vida a partir de três histórias. Minha colega no Colégio das Dorotéias, Fátima Sipahi foi suspensa na metade do segundo semestre da quarta série ginasial, por ter, no intervalo das aulas, usado o mastro da bandeira para ritmar a musica que cantávamos. Ela não pode mais voltar ao colégio e teve que fazer as provas separada do resto da turma. Seu irmão Aytan e sua irmã Rita eram, naquele momento, presos políticos em São Paulo. Rita, aliás, foi convidada de honra na posse de Dilma Rousseff, pois as duas partilharam cela durante um largo período. O medo dos professores, mesmo os mais liberais, de saírem em defesa de Sipahi, nos revoltou. Só depois, conhecendo do que a ditadura era capaz, pudemos perdoá-los.

Também contei das circunstâncias sobre a prisão e tortura de meu amigo Cláudio Pereira, tal como ele me contou e a terrível historia de frei Tito, tal como tio Oscar Lustosa, frade dominicano e seu amigo me contou. Creio que descrever as torturas que aquele homem da igreja sofreu e de como ela pode ser destrutiva é o contraponto para anular o efeito repugnante do relato dos torturadores que hoje assistimos na Comissão da Verdade. Relatos que, como na brilhante apresentação de Rita Godet, revelam como o torturador, o protagonista do livro “Diário do farol”, de João Ubaldo Ribeiro, pode renovar seu prazer sádico falando sofre o sofrimento que causou em suas vítimas.

Nosso colega português, José da Costa, nos contou que, durante a ditadura salazarista, não havia censores nas redações de jornal. Não era preciso. Ao longo das décadas em que durou o regime, a auto-censura foi penetrando nos espíritos lenta e continuamente como uma “chuva fina”. Provocando um estado de inconsciência tal como o dos personagens da peça “O filho do cão” de Guarnieri, que quase agradecem ao patrão quando este os expulsa da terra em que tinham vivido toda a vida, sem puni-los por erros que acreditavam ter cometido. Eu não conhecia essa peça que foi analisada por André Luis Gomes, professor da UNB, no ótimo estudo que apresentou sobre o teatro brasileiro durante a Ditadura.

Além das histórias que contei, também li a resenha que publiquei do livro de minha amiga Maria Paula do Nascimento Araújo: “Utopia fragmentada”. Publicado em 2001, é obra indispensável para os que querem conhecer a mentalidade das novas esquerdas durante os anos 70. O livro de Paula está disponível pela módica quantia de 13 reais no site da FGV: http://www.editora.fgv.br/?sub=produto&id=114. E termino aqui com o comercial dessa amiga cuja trajetória é, em si mesma, uma síntese daqueles que foram os piores mas também os melhores anos de nossas vidas.