Dolores 99 (8/6/13)

Dia 11, mamãe faz 99 anos. Ela nasceu em 1914, ano em que começou a Primeira Guerra Mundial. Ela está bem, dentro das possibilidades de quem beira o centenário. Cabeça boa que sempre nos surpreende com tiradas de profundo bom-senso. Gosta de rir junto com a gente e está sempre atenta para as conversas em volta dela. O ouvido não é muito bom, ela insiste em saber do que estão rindo ou sobre o que estão cochichando. E a ironia mordaz dos Lustosa, família de seu pai, Crispiniano, continua muito afiada.

Antigamente eu achava que aquela música tradicional de David Nasser e Herivelto Martins que se cantava no dia das mães não tinha nada a ver com a minha mãe. Na parte que falava no “avental todo sujo de ovo”, a gente não reconhecia d. Dolores. A gente nunca viu mamãe de avental, pois ela até gostava de costurar, mas na cozinha era um desastre. São os primeiros versos que têm a ver com ela: “Ela é a dona de tudo/ ela é a rainha do lar/ ela vale mais para mim/ que o céu, que a terra, que o mar/ ela é a palavra mais linda que um dia o poeta escreveu/ ela é tesouro que o pobre/ das mãos do Senhor recebeu.”

Tem a ver com mamãe, principalmente a parte que fala no “tesouro” pois foi sempre mãe abnegada,  sempre preocupada com os filhos, sempre querendo saber de todos e sempre pronta a socorrer aos que mais precisarem. Nunca foi de muito chamego. Nesses era pródigo o papai. Ela, não, mais silenciosa e de forte presença, se preocupava com nossos estudos, verificava nossos cadernos e cuidava para que nunca nos atrasássemos para a escola. Sua letra bonita estava na capa de papel madeira com que cobria todos os nossos livros e cadernos para melhor conservá-los. O empenho dela e de papai para que todos os filhos se formassem e uma de suas frustrações foi a de não ter podido cursar uma faculdade. Moça inteligente e preparada, normalista que se fez professora, o casamento com o belo rapaz do Ceará que foi buscá-la em Cajazeiras, na Paraíba, talvez tenha sido a causa do abandono desse sonho. Ambos, jovens católicos que tinham que se conheceram no movimento integralista em que militavam, fizeram casamento baseado no amor e na identidade intelectual e moral.

Criou seus treze filhos juntando os salários modestos do marido e dela, numa econômica doméstica rigorosa que priorizou sempre a escola e os estudos em detrimento de qualquer supérfluo. Quando eu era criança detestava que na nossa casa o sabonete e a pasta de dentes fossem os mais baratos que vendiam no mercado. Também não fiquei contente ao descobrir, bem antes de um dos natais de minha infância, escondidos no alto do guarda-roupa, os brinquedos modestos que íamos ganhar: bonecas de plástico, daquelas inteiriças sem pernas e braços articulados como eram as bonecas bacanas. Detestava ter que levar na merenda da escola sempre o mesmo pão com goiabada em vez de dinheiro para comprar pastel e refrigerante na cantina. Ela controlava a dispensa e não gostava que a gente levasse ninguém para comer lá em casa. Só mais tarde, quando tive minha própria casa, com meu único filho para manter me dei conta da mágica que ela e papai faziam para dar alimentação, roupa e escola para essa tropa toda.

Lembro de uma vez que ela me falou a propósito de algum doce especial: coma com parcimônia. Eu nunca tinha  ouvido aquela palavra, mas brinquei dizendo que ia comer e depois ver no dicionário o que era parcimônia. Ela riu, porque sempre teve um extraordinário senso de humor. Até hoje fala pouco, mas é capaz de dizer coisas terríveis de tão diretas e sinceras mas sempre engraçadas e pertinentes. Gostamos de provocá-la, pois sabemos que ela também gosta deste tipo de jogo que anima as reuniões familiares. Uma vez, durante um de nossos divertidos almoços de domingo, mostrei a ela o braço todo tatuado do Benoni que havia pouco tempo havia se casado com sua neta, a Silvia, filha da Socorro. Eu disse: “olhaí, mãe, o braço dele”. E ela, apurando a vista, mirou a tatuagem e perguntou para a Silvia: “mas você não viu isso antes, não?” Quase que Benoni era devolvido. Mas ganhou passe permanente depois que nasceu Liz, filhinha deles, cuja beleza mamãe não cansa de admirar. Liz que ganhou esse nome por conta da revista que mamãe e algumas amigas de juventude, lá na Paraíba publicaram nos anos 20: “Flor de Liz”.

Outro dia, ouvindo os projetos de um de seus netos que planejava viajar para a Europa, mamãe comentou: “Será que eu ainda vou a Europa antes de morrer?” Foi um comentário tão inusitado porque ela acabara de sofrer muito, muito mesmo, para entrar e sentar no banco do carona do carro. Mesmo assim, quando chegamos em casa, ficamos fazendo planos para a viagem, imaginando os lugares a que iríamos e quem levaríamos na nossa excursão. Tocou o telefone e Clélia comentou com quem tinha ligado que mamãe estava planejando ir à Europa. Foi logo repreendida para deixar de ser afobada. Mamãe disse: “Que exagero, eu não vou viajar para a Europa amanhã, não”.

 Não vai nem amanhã, nem depois. É um sonho impossível pois mesmo para ir ali perto na casa da Lucia ou da Socorro, o entrar e sair do carro, o andar por pouco que seja, lhe custa. Mas quem vê suas fotos, onde aparece sempre elegante, com seus belos cabelos e seu charmoso sorriso, nem desconfia. Mamãe sempre saiu bem na fotografia. E para terminar essa crônica que já vai se tornando terrivelmente sentimental, saúdo d. Dolores com os versos finais da mesma canção acima citada e que dizem:

“Mamãe, mamãe, mamãe/
Tu és a razão dos meus dias/
Tu és feita de amor e de esperança/
Ai, mamãe, mamãe/
Eu cresci, o caminho perdi/
Volto a ti e me sinto criança/ Mamãe, mamãe, mamãe/
Eu te lembro, o chinelo na mão/
O avental todo sujo de ovo/
Se eu pudesse/
Eu queria, outra vez, mamãe/
Começar tudo, tudo de novo...”

Domésticas (1/6/13)

Visitei alguns intelectuais franceses em seus apartamentos, com suas grandes bibliotecas. Claro que não são como bibliotecas de filme com tudo arrumadinho, belas encadernações e estantes de boa madeira. Biblioteca mesmo, de quem precisa de espaço realmente para os livros não pode se dar ao luxo de ter estantes espaçosas. Quem reina ali é o livro e a estante precisa ser prática para que possa armazenar o máximo em pouco lugar. O problema mesmo é limpar tanto livro. Daí que em casa de intelectual europeu velho, a sensação que se tenha mesmo é de muita poeira pairando no ar. Até por conta da idade avançada do anfitrião e, naturalmente, pela falta de uma empregada doméstica. Mas onde encontrá-las em país onde não há essa tradição? Pois quase todo parisiense de classe média, ao contrário de nós, cresceu sem o hábito de ver em casa, todos os dias, do café da manhã ao jantar, a empregada da casa. Eles se acostumaram a lavar a própria roupa, a fazer a própria comida e a limpar a própria casa. E o fato de terem se acostumado desde cedo a essas tarefas faz toda a diferença entre eles e nós.

    Eu, por exemplo, cresci em família enorme onde sempre houve não só uma empregada mas também uma engomadeira, e aquelas pessoas que se incorporavam à família sem ser empregadas e sem ser filhas como a Chaga, a Lili e a Maria. Dizem que essa é a pior condição. O sujeito nem tem salário, nem é filho. Não sei não. As três entraram na família meninas ainda, órfãs, muito antes que eu tivesse nascido. As duas mais velhas casaram quando eu era muito pequena e a Maria, que se ocupou de nós três, os mais novos, nunca foi mesmo uma empregada. Era uma irmã de criação e seu Costa se empenhou para dar-lhe estudos e, quando ela quis, para fazer seu casamento com o Antonio, o motorista. É que ela queria casar com ele mas ele hesitava.

Maria gostava da gente, eu e Clélia, mas amava sobretudo ao Fred, o caçula. Magrinha, pequenina, clarinha e de voz delicada, Maria Farias era muito valente. Tinha aquela determinação dos que quando botam uma idéia na cabeça vão até o fim. Na adolescência, teve uma paixão por Orlando Silva, o cantor das multidões. Guardava retratos autografados e as cartas apaixonadas que lhe escrevera sob o travesseiro mas aí apareceu o Antonio e Orlando Silva foi esquecido.

Até hoje, Maria e Antonio, Chaga e Lili continuam a fazer parte das nossas vidas. Todos os anos, na véspera do Natal, as duas mais velhas, que tiveram vida mais modesta por conta dos casamentos (não ouviram os conselhos de seu Costa que não aprovara os noivos), vinham receber as festas. Depois, com as doenças e dificuldades da vida, era a mamãe que ia visitá-las, de tempos em tempos, para saber como iam e para levar-lhes alguma ajuda. Maria e Antonio seguiram à risca os conselhos de seu Costa, compraram casa boa na Aldeota, perto do Colégio Militar, depois trocada por apartamento confortável no mesmo bairro. Quando Antonio fez 70 anos, Lustosa fez questão de publicar um livro com depoimento de todos nós que o conhecemos desde a nossa infância. Ele, depois que se aposentou da COELCE, voltou a ser o motorista e homem da absoluta confiança de mamãe.

Não é que toda a gente que trabalhou lá em casa tenha estabelecido essa mesma relação de familiaridade. Quem chegou mais perto disto foi a Raimunda. Talvez porque sua filha, a Sonia, era pequena quando ela veio trabalhar conosco e, por causa disto, mamãe se ocupava com os seus deveres de casa. E Sonia nunca trabalhou para nós. Ao contrário, o investimento foi em dar-lhe boa educação e fazer com que ela conquistasse um espaço melhor na sociedade. E de fato assim foi, pois quando surgiu uma vaga de estagiário em uma secretaria do Estado, Clélia conseguiu um lugar para ela que ali fez carreira e, creio, até já se aposentou.  

Papai tinha essa intuição de identificar em um menino pobre aquelas qualidades de caráter que indicavam que ali estava alguém que poderia, com um empurrãozinho, melhorar de vida. Talvez porque ele mesmo tenha sido um menino assim, ajudando a mãe desde cedo, quando o pai ficava doente. O estímulo que recebera de pessoas boas na infância e na adolescência fora fundamental para que ele, com a ajuda é claro, de suas enormes qualidades pessoais, conquistasse seu lugar no mundo. E como o Antonio, descobriu muita gente a quem dado o primeiro empurrãozinho, viu com alegria ter vida melhor.

Trabalhando fora e vivendo sozinha com meu filho no Rio, sempre precisei ter empregada em casa. Tive-as dos mais variados tipo. A todas sempre tratei bem, seguindo rigorosamente o que a lei mandava em termos de direitos trabalhistas. Nunca estabeleci com elas esse tipo de relação afetiva como as que vi meus pais dedicarem às pessoas que o serviram. Mantive sempre a distância que qualquer relação entre patrão e empregado – seja na fábrica, no escritório ou em casa - deve ter, para que se paute pelo respeito mútuo e pelo cumprimento estrito das obrigações de parte a parte. Nada que não me impeça de lhes trazer presentes, quando volto de viagem ou nas datas especiais e aniversário de seus filhos. Hoje tenho apenas diarista. Meu marido não gosta que tenhamos alguém em tempo permanente em casa e é mais do que suficiente.

Não acho que a nova lei vá mudar muita coisa na vida nessas relações. Acordos e acomodações se farão, especialmente entre aquelas patroas e empregadas que estão juntas há muitos anos. Na Europa, vi jovens universitárias trabalhando como diarista para pagar os estudos. E isto em nada as diminuía nem para quem as contratava, nem diante delas mesmas. Era uma relação de trabalho como outra qualquer. Pode ser que no Brasil do futuro, arranjos assim sejam perfeitamente factíveis.

Lugares de memória (25/5/13)

(Para o Chico, morador da antiga Rua do Príncipe) 

Quem chega de viagem, vindo pela Avenida Brasil no sentido da zona sul, depois de atravessar o elevado da praça XV, desembarca no Aterro e logo a vê a igrejinha branca. Outeiro da Glória: delicado como uma capelinha de cidade de interior, emoldurado pelas palmeiras imperiais que, de longe, nos acenam, imagem que aquece o coração do viajante como a primeira saudação da cidade amada. Sua beleza singela compete em desvantagem com a paisagem grandiosa de cartão postal do Pão de Açúcar e da Baía de Guanabara. Mas seu apelo tem algo de mais especial: é para os iniciados nos segredos do Rio... 

Também é coisa de iniciado o conhecimento de toda aquela região de casario e prédios antigos que circundam a igrejinha. Casario que faz dos bairros da Glória e do Catete seqüências da Lapa e do centro velho do Rio que sobreviveu ao bota-abaixo promovido no começo do século pelo Prefeito Pereira Passos. São os vestígios de um Rio de Janeiro que desapareceu. Um Rio de Janeiro que, de vez em quando, a gente entrevê nas páginas de Machado ou de Lima Barreto. Um Rio de casas assobradadas, de corredores compridas, chão de tábua corrida, com suas janelas de duas folhas e seus florões, arte meio rústica dos mestres de obra portugueses... É uma paisagem urbana que as pessoas olham todos os dias sem se aperceber mas que representa aquele aspecto da história da cidade no que ela tem de mais íntimo, mais familiar. O cotidiano das famílias de classe média que, no Rio de Janeiro bem menos violento dos tempos d’antanho, punham suas cadeiras nas calçadas para ver o bonde passar. E das janelas abertas onde, outrora, se postavam mocinhas namoradeiras. As procissões e os carnavais se sucedendo através dos anos, cruzando aquelas ruas tão nossas. 

Muito se perdeu: Catete e Glória, já não são os mesmos do tempo dos presidentes e do tempo ainda mais longínquo do Imperador. Perderam muitas das suas características particulares. Sumiram as pensões familiares das primeiras décadas deste século. Casas de cômodo de um certo nível em que se abrigavam famílias vindas do interior ou grupos de estudantes boêmios. Creio que já não se encontra ali nenhum exemplar daquele comércio tão característico do velho centro do Rio que ainda cheguei a conhecer: comércio de balcões e prateleiras escuras, papel grosso para embrulhar a mercadoria, barbante descendo do teto e um indefectível dono português a escrevinhar a contabilidade da empresa. 

Mas ainda se avista, seguindo pela Rua da Glória em direção à Bento Lisboa e antes de se passar defronte do prédio da histórica delegacia, o casario da rua Barão de Guaratiba com suas paredes amarelas e portas vermelhas, casas emparelhadas, de interior sombrio e aluguel barato. Ainda estão lá os prédios da Beneficiência Portuguesa; do Templo Positivista; do Palácio de São Joaquim; o antigo Asilo de São Cornélio, o prédio do High Life, outrora espaço de bailes carnavalescos trepidantes, ainda resiste mas virou repartição do INCRA. Ainda enfeitam a Glória a linda estátua de São Sebastião, padroeiro da cidade; o velho relógio e o pequeno muro que um dia já separou a Glória do mar. No Catete ainda persistem alguns hotéis tradicionais e, claro, os prédios históricos dos museus da República, do Folclore e do Telefone e do Colégio Amaro Cavalcante, no Largo do Machado. O economista Carlos Lessa recuperou e devolveu à cidade casarão na esquina da Pedro Américo a que chamou Ameno Resedá (será que era ali mesmo a sede daquele rancho carnavalesco?). Bem que ele podia completar o serviço e achar um lugar para a desaparecida gafieira Flor do Abacate. 

O Catete já foi o coração do Brasil. Viu, por exemplo, naquele fatídico 24 de agosto de 1954, a cidade passar debaixo de suas janelas na direção do Palácio do Catete para dar adeus ao presidente suicidado Getúlio Vargas. Viu sucessivas levas de manifestantes que preferiam, vivendo aqui o Papai grande (que é como o povo do começo do século XX chamava o presidente), recorrer diretamente a ele, deixando de lado o prefeito. Revoltas como a da Vacina que pôs em armas os meninos da Escola Militar ou da Chibata, liderada por João Cândido, o Almirante Negro, que apontado os canhões dos grandes navios na direção do Palácio do Catete assustou os moradores. Tantas histórias... A posse e a saída dos presidentes sob os aplausos ou as vaias da multidão. A mudança de alguns para a vizinhança, como os paulistas Prudente de Moraes e Campos Sales, instalados na Pensão Bethoven, na Glória, antes de seguirem para São Paulo. O assassinato de Pinheiro Machado, em 1915, na portaria do luxuoso Hotel dos Estrangeiros que ficava bem ali na praça José de Alencar, hoje feia e banal rotunda onde só se destaca a estátua de Machado de Assis, “cochilando no banco da frente”, como disse Mendes Fradique. 

Manuel Bandeira lamentou na Elegia inútil as mudanças de nome das ruas do Rio: Lágrimas, duas a duas/ choraram dentro de mim,/ Ao ver que o prefeito Alvim,/ mudou o nome a tantas ruas. Muitas delas ficavam do Catete e seus nomes: Eram lindo assim: Rua Bela da Princesa/ ( que distinção, que beleza! Nome que cheira a jardim). De fato, era bem mais bonito que “Correia Dutra”. Bandeira também diz que: Muito nome foi mudado,/ mas o novo não pegou;/ nunca ninguém falou/ senão Largo do Machado. Pois não colou a tentativa de mudar o nome tradicional do Largo do Machado para Praça Duque de Caxias. Aqui o poeta abre um parêntese para incluir referência especial ao Largo: (Este nome pode ser, quando muito, acrescentado, assim, Largo do Machado de Assis gosto de dizer. Na do Catete, contou-me Z., o mestre escreveu Brás Cubas, Darás na casa se subas pela rua de seu nome.) Grande Catete, até esta glória te estava reservada: a de ser o berço de uma das maiores (senão a maior) obra de nossa literatura...

Profissão: ator (18/5/13)

Quarta-feira fui ao Teatro Dulcina com meu amigo Almir Telles ver Emiliano Queiroz em seu espetáculo “Na sobremesa da vida”. Acho que, nos últimos anos, só fui ao teatro quando convidada pelo Almir. É que Mario Bag é adepto do slogan daquela campanha de apoio às artes cênicas aqui no Rio que dizia: “Vá ao Teatro”, no caso dele sempre com o complemento criado pelo pessoal do Casseta & Planeta: “mas não me chame”. De modo que, acabo só indo ao teatro quando algum amigo ou amiga me chama e, quem me chama de tempos em tempos é o cearense Almir Terceiro Telles.

Conterrâneo estabelecido no Rio há mais de cinqüenta anos, Almir se tornou meu amigo por aqui mesmo. Tínhamos um amigo comum, o Merlin. Figura adorável que conheci no Museu da República nos anos 80, Merlin liderava a equipe responsável pela restauração de todos os metais, grades, portões, trincos e fechaduras centenários da Casa que um dia foi do Barão de São Clemente e, depois, abrigou a Presidência da República até a mudança da capital para Brasília. Eu trabalhava lá desde 1983 quando fizeram a grande restauração da bela casa, inclusive jateando as paredes externas e revelando a riqueza do mármore cor de rosa que a reveste. Foi o Merlin quem me apresentou ao Almir, amigo com quem dividiu por um tempo casa em Copacabana.

Homem do teatro, loiro, alto, bonito e simpático, Almir foi um dos primeiros galãs da TV Ceará, Canal 2. Cedo veio para o Rio onde fez teatro, cinema e televisão mas se consagrou mesmo foi como o grande mestre da arte da interpretação na CAL e em alguns colégios da Zona Sul. Muita gente boa que hoje brilha na telinha foi seu aluno. A gente se deu bem de cara, ainda mais porque soube logo ou algum tempo depois, que ele fora amigo de adolescência do Claudio Pereira. O querido Pereira cujas historias do tempo do Liceu contadas pelo Almir complementaram as que contou Fausto Nilo, também aluno do mesmo colégio. Alguém que foi amigo do Pereira em tempo tão pretérito sempre teria lugar na minha vida pois a ligação que eu e alguns de meus familiares tínhamos com ele é difícil de classificar: Pereira era um pouco menos que irmão. Mas era muito mais que nosso amigo.

Graças ao Almir é que fui apresentada a Emiliano Queiroz, anos atrás, em um espetáculo dirigido por Bia Lessa. O teatro estava em reforma e essa diretora genial escolheu levar “Medeia”, com um elenco de celebridades em meio aos escombros e a poeira. O efeito foi bárbaro. Emiliano com seu manto preto parecia enorme. Depois, tive o gosto de contar com sua ilustre presença no lançamento de um de meus livros, sempre trazido pelo Almir. 

Claro que como toda cearense da minha geração eu tinha visto Emiliano Queiroz ainda na TV Ceará, fazendo propaganda de eletrodoméstico, creio eu. Usava um pega-rapaz e se despedia dizendo: para quem fica, tchau. Naquele tempo era o único canal de TV que tínhamos e em seu cast brilhavam: Ary Sherlock, Jório Nerthal, Carla Peixoto, João Ramos, para falar dos que ainda me lembro. A gente não tinha muita chance de ver esse pessoal na TV porque lá em casa às oito, hora que tocava o “boa noite garotada”, com aquela musica tão triste do boi da cara preta, a gente era mandada para a cama,  à revelia, claro. Ainda assim, me lembro do Jorio Nerthal com mangas bufantes declamando o navio negreiro e da Carla Peixoto com uma espécie de cicatriz que lembrava uma ameixa seca no canto da boca fazendo a vilã de alguma novela. Que pena que nada disso ficou gravado.

Ver Emiliano relembrando seus 76 anos de vida e mais de 50 de palco, narrando, cantando, e dançado por quase duas horas foi uma viagem encantadora. Porque “nosostros”, simples mortais, sentimos um fascínio tremendo pelos artistas, por suas vidas tão diferentes das nossas. São vidas que nos atraem e atemorizam pelo que têm de imprevisível, de arriscado e de transgressor. Neles parece que sobrou algo da vida nômade de seus ancestrais mambembes que percorriam as estradas em suas carroças se apresentando pelas cidades do interior séculos atrás. Do tempo em que sua profissão era assunto de polícia e todos tinha carteirinha da secretaria de costumes. Talvez seja por isso que haja algo de perigoso no ator. Talvez porque desconfiemos deles, talvez porque achemos que podem sempre estar encenando. Mesmo grandes damas como Tônia Carreiro e Fernanda Montenegro, que tive oportunidade de apertar a mão em breves encontros, senhoras muito educadas e discretamente vestidas, nos deixam desconfiados. Há algo de enganador em seus gestos, quase como uma imperceptível piscada de olho, deixando a gente na dúvida se foi isto mesmo ou se apenas imaginamos.

O fato da vida de artista que vi ser encenada no palco do Teatro Dulcina ser a vida de um cearense de Aracati que passou parte da infância em Russas, a adolescência em Fortaleza e que daí partiu para conquistar o mundo tem um gosto todo especial. O soldado raso que sonhava em ser ator de cinema, o James Dean caboclo que encarou a dureza de tentar a vida em São Paulo, voltou ao Ceará para depois renascer e seguir trajetória de sucesso, enche de orgulho os conterrâneos. Viveu tanta coisa, correu tantos riscos, se expôs ao azares dessa vida incerta feita de alternância entre o esplendor e a miséria e saboreia a sobremesa da vida na melhor forma possível.  Contando ainda, como brincou em “caco”enfiado no texto com um cafezinho, quem sabe mesmo um licor, antes de se despedir.

Foi bom estar mais uma vez com Emiliano e Almir, amigos de um mundo com que essa barnabé sempre flertou à distância. Encontrá-los é bom para lembrar que nem sempre fui tão careta assim. É reencontrar a jovem que um dia fui, neles que, a qualquer momento, podem ser convidados a subir ao palco como menino, menina, homem, mulher, nenhuma ou todas essas opções ao mesmo tempo.

Poesias, letras e músicas (11/5/13)

“Circulo Vicioso” é o título de um dos poemas que aprendi de cor através das paginas da “Nova Seleta”, livro que a gente usava no curso de admissão, no tempo em que havia curso de admissão (o que era isto? perguntem aos seus pais. Melhor, perguntem aos seus avós). E no tempo em que havia seletas, ou, para usar um termo mais empolado e que só aprendi muito tarde, no tempo em que as escolas adotavam as crestomatias. Está lá no dicionário: “Coletânea didática de trechos escolhidos de autores clássicos; antologia, florilégio, seleta.” Florilégio nunca pensei em usar, mas crestomatia é uma palavra tão esquisita que quando organizei uma que nunca viu a luz pensei em tascar lá bem na capa em letras garrafais: Crestomatia.

Acreditava que o leitor moderno, que talvez se entediasse diante do titulo, “Antologia das letras nacionais”, teria curiosidade em saber o que se escondia por trás daquela estranha palavra. Não convenci os editores e o projeto naufragou por conta do elevado custo e da penosa negociação em torno dos direitos autorais dos herdeiros. Eu bem que poderia ter juntado “Navio Negreiro”, “Meus oito anos” ao “Circulo Vicioso” e a outros clássicos que até hoje sei de cor, mas seria uma pena ter que renunciar a tanta gente boa que veio depois.

Dizem que Machado é mau poeta mas, como leitora de sua obra de escritor e jornalista quase não tenho reparo nenhum ao que escreveu pouco me dediquei aos seus poemas e não sei nem se aprecio aquele único que é citado em que ele homenageia a Carolina, sua falecida mulher. Mas eu gostava de “Circulo vicioso”, antes mesmo de conhecer e de gostar de Machado de Assis. Na verdade meu gosto pelo poema tem a ver, creio, com o gosto pouco apurado de gente que ama o ritmo, a repetição, as construções lógicas, os recursos oratórios de efeito e que gosta ainda hoje é mesmo de poesia rimada. E que também tem preferência por esse tipo de discurso que vai em um crescendo, ou que viaja em círculos. O corresponde musical mais conhecido é o Bolero de Ravel.

Tem uma música do Walter Franco que harmoniza bem esses dois recursos: “Me deixe mudo”. Ela não tem começo nem fim. Esses são dados pelo som que começa bem baixinho, vai subindo e volta a cair, com a letra sempre se repetindo:

Não me pergunte/
Não me responda/
Não me procure/
E não se esconda/
Não diga nada/
Saiba de tudo/
Fique calada/
Me deixe mudo/
Seja num canto/
Seja num centro/
Fique por fora/
Fique por dentro/
Seja o avesso/
Seja a metade/
Se for começo/
Fique à vontade/ Não me pergunte…

 Procurando pela letra no Google descubro que a musica foi gravada pelo Chico Buarque, em 1974. Hoje praticamente desconhecido do grande publico, Walter Franco e suas composições foram tema de artigo acadêmico de Silvio Stessuk que diz que “Me deixe mudo” foi considerada por Augusto de Campos a canção com “o maior registro de silencio já feita no Brasil”. Bom, não sei se o meu gostar da música se deve ao mesmo fator que fez tanta gente boa, como revela Stessuk, gostar da música de Walter Franco. Pois na verdade, também gosto da letra do Chico em que ele desconstrói aforismos clássicos invertendo suas proposições, “Bom Conselho”:

 “Ouça um bom conselho/
Que eu lhe dou de graça/
Inútil dormir que a dor não passa/
Espere sentado/
Ou você se cansa/
Está provado, quem espera nunca alcança/ Venha, meu amigo/
Deixe esse regaço/
Brinque com meu fogo/
Venha se queimar/
Faça como eu digo/
Faça como eu faço/
Aja duas vezes antes de pensar/ Corro atrás do tempo/
Vim de não sei onde/
Devagar é que não se vai longe/
Eu semeio o vento/
Na minha cidade/
Vou pra rua e bebo a tempestade”.

Com aforismos também brincou Caetano na musica “Eles”. Enquanto Chico destrói os aforismos, convidando a fazer o contrário do que recomendam (brincar com fogo) ou afirmando o contrário do que dizem (devagar é que não se vai longe), Caetano faz em sua letra é usá-los como registro da conformidade da classe media, de uma vida feita de prevenções e receitas para não errar.  O titulo “Eles” já indica que o autor não se inclui nessa relação de atitudes que deviam ser as de seus pais e não a do jovem que ele então era. Dos que são orientados pela religião católica, pela distinção nítida entre o bem e o mal, pela espera do dia do Juízo Final. Enquanto isto vão se orientado pelos refrões que dizem:

“E há só um galo em cada galinheiro/
E mais vale aquele que acorda cedo/
E farinha pouca, meu pirão primeiro/
(...) E pior a emenda do que o soneto/
Está sempre à esquerda a porta do banheiro/
E certa gente se conhece no cheiro”.

E com isto fui me afastando de Circulo Vicioso. Voltemos a ele. Esse poema também tem um ritmo e uma lógica ascendente para terminar voltando ao ponto inicial. Fala da ambição do menor sempre invejando o que está logo acima dele. “Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:

- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,/
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !/
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:/

- Pudesse eu copiar o transparente lume,/
que, da grega coluna á gótica janela,/
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!/
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:/

- Mísera! tivesse eu aquela enorme claridade imortal,/ que toda a luz resume!/
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante aureola de nume.../ Enfara-me esta azul e desmedida umbela.../
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

Não é bacana? Eu continuo gostando. Cada verso tem seu personagem. Primeiro o vaga-lume, depois a estrela, depois a lua e finalmente o sol. Cada um com seu drama existencial e esse drama existencial tem a ver com inveja. Mas tem a ver sobretudo com insatisfação. A gente nunca está satisfeito com o que tem, é a lição final. É meio careta e talvez aproxime o Machado mais dos personagens criticados nas músicas de Caetano e de Chico do que deles mesmos. Mas enfim, cada atitude tem seu poeta e eu não desgosto de algumas verdades contidas nos aforismos.

Outros "casebres" e o rival do Romário (4/5/13)

Outro dia, disse a uma amiga que tem mania de se desvalorizar que ela que agora vive momento excepcional na carreira e que tratasse de superar essa mania. Minha amiga é daquele tipo que, quando acena de longe para alguém e o outro, por não ter visto, ou por qualquer outro motivo não corresponde diz: “Eu acenei mas ele não me viu. É porque eu sou um NADA mesmo...” Minha amiga é bonita, charmosa, elegante, tem livros publicados e muitos amigos que lhe querem bem. A carreira avança de sucesso em sucesso e ela recebe convites para participar de congressos e dar cursos no exterior. No entanto, continua na mesma ladainha. Na mesma atitude de deslumbramento com uns e outros que considera almas superiores.

É a “síndrome do casebre” de que já tratei aqui em outra coluna. Apelido que eu e Mario Bag demos a um colega de profissão, que a toda comparação que se fazia entre ele e outros desenhistas dava um jeito de dizer que a situação dele era pior… "Não moro numa casa, moro num casebre… Quando viajo, durmo em palhoças...", ele dizia. Quando vemos um caso semelhante, de alguém com a auto-estima em baixa, dizemos: "Fulano é o maior casabre!".

 Essa síndrome não depende de raça, cor, posição social, religião ou talento. O artista plástico Ângelo Venosa me contou que seu sogro, que imigrou para o Brasil fugindo da onda anti-semita que varria a Europa na primeira metade do século XX, padecia desse mal. Quando se estabeleceu em Campos dos Goitacazes com um armarinho que vendia de tudo, ao invés de imitar a concorrência que não economizava em mania de grandeza: Império dos Tecidos, Reino das Sedas, Paraíso das Linhas, Rainha da Moda, Agulha de Ouro, etc. escolheu dar à sua loja o nome de “A Razoável”… Nada de propaganda enganosa, quem quisesse o melhor fosse procurar na vizinhança, ali era tudo mais ou menos ( era razoável...).

Tem muita gente assim, que não sabe se dar valor e se coloca em posição de inferioridade no primeiro momento... Na hora de negociar salário ou preço de trabalho fica a mercê do explorador. Já na própria atitude, o cara assume postura subalterna e aí, como diz o vulgo: "neguim monta em cima…". Conheço um designer, gente boníssima e talentosa que, para conversar o emprego em tempo de vacas magras e grande concorrência na área assume até tarefas de boy. Sempre que solicitado, acorre prestimoso, com um sorriso nos lábios, dizendo com bom humor: “Tá na mão, chefia!”... Como nasceu no Ceará, terra que exporta muitos garçons para o Rio, alguns colegas o apelidaram de "designer garçom". Com isto tem conservado o emprego mas com ele, também, o salário modesto.

    Essas coisas marcham juntas, a excessiva humildade de uns estimula a arrogância de outros. E, às vezes o cara nem tem tanto talento assim, mas faz uma pose, bota uma banca, dar-se tais ares, que o povo acredita e paga mais por isto do que pelo que o trabalho do outro realmente vale. No meio acadêmico estamos cansados de encontrá-los. Às vezes, o sujeito nunca fez nada, nunca completou um trabalho, nunca publicou, mas acredita tanto em sua inteligência e em sua superioridade que trata os outros com a maior empáfia. De fato, é um cara inteligente, de fato, é culto. Mas e daí? O que fez com este capital inicial?

Com o passar dos anos a gente vai se surpreendendo com alguns fenômenos tais como encontrar, muitos anos depois, aquele colega da faculdade ou de pós-graduação do qual zombávamos, por conta de sua ingenuidade ou falta de cultura, com uma carreira reconhecida e consolidada. Ele a foi construindo passo a passo, enquanto construía o seu próprio self. Ele amadureceu no processo ao realizar trabalhos difíceis, cumprindo prazos para publicar artigos, terminando trabalhos que exigiam dedicação, participando ativamente da vida acadêmica.

Aqueles cuja inteligência foi exaltada desde cedo tem muita dificuldade de se adaptar ao cotidiano do mundo do trabalho. A expectativa elevado que têm de si mesmos faz com que achem tudo o que fazem insatisfatório. Pois não podem errar. Não podem arriscar desmentir a lenda que foi criada em torno deles. Estão aprisionados nesse ideal que nunca se realiza. Sonham de mãos vazias… Vão ficando para trás enquanto os outros, os menos brilhantes seguem em frente, crescendo a partir de seus esforços. Alguns daqueles sujeitos que considerávamos brilhantes naquele tempo, revelam-se depois tão mesquinhos, tão ressentidos, tão sem grandeza e sem brilho pessoal… Fazem até a gente pensar: "Será que eles eram mesmo tão brilhantes assim?"... Não eram ou não desenvolveram as qualidades com que a vida lhes dotou? Inconformados, irônicos  e amargurados, sentem-se injustiçados pelo fato de fulano e sicrano, umas bestas do tempo da faculdade, estarem onde estão.

Acho que esse caminho fica mais fácil quando a gente adquire uma consciência plena dos próprios limites e possibilidades. Saber que nunca vai fazer determinados trabalhos porque não tem talento, nem vocação para eles, à vezes é bom. Em compensação, ter outros talentos e outras vocações que, se bem trabalhados, com a consciência de que o caminho se faz ao andar, que a natureza e o espírito da gente vão se forjando ao longo dele, entre alegrias e decepções, garantirão uma carreira bem sucedida é melhor ainda. 

Para concluir, um exemplo que é justamente o contrário do espírito do "casebre":
Lembro do sujeito que, na porta do bar do Abílio, na Tijuca, varria as guimbas de cigarros na calçada, fazendo muitas criticas ao Romário, então no auge de sua carreira. Detrás do balcão, o Abílio, com seu sotaque lusitano característico não se conteve: “Mas tu tens uma inveja do baixinho, hein?” Ao que o outro, parando de varrer e apoiando-se no cabo da vassoura, camisa rasgada, calça velha, remendada e enodoada; pés sujos calçados em umas sandálias havaianas gastíssimas, perguntou, indignado: “Eu? Inveja do Romário? Me diga uma coisa, Abílio, porque é que eu ia ter inveja do Romário?”

Amor (27/4/13)

Outro dia, li na coluna de Ancelmo Góis nota sobre o falecimento da mulher de Noca da Portela, que fora sua companheira por mais de 58 anos. O sambista teria comentado: “No domingo, ela tomou uma cervejinha sem álcool, aí eu pensei: “a nega velha melhorou”. Quando li, lembrei que, há alguns anos, Mario Bag me contou ter visto no balcão do bar do saudoso Abílio, na Tijuca, um homem do povo pedir: “Abílio me vê um pedaço bom desse pernil que eu quero levar prá nega velha saborear”.

 É bonita essa expressão “nega velha”ou “nega réia” como a gente diz no Ceará, quando usada assim no contexto de um velho casal de negros (ou não), unidos por uma história em que talvez, no começo, ela fosse neguinha, depois “minha nega” e, finalmente, “nega velha”. Em todas as situações sendo esse o tratamento da intimidade afetuosa, e talvez mesmo, na última, respeitosa. Pois a nega velha, companheira da vida inteira, não foi destronada no coração por nenhuma outra negra ou branca e continua ali, poderosa, reinando sobre a família, cercada de mimos, seja a cervejinha sem álcool ou o pedaço de presunto do bar do Abílio.

Pensei nisto a propósito da morte da minha querida amiga Nice e de sua longa história com o Estrigas. Estrigas, diga-se que só ela, chamava de Nilo, pois foi como Nilo Firmeza que o conhecera no começo da vida de ambos, quando nem imaginavam que passariam o restos dela juntos. Eu os conheci através de meu cunhado, marido da Dadal, o Edmilson Brito, de quem o Estrigas é primo distante. Não me lembro que idade eu tinha mas talvez me tenham levado por conta de minha vocação nunca levada adiante para as artes plásticas. Depois estabeleceram-se outros laços de família, pois minhas tias Abigail e Dagmar moravam no Mondubim e, creio que através das atividades  igreja do bairro acabaram ficando amigas de Nice. Aliás, a famosa carne de caju foi inventada pela Nice para um almoço oferecido a um padre que visitava a paróquia. Envergonhada da falta de recursos para oferecer uma coisa boa, tia Dagmar recorreu à Nice e ela inventou a receita, espremendo os suco dos cajus e usando a fibra como se fosse pedaços de lagosta. Bem temperado o negócio enganou bem.

Depois dessa aproximação familiar me tornei eu mesma uma amiga do casal a que visitava de tempos em tempos no Mondubim. Tenho até um lindo retrato pintado pelo Estrigas naquele tempo. Eu ainda tinha pretensões artísticas mas mesmo depois de renunciar a elas, ao longo desses tantos anos, sempre que ia a Fortaleza os visitava.

Era um conjunto tão harmônico, a casa, o casal, a vida do casal e a maneira como recebiam os amigos que a gente fica imaginando o que será daqui prá frente. Ver o Estrigas vindo abrir o portão, quando, lá de dentro já a Nice arrumava as cadeiras no jardim em meio às suas flores, das quais tanto se orgulhava. Tão diferentes os dois e tão inseparáveis, nessa relação que os velhos casais constroem ao longo de uma vida. Vida que teve ter tido seus embates mas que através da conciliação, de acordos e de silêncios acaba por resultar em uma relação equilibrada onde o respeito, a amizade e a solidariedade se confundem com o amor.

Com meus pais também havia algo assim. Uma relação entre iguais, com pequenas implicâncias (papai dizia pelas costas de mamãe: “Maria tá moquinha”), mas de convivência sempre respeitosa, cordial, boa. Também havia ali uma aliança em tudo que dizia respeito aos filhos, onde ela ou ele nunca se colocavam um contra o outro. Talvez isto fosse fruto de algum pacto estabelecido em algum passado remoto, mas o fato é que nunca brigaram por disto e sempre se uniram contra o que consideravam comportamentos inadequados dos filhos.

Creio que esse tipo de aliança, esse tipo de amor é o que há de mais bonito no filme de Michael Haneke: “L’amour”.  Ali, Jean-Louis Trintgnant e Emmanuelle Riva  (preterida no Oscar por uma jovem e banal atriz americana) vivem um casal de idosos, cuja convivência tem a mesmas harmonia dos exemplos acima e que se vê diante de uma situação difícil. Aquela vida tão boa e tranqüila de velhos intelectuais franceses em ótimo apartamento, com idas a concertos e recebendo eventualmente a visita de amigos, é interrompida pelo AVC que acomete a mulher. É no processo de degeneração física dela, da resistência dele a qualquer tentativa de afastá-los, na paciência e nos cuidados com que se dedica à mulher doente que está o amor. A meu ver é isso que o filme tem de mais bonito e que liga essa história às minhas histórias contadas acima.

Viver junto é algo difícil. Duas pessoas são sempre duas pessoas cada uma com seus ímpetos, suas paixões, seus interesses. Em uma relação em que um submete o outro impondo seus próprios ímpetos, paixões e interesses e impedindo que este último possa livremente manifestar suas vontades isto não existe. Pode haver submissão e anulação ou pode haver rancor acumulado pelos anos de opressão, mas não a harmonia, não a solidariedade e a compreensão de um casal equilibrado.

Naturalmente só a maturidade, só a soma das tantas coisas vividas, mesmo das tantas disputas que se travaram ao longo da história comum e das acomodações e acordos que delas resultaram é que emergiu uma relação assim econômica do ponto de vista dos excessos que as paixões da juventude exacerbavam. Enfim, só uma vida compartilhada para compreender que o amor é muito mais do que nosso romantismo infanto-juvenil dos contos de fada nos ensinaram. Não há príncipes aparecendo no final da história para salvar a princesa.

O artista argentino Quino tem uma cartum que expressa bem isto. Um casal de velhinhos, um homem e uma mulher, sentados um diante do outro. Ele pergunta a ela, segurando-lhe a mão com delicada intimidade: “Não se ofenda, Elcira, mas nós éramos amigos, parentes, esposos, o que?” (Link).
Que importa? Estavam ali, um diante do outro, compartilhando o final de uma história tão antiga que não lembram mais como começou. No final, o que importa mesmo é poder sentir ainda o calor de uma mão tão conhecida, tão amiga.

Da discussão nasce a luz (20/4/13)

Depende. Tenho participado de algumas discussões nos últimos dias que confirmam esse aforismo. Não são exatamente discussões porque tratam de planejar um programa de trabalho coletivo. O grupo é formado por pessoas do mesmo nível, com idéias próximas sobre o assunto. Apesar de terem formações variadas são todos da área de humanas. O objetivo ainda está distante pois é projeto para começar apenas em 2015. Quando voltei de férias, a discussão já começara e eu peguei o bonde andando. Ou melhor: o bonde quase parando. Havia ainda muito desacordo sobre o que se queria e como se deveria implementar. Eu mesma me sentia bastante cética sobre a viabilidade do projeto. Achava que não tinha a ver conosco, que nunca iria ser implementado, que nunca iríamos achar um ponto comum.

No entanto, começaram as reuniões e, a partir da terceira e da sugestão que uma colega fez de um título para o projeto, mesmo eu que não estava levando muita fé, me vi envolvida. A definição do título e do público-alvo abriu uma janela e possibilitou as conexões. Daí em diante a conversa fluiu. Com um ou outro ruído pelo meio. Mas como todos são pessoas de boa vontade, a coisa vai marchando bem. Na verdade, eu acho que isto também se deve à maturidade dos agentes. Ao ceticismo e à ausência daquele espírito de competição tão louvado pelos neoliberais como estímulo à economia. Nesse grupo ninguém está competindo por nada, nem por cargos, nem por salários. Queremos o que é melhor para a instituição porque sabemos que nós passaremos e ela ficará. E gostaríamos que ela conservasse para as próximas gerações o espírito que cremos caracterizá-la. Não é um jogo de vida ou morte, não é nada associado à sobrevivência, pois estamos perto de nos aposentar, a coisa tem mais a ver com ideal.

Tenho urticária quando me convidam para uma reunião. Trauma de ter participado de algumas reuniões herdeiras do espírito da terapia de grupo, dos “brainstorms” das agencias de publicidade, ou do tipo laboratório do qual o pessoal de teatro gostava tanto antigamente. Já deixei de ganhar bom dinheiro pela minha recusa em participar de reuniões assim. Reuniões em que o nível de subjetividade é tão elevado que até lembram aquela anedota do sujeito que foi contar a historia de um acidente de carro acontecido na véspera e começou dizendo: “Primeiro, a terra esfriou. Depois, vieram os dinossauros”. Fala sério. Tem gente que para qualquer assunto, mesmo o mais banal, promove uma reunião onde fala, como me disse brincando um amigo chileno: do mundo e de seu ao redor. Talvez a reunião seja o momento propício para obrigar uma platéia aprisionada em uma sala a ouvir sua longa e monótona peroração.

Para um debate produzir a luz prometida pelo aforismo que dá título a este artigo é preciso que o objetivo da reunião seja bem claro e que os pontos a serem discutidos sejam previamente estabelecidos. É preciso que haja uma base comum de conhecimentos, valores e interesses. Mas também é preciso que os envolvidos tenham capacidade de negociação, capacidade de reconhecer a superioridade de uma proposta diferente da sua. Por outro lado, se as divergências intrínsecas forem tão profundas, se não houver um mínimo de identidade, de interesse comum, de vontade comum, a coisa não avança.

Eu, por exemplo, tenho opiniões políticas que divergem das de muitos amigos meus. Hoje, que todos nos reencontramos no facebook, o contraste entre as opiniões fica logo evidente. No começo, eu usava a rede apenas para fazer um social, evitava a todo o custo incluir opiniões políticas, aquilo ali era para a gente se divertir, confraternizar, falar dos filhos, postar fotos do tempo da faculdade. Mas aí vieram as eleições presidenciais de 2010 e não deu mais para segurar. O destino político do Brasil veio para o centro da cena e o facebook foi o espaço onde eu, que estava no exterior, trabalhei intensamente pela minha candidata. Especialmente no segundo turno. Foi a janela para o mundo da qual me era possível expressar opiniões e sentimentos.

Evidentemente que nem todos os amigos tinham a mesma opinião que eu. Acho até que a maior parte deles não estava movido por aquele sentido de urgência que me acometeu, ou tinha outros candidatos e outras opiniões sobre os destinos políticos do Brasil. Fazer o que? Ficar bem caladinha e deixar que eles expressarem opiniões que eram diametralmente diversas das minhas sem dizer nada? Falar o que pensava, não deixar nada sem comentário ou resposta e travar debates acalorados com pessoas queridas com as quais eu acabaria me desentendendo? Neste caso eu acho que a discussão não ilumina nada e pode até criar uma zona escura em que você não reconheça mais aquele amigo ou parente querido, para só ver o adversário político. Algumas opiniões são tão enraizadas, tão viscerais que só algum abalo sísmico pode alterá-las. Podem ter origem em coisas que não têm nada a ver com a razão. Fazer o que?

Creio que minha atuação política é e continuará sendo daquele tipo que hoje chamam de “ativismo de sofá”. Não tenho mais o entusiasmo que tinha na juventude pela rua. A vontade de me juntar a manifestações como a das campanhas pela Anistia e pelas Diretas, não creio que venha mais a ser despertada nesta “encadernação” (como dizia minha saudosa amiga Rejane). Talvez eu precise sair à rua contra o financiamento das campanhas políticas pelos interesses econômicos que moldam assembléias loteadas entre representantes dos bancos, das empreiteiras, dos planos de saúde, das empresas de transportes e de instituições religiosas enriquecidas a partir da cobrança de dízimo de seus incautos fieis. Por enquanto vou repartindo com amigos do facebook artigos de jornais e de blogs que expressam de maneira satisfatória minha opinião. É bom saber que essas análises são lidas mesmo pelos que com elas não concordam. Significa que, mesmo estando em desacordo, ele/ela ouviu/leu aqueles argumentos. E eu acho que, dessas leituras, alguma coisa sempre fica. Um pouco de luz.

Adolfo Caminha e seu “Bom Crioulo” (13/4/13)

Foi meu saudoso amigo, José Bonifácio Câmara, notável conhecedor da literatura cearense, bibliófilo especializadíssimo, que, em seu apartamento, à rua Marquês de Abrantes, no Rio de Janeiro, abrigava tesouros inimagináveis, quem me apresentou vida e obra de Adolfo Caminha. Mas foi o próprio Adolfo Caminha, na vitalidade de seus escritos quem revelou prá mim seu valor de personalidade digna de figurar, como figura entre os grandes escritores brasileiros do século XIX. Admira a quem lhe conhece a obra o curto tempo que lhe dura a biografia: menos de 30 anos. Nascido a 29 de maio de 1867, no Aracati, Ceará, morreu a 1º de janeiro de 1897, no Rio de Janeiro, vítima da tuberculose, doença de paladar fino que preferia ao comum dos mortais, a gente de talento, os poetas e escritores. Contribuía também para esta preferência o modo de vida dessa gente que, tendo uma perspectiva idealizada do papel do artista, do caráter sublime de sua missão, descuidava das coisas banais da vida cotidiana, dos cuidados mínimos com a sobrevivência.

Marca a obra de Caminha a forma apaixonada com que vivia, desde sua participação na Padaria Espiritual, passando por sua ligação com uma mulher casada, - por quem arrojou a preconceituosa sociedade fortalezense, por quem abdicou de uma carreira na Marinha que se prenunciava vitoriosa -  até sua literatura, influenciada pelo Naturalismo de Emile Zola, onde predomina o tom da franca denúncia. Denúncia à falsa moral provinciana, em “A Normalista”, seu romance de estréia; denúncia à violência e à imoralidade da vida dentro dos navios da Marinha em “O Bom Crioulo”; denúncia da superficialidade da vida na Capital Federal, em “A tentação”.

Se, em “A Normalista”, se aproxima de Aluísio Azevedo, descrevendo um caso de sedução incestuosa, Caminha é de uma ousadia inimaginável para aqueles tempos em “O Bom Crioulo”, romance em que descreve com detalhes as evoluções de uma paixão homossexual. Pela limpeza de estilo, pela crueza com que evolui a narrativa e, ao mesmo tempo pela densidade que empresta ao personagem título, é “O Bom Crioulo”, a obra-prima de Adolfo Caminha. Ressalte-se que, em meio à literatura cor-de-rosa dos primeiros anos da República, o quanto o personagem devia causar espécie. Pois, o negro Amaro, apesar de negro e homossexual, tem alma, tem sentimento, está impregnado de um realismo impensável, num tempo em que questionava-se a própria humanidade dos negros e em que estes só figuravam na literatura na hora de servir à mesa.

Adolfo Caminha, em “O Bom Crioulo” revela-se mais ousado do que Raul Pompéia, autor que admirava e com quem tem tantas identidades. Em o “Ateneu”, o homossexualismo é apenas latente, sugerido, tema secundário. O livro de Caminha narra de forma clara e detalhada o romance entre o marinheiro negro  Amaro, mais conhecido como Bom Crioulo e o grumete louro Aleixo. Paixão sensual, intensa que se desenvolveu nos conveses, porões e cantos mais protegidos de uma corveta da Esquadra Brasileira e que se concretizou em ligação estável e assumida num quartinho alugado no centro do velho Rio. Durante um ano viveram em perfeita paz e harmonia. Mas, como não há felicidade que resista a uma sucessão de dias felizes, um dia o pequeno Aleixo se cansou dos afagos e dos apetites do Bom Crioulo (audaciosamente descritos por Caminha) e resolveu experimentar emoção nova e mais próxima das formas mais ortodoxas do amor nos braços da sacudida quarentona portuguesa que alugara o quarto aos dois amantes. As desconfianças de Amaro, afastado de Aleixo por razões de serviços, seus sofrimentos físicos (sob a chibata que castigava os tipos rebeldes como ele), acabaram por provocar o desenlace trágico e previsível, com Aleixo finalmente sendo assassinado por Amaro.

Nos livros de Caminha sente-se todo o pulsar do momento histórico que se vivia. “A Normalista” esboça o que foi o Governo Caio Prado, no Ceará: o caráter fascinante para a gente da província que tinham os hábitos e as maneiras do aristocrata paulista, a tristeza que abateu os cearenses após a sua morte prematura. “A Tentação” recupera a imagem do Imperador D. Pedro II e do carinho que lhe tinha a gente humilde. Neste aspecto também Caminha é irmão de Pompéia. Pois, ambos, republicanos enragé, pintaram cenas comoventes de partida do Imperador para a Europa. A de Pompéia mais dramática pois foi um dos poucos que pode ver, de longe, o embarque de Pedro II, na madrugada de 17 de novembro de 1889.

Outro sabor que se tira dos livros de Caminha é o da descrição dos lugares. É indescritível o prazer que o cearense de hoje tira da descrição da Fortaleza do século passado, em que se passam os sucessos de “A Normalista”. É o centro da cidade, a Praça do Ferreira, o Passeio Público que vão desfilando aos olhos do leitor. Não pode deixar de esboçar um sorriso quem lê a descrição da atrasada e pobre Aldeota e que conhece hoje o aristocrático bairro que aquela se tornou. Mesmo sabor que se experimenta ao ver a impressão do Rio descrita pelo “Bom Crioulo” quando a corveta vai entrando na barra. Ou ainda, em “A Tentação”, quando se conhece o que seria um pic-nic de família, aos domingos, no Jardim Botânico do final do século XIX.

Ao ler Adolfo Caminha e ao conhecer a brevidade de sua existência, brevidade que não impediu que deixasse obra relativamente alentada, ninguém escapa de especular que destino não teria o escritor se não tivesse morrido tão prematuramente. Talvez pudesse ter mergulhado na indolência que acabou secando a veia inspiradora de um Aluísio Azevedo, por exemplo. Mas a trajetória de Adolfo Caminha, sua passagem pela Marinha num momento de definição de personalidade, seu assumido republicanismo e, principalmente, a maneira com que fez de sua vida fonte de temáticas para sua produção literária nos fazem pensar em outro destino.

Sociedade Bicolor (6/4/13)


Outro dia, no metrô de Paris, vi uma dessas cenas tão bonitinhas que se fosse filmada pareceria coisa produzida. Um garotinho negro, de uns dois ou três anos, ainda um bebê, em pé seguro pela mão do pai. Entrou uma turma de uns cinco garotos brancos, um pouco maiores que ele com a professora. Ficaram juntos do outro que estendeu a mão para o que lhe estava vizinho e segurou. Como um adulto que cumprimenta outro. O maior achou graça, assumiu um ar paternal e ficou carinhosamente segurando a mão do outro. As crianças brancas e o menino negro agiram com a maior naturalidade, sem surpresa, como algo que acontece no cotidiano de todos, brancos e negros que usam os mesmos meios de transporte, freqüentam as mesmas escolas e trabalham lado a lado nos mesmos empregos.

Eu não sei dizer estatisticamente qual é o nível de inclusão dos negros na sociedade francesa, especialmente na parisiense que, imagino, seja o destino da maioria dos imigrantes das ex-colônias francesas. Certamente entre os tantos negros que vemos em Paris muitos já são de uma segunda ou terceira geração. Na paisagem urbana há menos mulatos do que negros, mas estes se concentram mesmo é nos bairros mais modestos. No entanto, há, creio eu, proporcionalmente, muito mais negros ocupando posições de status mais elevado do que no Brasil. E isto é visível nas repartições públicas, nas lojas e nas ruas.

Os casais de jovens reunindo negros e brancos são muito mais freqüentes do que entre nós. São jovens de classe média, moças e rapazes, sem aquela distinção tão freqüente entre nós do homem branco que anda com uma linda mulata. Ou do negro bem sucedido que escolhe logo uma loira para casar. Nos  casais que vi nas ruas da cidade, em geral, ambos são jovens, ambos são de classe média e ambos são do mesmo nível cultural. Pois também vemos nas ruas e nas escolas, as meninas e meninos negros e brancos em absoluta integração.

Evidentemente esse é um olhar de estrangeiro. Mas de estrangeiro que cresceu em um país onde existem muitos negros e mulatos e eles nunca estão nas mesmas escolas que os brancos, eles nunca são o par desejável para um rapaz ou moça de classe média branca e eles raramente têm o mesmo nível de instrução. Daí a surpresa com que reagimos a cada cena dessas, tão freqüente no cotidiano da Cidade Luz. Sempre que me deparo com um par assim eu não consigo deixar de sentir um impacto. Outro dia, junto da fonte Saint Michel eu vi um par assim, ele jovem, branco, alto e bonito, ela também jovem, negra, magrinha, bela e elegante, usava um cabelo longo, não sei se natural ou inventado, um vestido curtinho como em Paris as moças têm coragem de usar no maior frio. O contraste da cor tão branca dele com a pele tão negra dela era algo por si só marcante. No trem, o casal que vi era menos contrastante pois o rapaz era mulato e ela era uma jovem francesa de tipo mediterrâneo. Era lindíssima e mais alta que ele, que tinha um tipo bastante comum. No entanto, ela parecia completamente apaixonada e não parava de beijá-lo. A minha surpresa diante dessas cenas me deixou preocupada, seria isto um preconceito? De certa forma não deixa de ser.

Pois é um conceito construído a partir de uma vida inteira em um país em que a família de um rapaz branco faria todos os esforços para impedir que ele desse continuidade aquele tipo relação. Eram tão raros os casos assim no Brasil de minha infância que eles, em geral, aconteciam por acidente. Era quando o filho da família se metia com a empregada e acabava gerando um mulato que, na melhor das hipóteses, viveria com a mãe recebendo pequena ajuda da família do pai mas sem ser reconhecido. A possibilidade de um casamento entre o rapaz e a moça negra e pobre jamais era sequer cogitada.

Também há na França muitos casais brancos que vêm adotando crianças negras. Já os vi nas ruas e mesmo em um jantar de amigos, amando e mimando seus filhinhos tão diferentes dos pais. E isto também nos surpreende e impacta pois sabemos que quem adota no Brasil, quase sempre vai buscar os seus filhinhos no sul. Ali onde há uma população branca pobre, originada nas colônias italianas e alemãs que se estabeleceram na região a partir do final do século XIX e começo do XX, tem-se a garantia de filhos adotivos de pele e olhos claros. Com isto constatamos que o velho projeto de branquear a população brasileira mesmo que seja por esse caminho indireto segue firme. Afinal quando as teses de Gobineau e de outros racialistas indicavam a inferioridade natural de negros, mulatos e mestiços em geral condenando o Brasil a ser eternamente um pais atrasado, a solução salvadora foi a de imaginar que o branqueamento do povo poderia se dar pela mistura dos já mestiços do Brasil com os brancos europeus pobres que para cá migravam. Melhorar a raça era como se dizia.

Não sei se a raça melhorou. Nossos negros são quase sempre mulatos e essa constatação a gente vê na Copa do Mundo quando enfrentamos os times africanos compostos de negros sem mistura. E de muitos deles a gente pode realmente dizer que “black is beautiful” pois há algo de mistério e beleza em peles tão pretas, em traços tão marcantes e genuínos, como já não se vê mais no Brasil. Li recentemente que a população mundial do futuro será mestiça, com isto talvez desapareça de uma vez o preconceito de cor, mas seria também uma pena que essa diversidade se perdesse. Pois no Brasil, onde a mistura vem de tantos séculos, a pele mais escura continua a ser associada a um lugar inferior na sociedade. Parece que menos do que a mistura de raças, o que a gente precisa ver no Brasil é a mistura de negros e brancos nos mesmos transportes, nas mesmas escolas, nos mesmos empregos e nos casamentos sem que isto nos cause qualquer surpresa.