Adalgisa Santana (28/9/13)

Na quinta liguei para saber de mamãe e Amália me disse que ela estava recebendo a visita da Dalva. Visita rara que só devia estar acontecendo porque mamãe, há coisa de uns 30 dias, caiu e fraturou o fêmur. Com 99 anos é um acidente e tanto. Teve cirurgia para colocar uma placa e a recuperação vem sendo penosa, sobretudo para ela, tão independente. Agora, dia e noite tem a seu lado uma cuidadora e vai para a sala em cadeira de rodas, coisas que sempre se recusou a aceitar.  De qualquer maneira, vai recuperando, rumo ao centenário que completará em junho de 2014.

Mas o tema da coluna não é d. Dolores e sim a Dalva. É que essa sertaneja valente  e trabalhadora vem muito pouco pras bandas de cá, residindo no Camará, distrito de Aquiraz, desde que veio ao mundo. É lá que fica o sítio que seu Costa comprou algum tempo depois de vender o sítio da Messejana onde moraram seus pais, numa casinha singela da qual só restaram as fotografias. Deve ter custado muito para o papai se desfazer daquele pedaço de terra. Lugar lindo, fresco, cheio de mangueiras, onde a gente se balançava nas redes debaixo delas estendidas. Juntinho de uma igrejinha muito da bonitinha que ainda está lá.

O Camará não era tão bonito, nem era tão fresco mas foi o que ele pode comprar. E se afeiçoou tanto ao lugar que para lá seguia sempre que podia. Para desgosto de d. Dolores que tinha horror a mato. Ainda tem. Quer chateá-la é convidar para uns dias no Camará ou mesmo na Guaramiranga, onde Dadal e Lúcia tem lindas vivendas. Papai não. Papai adorava a vida no mato, adorava todos os afazeres que diziam respeito a ter uma terra, pequena que fosse. Ele ficava por lá, sozinho com seus caboclos, erguendo cerca, cultivando macaxeira, cuidando das poucas vacas, fazendo a manutenção do cata-vento, mandando limpar o entorno da lagoa. Até uma casa de farinha ele mandou construir e tinha o maior gosto em promover a farinhada. Cheguei a ver a casa de farinha em ação com muita gente participando das várias etapas do processo.

No Camará, morou o Maximino, creio que vindo da Messejana e acho que foi o único caseiro que morou no terreno do seu Costa. Lembrei dele agora porque, meu cunhado, o Benevides, de vez em quando conta como um dito engraçado da infância do Fred, alguém ter-lhe perguntado o que tanto o preocupava e ele ter respondido: “estou pensando aqui se a Maria do Maximino está gostando do Camará”.

Fred, caçula de todos nós, era levado por papai para lhe fazer companhia nas idas ao Camará. Disse-me ele que morria de tristeza naqueles entardeceres melancólicos e que ia para cima do pé de cajueiro que tinha em frente da casa, chorar com saudades da mãe. Mario Bag morre de rir quando pensa no Fred chorando em cima do cajueiro.

Mas quem ficou para sempre sendo a cara do Camará foi mesmo a Dalva. Parece estranho que o principal trabalhador daquela roça tenha sido sempre uma mulher. Que a pessoa em que seu Costa mais confiava, a que era pau para toda obra fosse essa cabocla, essa cafuza, sem nenhum traço de feminilidade, além dos vestidos estampados, todos do mesmo modelo, que sempre usou. Parecia grande e forte, mandava e desmandava nos outros, enfrentava quem viesse lhe desafiar. Ninguém se metia com ela. Mas não era valentona, não. Era só e ainda é, pessoa de muita personalidade. Foi bem mais tarde, fazendo foto dela ao lado do Chico, menino ainda, com seus dez ou doze anos, que percebi como Dalva é pequena. Na foto, é quase um palmo mais baixa que o menino.

Dalva tem aquele jeito do cearense de falar sempre arengando. Um jeito de dizer: “marrr, minino”, no sentido admirado e crítico de “imagine, que coisa”, “que folga”. Logo que soube que ela estava lá em casa visitando a mamãe, pedi para chamá-la ao telefone. Ela se admirou e disse: “Marr, minino, como é que tu adivinhou que eu tava aqui?” Eu lhe disse que a notícia de que ela estava na Silva Jathay já chegara ao Rio de Janeiro e que por isso eu tinha ligado. Aproveitei para lhe pedir que ditasse para Amália escrever, pois Dalva apenas assina o nome, umas palavras para incluir no livro em homenagem aos 60 anos da Clélia. Ela ditou: 
   
“A Clélia é gente muito boa para nós. O que a gente precisa ela arranja. A Isabel também é gente muito boa. Mas quando eram pequenas, todas duas, queriam tirar leite e eu não deixava pois atrapalhava o leite das vacas. Então estou com  muita pena que vocês vão vender o terreno. Eu sinto muita falta deles que são gente muito boa. Todos eles. E o Carlos é muito bom me atende toda a hora que eu quiser. Que a Clélia seja vem feliz no seu aniversário e que tenha cem anos de vida. Assinado: Adalgisa Santana.”

Carlos, nosso irmão, é o dr. Carlos Efrem, o médico da família que tem ação completar à da Clélia, no que diz respeito a problemas de saúde, na ajuda aos familiares e aderentes mais necessitados. Quando vai ao Camará, forma-se na varanda da casa, junto da rede dele, uma fila de gente para se consultar. E ele atende, medica os que pode e encaminha para o Instituto José Frota os casos mais graves. 

Dalva tinha uma irmã que já morreu, a Edite. Uma vez, as duas foram a Fortaleza resolver alguma coisa e fomos juntas no carro para o Centro. Passando em frente a uma funerária, a Edite comentava admirada a beleza dos caixões, quando alguém lhe disse para não olhar não que dava azar. Edite disse que ia continuar olhando pois, completou: “eu sei que não vou num desses mesmo. Eu vou é na minha redinha.” Naquele tempo, no Camará, gente como Edite e Dalva ainda iam para o cemitério em suas redes. Os punhos da rede eram amarrados em um pau, carregado ao ombro por dois homens que lideravam o cortejo.


Seu Santana, pai das duas e de outros tantos filhos, era vizinho do seu Costa no Camará. Um dos filhos dele veio para o Rio de Janeiro onde aprendeu a cozinhar e trabalhou anos para uma família de Copacabana. Fui portadora de muita castanha e de muito beiju para o irmão da Dalva.

Diamantina (21/9/13)

Estou em Diamantina, lugar que nunca tinha visitado antes. Viemos de Belo Horizonte numa van para participar do 2o. Festival de História, organizado por Américo Antunes que descobri ser, por conta do discurso do prefeito na abertura, minhoca da terra. Longas viagens por terra com colegas historiadores e jornalistas é sempre ocasião de bons papos. Da turma que ia na van eu já conhecia Bruno Carvalho, jovem professor de literatura em Princeton. Bruno fora nosso convidado no seminário “Brasil/EUA: novas gerações, novos olhares”, que organizei com James Green em junho na Casa de Rui Barbosa. Também encontrara recentemente com Mario Magalhães, jornalista cuja biografia de Marighela tem tido grande repercussão. Mario participou, no Instituto Dragão do Mar no encontro do conselho do Porto Iracema das Artes do qual fomos convidados por Paulo Linhares a fazer parte.

Também viajava conosco o jornalista Ricardo Amaral, autor de livro sobre Dilma Roussef: “A vida quer coragem”. Entusiasta da obra de Guimarães Rosa, Ricardo indicava na longa viagem entre Belo Horizonte e Diamantina os lugares mais importantes da geografia Roseana: o ponto exato em que começa aquele sertão mineiro que parece tanto com o nosso sertão cearense. Conversamos de tudo um pouco mas o melhor foi saber que Ricardo tinha conhecido meu irmão Lustosa e que tinha por ele carinho e amizade. É claro que isto para mim já é suficiente para fazer de um conhecido um amigo.

Diamantina parece com Ouro Preto sem o ar cosmopolita que emprestam a Ouro Preto, seus tantos turistas e forasteiros que ali acabaram por se fixar. Talvez por ser mais longe de Belo Horizonte ou por conta das tantas coisas que fazem um lugar ficar mais na moda que outro, Diamantina ainda não se tornou a queridinha do turismo histórico que faz com que tanta gente visite Tiradentes, Parati e Olinda, por exemplo. Diamantina ainda não está tomada por boutiques e restaurantes charmosos e caros. Diamantina ainda não perdeu o ar de cidade de interior. Diamantina ainda é uma cidade dominada pelos diamantinos. E a isto, a meu ver, deve muito de sua graça.

As belezas arquitetônicas do lugar também me pareceram mais singelas. É verdade que essas são impressões de um dia só de viagem. Não entrei em nenhuma igreja. Não me impressionei com a fachada da Matriz que se ergue majestosa entre duas ladeiras com seus degraus debruçados para o grande pátio em frente. O lugar me lembrou espaço semelhante em Salvador, apesar das proporções da igreja, das ladeiras e do pátio serem mais modestas aqui. Vi três igrejinhas tão bonitinhas, tão coloridinhas e tão delicadas que me deu vontade de embrulhar e levar para a casa. Também me encantou seu lindo mercado com suas porteiras rústicas, suas dimensões também modestas, suas cores terrosas.

Na noite da véspera de abertura do Festival tive o prazer de conversar com Kenneth Maxwell de cuja obra sou franca admiradora. Perguntei a ele quantos anos fazia da publicação de “A devassa da devassa”. Fazem exatamente quarenta anos da primeira publicação na Inglaterra desse livro fundador que abriu a trilha para outros trabalhos acadêmicos relevantes. A partir da análise dos autos da devassa, Maxwell estabeleceu o que foi de fato aquele episódio da nossa história que ficou conhecido como “Inconfidência Mineira”, identificando as paixões e os interesses que moveram os malogrados revolucionários brasileiros.

Kenneth Maxwell proferiu a conferencia que abriu o seminário, seguido de mesa-redonda da qual participaram a historiadora Junia Ferreira Furtado e Bruno Carvalho, em torno do recém lançado “Livro de Tiradentes”. Organizado por Maxwell, o livro acaba de sair pelo selo que a Penguin tem no Brasil em parceria com a Companhia das Letras. Reunindo textos dos componentes da mesa, além de outros autores, o “Livro de Tiradentes” é a reedição do Recueil des Loix Constitutives des États-Unis de l’Amérique, coletânea de seus documentos constitucionais de fundação: a Declaração de Independência, primeira redação dos Artigos de Confederação, censo das colônias inglesas de 1775 e a Constituição de seis dos treze estados confederados.

O “Recueil” foi publicado na França por iniciativa de Benjamin Franklin numa interessante estratégia de marketing político que visava conquistar as simpatias dos franceses para a nova nação. Trazido clandestinamente ao Brasil por estudantes de Montpelier, o “Recueil” iluminou a mente do alferes mineiro, Joaquim José da Silva Xavier e de outros mineiros mais ilustres que ele para as possibilidades que a instauração de uma nova ordem política oferecia. Daí que o livro ficou conhecido como “Livro de Tiradentes”e o exemplar que pertenceu a Joaquim José da Silva Xavier, depois de peregrinar até pela biblioteca estadual de Santa Catarina, figura hoje na coleção do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

Em sua conferencia de Maxwell se deteve sobre as tantas conexões internacionais estabelecidas pelos inconfidentes. Destaque merece o estudante brasileiro de medicina de Montpellier, José Joaquim da Maia Barbalho que, sob o pseudônimo de Vendek, conseguiu estabelecer contato com Thomas Jefferson com vistas a obter o apoio dos EUA para a revolução brasileira. Pragmáticos como sempre os americanos preferiram mesmo o acordo comercial com a velha e carcomida coroa portuguesa. Mais que o episódio das tentativas de conexão com os EUA, a presença de tantos estudantes brasileiros na França da Revolução revela muito sobre as tantas entradas que se abriram para que as idéias iluministas penetrassem, apesar da mais rigorosa censura, na rica colônia portuguesa na América.

A boa companhia na viagem para cá, a beleza de Diamantina e a conferência de Maxwell vão tornando esses dias formidáveis.

Nós e a América (14/9/13)

No dia 11 de setembro de 1973, caiu o governo Allende e começou a ditadura militar de Pinochet no Chile. Lembro exatamente do momento em que recebi essa notícia. Eu estava indo para um curso de inglês que freqüentava em uma daquelas casinhas tão simpáticas da UFC onde havia (e espero que ainda haja) cursos gratuitos de francês, inglês, espanhol e alemão. Ia completar 18 anos e sabia que o que estava acontecendo no Chile era realmente terrível.

Em plena ditadura militar, gente como eu e alguns amigos torcíamos por Allende. Torcíamos pelo final da ditadura aqui e aquela notícia era como uma derrota da esperança. Apesar de não saber nada sobre o Chile, nem sobre os outros países da América Latina a gente vivia em um ambiente em que predominava uma espécie de corrente espiritual que nos ligava a eles. Corrente que passava pela literatura, pela música e pelas circunstâncias políticas.

Não me lembro se foi a Sipahi, a Mena ou o Beto quem primeiro me falou de Violeta Parra. Nem sei mesmo se é verdadeira a história de que ela compôs “Volver a los dezessiete” porque, já mulher madura, tombara apaixonada por um rapaz de 17 anos. O mais importante é que, tanto essa história que dizia muito do caráter dessa mulher sobre a qual eu nunca soube muita coisa, quanto os versos daquela canção, nos aproximavam daquela outra América. Uma América que tinha algo de mágico e de fascinante com seus índios oriundos de uma civilização milenar. Havia também o prazer todo especial de cantar algo que era politicamente tão significativo em castelhano.

Lembro da noite que passei em claro, ainda na nossa casa da Piedade lendo “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. Imagino que eu devia ter uns 13 ou 14 anos pois o livro foi publicado no Brasil pela CODECRI, editora do pessoal do Pasquim, em 1968 e, certamente foi o Lustosa quem deve ter comprado e deixado lá para nos estimular a ler. Lembro da impressão estranha que tive daquela narrativa em que se misturaram situações irreais, mágicas, com cenas de violência. Enfim, um combinado de coisas que deixava na gente um certo mal estar. Algo que tinha a ver com o destino do personagem central e de sua família. Confesso que nunca mais li “Cem anos de solidão”. Creio que o livro em si não era diretamente associado a essa latinidade que se afirmava, naquele momento, por oposição aos Estados Unidos e à sua ingerência cada vez mais daninha sobre nossos destinos.

De qualquer maneira, estava ali, tal como nas canções de Violeta Parra, uma mensagem intrínseca, de uma beleza doída, exótica que remetia também ao povo brasileiro. Esse povo que nós, na verdade, meninos e meninas de classe média não tínhamos muita noção do que era. A cultura então produzida pelos artistas e intelectuais da esquerda dos anos 1960/70 no Brasil procurava chamar a atenção para o povo das fábricas, do sertão e da Amazônia mas também nos irmanava aos vizinhos da América Latina trazendo-os um pouco para mais perto de nós. Lia-se, além de Garcia Marquez, Cortazar, Carpentier, Vargas Llosa, e, por causa deles e da proximidade que eles nos colocaram com seus países, lemos e gostamos de Borges, que, antes, muito pelo contrário, não tinha nada a ver com aquilo. Mas o livro essencial para compreender a realidade era “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Esse mesmo Galeano que, ao contrário de Vargas Llosa continua aí, do lado do bem.

As canções de Violeta Parra foram cantadas em português pela maior cantora brasileira daquele tempo: Elis Regina. Sua linda e potente voz emprestava aos versos uma alegria, um dinamismo diverso da melancolia de Mercedes Sosa. E este também foi um fenômeno daquele momento em que estivemos mais perto dos nossos hermanos: as gravações de Mercedes Sosa com Milton Nascimento. Da ditadura de Pinochet chegavam os ecos das mil e uma barbaridades cometidas. Delas nenhuma me impressionou mais do que a história de que os torturadores tinha quebrados os dedos de Victor Jarra (havia versão mais dramática em que lhes tinham cortado as mãos) para que ele nunca mais tocasse aquelas musicas subversivas.

Quantas lágrimas. Tempos de dor e de sofrimento são pródigos em inspiração. Do repertório de Violeta Parra, a preferida de todos até hoje é “Gracias a La vida”. Quem não cantou e ainda canta com emoção esse hino que celebra a vida, esse canto otimista? A canção se faz ainda mais bela pela mistura de coisas que têm a ver com a vida em geral, com o trabalho, com a sociedade, com a humanidade ao amor individual de uma mulher por seu homem que pontua o final de cada verso: en las multitudes el hombre que yo amo; la voz tan tierna de mi bien amado; la ruta del alma del que estoy amando; la casa tuya, tu calle y tu patio; el fondo de tus ojos claros…

A música de Violeta Parra se fazia ainda mais tocante também pelo fato de ser cantada em meio a uma atmosfera tão sombria. Sem dúvida a crônica negra das ditaduras latinas, as histórias de desaparecidos argentinos, dos seus filhos seqüestrados pelos militares e dados a criar por famílias solidarias ao regime (como a dos donos do jornal Clarin) é uma conta que nunca vai fechar.

Durante aquelas duas décadas, as ditaduras militares nos irmanaram numa corrente de sofrimento. Neste momento, alguns dos países da America Latina têm governos democráticos que ensaiam políticas econômicas e sociais que beneficiam os mesmos desfavorecidos de sempre. Esses governos se ligam pela memória e pela história àquele momento, enfrentando as mesmas forças do atraso e da reação que, com o apoio dos EUA, promoveram golpes militares que resultaram em ditaduras violentamente repressivas. Cabe agora restabelecer, pela intensificação de ações  culturais, pelas difusão das letras, pelo intercâmbio de jovens estudantes uma nova corrente de idéias, sentimentos e sensibilidades que funcione como um escudo, nos mantendo unidos e coesos contra as tentativas de impedir o avanço da América Latina rumo a um futuro melhor para seus povos.

Uma permanente saudade (7/9/13)


Ainda não pude ver o livro que Edmo Linhares, Juarez Leitão e Cesar Montenegro organizaram em homenagem ao Lustosa. A crônica foi escrita antes do lançamento que aconteceu na noite dessa última sexta feira no Ideal Clube mas eu sei, porque li no jornal, que “Permanente Lustosa” reúne crônicas de amigos e alguns dos irmãos (eu, inclusive) do jornalista e escritor que dá nome à biblioteca de Sobral. São 41 depoimentos distribuídos por 250 páginas e, entre os autores, constam nomes de amigos como Antenor Barros Leal, Frota Neto, Lúcio Alcântara e Paulo Elpídio. Não sei se também está ali o Helio Barros. Se vivo fosse, Dorian Sampaio não faltaria.

Se a quantidade de depoimentos é o reflexo de uma vida em que a amizade teve um papel tão grande – ou, talvez, ainda maior - que a vida familiar, os depoimentos que deram esses amigos acima citados confirmam o caráter de permanência que dá titulo ao livro. É que, dezessete anos mais nova que o Lustosa, lembro de ver, na minha infância, suas ilustres e simpáticas pessoas na nossa modesta casa, situada à rua Nossa Senhora da Piedade, número 126. Ali mesmo no famoso beco da Piedade, eternizado no livro de crônicas do Lustosa “Cartas do Beco”, esses amigos que aos meus olhos infantis pareciam tão chiques, estavam começando uma amizade que durou mais de cinqüenta anos e que se reafirma agora neste livro.

A esses amigos de juventude, o Lustosa chamava de “irmão”, dando à fraternidade um sentido ainda mais abrangente que tem. Fraternidade no sentido de companheirismo, de solidariedade, mas principalmente de comunhão de espírito. Um espírito cuja marca seria o amor à alta literatura, o gosto pela escrita mas, também, a irreverência. A conversação sendo o espaço do epigrama, da provocação amável, de demonstrações de carinho permeadas pela ironia, pontuadas pela gargalhada gostosa. Diferenças políticas que, como seria natural, se acentuaram também com o tempo, não turvaram as águas desse rio que fluiu sem acidentes até o último dos seus dias. Ao longo de sua vida ele teve essa sensação de conforto que uma velha amizade nos proporciona. E confesso que essa era uma das características que eu mais invejava no Lustosa.

Também me parece hoje surpreendente que, com seu temperamento, que não era fácil e que se tornara ainda mais difícil nos últimos anos, ele tenha não só conservado aqueles velhos amigos como feito outros tantos. Pois também tinha aquela cara zangada do Lustosa, aquele humor irritado com a resposta ao estilo do seu Luga e que, às vezes, desconcertava. Era implicante também. Tomava abuso de pessoas sem ter nem a ver, às vezes por motivo fútil, sendo capaz mesmo de cometer julgamentos injustos só por implicar com alguém. Mas nunca foi um arrogante, nunca agiu como alguém que se achasse acima dos outros, nunca usou seu prestígio para diminuir ou humilhar quem quer que fosse. Era altaneiro, mas nunca foi prepotente.

Havia algo nele de irresistivelmente sedutor. Talvez a maneira de falar, talvez o entusiasmo genuíno que demonstraria por tudo que realmente o encantasse, talvez a gargalhada que explodia com gosto diante de algo que o divertia, talvez o fato de ter sido mesmo um grande escritor. E a pessoa que intui isto não deixa de reverenciar e querer bem ao homem de talento indiscutível que foi o Lustosa. A facilidade com que narrava, a naturalidade com que contava suas histórias, a erudição aliada ao senso de humor extraordinário de suas narrativas, um senso de humor marcado pela auto ironia, recomendam a leitura de seus livros.

Lustosa tinha uma mágoa verdadeira de ter sido um autor regional. Seus livros não conquistaram o sudeste e, para um autor brasileiro, essa é a definição do sucesso: ser lido no Rio e em São Paulo. Não é só no Ceará. Vale para o resto do Brasil inteiro. Do Oiapoque ao Chuí. Felizmente teve o bom senso de seguir em frente, continuando a publicação de seus livros. Com isto pode deixar o legado de uma grande obra, cujas imperfeições editoriais se devem apenas ao temperamento ansioso do autor que, na pressa de levar ao prelo os originais muitas vezes deixou passar algumas imperfeições. Certamente, seus textos sobre a sociedade sobralense (sociedade aqui no sentido sociológico mesmo) representam uma contribuição efetiva para a compreensão do caráter das elites do interior cearense da primeira metade o século XX.

Antes de concluir, eu gostaria de citar um texto do livro a que tive acesso pelo privilégio que tenho de ser irmã mais velha do autor. É o texto do Fred que só é meu irmão mais novo porque teve o mau gosto de tomar meu lugar de caçula da família nascendo ano e meio depois de mim. A história de sua amizade com o irmão mais velho deve ser um dos capítulos mais bonitos do livro. Ela diz muito do caráter dessa dupla, separada por grande diferença de idade que, no entanto, tinha tanto em comum.

“Eram 19 anos que, desde que saí da adolescência, não faziam a menor diferença. Lustosa não deixava de ter um lado paternal e protetor, mas o que prevalecia era a amizade fraterna, a admiração mútua, os interesses compartilhados, a camaradagem dos gestos gratuitos. (...) Em 2001, eu tinha uma viagem profissional relativamente tranqüila a Lisboa, Madri e Barcelona. Resolvi convidá-lo a ir comigo. Convite de grego, pois eu só tinha a oferecer a passagem. Ele aceitou de bom grado. Foi todo animado. E adorou. Sempre dizia – Eu vim para gostar. E gostou. Aproveitamos muito de Lisboa, que ele conhecia bem, e de Madri, que ainda não conhecia. Mas ele adorou mesmo foi Barcelona, por onde lhe fiz caminhar mais do que podia e o levei a almoçar em El Sibarita.”

Foi bom o Fred lembrar desse último detalhe, o gosto que o Lustosa tinha por bons restaurantes, a boa mesa. Aliás, ele tinha o gosto por tudo que era bom: boas pessoas, bons livros, bons amores, boas comidas e boas bebidas. Era um querido e a saudades que deixou, como diz o Fred no final de seu texto, “choram altissonantes em mim. E em tantos amigos.”

“In medium virtus” (17/8/13)

Eu simplesmente adoro o epitáfio supostamente inscrito em um túmulo de cemitério inglês do começo do século dezenove que dizia assim: “Estava bom. Quis ficar melhor. Chamei o médico. Morri.”

Achei isto em um dos jornais que publicou em sua longa vida, José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu. Era um principio que cabia em outra frase adotada por ele como filosofia de vida: “o ótimo é inimigo do bom”. Essência do conservadorismo com o qual, confesso me identifico em alguns aspectos de minha própria filosofia de vida. “In medium virtus”: no meio, a virtude, quer dizer que a virtude, o bom, o melhor estaria no meio, no equilíbrio, na ausência de extremismos. Na política seria a marca dos moderados, dos que preferem a negociação, o acordo e não a disputa, o rompimento definitivo, a guerra, enfim. Seria também uma atitude que apontaria na direção do conservadorismo, da manutenção do status quo, do deixar como estar porque pode piorar. Será?

Por isso que o principio, quando aplicado à atividade política não me serve tanto assim. Porque a política em si já tem o seu quê de batalha, de jogo perigoso, com traições previsíveis contra as quais é preciso de defender. Também tem seu jogo de forças, no qual os que têm poder lutam para conservá-lo a todo o custo. E aí, em nome da boa ordem, do combate à anarquia,  os conservadores mobilizam o principio do “juste millieu” tão caro ao rei Luis Felipe. Mas ambigüidade do “juste millieu” ficou demonstrada na sua trajetória pois se, inicialmente, em 1830, o princípio ajudou a mobilizar as forças mais avançadas da Europa a fazerem uma revolução, no governo, evoluiria no sentido conservador até outra revolução, a de 1848.

Os tempos de protestos que estamos vivendo aconselham o movimento, a ação, nem que seja para impedir uma ação contrária que tende a destruir o que consideramos bom. Um certo radicalismo é necessário para mudar uma ordem viciada há séculos por uma imensa desigualdade. Só mesmo a força que emana da juventude, sua fé no futuro, sua esperança em um mundo melhor, direcionadas para a ação podem sacudir o domínio conservador.

Só uma ação radical sob a forma de denúncias que desmascarem o que se esconde sob a ordem neoliberal, cujo principio é que é necessário que muitos padeçam,  para que poucos vivam na abundancia. Principio egoísta que aplaca a má consciência com a convicção de que os que padecem, merecem pois não foram capazes de vencer a grande gincana da vida.  Azar o deles: os africanos, os asiáticos, as mulheres do Oriente Médio, os palestinos, os nordestinos, os homossexuais, os deficientes físicos, os doentes, os velhos, os presos, os viciados, os meninos de rua... Azar o deles, por terem um defeito de origem que já os coloca na vigésima fila, sem chance nenhuma de chegar em primeiro lugar. Serão malthusianamente eliminados pela ordem natural das coisas. Fazer o que? 

Com o predomínio dessa filosofia da indiferença, nós, os humanistas, não podemos nos conformar. Mesmo acreditando que no meio está a virtude, que o ótimo é inimigo do bom, sabemos que isto que aí está não é bom, é o contrário do bom, é péssimo. Então é preciso melhorar. É preciso chamar o médico para não morrer. O engraçado é que em algumas análises sobre os protesto que acontecem hoje no Brasil se avalia que algo semelhante aconteceu na Revolução Francesa: não foi quando a situação estava a pior possível que o povo se rebelou. A revolta ganhou corpo quando a situação começou a melhorar e alguns direitos haviam sido conquistados pelos menos favorecidos.

Estavam melhores, mas ainda não tinham ficado bons. O estado, antes desesperador, que provocava uma total anomia, passara a mediano, a razoável, a ponto de fazer com que os que antes eram miseráveis pudessem se enxergar como iguais, pertencentes à mesma humanidade dos que viviam no luxo e dissipação. Era preciso reduzir a distancia quase infinita que separava os muitos ricos dos muito pobres. Era preciso reduzir a grande carga de trabalho e sofrimento que estava associada à pobreza.

O problema era como mudar o que ainda estava ruim sem que isto implicasse em jogar fora “a criança junto com a água da bacia”. Lutar por melhores condições de vida sem que as ações empreendidas durante essa luta provoquem a reação conservadora da sociedade, sempre temerosa de que a ordem venha a ser desestabilizada pelos protestos sociais. E esse é o impasse que vivemos hoje no Brasil. O grande acordo que possibilitou tantas conquistas sociais chegou ao limite. Tudo o que o Estado podia dar ao povo sem tirar dos ricos e dos muito ricos foi dado. Banqueiros, latifundiários, agroexportadores, grandes empresários da saúde, da educação e da mídia não perderam nada até agora. E até ganharam. Mas o acordo chegou ao limite. Para o Brasil avançar esse pessoal vai ter que abrir mão de alguma coisa.

O Brasil está diante de um embate. De um lado, o Parlamento, loteado por bancadas que representa não os eleitores mas os interesses econômicos dos poderosos; de outro, o Executivo, tentando levar adiante o projeto que, ao lado do desenvolvimento industrial, garanta saúde, educação, transportes e saneamento gratuitos e de qualidade para todos. A esse cabo de guerra assistimos desde que a proposta de uma reforma política cujo carro-chefe é a proibição do financiamento das campanhas políticas por empresas foi lançada pela presidente Dilma em junho.

E isto é tudo que essa Parlamento que está aí não quer. Ele quer é diminuir o tempo da propaganda política para garantir que o eleitor tenha o mínimo de informação possível sobre novos candidatos. Ele quer garantir que o povo votará naqueles velhos conhecidos que pagam votos com pequenos benefícios locais, graças às emendas que obrigarão o governo a pagar em detrimento de projetos que beneficiariam de forma mais abrangente e planejada à população. O que este Parlamento que está aí quer é manter tudo como está. E como está, está muito longe de estar bom. 

A irmã mais velha de Leopoldina (10/8/13)

Posso contar-lhes a história de Maria Luiza, segunda mulher de Napoleão Bonaparte?

Eu tinha uma curiosidade antiga sobre essa irmã mais velha da nossa imperatriz, Leopoldina, pois encontrara algumas referencias desconcertantes a ela aqui e ali. A primeira diz respeito ao encontro das duas na Itália, em 1817 quando, Leopoldina, já oficialmente casada com d. Pedro iniciava sua longa viagem para o Brasil. Ali soube que havia um boato de que Maria Luiza tivera uma filha com o oficial que fora designado por Metternich para atuar como seu ajudante de ordens. Parece surpreendente que a mulher de Bonaparte, tão pouco tempo depois da separação tenha arrumado um amante e tido com ele uma filha. Isto também por sabermos que fora um casamento curto, mas intenso e apaixonado.

Depois, achei por acaso na revista francesa “Historia” sobre a morte do filho deles. Depois da queda de Napoleão, em 1814, o menino fora levado para a Áustria junto com a mãe e, pouco tempo depois, dela separado ficando em Viena quando Maria Luiza se estabeleceu em Parma. Ali, Francisco Napoleão, o duque de Reichstadt, seu titulo na corte austríaca, vivera praticamente como um prisioneiro.  O receio de que os bonapartistas dele se apoderassem para instalá-lo no trono francês por meio de uma revolução seria permanente até a sua morte em 1831. Pois bem, sabendo do estado terminal do filho e da angústia com que este a esperava, Maria Luiza demorou, por motivos fúteis, sua ida para a Áustria a fim de assistir-lhe os últimos momentos.
    
Nessa biografia, o autor, Jules Bertaut, no posfacio diz que nenhuma mulher teria sido mais vilipendiada do que Maria Luiza. Ela teria sido acusada de ingratidão, falta de inteligência, falta de sentimentos, superficialidade, etc. Pois bem, apesar das circunstancias atenuantes que teriam motivado as atitudes de Maria Luiza a impressão que se fica depois da leitura de sua biografia não é muito melhor que isto.

De fato, a narrativa dos arranjos que antecederam seu casamento com Napoleão Bonaparte apavoram a qualquer mulher dos tempos atuais. Tendo a vida toda ouvido falar no imperador da França como o anti-cristo, o monstro, o demônio que tirara o trono de Nápoles de sua avó paterna e que era odiado pela madrasta que tanta influencia tinha sobre seu espírito, Maria Luiza foi, aos 18 anos, por força dos interesse políticos da Áustria, sacrificada ao vilão.

Indo para o casamento como quem vai para o cadafalso, teve, no entanto, a surpresa de descobrir no ogro um amante sensual e ao mesmo tempo gentil, delicado e amoroso. Napoleão encheu-a de presentes, castelos, berlindas, jóias e vestidos magníficos. Isto em um tempo em que um vestido era uma verdadeira obra de arte e custava tanto quanto uma. Dedicou os mesmos cuidados e atenções a toda a sua família, inclusive a irredutível madrasta. A revelação de que Bonaparte não era no trato intimo o monstro que lhe tinham pintado, aparece no diário da Leopoldina adolescente. Até o fim, Napoleão tentou preservar Maria Luiza de qualquer sofrimento, escrevendo-lhe diariamente até mesmo do campo de batalha, minimizando suas próprias dores e frustrações para poupá-la. Amava com devotamente também ao filho pelo qual tanto ansiara e queria sempre tê-lo por perto.

Enquanto estiveram juntos, Maria Luiza correspondeu integralmente a esse amor e quis mesmo acompanhá-lo a Elba, a pequena ilha que os aliados vencedores lhe tinham destinado. As armações de Metternich, no entanto, tinham por finalidade a separação definitiva da família. Maria Luiza e o filho voltaram para Viena onde foram imediatamente incorporados à grande e feliz corte de seu pai. Sua readaptação foi imediata. De Elba, Napoleão escrevia insistentemente pedindo que ela e o filho fossem encontrá-lo. Mas, sob o argumento de que a política definida pelos vencedores não recomendava a viagem, ela foi incentivada a ficar um tempo na Itália. Na companhia obrigatória do general Neipperg, nomeado seu “Chevalier d’honneur”, que deveria informar Viena de todos os movimentos da arquiduquesa. Gentil, charmoso e inteligente, hábil homem de corte que já tivera inúmeras amantes, Neipperg, rejeitado a principio, logo caiu nas graças de Maria Luiza e daí para a sua cama o caminho não foi difícil.

Napoleão foi rapidamente esquecido e sua volta, durante os “Cem dias” apavorou Maria Luiza, já decidida a ficar ao lado do amante. Assim, ela viu com alivio a derrota final do marido e sua deportação para Santa Helena. Estabelecida em Parma como soberana, tendo Neipperg como governante da ilha, ela foi perfeitamente feliz. Felicidade que só era quebrada, nas viagens que fazia por outras cidades da Itália, pelas saudações que lhe faziam os bonapartistas nas ruas e teatros. Maria Luiza tinha-lhes verdadeiro ódio.

Mergulhado numa depressão desesperadora, com a saúde prejudicada, Napoleão definhava em Santa Helena. Alguém que o visitara lá dirigiu-lhe um apelo no sentido de que ela intercedesse junto aos poderosos de forma que ele pudesse voltar para a Europa. Maria Luiza não só não respondeu a essa carta como intrigou junto às cortes européias para que fosse aumentada a vigilância de forma que o prisioneiro não tivesse a menor chance de escapar. Nesse contexto, a noticia da morte de Bonaparte foi para ela um alivio. Por conta do cerimonial previsto para essas ocasiões foi decretado luto oficial em Parma. Mas, um emissário que viera de Santa Helena, trazendo um pedido final do falecido, nem foi recebido pela viúva sob a alegação de que estaria ainda muito abalada. A noite no teatro, qual não foi sua surpresa ao ver a ex-imperatriz muito alegre, falante e animada em seu camarote.

Sem dúvida, quando comparadas, as biografias de Maria Luiza e de sua irmã, Leopoldina, a da segunda revela uma alma muito superior.

Angelo Venosa (3/8/13)

Esta semana se aposentou, depois de mais de 30 anos de serviços prestados à Nação, Angelo Augusto Venosa, funcionário da Fundação Casa de Rui Barbosa. O nome é famoso por coisas bem diversas do que fazia na Casa de Rui, da qual foi sempre um sério e responsável servidor. Ao longo desses anos, o padrão gráfico, a beleza e a leveza da maior parte do que foi publicado pela instituição tem a marca do talento do escultor Angelo Venosa que tinha nas artes gráficas sua segunda vocação. Fez as duas carreiras pari passu e, ao lado das exposições internacionais, o artista plástico cuja obra é reconhecida pelos maiores críticos, cumpriu esse outro papel para o qual seu concurso era tão indispensável que agora ficamos meio perdidos. Como garantir a continuação do grau de excelência que caracterizou o visual de nossas publicações sem o seu olhar absoluto?

Modesto, discreto e pouco falador mas nunca antipático, nunca menos afável com quem quer que fosse, Angelo é unanimidade no bem-querer de todos os colegas de repartição. Foi com orgulho que acompanhamos sua trajetória sempre ascendente nas artes plásticas, ainda que sua criação fosse muito sofisticada e moderna para o padrão de alguns de nós. Há muitos anos, no âmbito da Casa Rui, formou-se em torno dele um grupo de amigos que almoçava junto todos os dias. Ele e Beto não eram pesquisadores do Setor de História e até faziam piadas a nossas custas mas foram definitivamente incorporados. Formamos assim um grupo fechado, com todas aquelas brincadeiras e códigos que os amigos desenvolvem durante uma vida de intimidade.

Nas conversas de almoço, nos tantos restaurantes de Botafogo que freqüentamos durante esse tempo e na livraria de Celina Rondon, parada obrigatória para o cafezinho, compartilhamos problemas familiares, decepções, dúvidas de trabalho, doenças, essas coisas que convidam à palavra de conforto, ao abraço e à solidariedade. Mas também e, principalmente, rimos muito, fizemos muita troça um da cara do outro, contamos as mais diversas anedotas, falamos mal da vida de muita gente.  Nossos almoços foram momentos importantes na nossa história, fazem parte dela, pois nos uniram, nos enriqueceram e nos proporcionaram muitos momentos felizes.

O Angelo que conhecemos ali era o mesmo rapaz de classe média paulista, filho de pais imigrantes italianos, que um dia viera para o Rio cursar a famosa Escola de Desenho Industrial – a ESDI - que lançou tanta gente boa no mundo das artes gráficas. Ali, além de conhecer Sarinha, amor da vida inteira, descobriu-se artista plástico, integrando-se já como escultor à turma que, no Parque Lage, constituiu a hoje histórica Geração 80.

Mas as histórias que Ângelo mais gosta de contar são de seu pai, já falecido, a quem está ligado até hoje por profundas admiração e afinidade. O soldado da Calábria que lutou pela Itália na IIa Guerra Mundial, que ficou meses em um campo de prisioneiros controlado pelos inglês na Índia contou suas histórias para o filho. Angelo guarda até hoje como preciosa relíquia o caderno com desenhos e anotações dessa fase da vida do pai que antecedeu em alguns anos a decisão de vir para o Brasil. O pai, tal como o filho, era também um artista, era também um escultor. Entre eles havia uma ligação que tanto faz lembrar o enredo de “Babilônia” (filme dos irmãos Taviani), pois talvez tenha sido ao ver o pai preparar os grandes cenários que iriam decorar as festas de um clube elegante de São Paulo que Ângelo achou sua vocação para as artes.

Se o pai fazia lembrar o personagem dos Taviani, a mãe era feliniana por excelência e seus dramas, suas exageradas emoções, constrangiam o filho tímido e discreto. A mãe costureira era um tema que Ângelo partilhava com o Beto nos nossos almoços do Eco’s. Pois a cada desejo de uma jaqueta ou de um jeans da moda, elas se apressavam em buscar o molde e fazer igualzinho e muito mais barato. E, é claro, com um resultado final totalmente diferente do que o pessoal bacana do colégio usava. Por isso também, os dois saibam tudo sobre tecidos, pontos e adereços.

Mas esse Ângelo de memórias tão singelas foi sempre apenas parcialmente nosso. No mundo das artes plásticas, ele esteve sempre em evidencia. Inclusive, no ano passado, foi tema de duas grandes exposições retrospectivas de sua trajetória. Uma, no MAM, do Rio de Janeiro e outra, na Pinacoteca, em São Paulo. E tivemos nós seus amigos de Casa Rui, o privilégio de uma visita guiada pelo próprio artista a essa mostra impressionante que ocupou todo o vão principal do MAM. De alguma forma, aqueles trabalhos, alguns imensos, também faziam parte da historia de nossa amizade. Pois, como seus amigos, acompanhamos suas pesquisas, soubemos dos materiais inusitados que vinha experimentado, do tratamento que dava a algumas de suas idéias.

 Tive o privilégio de contar com sua artes em alguns dos livros, cartazes e folder de seminários realizados na Casa de Rui Barbosa. Mas tenho especial orgulho de ter promovido, em novembro de 1998, durante o período em que dirigi o setor de História, um mesa-redonda em torno de seu trabalho mais conhecido. Sob o título de “A Baleia do Leme e a intervenção no espaço público” pudemos, na Casa Rui, em mesa coordenada por José Almino de Alencar, ouvir gente como o Ascânio MMM, Paulo Knauss, Lauro Cavalcante, Paulo Sérgio Duarte e Paulo Venâncio Filho analisar a obra desse grande escultor que é Angelo Venosa.  

Enfim, é um amigo querido que se despede, o que provoca uma tremenda baixa no nosso grupo. Sabemos que essas amizades se constroem, se aprofundam e se conservam nas conversas e confidências que só o dia-a-dia do ambiente de trabalho proporciona. Perdemos nós o convívio cotidiano, ganha o mundo das artes plásticas ao qual Venosa vai poder dedicar tempo integral em seu elegante ateliê do Jardim Botânico.

Soube que sua galerista, Nara Rosler (a mesma da artista cearense Luzia Simons) está planejando uma grande exposição de Angelo Venosa em Fortaleza no ano que vem. Não percam.

Boicote aos produtos franceses (27/7/13)

Entre setembro e outubro de 1830, a imprensa brasileira mais radical ensaiou uma campanha para que fossem boicotados produtos, lojas e modistas franceses. Acontecera que dois franceses tinham desembarcado ali pelos lados de Niterói e saíram a caçar borboletas na Fazenda Cavalão do conselheiro Manuel de Sousa França. Expulsos com maus modos pelos escravos do dono das terras voltaram, no dia seguinte, junto com a tripulação da fragata Carolina, onde estavam embarcados. Deram uns sopapos no escravo e levaram o irmão do proprietário até a embarcação onde lhe aplicaram o que no Brasil de então se chamava uma rodada de cipó.

Era um momento de exaltado nacionalismo que se voltava principalmente contra os portugueses e, por associação, contra d. Pedro I cujo reinado estava em franco declínio. A imprensa de oposição tinha na “Aurora Fluminense”, de Evaristo da Veiga sua voz mais ativa que repercutia, sempre de forma bem mais radical  na “Ástrea”, no “Republico”, na “Voz Fluminense” e na “Nova Luz Brasileira”. Foi essa a imprensa que comandou os protestos contra os franceses em geral e seus comerciantes em particular.

A coisa tinha também um certo tempero de luta de classe pois  o comércio francês era sinônimo de luxo e de futilidade, associado a produtos que agregavam maior valor só pelo fato de virem de Paris. Em 1816, D. João VI restabelecera relações diplomáticas e comerciais com a França. A partir daí o Rio de Janeiro sofreria uma verdadeira invasão francesa. Com suas modistas, cabeleireiros e decoradores, os franceses logo fariam da rua do Ouvidor a rua mais chique do Rio. A rua atraía às mulheres para as compras com a suas modas e aos maridos para o deslumbramento com as beldades gaulesas postadas atrás do balcão.  Inovação escandalosa que revolucionou o comércio local, antes atendido pelos modestos meninos caixeiros.

Debret flagrou esse momento de transição cultural. Se ficara espantado com a falta de graça das modas usadas pelas brasileiras quando aqui chegou em 1816, quando partiu, constatara que “o habitante do Brasil tem-se mostrado, desde então, tão entusiástico apreciador da elegância e da moda francesa que, por ocasião da minha partida, em fins de 1831, a rua do Ouvidor, era quase que inteiramente constituída de lojas francesas de todo tipo, mantidas pela prosperidade de seu comércio”.

Em 1818, Durand vendia acessórios masculinos e femininos como calçados, chapéus, luvas, suspensórios, leques, escovas, pentes, flores artificiais e bijuterias. Os franceses também influíram nos hábitos e cuidados com a toalete, proporcionando uma série de serviços antes inexistentes na cidade. Cabeleireiros  franceses como Richaud e Catelineau competiam pelo mercado, oferecendo  toda a sorte de essências, perfumes, sabonetes, tinturas para cabelo e pomadas. Alfaiates, como o Gudin, ofereciam roupa pronta para vender. César Bouliech prometia fazer vestidos “à moda do mais moderno de Paris”. Tornier, chapeleiro de Paris, oferecia na Rua São José, chapéus redondos e armados.

Pois foi justamente contra esse próspero comércio francês que a “Nova Luz Brasileira”, de 21/09/1830, conclamou ao boicote, dizendo: “seja indigno do nome brasileiro; seja indigno da liberdade e da Constituição todo aquele que gastar um só vintém em uma casa francesa; todo aquele que trajar as suas modas; seja indigno do senso e caráter humano, quanto fizerem uso dos vestidos e macaquices próprias desses pelintras, de vestidos que não são mais do que traições para precipitarem a mocidade brasileira de um  e outro sexo e para fazerem-nos esquecer o doce nome de Pátria, e os deveres de brasileiros embebidos em um vão, inútil e vergonhoso luxo.”

O jornal voltaria novamente ao ataque em 08/10/1830, lembrando que  “se o espírito nacional se mostrasse decididamente disposto a tratar como deve a mísera canalha que vem de Paris vender-nos as suas tetéias e retalhos dez vezes mais caro do que nos atreveríamos a pagar a um nacional” talvez os franceses não nos tratassem com tanta arrogância. A influência nefasta dos franceses sobre a juventude, aliás, também é lembrando pelo articulista pois, além de venderem “livros indecentes e imorais” e faziam nossa mocidade andar “enfatuada e embonecada”, tornando-se os rapazes “tísicos e mirrados por andarem de tal forma entalados que nem podem olhar para seus pés”. Se boicotássemos os produtos franceses, continua, “não veríamos as nossas querida patrícias com a torre de babel à cabeça, com mangas de tão extraordinária dimensão que tornam defeituosos os lindos braços que a natureza lhes deu perfeitos”. A moda francesa contaminara até língua que estaria “manchada de feios galicismos”. O jornal terminava conclamando: “Nem mais um real aos franceses.”
    
 “O Brasileiro Imparcial”, (28/09/1830) jornal adversário da “Nova Luz”, registrou que o apelo das folhas radicais que desejavam “que declaremos guerra à França” e “que ninguém compre mercadorias francesas” fizera com que fossem insultadas no teatro,  “em a noite do dia 25, as senhoras que estavam com chapelinhos franceses”. Em Pouso Alegre, interior de Minas, o “Pregoeiro Constitucional” (30/10/1830) registrou o sucesso do boicote: “Os industriosos franceses que entre nós vivem tem desertas as suas casas, ninguém lhes compra nada e este castigo é bom. Dizem, e nós acreditamos, que deste mal virá o bem de levar as nossas belas a fazerem por sua própria mão os ornatos, contra o maldito costume, que nos iam embutindo, de nada ser bom que não fosse feito pelas modistas. Que alívio para os pais de família! Que abono para a nossa indústria!”


Mas a coisa logo arrefeceu, pois, com a chegada das notícias sobre a Revolução de Julho de 1830 de caráter liberal que derrubara os Bourbon, novamente os espíritos dos revolucionários nativos voltaram a se empolgar com a França e com os franceses, deixando de lado o boicote contra suas modas e seu comércio.

Dolores Feitosa (20/7/13)

Creio que não cometo crime autoral antecipando aqui parte do que escrevi como texto de apresentação do recém-lançado livro de Luiza Amorim, “Dolores Feitosa: resiliente como a caatinga”. Na verdade, nem tudo que digo aqui disse lá e, de qualquer maneira, é sempre bom falar de Dolores Feitosa, de suas histórias e dos elos que ao longo da vida fomos estabelecendo com ela e sua família. E quem ler sua biografia vai concordar comigo.

Trata-se da história de uma mulher cearense do sertão, esposa e mãe de família dedicada. Filha moça da mais antiga elite do Estado. Mas sua história é também a história de uma intelectual e de uma ativista, pioneira nas lutas ambientais no Ceará. No entanto, quando se chega ao final da leitura de sua biografia, a gente percebe que há ainda muito mais classificações que poderiam abarcar esse personagem de trajetória tão singular que é Dolores Feitosa.

Cabe ressaltar que foi a competência de Luiza Amorim, sua capacidade de mergulhar no universo de seu biografado, aliando a pesquisa em jornais, papéis, e fotografias aos depoimentos, que proporciona uma visão por inteiro de Dolores Feitosa. Mais uma vez, tal como lhe aconteceu quando escreveu as biografias de Lustosa da Costa e de Adísia Sá, a própria autora se deixou envolver pelo objeto de seus estudos. E imagino como não deve ter sido saborosa essa convivência de Luiza com Dolores, sua família e seus lugares preferidos, especialmente o sertão dos Inhamuns. Conversar com uma mulher inteligente, ouvir-lhe as histórias, apreender sua filosofia de vida e partilhar suas saudades é privilégio raro, experiência única da qual a gente sempre sai maior do que entrou.

E isto poderão também dizer os leitores desse livro, depois que percorrem, através de suas páginas, a vida dessa mulher, herdeira daquela mesma aristocracia rústica que tanto fascinou Lustosa da Costa. Sua vida de menina, com mãe e avó sempre presentes, modelos de mulher de personalidade forte que já se distinguiam por suas ações sociais na Sobral da primeira metade do século XX, faz dela uma moça privilegiada. O nível de educação que obteve, mesmo com as restrições para que cursasse uma faculdade, foi bem diverso do a que tiveram acesso as moças de classe média de seu tempo.

Mas, sendo moça de elite, Dolores era também moça inteligente e suas ambições passavam além dos sonhos das meninas ricas de Sobral. Talvez por isso tenha se deixado seduzir pelo funcionário da Secretaria de Agricultura, Joaquim Feitosa, filho de outra família cujas origens remontam ao passado mais distante da ocupação dos sertões cearenses. Pois o Joaquim também não era um sertanejo como os outros, nem um moço da elite cearense comum. Foi o encontro feliz de inteligências privilegiadas, de ideais compartilhados que os manteve unidos e afinados até o final.

É bonita a história de Joaquim e Dolores. É bonita a história de suas lutas. Mas é especialmente bonita a maneira como Dolores a viveu e a prolongou como história dela mesma, depois da morte de Joaquim. Pois nessa aventura ela nunca foi coadjuvante. Foi parceira que, além das missões a que se dedicou, foi mãe e sofreu com a doença e a perda do filho, tendo que abrir mão de atividades que lhe eram caras para confortá-lo até o último momento.

Muitas são as passagens emocionantes desse livro. Uma bela página da história das lutas cearenses que eu não conhecia é a da atividade de Dolores e de outras mães de estudantes que se opunham à ditadura militar. Numa ação tão curiosa e creio que até mesmo inédita na história do movimento estudantil brasileiro, as mães do Ceará, estiveram ao lado dos filhos, sem condená-los nem reprimi-los, na frente da passeata que, em 1968, reuniu 20 mil pessoas em Fortaleza para protestar contra a ditadura. Antes, as mães foram ao governador pedir autorização para a passeata, se comprometendo, em nome dos filhos, de que a mesma fosse pacífica. As mães marcharam à frente dos estudantes, protegendo-os como mães que eram contra qualquer violência.

As tantas causas em que se envolveu Dolores, algumas vencedoras outras perdidas, mas sempre deixando um saldo positivo no sentido da consciência e da formação de outros atores, são também páginas que merecem ser preservadas para a história. O patrimônio histórico, natural e arqueológico do sertão cearense deve muito à ação que empreendeu e continua empreendendo essa mulher que se aproxima dos 90 anos com a mesma fibra com que encarou aquele rapaz alto e lhe deu uma decisão. Pois o Feitosa lhe arrastava a asa em Sobral mas tinha noiva em outra cidade.

Não posso deixar de contar como me aproximei de Dolores Feitosa. Durante o Ginásio, no final dos anos 1970, no Colégio das Dorotéias, tive uma colega, Fátima Lúcia de que me tornei amiga. Viva, irreverente, transgressora, Fátima estava sempre sendo chamada às falas pela terrível Irmã Andrade, diretora que era também irmã de sua mãe. Devo ter ido uma ou duas vezes em sua casa, onde a presença tão elegante de seu pai, homem alto, simpático e de sorriso levemente irônico, predominava.

Mais tarde que soube que Joaquim e Dolores Feitosa, os pais da Fátima, eram pessoas importantes nas questões ambientais do Ceará, pessoas de visão, gente progressista em uma sociedade onde pessoas assim ainda eram raras. Nos últimos anos, tenho acompanhado as notícias sobre as atividades da própria Dolores, o reconhecimento de suas ações em defesa dos Inhamuns, sua militância para fazer de Tauá um centro importante da cultura do semi-árido e do próprio reconhecimento que vêm ganhando as ações da Fundação Bernardo Feitosa. Com dando esse nome à fundação que criaram, Dolores e Joaquim homenagearam, ao mesmo tempo, ao tio, tão importante e ao filho, tão infeliz e tão amado.

O americano tranqüilo (13/7/13)

Existe um povo que a bandeira empresta
Para cobrir tanta infâmia e covardia...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!... 
(Castro Alves)

Dez anos depois do começo da guerra do Iraque, creio que as imagens mais impressionantes que apareceram na imprensa sobre os bastidores do conflito foram aquelas em que soldados norte-americanos torturavam prisioneiros. Nada mais apavorante do que aquela cena de um homem nu, tentando se proteger ou cobrir suas intimidades dos cães ferozes que soldados atiçam contra ele. Ou outra, de um sujeito vestido, sentado, e imobilizado pelo pavor, com o pescoço ferido pelo que poderia ter sido uma mordida, sendo ameaçado também por um cão.

As outras fotos, de corpos nus, empilhados ou simulando atos sexuais, ou ainda de um corpo despido, coberto de excrementos, com  os braços abertos, remetem à violação maior da dignidade humana. Do desrespeito aos valores do povo conquistado. As notícias que as acompanham, de violência sexual, de gente sendo obrigada a tirar sua comida de vasos sanitários, ou sendo obrigada a amaldiçoar seu Deus, são notícias da degradação, notícias de uma guerra suja.

Mas o que mais desconcertava nas terríveis fotos era a carinha marota daquela menina-soldado de 21 anos que arrastava um iraquiano nu pela coleira, ou que sorria, levantando o dedo em sinal positivo diante do corpo morto e desfigurado pela tortura de um outro prisioneiro. Aquela carinha risonha é a carinha das crianças e mocinhas americanas da séries que nos acostumamos a ver na nossa infância. É a cara boa, saudável e bem alimentada da América que aprendemos a amar através dos seriados da sessão da tarde, dos desenhos de Norman Rockwell e dos adoráveis filmes de Frank Capra.

De algum forma as contradições do espírito da América foram bem apreendidas por Grahan Greene em seu O Americano tranqüilo. A história se passa na Saigon de 1952, em meio ao conflito pela libertação do domínio francês. O protagonista é o jornalista inglês, Thomas Fowler, um homem de meia-idade, correspondente do London Times, que se deixara esquecer na Indochina, entre uma garrafa de uísque, umas tragadas de ópio e os cuidados de uma bela oriental. A chegada de Alden Pyle, dos EUA, um jovem idealista, militante da política norte-americana de ajuda aos países em desenvolvimento, altera a situação.

Aproximando-se de Fowler, com aquela simplicidade e boa-fé tão típica de seus compatriotas, o rapaz se choca com o desencantado cinismo com que Fowler conduz sua vida. Movido pelo  mesmo espírito salvacionista que o levara a Indochina o rapaz decide conquistar a namorada de Fowler, prometendo casar-se com ela e levá-la para a América. Fowler era casado na Inglaterra e sua mulher, de quem já vivia separado, lhe recusava o divórcio. A história desse triângulo amoroso se desenrola em meio à uma série de revelações sobre a verdadeira missão de Pyle. Esta era muito menos inocente do que ele quis levar Fowler a acreditar. 

Através das desventuras do seu alter-ego, Greene revela as entranhas do processo, a perversa estratégia americana para convencer o mundo do perigo que representava o avanço comunista no Extremo Oriente. É o começo da grande  campanha midiática para fazer com que a opinião pública mundial apoiasse a intensificação da presença americana no Vietnãn. Para tanto era aceitável criar notícias falsas mesmo que a custa de dezenas de vidas inocentes. Assim é que a trama e Pyle, o americano tranqüilo, revelam suas reais dimensões na cena dramática da bomba explodida numa praça central de Saigon e falsamente atribuída aos comunistas.

O Americano tranqüilo foi escrito em 1953, bem antes do que nós costumamos considerar como a guerra do Vietnã propriamente dita. A guerra dos americanos no Vietnã veio suceder à guerra que os antigos colonizadores franceses combateram lá durante mais de dez anos, sacrificando nela o melhor de sua força militar. Os americanos começavam a entrar no país justamente quando lá chegou Greene para trabalhar como correspondente da revista Life, em 1952. O que torna  o livro tão atual é a repetição da mesma estratégia – com recursos mais sofisticados – agora no Oriente Médio. E também a maneira como Greene conseguiu estabelecer uma associação tão inteligente entre a lógica dessa estratégia e a imagem que os americanos têm de si e de seu papel no mundo.

Em O Americano tranqüilo, Greene conseguiu reunir em um personagem a crença inabalável nas verdade democráticas, a simplicidade do amor à família e à liberdade em luta num mundo em que torpe regime comunista tentava por suas garras. A partir de sua experiência na Indochina, Greene pôde antecipar os caminhos a que conduziam a singela visão de mundo expressa nos tantos seriados ao estilo de “papai-sabe-tudo”, com todos aqueles adoráveis lares americanos para os quais o personagem que justifica o título do livro sonhava um dia voltar.

A América resplandece de ideais humanitários e de ações grandiosas em meio às ilustrações de Norman Rockwell, onde os semblantes rosados e sorridentes de um povo simples e feliz nos encantam e sensibilizam. Nos filmes de Frank Capra, com Jonh Doe – o homem comum deste povo comum – que levanta as massas rumo ao fascinante ideal da solidariedade entre vizinhos de bairro, ou em “Mr. Smith goes to Washington”, em que o super chefe dos escoteiros chega ao senado - como senador, vale acrescentar – para lutar por um campo nacional de escoteiros. Mas, tanto o momento fundador desses ideais, quanto o renascimento deles no New Deal de Roosevelt, estão longe, assim como está longe a época da inocência. E o cidadão comum da America de hoje em dia tem bem menos motivos para estar otimista quanto ao seu futuro do que os daquele tempo.