Só mesmo nas marchinhas de carnaval era que um "homem de moral" podia se dar ao luxo de chorar. Pelo que me recordo nos sambas-canção tem muita angustia, muita magoa mas poucas lágrimas. Em "Vingança" do Lupicínio Rodrigues, um dos prazeres do vingativo é saber que encontraram o/a autor/a de suas desditas "bebendo e chorando" na mesa de um bar.
Na minha infância, esse negócio de chorar era coisa de gente fraca porque homem que é homem não chora e mulher valente também não chora não. No tempo do colégio das Dorotéias, eu só mangava das meninas que tinham morrido de chorar em "Romeu e Julieta", do Zefirelli e em "Love Story". Este último eu nem assisti porque Garota Cultural que se prezasse não se prestava a ver filme meloso. Também passei longe de "Dio come ti amo". Eu tinha total desprezo por esse gênero lacrimoso filme que tanto sucesso fazia entre as minhas colegas. Imagina, eu, chorar? Meu negócio era Bergman. Filme-cabeça.
E, no entanto, devo ter chorado bem em uns e outros filmes de que não me lembro agora. Mesmo não sendo livro muito conceituado no tempo, "Meu pé de laranja-lima", do qual não lembro uma linha sequer, me fez derramar lágrimas de esguicho, como dizia Nelson Rodrigues. Também dei vazão às lágrimas em algumas despedidas. Assim mesmo era choro escondido, disfarçado, envergonhado. Só fui mesmo me libertar desse preconceito contra o choro na medida em que as coisas da vida passaram a me levar naturalmente às lágrimas.
Em Paris fiquei surpresa de ver, mais de uma vez, mulheres chorando na rua. Não eram mulheres do povo, ou pedintes como a gente vê muito por lá. Estas não desciam a essa humilhação de implorar entre lágrimas pela sua caridade. Mendigo parisiense tem uma alta concepção cenográfica. Sentava-se em alguma esquina, sempre acompanhado por um ou dois cachorros pequenos e em atitude sofrida, porém digna, mão estendida, tendo ao lado um cartaz em papelão com seu apelo, às vezes um simples: "J´ai faim". No inverno é batata: funciona que é uma beleza.
As mulheres parisienses que vi chorar nem eram frágeis, nem eram pobres e não pareciam ter passado por nenhuma desgraça. Pareciam pessoas que tinham se despedido de alguém querido e que estavam partindo, pois vi-as na rua, no metrô ou no trem com uma pequena mala de viagem. O que me surpreendeu foi que elas deixassem as lágrimas correr livremente pelo rosto sem qualquer vergonha ou constrangimento. Eram mulheres altivas, muito claras e elegantes e não pareciam estar buscando a piedade nem o conforto das pessoas em volta. Ao contrário, certamente, como a maior parte das parisienses, avessas a qualquer tipo de familiaridade, teriam reagido com aspereza à tentativa de confortá-las.
Eu fiquei pensando no sentido daquelas lágrimas assumidas. Lágrimas que não estavam associadas a nenhuma outra atitude dramática, a nenhum queixume ou fungado, enfim, a nenhuma outra demonstração de sofrimento. Será que essas mulheres choravam assim porque entre tantos direitos conquistados os franceses teriam o da liberdade de chorar em público sem que ninguém tenha nada a ver com isto? Não sei. Mas achei bacana.
Eu choro pouco. Em geral quando algo terrível me acontece eu tendo a reagir analisando tudo, organizando, racionalizando, vendo todos os lados do problema para melhor enfrentá-lo. Mesmo quando tive medo de ter uma doença grave, eu fiquei obcecada pelo assunto, em pânico, mas não chorei. Hoje vejo que isto não é vantagem nenhuma pois quando algo me toca a ponto de me fazer chorar, esse choro me alivia e me dá uma sensação de conforto e relaxamento. Chorar é bom para quem chora e acho que, dependendo da causa, é uma homenagem ao objeto de nossas lágrimas. Chorar nos dá uma sensação de vida pois é uma manifestação do corpo, uma reação fisiológica. Significa que nossos olhos responderam ao sinal que lhe mandou o coração e a mente, lavando-se e, com isto, aliviando um pouco a nossa dor.
Grande aquisição da família foi José Benevides, marido da Lúcia, um chorão confesso e desavergonhado. Detrás daquela estampa de magnata americano bate um legítimo coração sertanejo. Sertanejo de Mombaça, terra do povo que mata e chora pelo morto. Benevides não mata ninguém mas se emociona fácil e as lágrimas lhe brotam grossas e generosas. Diante de histórias de superação, em batizados, casamentos e enterros, mesmo que não seja de gente próxima, o Benevides chora. É coisa de família, segundo ele me contou. O pai dele era um chorão, a irmã, Iramiza é outra e sua linda filha, Sellene, é herdeira dessa tradição familiar. Neste momento em que vivem uma história de perda tão dramática, recomendo ao Benevides e aos de sua família que têm a graça das lágrimas que as deixem correr livres, fartas e generosas. Chorem com liberdade, pois assim desafogam o coração e, com suas lágrimas, prestam a homenagem mais sincera à memória de seu ente querido.
E termino essa crônica do Dia da Pátria, o samba do grande Paulo Vanzolini, amigo do Pessoal do Ceará:
"Chorei, não procurei esconder,/ todos viram, fingiram/ pena de mim não precisava/ ali onde eu chorei/ qualquer um chorava/dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava".