Mendes Fradique (21/4/12)

Hoje é dia do Descobrimento do Brasil. Ou será que é o dia em que enforcaram o Tiradentes? Não é o dia do índio, porque esse foi 19. Eu soube porque vi uns protestos no Facebook.

De qualquer modo, abril tem 30 dias, nome de um filme que vi no século passado, e é tomado por datas históricas. A quase coincidência da data do descobrimento com a data do enforcamento proporcionou uma página divertida no livro do Mendes Fradique "História do Brasil pelo método confuso", publicado entre o final da década de 1910 e o começo da década de 1920.

Diz Mendes Fradique que uma das coisas que Cabral primeiro viu quando desembarcou foi o corpo de Tiradentes pendurado na forca. Indagando sobre de quem se tratava lhe responderam que era o alferes Joaquim José da Silva Xavier que, na véspera tinha sido enforcado como maximalista. "Maximilistas" era como naquele tempo eles chamavam os comunistas e não tem nada a ver com Marx. É apenas a tradução da palavra russa "bolchevique". Mendes Fradique usa e abusa do termo, misturando revolucionários de várias épocas e lugares sob essa nomenclatura que esteve tão presente nos jornais brasileiros na época da Revolução Russa (1917).

E é esse o espírito do livro de Mendes Fradique que me caiu nas mãos por acaso em 1984, quando, trabalhando no Museu da República, eu pesquisava para o meu primeiro livro: "Histórias de presidentes: a República no Catete". Fiquei realmente fascinada pelo livro de Mendes Fradique e procurei saber mais sobre o personagem.

Correndo os sebos do Rio, acabei encontrando em uma livraria, creio que na Av. Marechal Floriano, Seu Santana, velho livreiro que o tinha conhecido pessoalmente. Contou-me que Mendes Fradique - pseudônimo adotado pelo médico capixaba José Madeira de Freitas, tanto em seus artigos quanto nas caricaturas que também fazia -, fora um ativo militante integralista. Ele fora preso e torturado depois do fracassado "putsch" integralista de 1938. Afastado de seus empregos pela ditadura do Estado Novo, sofrera uma sucessão de AVCs e acabara morrendo, triste e esquecido, em seu apartamento na rua Carlos de Laet, na Tijuca.

Foi lá que fui, na sequência de minha pesquisa, encontrar sua viúva, bem velhinha, e ficar amiga para o resto da vida de sua filha, Apparecida Saramago. Daí em diante, só pensei em Mendes Fradique, dedicando ao estudo de sua vida e obra a minha tese de mestrado. Defendida em 1991, no IUPERJ ela foi publicada em 1993, pela editora Bertrand, com o título de "Brasil pelo método confuso: humor e boêmia em Mendes Fradique".

O tema de minha reflexão era o contraste entre aquele humor tão carnavalizado, tão próximo do humor dos modernistas de 1922 com a opção integralista de Mendes Fradique/Madeira de Freitas, dez anos depois. Se o Modernismo teve uma vertente que desaguou no Integralismo- representada pelo seu principal líder, Plínio Salgado, autor de umas tantos romances de qualidade discutível - o tipo de humor de Mendes Fradique nada tinha a ver com aquilo. É um humor muito próximo do de Oswald de Andrade no movimento antropofágico, (mais até do que da "Poesia Pau-Brasil").

Na "História do Brasil pelo método confuso", a mistura de tempos, lugares e referências culturais proporciona uma narrativa absolutamente viva, divertida, inusitada. Ao fazer Cabral desembarcar em um Rio de Janeiro tal como era a cidade no começo de século XX; ser recepcionado por alguns notáveis do País; metê-lo em desconfortável pensão da Rua São José; pegar o bonde; cair em conto do vigário aplicado por um personagem da vida boêmia e, finalmente, casá-lo com Suzana Casterá, a cafetina mais conhecida do Rio, Mendes Fradique antecipa muito do que o humor brasileiro só faria muito tempo depois.

O exemplo mais conhecido desse recurso é o "Samba do crioulo doido", do Stanislaw Ponte Preta. Sobre o qual, aliás, Artur Xexéo, depois de ser repreendido por citá-lo, pois "crioulo" é politicamente incorreto, pensou em renomeá-lo como "Samba do afro-descendente doido". Mas como, lhe disseram que "doido" é conceito que também já entrou para o índex, seria preciso pensar em outro nome.

Minha intenção na tese, e digo tese e não dissertação, porque no tempo em que a fiz ainda se exigia muito de quem a escrevesse, foi entender - a partir da análise tanto de seus livros quanto de seus artigos publicados na imprensa -, sua maneira de pensar o Brasil. E esta era, a meu ver, herdeira da mentalidade que caracterizava a geração boêmia da qual ele foi uma espécie de "benjamin". Mendes Fradique só chegou ao Rio, em 1910. Pegou os últimos tempos da roda boêmia de Olavo Bilac e de Emílio de Menezes. Desde último, aliás, se tornou uma espécie de pupilo. Tendo mesmo acompanhado Emílio naquele viagem histórica a São Paulo em que o grande satírico, recepcionado por Oswald de Andrade, conheceu a fina flor da juventude culta e rica paulistana, que depois aderiria ao Modernismo.

Oswald depois rejeitaria não só Emílio como também tudo o que ele sua geração tinham representado: a poesia parnasiana, o academicismo, o francesismo, etc, etc. Em meu trabalho procurei mostrar o que aproximava e o que afastava aquelas duas maneiras de fazer humor e cultura no Brasil. Para a geração de Bilac o humor era algo que nada tinha a ver com a verdadeira arte. Para os modernistas, o humor era uma forma de expressão artística tão válida como outra qualquer. Oswald foi, entre estes, o que mais abusou dessa forma de expressão tão característicamente nossa, e da qual a geração anterior só se valia como forma de recreação.

Herdeiro dos valores da geração que desaparecia, Mendes Fradique reagiu, não só ao futurismo, ao futebol e ao jazz, quanto ao carnaval e às manifestações da cultura brasileira mais identificadas com nossas raízes africanas. Ele se apegaria a uma visão do Brasil ultrapassada e conservadora que, junto com seu catolicismo profundo, encontraria no Integralismo a forma de militância mais adequada.

Partir, chegar, voltar (14/4/12)

Quando mudei para o Rio de Janeiro em 1977, o repertório de canções que falavam de partidas e chegadas era imenso. A geração dos artistas que cantava os nossos sentimentos vivia ou vivera experiências iguais. Encontrávamos em suas canções, as palavras e os sons que rimavam com o que estávamos sentido.

Tinha aquela do Caetano que dizia: "no dia em que eu vim m´embora/não teve nada de mais". A parte que eu mais gostava era a que dizia: "mala de couro forrada com pano forte, brim cáqui". A mala voltava mais adiante quando o poeta diz que quando se viu sozinho, viu que não sentia nada, nem do porque ia indo, nem do sonhos que sonhara, sentia apenas que a mala de couro que carregava, fedia, cheirava mal.

O mau cheiro da mala tinha a ver com aquela insegurança que a gente que está chegando em um lugar estranho. O medo que a roupa seja de mau gosto, que o sapato esteja furado, que o sotaque da gente seja motivo de deboche ou de chamar a atenção por um detalhe tão desagradável quanto é estar carregando uma mala fedorenta.

Chegar é difícil. Acostumar com o lugar, descobrir onde compra pão, qual o ônibus que se pega para ir a não sei onde, como é que o pessoal daqui faz para... E os finais de semana? Os finais de semana são terríveis. (Lembrei agora, não sei porque, do poeta e arquiteto Antonio Brandão, em algum dos tantos bares que frequentávamos no começo dos anos 1970, depois de alguns tantos goles, bradando, a propósito de nada: as quartas-feiras são terríveis!).

Mas é de outro tipo de terror que eu falava, o terror do final de semana em que você tem que se programar para não passá-lo, à toa, sozinho em casa. Não foi logo que descobri que a solução para todos os meus problemas de final de semana se chamava Posto 9: região da praia de Ipanema onde a gente encontrava todo o mundo e quem tem vinte anos continua encontrando até hoje.

Eu ia à praia no Leblon com os amigos do Ceará que chegaram ao Rio na mesma época que eu. Íamos porque nossa amiga e protetora, Vera Duarte, morava em um apartamento antigo, amplo e charmoso em prédio que já não existe mais na rua Rita Ludolf, no chamado Baixo Leblon. Então menos do que Ipanema, era o Leblon a nossa praia. De dia menos animada, de noite movimentadíssima entre a calçada da Pizzaria Guanabara e a do Diagonal, bem em frente.

Depois que essa turma se dispersou é que eu descobri Ipanema. Acho que já aluna do IFCS/UFRJ. Primeiro só ia lá junto com amigos, depois passei a ir mesmo sozinha. Você, quando é jovem tem um certo pudor de ir à praia sozinha. Sei lá, acha que vão achar que você é uma coitadinha do tipo "pobre menina não tem ninguém". Depois, você descobre que vai sozinha e dá uma andada, acaba encontrando uns conhecidos. Bota a toalha ali do lado, pede por pessoal dar uma olhada e na volta se, a turma for interessante, se encosta por ali mesmo.

Demora um tempo também para você achar a sua turma na praia. Conhecidos tem muito, mas pessoas que tornam uma tarde na praia divertida não são tantas assim. Depois que você acha, aí não só o seu programa diurno como também o noturno estão arranjados. Porque era no posto nove que a gente que ficava na praia até o por-do-sol, se informava sobre onde ia ser a festa, o show, o bar em que aquela turma ia se estar à noite.

Por isso, quando recebi no Rio um alemão que me fora bem recomendado por amigos de lá, Lutz Taufer, personagem de biografia difícil de ser absorvida pela sociedade convencional - fora do Baader Meinhof e, por conta de suas atividades, ficara uns 20 anos preso - deixe-lhe duas orientações que foram decisivas para o seu sucesso na cidade maravilhosa. Recomendei a ele que fosse morar em Santa Teresa - bairro tão alternativo que a história dele seria apenas mais uma dentre outras - e levei-o imediatamente ao Posto 9.

Era o verão de 1998, praia lotada, apresentei-o a uns três ou quatro ex-presos políticos em suas sungas minúsculas, como então ainda se usava; a uma professora de literatura que falava perfeitamente o alemão e à editora do caderno feminino de um grande jornal que achou a história dele ótima e deu um jeito de incluí-lo em uma coluna de futilidades com direito a foto e tudo. Como o Lutz se dedicava a fazer pães integrais para viver, ela não teve dúvidas, tascou na legenda: "ele fazia bombas, agora faz pães".

Porque tem isto também no Rio: a futilidade. Meu amigo alemão, quando entrevistado sobre suas impressões, declarou: o Rio de Janeiro é aquela cidade que, em dez minutos, você se torna o maior amigo de alguém. Depois ele se queixou um pouco da superficialidade dessas amizades, de como logo esses amigos te esqueciam... fazer o que, não é mesmo?

Ainda é melhor chegar em um lugar que te acolhe e que depois te deixa por tua conta do que chegar em um lugar hostil, onde cada espaço tem que ser penosamente conquistado, mesmo que no final você chegue, destroçado, ao próprio Jardim do Éden.

Voltando ao tema das músicas com que abri essa coluna: depois de umas tantas provas difíceis vividas no processo de conquista da cidade maravilhosa, a música que adotei como minha foi aquela do Torquato Neto que começa assim: "Mamãe, mamãe não chore/ A vida é assim mesmo, eu fui embora". Me identificava especialmente com o final: "Eu por aqui vou indo muito bem/ De vez em quando brinco carnaval/ E vou vivendo assim, felicidade na cidade/ que eu plantei pra mim/ E que não tem mais fim, não tem mais fim".

Não foi tão feliz assim a vida do Torquato na cidade que ele plantou para si. O poeta renunciou. Em 10 de novembro de 1972, ele ligou o gás e se deixou morrer na Tijuca, onde morava, aos 28 anos. Eu não. Eu segurei o tranco e segui em frente. Como outros tantos que imigraram do Nordeste para o Rio, naqueles, a um só tempo, amargurados e felizes anos 1970.

Anísio Teixeira (7/4/12)

Dia desses encontrei por acaso na internet foto de Anísio Teixeira, entre Jorge Amado e Gilberto Freyre. Os três já maduros, grisalhos, na casa dos 50 anos. Estranhei um pouco aquele Anísio pois o que conheci bem, através das tantas imagens dele constantes dos arquivos de Pedro Ernesto Batista, foi o Anísio moço. Figura franzina, metida nuns ternos grandões, com os cabelos muito lisos, fixados pela força da gomalina, o rosto magro escondido atrás dos óculos de grau. Imagem típica de intelectual latino, assim era o jovem Anísio, recém-chegado da América do Norte, cheio de ideias arrojadas sobre educação.

Aquele Anísio que encontrou na vocação radicalmente democrática do prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, um aliado corajoso para a implementação de seu projeto educacional. Foi com Anísio Teixeira que se difundiram as bibliotecas de bairro e que se criou a Escola-Rádio, dirigida por Roquette Pinto. Foram construídas então, no Rio de Janeiro, 28 escolas, cada uma com capacidade para mil alunos. Espalhadas por todo o município, suas localizações foram definidas após cuidadosos estudos, privilegiando as áreas mais pobres. Em 1933, a primeira escola construída numa favela foi inaugurada no Morro da Mangueira. O Instituto de Educação formou, durante aqueles quatro anos, 800 novos professores dentro do espírito da Escola Nova. A sofisticação dos cursos do Instituto era tanta que se chegava a exigir pleno conhecimento de francês e inglês dos futuros professores primários. O nível destes, com o aprimoramento dos cursos do Instituto de Educação, alcançou padrão universitário.

Este mesmo Anísio que aparece nas dezenas de fotos arquivadas no CPDOC-FGV, inaugurando escolas em Bangu, Campo Grande, Olaria, Marechal Hermes. Realizando, enfim, pela primeira vez na História do país, um projeto de efetiva democratização do ensino. Anísio não entendeu o recado violento da reação e recusou-se a implementar, por considerá-la avessa ao projeto de uma escola democrática e laica, a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas, pela qual se batiam os setores mais conservadores da Igreja Católica.

Curiosamente, o Anísio que brigava com a igreja nos anos 1930, quase se tornara seu sacerdote nos anos 1920. Clarice Nunes, em "Anísio Teixeira: a poesia da ação", revela o conflito em que se debateu a sua alma entre as atrações do mundo da política e a vida sacerdotal. Narra também o choque que foi para ele, no final da década de 1920, a descoberta da América. Choque que eliminou o sacerdócio como alternativa mas que revelou o caminho para um outro sacerdócio, a serviço da educação. Educação para a democracia.

Em Nova York, Anísio tornou-se íntimo de Monteiro Lobato - então adido comercial do Brasil nos Estados Unidos - e de sua família.. Pela correspondência que mantêm, depois do retorno de Anísio, percebe-se que ele se tornou algo assim como o darling de toda a família Lobato. Todos morem de saudade dele. Todos relembram o companheiro insubstituível, sua prosa admirável.

É assim também que dele se recordavam os filhos de Pedro Ernesto: Odilon e Iolanda Baptista. Em fotos do álbum de família aparecem o jovem e atlético Odilon ao lado do franzino Anísio. Os dois, de calção, jogam nas águas do mar do Recife uma rede que a incompetência dos pescadores teima em trazer vazia. Foi durante uma viagem, naquele fatídico ano de 35. Pedro Ernesto, então prestigiadíssimo, foi com a família e alguns secretários assistir à posse do governador de Pernambuco, Carlos de Lima Cavalcanti. A bordo, nas fotos da viagem, aparece o grupo bronzeado e alegre: Pedro Ernesto, sua mulher, d. Evangelina, Iolanda, Odilon, Anísio e Emília. São fotos de uma gente feliz. Durante a viagem, o navio foi sobrevoado pelo dirigível Hindemburgo, numa homenagem ao prefeito do Rio.

Em meados de 1935, aquele rapaz míope e franzino, marcava o seu tento mais ambicioso: coroava a sua obra inaugurando a Universidade do Distrito Federal. Uma universidade sem prédio, sem instalações adequadas e que, no entanto, tinha em seu quadro importantes professores de universidades estrangeiras, além da prata da cada: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Heitor Villa-Lobos, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, José Maria Bello, Jorge de Lima, Álvaro Vieira Pinto, José de Castro, Afonso Arinos de Melo Franco, Arnaldo Estrela, Lúcio Costa...

A UDF tinha um currículo absolutamente inédito para os padrões da universidade brasileira: cursos de urbanismo, arquitetura paisagista, drama e cinema, arquitetura cenográfica, bailados, além de outros mais sisudos, porém igualmente inovadores como os de filosofia e história do pensamento, filologia, literatura e sua história, jornalismo e publicidade, biblioteconomia e arquivo. A contratação de professores comunistas como Hermes Lima, Castro Rabelo e Leônidas Rezende, contribuiu para reforçar a identificação de Anísio como comunista e forneceu o motivo para a perseguição que sofreria depois.

As conseqüências do desastrado levante comunista de novembro de 1935 foram trágicas para os que, naquela década, não somavam com as correntes mais conservadoras. Em 2 de dezembro, Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto (então reitor da UDF) e boa parte de seus colaboradores, que haviam se transformado no alvo predileto dos que queriam derrubar Pedro Ernesto, apresentaram suas cartas de demissão. Alguns foram imediatamente presos. No lugar de Anísio, assumiu a Secretaria de Educação o ex-ministro Francisco Campos. Foi o fim do sonho.

Neste momento em se procura recuperar da degradação a que foram submetidos, nos últimos 40 anos o ensino público primário e secundário, estabelecendo um piso salarial decente para seus professores, vale a pena lembrar o projeto que Anísio Teixeira tentou implementar no Rio de Janeiro dos anos 1930.

Chico e Millôr (31/3/12)

Deve haver algum sentido na partida quase simultânea de Millôr Fernandes e Chico Anysio. Algo talvez relacionado ao senso de humor da "indesejada das gentes" que, de alguma forma, quis rir por último.

Foram ambos, certamente os maiores em sua arte, pois o humor literário e a comédia são formas bem diferentes de expressão.


Não sei se era Chico quem criava a maior parte de seus textos. Mas, certamente, era na interpretação deles, em sua galeria imensa de personagens que seu talento de ator versátil, aliado à sua capacidade inata de fazer rir, se realizava plenamente.


Às vezes, o texto nem era tão bom, mas a gente saboreava o prazer de ver um ator fenomenal fazendo um tipo tão natural que até parecia com algum velho conhecido da vizinhança. Assim a gente se acostumou a ver toda semana, na telinha: o pai de santo baiano, amigo dos famosos; o Bozó, funcionário da Globo; o Alberto Roberto, ator canastrão; Bento Carneiro, o vampiro brasileiro; o Coronel Limoeiro e o político corrupto Justo Veríssimo; o Haroldo, a bicha de língua presa que resolveu ser hétero e é que sempre convidada a voltar para o antigo reduto por outra, a Paulete; o Silva, nordestino que exclamava, com sotaque bem carregado: "Têrcero Mundo me dana!".


No entanto, não se deve esquecer que há muito Chico Anysio não tinha um programa seu. E não se pode culpar a Rede Globo por isto. Na verdade, seu programa, graças ao prestígio de Chico junto a Roberto Marinho, até se prolongou para muito além do tempo em que fazia sucesso. Me parece que esse é um pouco o destino dos comediantes. Chega um tempo que o público não consegue achar mais graça neles. Ou porque o público já não é mais o mesmo, ou porque cansou de repetir os bordões, ou porque o próprio artista se tornou sentimental.


Com Chico Anysio aconteceu um pouco de tudo isto. Lembro que na última fase de seu programa ele encerrava com um tipo de profeta falando frases que nada tinham de humorístico. Eram mensagens morais que precisavam ser decifradas e que, a meu ver tiravam a graça do que tinha sido visto antes.


Nada disto diminui Chico Anysio e, agora que ele se foi, a gente fica com uma pena danada de que não tenham lhe dado mais valor nos últimos anos de sua vida. Alguém com o enorme talento e a versatilidade de Chico Anysio poderia facilmente ter migrado do programa de humor para as telenovelas. Excelente ator dramático que só recentemente veio a participar de uma delas, merecia ter sido lembrado antes. Acredito que a televisão brasileira teria ganho registros tão memoráveis quanto os que deixou um Paulo Gracindo, por exemplo.


....


Encontrei Millôr duas vezes. Uma para pegar originais dele que eu queria incluir em uma exposição sobre os presidentes da República que eu organizava no BNDES e a outra para devolver os desenhos.


Conhecendo a sua verrina manifesta nas charges diárias do JB em que demolia durante semanas seus alvos preferidos, temia encontrar alguém de temperamento difícil. Mas, ao contrário, o Millôr que conheci era amabilíssimo. Conversamos longamente sobre os mais variados assuntos. E, aproveitando a boa disposição em que ele estava perguntei sobre alguns de seus velhos amigos. Sobre um deles, me disse: "Fulano é assim como aquele irmão mais novo que você tem. Você deixa a carteira de dinheiro na mesa dando sopa, ele vai e leva. Você tem uma filha mocinha, menor de idade, ele vai e transa..". Era um descrição que casava bem com a imagem do dito fulano. E não havia ninguém melhor para fazê-la do que Millôr que o conhecia há tantos anos.


Ele foi, certamente, a maior inteligência do humor brasileiro de todos os tempos. Suas pequenas construções frasísticas resumiam da forma mais sintética possível uma concepção filosófica sobre a natureza humana. Mas esta concepção não era cética como a expressa, por exemplo, no humor machadiano. Era tão pessimista como a de Jonathan Swift.


Aliás, Millôr tinha com Swift também a semelhança no humor ferino e demolidor, que não perdoava seu alvo, vasculhando e denunciando seus defeitos, suas fraquezas, suas vilanias. Ser escolhido como tema de suas charges era se ver massacrado com tanta persistência que, tal como acontece muitas vezes, em situações assim, sua vítima podia até vir a obter a simpatia do público leitor. Millôr era engraçado até quando era perverso. Ou, aliás, era engraçado e se conservou assim até o final até porque continuou perverso em seu humor.


No entanto foi o artista inspirado também de tiradas de humor delicadas como na "Poesia matemática" e na crítica inteligente que fez à substituição dos hábitos de leitura de livros impressos sobre o papel pela leitura dos mesmos nas telas dos computadores. Em texto que continua atual (tão atual que chegou a ser plagiado em vídeo em espanhol hoje popular na internet), intitulado "Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação" ele descreve o que chama de "Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas", cuja sigla é: L.I.V.R.O."


Mas, geniais mesmo foram suas máximas, das quais seleciono alguns para fechar essa coluna em que me despeço de dois dos meus ídolos da adolescência e da juventude: Chico Anysio e Millôr Fernandes.


Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem./ Ser pobre não é crime mas ajuda muito a chegar lá./ Já que não conseguimos aumentar a grita dos descontentes, precisamos pelo menos diminuir o sorriso dos satisfeitos./ O crime não compensa. Mas de que é que vivem os juízes do Supremo Tribunal?/ Antigamente os animais falavam. Hoje escrevem./ Todo dia leio os avisos fúnebres dos jornais; às vezes a gente tem surpresas agradabilíssimas./ Feliz é o que você vai perceber que era algum tempo depois.

Marion Aubrée na UFC (24/3/12)

Merece parabéns o Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará pela contratação temporária dessa grande antropóloga francesa que é Marion Aubrée. As práticas religiosas do Ceará, especialmente o espiritismo e o pentecostalismo, temas tão importantes, também ganham a possibilidade de serem observadas por alguém que, há muitos anos, vem se dedicando ao seu estudo.
 

O livro escrito por Marion Aubrée em parceria com François Laplantine, "A mesa, o livro e os espíritos: Gênese, evolução e atualidade do movimento social espírita entre França e Brasil" (Edufal), publicado na França em 1990, foi lançado no Brasil em 2009. Em resenha dessa obra publicada na Revista Brasileira de História das Religiões, da ANPUH, em 2010, o professor de História da Universidade Estadual do Ceará Marcos José Diniz da Silva ressalta seu valor e sua atualidade. Qualidades que se deveriam às "suas características metodológicas, pela amplitude de questões que aborda, pelo caráter comparativo que estabelece". Ele cita Renato Ortiz que descreveu o livro como "uma construção analítica envolvendo diferentes níveis: histórico, sociológico e antropológico".

As tantas viagens que fez ao Brasil para realizar as pesquisas que deram origem àquele livro despertaram o interesse de Marion Aubrée também para a crescente importância do pentecostalismo entre nós. Deste então, este tem sido o tema mais frequente de suas muitas publicações.

A expansão dos chamados cultos evangélicos entre as classes menos favorecidas no Brasil é um fenômeno de massas irreversível. O povo aderiu gostosamente às igrejas evangélicas. A oratória evangélica, o êxtase coletivo, as cenas dramáticas propiciadas pelas confissões públicas durante os cultos, tudo isto ajuda a conquistar, a manter e a ampliar cada vez mais o rebanho dos evangélicos. Mas, igualmente importante é, ao meu ver, a figura do pastor que, no bairro, passou a representar a autoridade espiritual da qual os pobres sentiam falta. Em estreita ligação com sua pequena comunidade, valendo-se de passagens da Bíblia para encontrar as palavras de conforto e orientação aos fieis, o pastor evangélico se converte numa autoridade não só religiosa mas também intelectual e moral - mesmo que muitos sejam quase tão incultos quanto seus seguidores.

Conversando com Marion Aubrée, em Paris, no Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo (CRBC / EHESS), onde ela trabalha desde 1985, contei-lhe da devoção que lá em casa tínhamos ao Espírito Santo. Na tradição familiar sempre que tínhamos alguma prova importante, mamãe acendia uma velha no altar para que o Espírito Santo iluminasse a nossa mente. Ela me explicou, pois eu não sabia, que a imagem do Espírito Santo é a única admitida em igrejas pentecostais. Lendo seu artigo sobre "A visão da mulher no imaginário pentencostal", (Revista Antropolítica, nº 9, 2º semestre de 2000), fiquei surpreendida com a semelhança da visão que católicos e pentecostais têm do Espírito Santo. Diz Marion Aubrée:

"De fato, em razão da iconoclastia que acaba de ser mencionada, não há qualquer representação antropomórfica de Deus Pai nem de Jesus nos templos pentecostais. Apenas nos lugares de culto mais importantes pode-se encontrar um ícone do Espírito Santo - cuja importância é primordial na corrente pentecostal -, representado simbolicamente por uma pomba com as asas abertas, geralmente sobre a parede do coro, atrás do altar. (..) Vêem-se também, em raras ocasiões, algumas labaredas de fogo em torno da pomba. Elas representam a inspiração do Espírito Santo, que desceu sobre os apóstolos no dia de Pentecostes, quando, segundo a Bíblia, eles falaram em um idioma que todas as pessoas presentes compreenderam, qualquer que fosse sua língua natal. (... ) Este dom é por eles considerado como o primeiro e mais comum de todos os dons do Espírito Santo, a partir da exegese de uma Carta de Paulo aos Coríntios (I.12 8-10) abordando os carismas outorgados aos humanos através do Espírito Santo".

As multidões que se reúnem nas grandes cidades por ocasião dos grandes eventos religiosos promovidos pela Igreja Universal ou pela Assembleia de Deus e outras tantas que vem aparecendo, não são desprezíveis. A força dos dirigentes dessas igrejas se transformou em força política capaz de deter no Congresso decisões sobre temas importantes como o direito das mulheres ao aborto e as pesquisas com células tronco. Também as questões relativas aos direitos dos homossexuais têm encontrado por parte da bancada evangélica forte oposição à qual não é insensível o governo. Afinal, por mais progressista que se seja, em um democracia, precisa-se dos votos dos eleitores. E, se uma parte significativa deles vota orientada por seus valores morais e religiosos, é preciso respeitar o peso que isto tem na sociedade brasileira.

Conheci certa vez um empresário que preferia contratar operário evangélicos. Eram mais ordeiros, disciplinados, não bebiam, tinham famílias estáveis e, todos os dias, durante o intervalo das refeições, liam trechos da Bíblia. Se os pastores acusados de enriquecimento às custas do dízimo pago por essa gente podem não ser tão respeitáveis quanto tentam parecer, os conselhos que dão, certamente, contribuem para ordenar e dar sentido à vida de muitos brasileiros. Se parte de seus ensinamentos estimulam o preconceito e o atraso, no entanto, cabe a nós que temos outros valores combater essas forças no terreno da política, respeitando a opção religiosa de nossos compatriotas, sem cair também no preconceito.

Daí ser importante ter alguém como Marion Aubrée no Ceará. Alguém que, com o olhar mais generoso da Antropologia, mas nem por isso menos isento, consegue lidar com esse tema sem qualquer dos tantos preconceitos com que nós, da classe média brasileira, tantas vezes, o vemos.

É tudo verdade (17/3/12)

Tive na faculdade um colega, um pouco mais novo que eu, que, segundo nos contava, já tinha sido casado, divorciara-se e tinha um filho pequeno. Inteligentíssimo, engraçado, de uma cultura assombrosa, com talento para a caricatura, tanto no desenho quanto nas imitações que fazia, nosso amigo contava histórias divertidíssimas de sua relação com a ex-mulher que, segundo ele, o detestava. Em compensação, ele e o atual marido dela, um sujeito do Maranhão, creio que funcionário do Banco do Brasil, se davam super bem. Sempre que meu colega ia pegar o filho na casa da ex-mulher e lá estava o atual, este o convidava para tomar uma cerveja. Ele aceitava e os dois ficavam um tempão lá, conversando, às gargalhadas, para desgosto da megera.

Mas a coisa que o meu colega mais gostava, sendo ele o único entre nós que já era pai, era de trocar impressões sobre métodos educativos com outra colega que tinha uma filhinha da mesma idade do filho dele. Creio que na escola do garoto o método adotado era o Montessori que acho, meu amigo não gostava. Lembro que uma vez, essa colega tomou um susto, porque se distraíra e achou que a filha tinha se debruçado sobre o balcão da varanda. Meu colega lhe disse, com o ar de ter vivido muitas experiências assim: quantas vezes nossos filhos vivem situações de perigo que a gente nem desconfia.

Ele era filho único e depois da separação voltara a morava com os pais. Com isto, seu filho passava muito tempo com os avós, aos quais seria muito afeiçoado. Lembro que meu amigo achava até que o pai dele gostava mais do neto do que dele. Talvez porque fosse o tipo do sujeito muito inteligente, divertido, mas pouco dado a valentias. Ou ainda porque fizesse a mais engraçada imitação da Dalva de Oliveira que eu já ouvi. Cantava, tremendo o beiço: "Bahiiia, Bahiiiiiiiiiia, Bahiiia, Bahiiiiiiia".

Depois de umas tantas namoradas, meu amigo finalmente conheceu uma moça de São Paulo com quem resolveu se casar. O casamento seria no Rio, onde o casal passaria a viver. A moça veio finalmente conhecer os sogros. No dia em que os visitou, estranhou não ver nenhuma foto do garoto que era querido pelos avós, em canto nenhum da casa. Ia mesmo perguntar aos futuros sogros, mas o noivo a deteve fazendo-lhe um sinal.

Depois, não sei como ele lhe disse, mas ela ouviu, perplexa, que tudo aquilo que ele nos contara, durante os quatro anos da faculdade e mais uns outros tantos: filho, ex-mulher, atual marido da ex-mulher, métodos de ensino da escola do filho, enfim, toda uma vida da qual seus amigos mais chegados tinham partilhado as alegrias e as desventuras, tudo era invenção.

Quando eu soube fiquei bem desconcertada. Não pela mentira em si, mas pela sua absoluta falta de propósito. Para que servia tudo aquilo? Para o sujeito se valorizar? Mas que valorização isto lhe dava? O fato de ser pai tão jovem? Minha colega era mãe jovem também e isto não fazia nenhuma diferença a não ser quando a filhinha dela estava presente e a gente se encantava com as graças dela.

A capacidade de mentir com naturalidade é um mecanismo que me deixa sempre intrigada. Dizem que Heitor Villa-Lobos era um mitômano, capaz de criar em torno de si lendas sobre viagens reais ou imaginárias que se associaram definitivamente à sua biografia. Outro que inventava coisas até impossíveis de lhe terem acontecido era o jornalista João Saldanha. Dizia ter assistido a todas as Copas do Mundo, coberto a guerra da Coeéia, o desembarque das tropas aliadas na Normandia, durante a 2ª Guerra Mundial, ou a Grande Marcha de Mao Tse-Tung. Acontecimentos que, ou não teria idade ou a possibilidade de ter presenciado, porque sendo figura pública, todo o mundo sabia que, naquela data, ele estava no Brasil.

Há poucos anos vi um filme sobre um jovem jornalista americano que tivera ascensão meteórica graças a uma sucessão de artigos sensacionais. Seus artigos, no entanto, eram todos produtos de sua prodigiosa imaginação. Nas reuniões de pauta, a equipe se deslumbrava com sua narrativa na qual fontes, lugares e datas era citados com precisão. Até mesmo durante o processo que culminou com seu desmascaramento, ele sustentou sua mentira até o fim, mostrando inclusive as anotações minuciosas da sua caderneta com as informações que embasaram os 27 artigos totalmente forjados que publicara na revista.

Mentir para se valorizar, dizer que é rico, importante, fez isto ou aquilo de notável é uma coisa. A mentira do meu colega era apenas uma fantasia tipo amigo invisível, não servia para nada a não ser para dar um pouco mais de graça à sua vida de filho único de pais austeros. Talvez possa ser comparada às narrativas que vejo alguns filhos fazerem sobre os feitos dos pais e que sabemos são completamente fictícios. É que o pai, na falta de melhor, construíra para os filhos uma biografia feita de feitos ou de sofrimentos que nunca viveu realmente. Para o filho, é importante acreditar e conservar essa lenda. Ela serve para suportar os defeitos do pai, quando o pai foi ausente ou o maltratou e também para adoçar as memórias mais amargas da infância. Alguns desses narradores de ficções auto-biográficas se empolgam tanto com sua construção que passam até a crer nela, contando-a mesmo na frente de pessoas que sabem que aquilo não aconteceu.

Em "Lembranças da revolução de 1848", Tocqueville define de forma magistral esse espírito ao descrever o Ministro da Instrução de Luís Bonaparte. Este, segundo Tocqueville, conseguia misturar momentaneamente em sua própria crença o verdadeiro e o falso antes de servir a mistura ao espírito dos outros _ único segredo capaz de dar as vantagens da sinceridade à mentira (...).

De fato, para quem mente assim, aos poucos, fica parecendo mesmo que foi tudo verdade.

Para Gabriel Lustosa (10/3/12)

Em 12 de Fevereiro de 2008, Lustosa da Costa, postou mensagem, na página que a família mantém no Yahoo, contando que o ministro Ubiratan Aguiar tinha lhe telefonado especialmente para lhe contar sobre o papo que mantivera com nosso sobrinho, Gabriel, no avião que os levava de Fortaleza para Brasília. Quando o ministro falou que era amigo do Lustosa, Gabriel, então com 12 anos, lhe perguntou: “O senhor já leu a biografia dele?”. Ubiratan confirmou, dizendo-lhe que até já tinha escrito sobre o tio dele. Conta Lustosa que Gabriel ainda quis saber se Ubiratan Aguiar conhecia também seu tio, o ex-ministro e deputado, Paulo Lustosa; se sabia quantos anos tinha a sua avó; se já visitara Sobral, etc e etc. O ex-presidente do TCU confessou ao Lustosa que ficara encantado com o garoto, com o genuíno orgulho que demonstrava pela família paterna e concluiu: “Papo de adulto”.

O fato é que o Gabriel, caçula dos netos homens de D. Dolores, conserva, aos dezesseis anos as mesmas inteligência, delicadeza e vivacidade que tanto encantaram o ministro e, como meu filho, Chico Bento, também escolheu Fortaleza para ser feliz. É um rapaz lindo, simpático e gentil que qualquer pessoa adoraria ter como filho.

Desde pequeno revelou-se um negociante e tanto. Por isso é que, talvez, seu tio, José Benevides Martins, tem tanta simpatia por ele. É que o Benevides é o único homem de negócios numa família de beletristas. Bem sucedido empresário da área de medicamentos que acaba de ser homenageado pelo Conselho de Farmácia do Ceará, Benevides trouxe para a família um talento que, segundo seu Costa, ninguém lá em casa tinha: vender, comprar e negociar. Por isso tem tanta identidade com esse menino que, quando criança, gostava de projetar empreendimentos, fábricas, as grandes empresas que um dia criaria.

A adolescência é, a meu ver, a quadra mais difícil da vida. É quando temos os sonhos mais grandiosos, quando definimos nosso caráter, quando descobrimos a sexualidade, o amor, quando as amizades são mais intensas. É nessa fase da vida que a presença paterna é mais importante. Pelo exemplo, pela amizade, pelo carinho, o pai mostra ao filho que caminho seguir. Que valores morais e espirituais devem orientar a vida de um homem. Mesmo que essa relação seja marcada pelo conflito, pela rebeldia tão própria da adolescência, a relação com o pai é vital para que sintamos o chão firme debaixo dos nossos pés. A confiança de que, mesmo que erremos, teremos a mão forte e amiga do nosso pai para nos amparar.

Creio que o pai-sonho-de-consumo de todo o mundo deve ser assim que nem meu irmão médico, o Dr. Carlos Efrem, pai de nove filhos e que não faz e nem nunca fez diferença nenhuma entre eles. Amando, ouvindo, aconselhando e protegendo a todos igualmente, ele chega a ser um chato quando se trata dos filhos. Com um pai assim, mesmo a adolescência mais difícil se passa em uma zona de conforto.

Meu pai foi um pai notável, mas também justo. Ele não tinha esse espírito tão marcado pelo absoluto sentimento de paternidade que tem o Carlos. Neste, a paternidade chega a impedir de ver um defeito sequer nos filhos. Papai, não. Papai via nossos defeitos e fazia, sim, suas escolhas. Eram escolhas justas. Entre quem o amava e respeitava e quem havia com arrogância e desprezo, ele ficava mesmo com os primeiros. Eu também, no lugar dele, faria o mesmo. Não tenho essa enorme capacidade de perdoar que marcam naturezas como a de mamãe, Clélia e Carlos.

Hoje quando penso na adolescente arrogante e presunçosa que fui, lembro como esse período foi marcado pelo conflito com meu pai, do qual me afastei por tantos anos. E lamento tudo o que perdi por conta dessa atitude. Pois hoje meu pai é a figura masculina que mais admiro na integridade de seu caráter; nas tantas lições de vida orientadas por seu bom senso extraordinário que nos deu; na sua personalidade viva e inteligente de rapaz de origem modesta que teve que driblar muitos obstáculos para viver e manter sua enorme família com dignidade; também por seu irresistível charme pessoal e pelas histórias exemplares que sabia contar.

Gabriel vai chegando aos 17 anos, sem nenhuma arrogância ou presunção; cheio apenas de sonhos e esperanças, cercado pelo carinho da família da qual ele tanto se orgulha de fazer parte. Diz um ditado que a gente tem que ter cuidado com o que sonha porque esse sonho pode se tornar realidade. É fato. Às vezes, a gente deseja tanto uma coisa e quando consegue: que tédio. Ou, a coisa não era nada daquilo com que a gente sonhou. Mas esse não é o tipo de pensamento para se ter na passagem da adolescência para a juventude. Nessa fase é preciso sonhar e ter forças para lutar pelo que se sonha. Mesmo que depois a gente constante que não era bem aquilo que a gente queria. Ou que aquilo que a gente queria não ‘tava com essa bola toda. O pior é desistir antes, é dar tudo por perdido, é não ir à luta do que se quer.

No começo da vida, os sonhos nos conduzem, nos empurram pra frente, nos dão um rumo a seguir. Por isso concluo essa crônica em que saúdo o sonho de Gabriel de, tal como o meu Chico, viver nessa cidade tão bonita, luminosa e acolhedora com uma linda canção de Chico Buarque e Ruy Guerra, que conheci na voz da Maria Betânia:
“Sonhar mais um sonho impossível/ Lutar quando é fácil ceder/ Vencer o inimigo invencível/ Negar quando a regra é vender/ Sofrer a tortura implacável/ Romper a incabível prisão/ Voar num limite provável/ Tocar o inacessível chão/ É minha lei, é minha questão/ Virar este mundo, cravar este chão/ Não me importa saber/ Se é terrível demais/ Quantas guerras terei que vencer/ Por um pouco de paz/ E amanhã se este chão que eu beijei/ For meu leito e perdão/ Vou saber que valeu/ Delirar e morrer de paixão/ E assim, seja lá como for/ Vai ter fim a infinita aflição/ E o mundo vai ver uma flor/ Brotar do impossível chão”.

No aniversário de Alberto Dines (3/2/12)

Não pude participar dos festejos pelo aniversário de 80 anos de Alberto Dines, completados no último dia 19 de fevereiro. Fora do Brasil, recebo ecos das comemorações a partir de mensagens de amigos do Observatório da Imprensa, do antigo Jornal do Brasil, de amigos que se interessam pela obra de Stephan Zweig, de outros que pesquisam a Inquisição, do pessoal da TV Brasil que trabalha com ele, enfim, das tantas dimensões em que esse notável brasileiro tem se distinguido.

Nenhuma delas me agradou tanto quanto o artigo de Mauro Santayana publicado no site do Jornal do Brasil. O artigo do Santayana era a homenagem de um antigo companheiro de imprensa, da mesma idade do Dines, que registrava as qualidades desse que, dos 80 anos vividos, há pouco mais de dez é também meu amigo.

Santayana relembra os veículos em que trabalharam juntos: a revista Manchete, o Jornal do Brasil e a Folha de S. Paulo; e outros tantos em que Dines também atuou, como as revistas Cena Muda e Fatos e Fotos, o Última Hora, o Diário da Noite e a sucursal da Editora Abril em Lisboa. Destaca, e hoje isto já é história, como, na direção da redação do Jornal do Brasil, Dines demonstrou coragem e inteligência em vários episódios em que conseguiu driblar a censura do regime militar.

Hoje, é no Observatório da Imprensa, esse espaço único e privilegiado de análise do jornalismo contemporâneo, que Alberto Dines exerce seu jornalismo crítico. Ali ele produz um programa, de caráter também jornalístico, pois, mesmo seu profundo amor pela história não o afasta da vocação intrínseca de jornalista. O Observatório, como qualquer jornal, é obrigado por seu editor a alterar sua pauta, diante de acontecimentos extraordinários para analisar o comportamento que a imprensa adotou diante do fato.

Santayana destaca algumas qualidades de Alberto Dines que, entre muitas outras, o fazem-me admirá-lo e respeitá-lo: independência de julgamento e o profundo respeito às ideias alheias. Dines, a seu ver, pertence "ao clube dos que só são intolerantes com a intolerância", dos que "acham natural que outros pensem de forma diferente". E tem ainda a generosidade de "reconhecer o talento e a capacidade de trabalho dos colegas, ajudá-los na carreira, sem qualquer preocupação a não ser com o desempenho da equipe".

Dou aqui o meu testemunho que comprova o de Santayana, da experiência de cooperação que venho tendo com Alberto Dines. Ela teve início depois do lançamento de meu livro "Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência". Lançado pela Cia. das Letras, em 2000, meu livro tem em Dines um leitor entusiasmado. E isto já bastaria para fazer toda a sua glória. Foi a partir desse livro que começaram os convites para participar do programa Observatório da Imprensa, na hoje TV Brasil.

E assim conheci Alberto Dines, cuja presença elegante, simpática e charmosa cativa ao primeiro contato. É um homem dos salões, das reuniões amáveis, da boa conversa. No trabalho, está cercado por uma equipe de gente à qual ele trata com carinho, respeito e amizade. Sempre curioso, interessado, disposto a aprender com quem quer que seja e da geração que seja, Dines é capaz de se surpreender e de demonstrar, sem qualquer máscara, sua admiração e reconhecimento pelo trabalho dos outros.

Também sou testemunha desse respeito pelas opiniões diversas das suas, pois, mesmo nunca tendo discutido política um com o outro - a política que ocupa nossos debates é a do começo do século XIX -, sabemos, intuímos que pensamos diferente e isto nunca foi motivo de qualquer rusga ou estranhamento entre nós. Ao contrário, até faz com que vejamos essa diferença com aquele carinho que a gente tem com relação à excentricidade de um filho, irmão ou amigo, acompanhados de um balançar de cabeça e de um sorriso terno.

Hoje, me orgulho de ter em meu Currículo Lattes, como uma das realizações mais importantes de minha carreira, o fato de ter editado, junto com Alberto Dines, toda a coleção do "Correio Brasiliense", de Hipólito da Costa. Quando ele me convidou eu não quis aceitar. Achei, sinceramente que ele não conseguiria. Quem é que ia querer publicar uma coleção de 29 volumes volumosos de um jornal do começo do século XIX? Em conseguindo a editora - a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo -, como faríamos para tratar todo esse material e escrever notas, enfim, dar um tratamento que justificasse o empreendimento?

Ele conseguiu. Me convenceu e, durante dois anos, trabalhamos em equipe, com a ajuda de Patrícia de Sousa Lima, no fichamento dos volumes e na produção de notas de abertura para quase todos eles. Mas isto não foi tudo, Dines também se dispôs a produzir dois volumes extras. Um reunindo textos de autores que contemplassem vários aspectos relacionados ao jornal e ao seu editor e outro reunindo informações sobre obras e documentos disponíveis para os que se dedicassem ao estudo da vida e da obra de Hipólito da Costa. Concebemos juntos esse projeto e reunimos um elenco de grandes especialistas que produziram análises do "Correio Brasiliense", da trajetória de Hipólito da Costa e do contexto em que viveu. Editados junto com a coleção, esses dois volumes, hoje são, junto com a mesma, obra que vejo, com orgulho, sempre citada nos trabalhos de colegas que se debruçam sobre esse objeto.

Não posso deixar de registrar sua indignação com o silêncio da imprensa e da academia quando, durante as comemorações dos 200 da imprensa brasileira, pouca gente falou sobre Hipólito da Costa. Brinquei com ele durante um programa do Observatório, pois sua reação era tão apaixonada, como se Hipólito fosse um velho companheiro de lutas que estivesse sendo privado das honras que seu esforço mereceria. Fiquei querendo ainda mais bem a Alberto Dines por vê-lo, a essa altura da vida, ser capaz de um sentimento de indignação tão genuíno, vivo e vibrante.

Roosevelt e o "New Deal" (25/2/2012)

No final dos anos 1920, os Estados Unidos atravessavam uma crise econômica sem precedentes. A Grande Depressão que começou com o colapso do mercado de títulos em outubro de 1929, provocou uma onda de desemprego que parecia crescer de forma constante e irremediável. Um ano depois, um em cada quatro dos trabalhadores americanos havia perdido o emprego. De uma força total de trabalho de cerca de 52 milhões de pessoas, havia 13 milhões de desempregados. A renda da agricultura caíra de US$ 16 bilhões para pouco mais de US$ 5 bilhões. Nas áreas rurais, a inquietação e a amargura eram tão extensas que a situação explodiu em ações diretas, com fazendeiros portando armas. Nas cidades, a classe média estava perdendo as suas economias e os negociantes se defrontavam com a falência. Em 1933, 5.504 bancos, em todo o país, haviam cerrado as portas.

Homens desesperados e famintos perambulavam pelas ruas das cidades. Um aspecto especialmente patético era o de homens de aparência respeitável vendendo maçãs nas esquinas. As "Hoovervilles", favelas que forneciam abrigo temporário, infestavam comunidades, até então prósperas. Cantinas de sopas e longas filas de pão eram comuns nas cidades. O sistema econômico parecia haver entrado em colapso, deixando milhões de lares destruídos.


Na Casa Branca, o Presidente Hoover permanecia na sua recusa teimosa de usar os poderes governamentais, em escala adequada, para aliviar a catástrofe nacional. Hoover estava convencido de que o sistema econômico, especialmente a estrutura capitalista americana, era a melhor do mundo; uma criação natural com que nenhuma legislação deveria interferir. Com tempo e paciência, o sistema por mais desequilibrado que estivesse se corrigiria automaticamente. Hoover também estava convencido que o governo não deve usar o seu potencial ou a sua força para interferir com os negócios econômicos e sociais.


Em sua mensagem ao Congresso, em dezembro de 1930, ele disse: "A depressão econômica não pode ser curada por ação legislativa nem por um pronunciamento do Executivo". Em agosto de 1932, quando aceitou a indicação de seu nome para a reeleição, a despeito de se encontrar a economia nacional em necessidade desesperada de auxílio governamental, ele esclareceu: "Não se segue, porque as nossas dificuldades são estupendas... que nos devamos voltar para um sistema social ou econômico controlado ou dirigido pelo Estado para curar os nosso males. Isso não é liberalismo... é tirania".


A eleição de Roosevelt, para a presidência, em novembro de 1932, teve lugar durante esse sombrio período da vida da nação. Roosevelt se expressou a favor de uma política liberal mas que incluísse a conservação dos recursos naturais, a ajuda aos fazendeiros e o controle dos trustes. Ele acreditava que era obrigação do governo agir para o bem-estar da nação. O povo americano, disse ele, só quer duas coisas: trabalho e proteção social. Era dever do Estado atender a essas necessidades elementares. "Nosso líderes republicanos nos dizem que as leis econômicas - sagradas, invioláveis e imutáveis - causam pânico que ninguém pode evitar, mas enquanto eles tagarelam sobre leis econômicas, homens e mulheres estão morrendo de fome. Precisamos nos convencer que as leis econômicas não são feitas pela natureza. Elas são feitas por seres humanos". E concluiu com a sua famosa promessa: "Eu me comprometo junto com todos para um ´New Deal´ (um novo estado de coisas) para o povo americano".


Roosevelt assumiu em março de 1933 e deu início aos famosos "100 Dias". Durante os três meses seguintes, junto com os seus "Brain Trusters" - um grupo de intelectuais, economistas e advogados -, trabalhando noite após noite, produziu quinze atos legislativos que produziram uma mudança histórica na América ao submeterem ao Poder Federal as áreas cruciais para a vida da nação.


A legislação era de dois tipos, de alcance curto e longo. O primeiro se destinava a promover o alívio rápido e imediato dos famintos, dos desabrigados e dos ameaçados de falência ou execução hipotecária. O segundo tipo era dirigido à restauração da economia em todos os níveis, inclusive nos setores agrícolas e industriais.


"Não tenho respeito pelo economista profissional que insiste que as coisas devem seguir seu curso e que as agências humanas não podem aliviar os males de origem econômica. Uma razão é que os economistas profissionais vêm mudando a sua definição de leis econômicas cada cinco ou dez anos, e isso há muito tempo".


Roosevelt forçou a ação do Estado em terrenos como auxílio à lavoura; reflorestamento; conservação do solo; pensão para os idosos; regulamentação dos bancos; construção de habitações populares; democratização da energia elétrica; ampliação do poder de compra do salário mínimo; regulamentação das utilidades públicas e uma porção de medidas semelhantes. Nem mesmo as artes e o teatro foram esquecidos. O Federal Arts Project, que não tinha precedentes, tornou-se parte importante do "New Deal". Com os objetivos de encorajar jovens talentos e auxiliar artistas que se encontraram sem condições de sobrevivência e de integrar as artes em geral com a vida cotidiana, mais de 350 diferentes projetos de arte foram executados em todo o território americano.


Este ano em que se comemoram 80 anos da primeira eleição de Franklin Delano Roosevelt e em que o mundo desenvolvido se vê mergulhado em uma crise que pode trazer consequências tão dramáticas quanto a crise de 1929, a sensatez de sua aposta e o sucesso que alcançaram suas ações merecem ser relembrados.

O Conde d´Abranhos (18/2/12)

O livro de Eça de Queiroz de que mais gosto é ´O Conde d´Abranhos´. Talvez não seja sua maior obra, mas essa biografia de um político inescrupuloso, narrada pelo seu secretário ainda mais inescrupuloso, mostra o melhor do talento satírico de Eça, sua adjetivação demolidora. Alípio Severo Abranhos, o Conde d´Abranhos, vai sendo construído pelo seu admirador com tal riqueza de detalhes que, aos poucos, define-se diante dos olhos do leitor a imagem do arrivista sem nenhum caráter.

O que torna mais divertida a narrativa é a personagem do narrador, cuja falta de moral se evidencia não só no tom subserviente com que fala do conde, mas também nas explicações e análises que vai produzindo ao longo do texto. Nas atitudes mais calhordas do Conde, sempre descobre o biógrafo uma finalidade moral. O canalha que na universidade denuncia, através de carta anônima, um colega que aprontara uma peraltice contra um professor é o mesmo que seduz a jovem empregada da pensão e que depois a abandona grávida, recusando-se a dar-lhe qualquer ajuda, sob a justificativa de que ela perdera a moral quando se prostituíra para poder manter o filho. É ainda o mesmo que, mais tarde, já deputado, casado com herdeira rica, recusa apoio ao pobre pai alfaiate para estabelecer-se em Lisboa, alegando que isto poderia comprometer sua carreira política, pois, conclui o secretário, o que poderia o Conde argumentar quando um adversário lhe aparteasse na Câmara dizendo: "Tudo isso é muito bonito, mas o pior é que o senhor seu pai me estragou inteiramente este par de calças e ainda roubou-me na fazenda!".

Ao ingressar no parlamento, o Conde registra em carta ao Dr. Cardoso Torres, que o tinha iniciado na política, garantindo sua indicação e eleição, todo o seu reconhecimento, derramando-se no mais deslavado puxa-saquismo. Diz o secretário-biógrafo que esta carta deu ocasião a que se estabelecesse um nobre e útil princípio, pois, três meses depois, Alípio Abranhos mudou para os bancos da oposição e passou a declarar que o antigo padrinho não possuía nem inteligência, nem ciência, nem moralidade. Este ameaçou-o, então, com a publicação de tal carta. Após negociações longas e delicadas em que se envolveram membros do governo, jornalistas e notabilidades de todos os credos políticos, ficou estabelecido que era do interesse de todos os partidos e indispensável a sua consideração pública que nunca viessem à luz documentos privados.

Em torno do Conde, gravita uma galeria de tipos como o Conselheiro Gama Torres, patrono do jornal Bandeira Nacional, onde Abranhos faz sua estreia como jornalista. A proteção do conselheiro ao jornal era "platônica", pois entendia que a política "não deve sorver fortunas, mas, pelo contrário, produzi-las". O conselheiro, segundo o biógrafo, era "um avaro intelectual". Pois "sabia-se que aquela fronte um pouco calva, de entradas largas, estava recheada de ideias". No entanto, as ideias geniais do Conselheiro Cama Torres eram só para si e, continua no mesmo tom calhorda o secretário, no silêncio de seu gabinete, agitava-as como o velho Grandet agitava o seu ouro, regalando-se do seu brilho e da sua sonoridade. Mas, se alguém entrava de repente, aferrolhava tudo à pressa no cofre do cérebro, e a sua larga testa, de entradas altas, não oferecia mais que uma fachada impenetrável e monumental, que impressionava a todos e não aproveitava a ninguém.

Apesar do seu silêncio implacável, o conselheiro vivia atormentado pelas questões sociais, tanto que, segundo relata o biógrafo do Conde d´Abranhos, sempre que diante dele se falava de assuntos políticos, murmurava soturnamente: "Há muitas questões, questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões, questões terríveis!...". Era a única frase que se lhe conhecia, o mais estava nos seus artigos no jornal, noticiando os frequentes partos de sua esposa ou os progressos de sua doença da bexiga.

O tom de louvor à pessoa do Conde e às pessoas ligadas a ele só muda quando Zagalo, o secretário, passa a falar do primeiro sogro de Alípio Abranhos, por quem nutre verdadeiro ódio. O desembargador tratara o secretário com a familiaridade com que se trata os criados e este nunca lhe perdoou. Seu necrológio talvez seja a melhor passagem do livro:

"Morreu. Morreu da bexiga. Notou-se com admiração o fétido que lhe saía do corpo, depois de morto, e a decomposição muito rápida das matérias serosas: isso talvez fosse a dissolução do corpo; mas o cheiro asqueroso vinha da sua alma torpe que se soltava, dando a exalação duma latrina que se destapa.

O caixão em que o levaram pesava arrobas, e quando o embalsamaram e lhe extraíram o cérebro, viram que não era mais volumoso que o dum bacorinho recém-nascido. Na cavidade craniana meteram-lhe um pedaço de esponja velha, decerto mais útil e tão inteligente como o cérebro que substituía! (...)

Levaram-no ao Alto de S. João, ao passo de quatro éguas cobertas de panos negros; e as quatro éguas agitavam a cabeça, parecendo vaidosas do cadáver que arrastavam: foi o único orgulho que inspirou jamais a companhia da sua pessoa. Ali apodrece aquele resto de matéria mal organizada, que rebolou durante 60 anos pela terra, sob o nome desacreditado de Justiniano Sarmento Amado".

"O Conde d´Abranhos" ficou na gaveta de Ramalho Ortigão, o grande amigo de Eça, por 45 anos. Escrito em 1879, foi enviado ao Rio de Janeiro, onde Ramalho residia, e só foi publicado em 1924, por iniciativa do filho de Eça, José Maria.