O Conde d´Abranhos (18/2/12)

O livro de Eça de Queiroz de que mais gosto é ´O Conde d´Abranhos´. Talvez não seja sua maior obra, mas essa biografia de um político inescrupuloso, narrada pelo seu secretário ainda mais inescrupuloso, mostra o melhor do talento satírico de Eça, sua adjetivação demolidora. Alípio Severo Abranhos, o Conde d´Abranhos, vai sendo construído pelo seu admirador com tal riqueza de detalhes que, aos poucos, define-se diante dos olhos do leitor a imagem do arrivista sem nenhum caráter.

O que torna mais divertida a narrativa é a personagem do narrador, cuja falta de moral se evidencia não só no tom subserviente com que fala do conde, mas também nas explicações e análises que vai produzindo ao longo do texto. Nas atitudes mais calhordas do Conde, sempre descobre o biógrafo uma finalidade moral. O canalha que na universidade denuncia, através de carta anônima, um colega que aprontara uma peraltice contra um professor é o mesmo que seduz a jovem empregada da pensão e que depois a abandona grávida, recusando-se a dar-lhe qualquer ajuda, sob a justificativa de que ela perdera a moral quando se prostituíra para poder manter o filho. É ainda o mesmo que, mais tarde, já deputado, casado com herdeira rica, recusa apoio ao pobre pai alfaiate para estabelecer-se em Lisboa, alegando que isto poderia comprometer sua carreira política, pois, conclui o secretário, o que poderia o Conde argumentar quando um adversário lhe aparteasse na Câmara dizendo: "Tudo isso é muito bonito, mas o pior é que o senhor seu pai me estragou inteiramente este par de calças e ainda roubou-me na fazenda!".

Ao ingressar no parlamento, o Conde registra em carta ao Dr. Cardoso Torres, que o tinha iniciado na política, garantindo sua indicação e eleição, todo o seu reconhecimento, derramando-se no mais deslavado puxa-saquismo. Diz o secretário-biógrafo que esta carta deu ocasião a que se estabelecesse um nobre e útil princípio, pois, três meses depois, Alípio Abranhos mudou para os bancos da oposição e passou a declarar que o antigo padrinho não possuía nem inteligência, nem ciência, nem moralidade. Este ameaçou-o, então, com a publicação de tal carta. Após negociações longas e delicadas em que se envolveram membros do governo, jornalistas e notabilidades de todos os credos políticos, ficou estabelecido que era do interesse de todos os partidos e indispensável a sua consideração pública que nunca viessem à luz documentos privados.

Em torno do Conde, gravita uma galeria de tipos como o Conselheiro Gama Torres, patrono do jornal Bandeira Nacional, onde Abranhos faz sua estreia como jornalista. A proteção do conselheiro ao jornal era "platônica", pois entendia que a política "não deve sorver fortunas, mas, pelo contrário, produzi-las". O conselheiro, segundo o biógrafo, era "um avaro intelectual". Pois "sabia-se que aquela fronte um pouco calva, de entradas largas, estava recheada de ideias". No entanto, as ideias geniais do Conselheiro Cama Torres eram só para si e, continua no mesmo tom calhorda o secretário, no silêncio de seu gabinete, agitava-as como o velho Grandet agitava o seu ouro, regalando-se do seu brilho e da sua sonoridade. Mas, se alguém entrava de repente, aferrolhava tudo à pressa no cofre do cérebro, e a sua larga testa, de entradas altas, não oferecia mais que uma fachada impenetrável e monumental, que impressionava a todos e não aproveitava a ninguém.

Apesar do seu silêncio implacável, o conselheiro vivia atormentado pelas questões sociais, tanto que, segundo relata o biógrafo do Conde d´Abranhos, sempre que diante dele se falava de assuntos políticos, murmurava soturnamente: "Há muitas questões, questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões, questões terríveis!...". Era a única frase que se lhe conhecia, o mais estava nos seus artigos no jornal, noticiando os frequentes partos de sua esposa ou os progressos de sua doença da bexiga.

O tom de louvor à pessoa do Conde e às pessoas ligadas a ele só muda quando Zagalo, o secretário, passa a falar do primeiro sogro de Alípio Abranhos, por quem nutre verdadeiro ódio. O desembargador tratara o secretário com a familiaridade com que se trata os criados e este nunca lhe perdoou. Seu necrológio talvez seja a melhor passagem do livro:

"Morreu. Morreu da bexiga. Notou-se com admiração o fétido que lhe saía do corpo, depois de morto, e a decomposição muito rápida das matérias serosas: isso talvez fosse a dissolução do corpo; mas o cheiro asqueroso vinha da sua alma torpe que se soltava, dando a exalação duma latrina que se destapa.

O caixão em que o levaram pesava arrobas, e quando o embalsamaram e lhe extraíram o cérebro, viram que não era mais volumoso que o dum bacorinho recém-nascido. Na cavidade craniana meteram-lhe um pedaço de esponja velha, decerto mais útil e tão inteligente como o cérebro que substituía! (...)

Levaram-no ao Alto de S. João, ao passo de quatro éguas cobertas de panos negros; e as quatro éguas agitavam a cabeça, parecendo vaidosas do cadáver que arrastavam: foi o único orgulho que inspirou jamais a companhia da sua pessoa. Ali apodrece aquele resto de matéria mal organizada, que rebolou durante 60 anos pela terra, sob o nome desacreditado de Justiniano Sarmento Amado".

"O Conde d´Abranhos" ficou na gaveta de Ramalho Ortigão, o grande amigo de Eça, por 45 anos. Escrito em 1879, foi enviado ao Rio de Janeiro, onde Ramalho residia, e só foi publicado em 1924, por iniciativa do filho de Eça, José Maria.

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