Roosevelt e o "New Deal" (25/2/2012)

No final dos anos 1920, os Estados Unidos atravessavam uma crise econômica sem precedentes. A Grande Depressão que começou com o colapso do mercado de títulos em outubro de 1929, provocou uma onda de desemprego que parecia crescer de forma constante e irremediável. Um ano depois, um em cada quatro dos trabalhadores americanos havia perdido o emprego. De uma força total de trabalho de cerca de 52 milhões de pessoas, havia 13 milhões de desempregados. A renda da agricultura caíra de US$ 16 bilhões para pouco mais de US$ 5 bilhões. Nas áreas rurais, a inquietação e a amargura eram tão extensas que a situação explodiu em ações diretas, com fazendeiros portando armas. Nas cidades, a classe média estava perdendo as suas economias e os negociantes se defrontavam com a falência. Em 1933, 5.504 bancos, em todo o país, haviam cerrado as portas.

Homens desesperados e famintos perambulavam pelas ruas das cidades. Um aspecto especialmente patético era o de homens de aparência respeitável vendendo maçãs nas esquinas. As "Hoovervilles", favelas que forneciam abrigo temporário, infestavam comunidades, até então prósperas. Cantinas de sopas e longas filas de pão eram comuns nas cidades. O sistema econômico parecia haver entrado em colapso, deixando milhões de lares destruídos.


Na Casa Branca, o Presidente Hoover permanecia na sua recusa teimosa de usar os poderes governamentais, em escala adequada, para aliviar a catástrofe nacional. Hoover estava convencido de que o sistema econômico, especialmente a estrutura capitalista americana, era a melhor do mundo; uma criação natural com que nenhuma legislação deveria interferir. Com tempo e paciência, o sistema por mais desequilibrado que estivesse se corrigiria automaticamente. Hoover também estava convencido que o governo não deve usar o seu potencial ou a sua força para interferir com os negócios econômicos e sociais.


Em sua mensagem ao Congresso, em dezembro de 1930, ele disse: "A depressão econômica não pode ser curada por ação legislativa nem por um pronunciamento do Executivo". Em agosto de 1932, quando aceitou a indicação de seu nome para a reeleição, a despeito de se encontrar a economia nacional em necessidade desesperada de auxílio governamental, ele esclareceu: "Não se segue, porque as nossas dificuldades são estupendas... que nos devamos voltar para um sistema social ou econômico controlado ou dirigido pelo Estado para curar os nosso males. Isso não é liberalismo... é tirania".


A eleição de Roosevelt, para a presidência, em novembro de 1932, teve lugar durante esse sombrio período da vida da nação. Roosevelt se expressou a favor de uma política liberal mas que incluísse a conservação dos recursos naturais, a ajuda aos fazendeiros e o controle dos trustes. Ele acreditava que era obrigação do governo agir para o bem-estar da nação. O povo americano, disse ele, só quer duas coisas: trabalho e proteção social. Era dever do Estado atender a essas necessidades elementares. "Nosso líderes republicanos nos dizem que as leis econômicas - sagradas, invioláveis e imutáveis - causam pânico que ninguém pode evitar, mas enquanto eles tagarelam sobre leis econômicas, homens e mulheres estão morrendo de fome. Precisamos nos convencer que as leis econômicas não são feitas pela natureza. Elas são feitas por seres humanos". E concluiu com a sua famosa promessa: "Eu me comprometo junto com todos para um ´New Deal´ (um novo estado de coisas) para o povo americano".


Roosevelt assumiu em março de 1933 e deu início aos famosos "100 Dias". Durante os três meses seguintes, junto com os seus "Brain Trusters" - um grupo de intelectuais, economistas e advogados -, trabalhando noite após noite, produziu quinze atos legislativos que produziram uma mudança histórica na América ao submeterem ao Poder Federal as áreas cruciais para a vida da nação.


A legislação era de dois tipos, de alcance curto e longo. O primeiro se destinava a promover o alívio rápido e imediato dos famintos, dos desabrigados e dos ameaçados de falência ou execução hipotecária. O segundo tipo era dirigido à restauração da economia em todos os níveis, inclusive nos setores agrícolas e industriais.


"Não tenho respeito pelo economista profissional que insiste que as coisas devem seguir seu curso e que as agências humanas não podem aliviar os males de origem econômica. Uma razão é que os economistas profissionais vêm mudando a sua definição de leis econômicas cada cinco ou dez anos, e isso há muito tempo".


Roosevelt forçou a ação do Estado em terrenos como auxílio à lavoura; reflorestamento; conservação do solo; pensão para os idosos; regulamentação dos bancos; construção de habitações populares; democratização da energia elétrica; ampliação do poder de compra do salário mínimo; regulamentação das utilidades públicas e uma porção de medidas semelhantes. Nem mesmo as artes e o teatro foram esquecidos. O Federal Arts Project, que não tinha precedentes, tornou-se parte importante do "New Deal". Com os objetivos de encorajar jovens talentos e auxiliar artistas que se encontraram sem condições de sobrevivência e de integrar as artes em geral com a vida cotidiana, mais de 350 diferentes projetos de arte foram executados em todo o território americano.


Este ano em que se comemoram 80 anos da primeira eleição de Franklin Delano Roosevelt e em que o mundo desenvolvido se vê mergulhado em uma crise que pode trazer consequências tão dramáticas quanto a crise de 1929, a sensatez de sua aposta e o sucesso que alcançaram suas ações merecem ser relembrados.

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