Peça incomparável da história da criminologia nacional é o laudo da morte de Getúlio Vargas assinado por Carlos Éboli. Peça que impressiona pela crueza das imagens e que faz parte do acervo do arquivo do Museu da República.
Está ali o homem, o intocável, o nunca revelado, a ser apalpado, despido, vasculhado. Através do laudo pode-se ver a sucessão dos acontecimentos. A chegada dos peritos, às 9 horas da manhã, ao quarto onde, sobre a cama, jazia Getúlio. Numa tentativa apressada de composição, a família arrumara-lhe o corpo: sobre o ferimento, um curativo malfeito; em torno da cabeça, o prosaico lenço amarrado, a garantir, na boca fechada, a dignidade da expressão.
Vestia jaquetão e colete que, quando abertos pelos peritos, revelavam, por baixo, a pressa do arranjo: sob a outra calça, a calça listrada do pijama. Cercam-lhe o corpo, abrem-lhe a camisa, desfazem o curativo. São os implacáveis homens da lei. Com que intimidade tomam-lhe a mão, abrem-lhe os dedos em busca dos vestígios de pólvora que comprovam o suicídio.
Sucedem-se as fotos do corpo, do ferimento, das vestes, das mãos, da bala, do revólver, do lugar de onde saiu a bala. Numa minúcia voluptuosa que tudo detalha, que nada pode perder. Há algo de profano nessas fotos. Algo que parece violentar uma referência muito antiga. Algo como a sensação que nos provoca a súbita revelação de um detalhe desconcertante da intimidade de um avô que nos acostumáramos a ver como poderoso e inatingível.
São fotos tristes, tristíssimas na confirmação da banalidade da vida humana, da falibilidade dos seus mitos, da inocuidade dos seus ritos. Aliado às fotos vem o texto, igualmente minucioso, trazendo pérolas de preciosismo criminalístico como a passagem em que se descreve o cadáver.
Sobre a cama retro-referida, que se achava parcialmente desfeita e forrada com um lençol branco e provida de dois largos travesseiros, encontraram os peritos, na posição fixada pela fotografia (...), o cadáver de um homem de cor branca, de setenta anos presumíveis, vestido e arrumado, de imediato identificado como o do Exmo. Sr. Presidente da República, o Doutor Getúlio Vargas.
Faziam bem os peritos em crer apenas no que os seus olhos viam, no que as suas mãos tocavam. Afinal, o que se sabia daquele homem misterioso? Quem lhes conhecia os segredos, as inquietações íntimas, as verdadeiras intenções? Até hoje sua alma, seus sentimentos e preferências são uma incógnita até para o pesquisador mais atilado. Mesmo em seu diário intimo, ele pouco revela de seus sentimentos. Getúlio Vargas registra na primeira pagina de seu diário as impressões do dia: 3 de outubro de 1930, dia da revolução que derrubou Washington Luís e que marcou o fim da República Velha: "Que nos reservará o futuro incerto neste lance aventuroso?".
"Vencer é adaptar-se", este é o conselho que dará ao filho, intrigado com a sua biblioteca onde predominavam as obras de filosofia política. Este é o lema que parece permear a sua ação ao longo dos 12 anos de vida pública em que manteve um diário. O Getúlio que se revela aqui não é o gaúcho esquentado, passional, cheio de autoridade. Quem fica conhecido é o Getúlio que apazigua.
Apazigua os ciúmes de dona Darci, as irrupções apaixonadas de Oswaldo Aranha, as fúrias de Flores da Cunha, as conspirações de Góis Monteiro. Sucedem-se durante páginas e mais páginas os pedidos de demissão de ministros não aceitos, protelados. Vargas adia ao máximo os rompimentos, as situações-limite.
Ao longo do diário, amigos de ontem tornam-se os inimigos de hoje e podem a vir a ser novamente os amigos de amanhã. O diário não deixa dúvidas sobre o papel de Vargas na repressão ao comunismo após 1935. É por iniciativa dele que se cria a comissão dirigida por Adalberto Correia e que tão triste papel desempenha no período. A escuta telefônica, as cartas cifradas, a espionagem, as conspirações contra os adversários, tudo faz parte das ferramentas de que se vale o ditador para realizar seu projeto.
E que projeto era esse? Vargas fala que só a fé o mantém firme diante das intrigas e conspirações. Seguidas vezes, se queixa do fardo que é a vida de presidente. Mas não deixa definida, pelo menos não de forma clara a verdade que o move.
Sem dúvida é o romance que manteve com aquela que escolheu cognominar de "bem-amada" a grande revelação do diário. Não pelo caso em si. Sempre se soube que Vargas tinha tido suas aventuras. Mas pela importância que ele atribui ao caso num dos momentos mais decisivos de sua atuação.
No dia seguinte ao golpe de 1937, em plena implantação do Estado Novo, Vargas encontra tempo para encontrar aquela que chegou a considerar como a coisa mais importante de sua vida. Sua amargura depois da partida da "bem-amada" é patente e se prolonga até o final do livro. Este se encerra com uma nota de desencanto e de desesperança após o acidente de carro que sofreu em meados de 1942.
O Getúlio Vargas que se revela no Diário não é melhor nem pior do que o Getúlio Vargas que se tem pintado por aí. É um homem capaz das paixões mais banais. Também parecem banais as intrigas envolvendo os seus parceiros na política e seu cotidiano de trabalho rotineiro e monótono.
Mas é por saber da banalidade que permeia a natureza humana, por sua capacidade de decifrar a alma dos homens, de identificar com tanta clareza quais as suas paixões, quais os seus interesses que Vargas se confirma como maior personalidade de nossa história política.
Ao que parece, continuará sendo o laudo de Carlos Éboli ainda o único momento em que Getúlio, o "gaúcho-mineiro", o homem que não tinha por onde se lhe pegasse, foi despido, vasculhado, revelado. Na mão dos peritos, no entanto, era apenas o corpo sem a vida que o animara. Já não era mais.
Transcendera a substância da matéria. Saíra da vida. Já estava na História.
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