Peça incomparável da história da criminologia nacional é o laudo da morte de Getúlio Vargas assinado por Carlos Éboli. Peça que impressiona pela crueza das imagens e que faz parte do acervo do arquivo do Museu da República.
Está ali o homem, o intocável, o nunca revelado, a ser apalpado, despido, vasculhado. Através do laudo pode-se ver a sucessão dos acontecimentos. A chegada dos peritos, às 9 horas da manhã, ao quarto onde, sobre a cama, jazia Getúlio. Numa tentativa apressada de composição, a família arrumara-lhe o corpo: sobre o ferimento, um curativo malfeito; em torno da cabeça, o prosaico lenço amarrado, a garantir, na boca fechada, a dignidade da expressão.
Vestia jaquetão e colete que, quando abertos pelos peritos, revelavam, por baixo, a pressa do arranjo: sob a outra calça, a calça listrada do pijama. Cercam-lhe o corpo, abrem-lhe a camisa, desfazem o curativo. São os implacáveis homens da lei. Com que intimidade tomam-lhe a mão, abrem-lhe os dedos em busca dos vestígios de pólvora que comprovam o suicídio.
Sucedem-se as fotos do corpo, do ferimento, das vestes, das mãos, da bala, do revólver, do lugar de onde saiu a bala. Numa minúcia voluptuosa que tudo detalha, que nada pode perder. Há algo de profano nessas fotos. Algo que parece violentar uma referência muito antiga. Algo como a sensação que nos provoca a súbita revelação de um detalhe desconcertante da intimidade de um avô que nos acostumáramos a ver como poderoso e inatingível.
São fotos tristes, tristíssimas na confirmação da banalidade da vida humana, da falibilidade dos seus mitos, da inocuidade dos seus ritos. Aliado às fotos vem o texto, igualmente minucioso, trazendo pérolas de preciosismo criminalístico como a passagem em que se descreve o cadáver.
Sobre a cama retro-referida, que se achava parcialmente desfeita e forrada com um lençol branco e provida de dois largos travesseiros, encontraram os peritos, na posição fixada pela fotografia (...), o cadáver de um homem de cor branca, de setenta anos presumíveis, vestido e arrumado, de imediato identificado como o do Exmo. Sr. Presidente da República, o Doutor Getúlio Vargas.
Faziam bem os peritos em crer apenas no que os seus olhos viam, no que as suas mãos tocavam. Afinal, o que se sabia daquele homem misterioso? Quem lhes conhecia os segredos, as inquietações íntimas, as verdadeiras intenções? Até hoje sua alma, seus sentimentos e preferências são uma incógnita até para o pesquisador mais atilado. Mesmo em seu diário intimo, ele pouco revela de seus sentimentos. Getúlio Vargas registra na primeira pagina de seu diário as impressões do dia: 3 de outubro de 1930, dia da revolução que derrubou Washington Luís e que marcou o fim da República Velha: "Que nos reservará o futuro incerto neste lance aventuroso?".
"Vencer é adaptar-se", este é o conselho que dará ao filho, intrigado com a sua biblioteca onde predominavam as obras de filosofia política. Este é o lema que parece permear a sua ação ao longo dos 12 anos de vida pública em que manteve um diário. O Getúlio que se revela aqui não é o gaúcho esquentado, passional, cheio de autoridade. Quem fica conhecido é o Getúlio que apazigua.
Apazigua os ciúmes de dona Darci, as irrupções apaixonadas de Oswaldo Aranha, as fúrias de Flores da Cunha, as conspirações de Góis Monteiro. Sucedem-se durante páginas e mais páginas os pedidos de demissão de ministros não aceitos, protelados. Vargas adia ao máximo os rompimentos, as situações-limite.
Ao longo do diário, amigos de ontem tornam-se os inimigos de hoje e podem a vir a ser novamente os amigos de amanhã. O diário não deixa dúvidas sobre o papel de Vargas na repressão ao comunismo após 1935. É por iniciativa dele que se cria a comissão dirigida por Adalberto Correia e que tão triste papel desempenha no período. A escuta telefônica, as cartas cifradas, a espionagem, as conspirações contra os adversários, tudo faz parte das ferramentas de que se vale o ditador para realizar seu projeto.
E que projeto era esse? Vargas fala que só a fé o mantém firme diante das intrigas e conspirações. Seguidas vezes, se queixa do fardo que é a vida de presidente. Mas não deixa definida, pelo menos não de forma clara a verdade que o move.
Sem dúvida é o romance que manteve com aquela que escolheu cognominar de "bem-amada" a grande revelação do diário. Não pelo caso em si. Sempre se soube que Vargas tinha tido suas aventuras. Mas pela importância que ele atribui ao caso num dos momentos mais decisivos de sua atuação.
No dia seguinte ao golpe de 1937, em plena implantação do Estado Novo, Vargas encontra tempo para encontrar aquela que chegou a considerar como a coisa mais importante de sua vida. Sua amargura depois da partida da "bem-amada" é patente e se prolonga até o final do livro. Este se encerra com uma nota de desencanto e de desesperança após o acidente de carro que sofreu em meados de 1942.
O Getúlio Vargas que se revela no Diário não é melhor nem pior do que o Getúlio Vargas que se tem pintado por aí. É um homem capaz das paixões mais banais. Também parecem banais as intrigas envolvendo os seus parceiros na política e seu cotidiano de trabalho rotineiro e monótono.
Mas é por saber da banalidade que permeia a natureza humana, por sua capacidade de decifrar a alma dos homens, de identificar com tanta clareza quais as suas paixões, quais os seus interesses que Vargas se confirma como maior personalidade de nossa história política.
Ao que parece, continuará sendo o laudo de Carlos Éboli ainda o único momento em que Getúlio, o "gaúcho-mineiro", o homem que não tinha por onde se lhe pegasse, foi despido, vasculhado, revelado. Na mão dos peritos, no entanto, era apenas o corpo sem a vida que o animara. Já não era mais.
Transcendera a substância da matéria. Saíra da vida. Já estava na História.
Raimundo Cela e as jangadas do Ceará (4/2/12)
Raimundo Cela foi o pintor cearense mais importante de sua geração. Sua história de vida, que resumo aqui, foi contada por outro artista cearense, Nilo Firmeza, o Estrigas, em livro belíssimo publicado há alguns anos pela Pinakotheke. Cela era pintor e era engenheiro. Artista e engenheiro, uma contradição em termos? Pode ser, mas talvez a engenharia explique muito da qualidade de sua arte. Segundo Cláudio Valério Teixeira, na obra de Cela nada é inocência, tudo é fruto de planejamento, economia e técnica. Mas tudo é também movimento, força, agilidade e graça. Sua arte não procura simplesmente imitar as coisas representadas, é de uma beleza solene, meio melancólica, mas luminosa. Ela nos revela de maneira muito sutil, sem grandiloquência ou pieguice a poesia que inspira a visão dos pescadores e de suas jangadas nas praias do Ceará.
Raimundo Cela nasceu em 1890, em Sobral, no interior do Ceará, mas criou-se em uma cidade litorânea próxima: Camocim. O pai de Cela era espanhol, funcionário de uma empresa ferroviária. Sua mãe era professora. O meio familiar em que o artista foi criado era um meio culto e a superioridade de sua educação e de sua cultura se patenteiam nas poucas cartas dele para o pai. Cela veio para o Rio de Janeiro em 1910, estudar engenharia como desejava o pai e pintura como ele mesmo desejava. Aqui formou-se sob a orientação dos maiores mestres do começo do século, ficando pessoalmente ligado a Eliseu Visconti. Terminado o engenharia, chegou a trabalhar com o Marechal Rondon e, mais tarde, no escritório do então famoso arquiteto, Arquimedes Memória (autor do projeto da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, a famosa "gaiola de ouro").
Em 1917, Cela ganhou o prêmio de viagem do Salão Nacional de Belas Artes. Por causa da Guerra e da necessidade de concluir o curso de engenharia só viajou mesmo em 1920. Permaneceu na França por dois anos, quando dedicou-se ao aprendizado da gravura em metal. Suas gravuras, segundo Adir Botelho, não são apenas registros gráficos, históricos, são obras universais no sentido e na expressão.
De volta ao Brasil foi viver no Camocim, onde trabalhou durante dez anos como engenheiro de uma pequena usina elétrica. Em 1938, a pintura de um painel para o governo do Estado representando a libertação dos escravos do Ceará o trouxe de volta à vida artística. Pouco depois, em 1940, estabeleceu-se em Fortaleza onde constituiu ateliê nos autos do teatro José de Alencar. O artista francês Jean Pierre Chabloz que o conheceu nessa fase nos diz que o mais lhe agradou no estilo pessoal de Cela foi seu cunho tipicamente francês: um artista requintado, cultíssimo, dotado num alto grau de ´mesure´, daquela ´finesse´ afetuosa e ligeiramente irônica que fazem o encanto indiscutido dos espíritos e das sensibilidades verdadeiramente franceses.
Cela era um homem discreto e reservado sem, no entanto, ser antipático. Ele fazia parte daquela geração de brasileiros que se criara sob a influência da cultura francesa. E esta, aliada à influência dos mestres brasileiros do final do século XIX marcaram sua obra. Cláudio Valério Teixeira identifica em seu trabalho a simbiose da pintura com a aquarela: uma seleção de pigmentos de quem já havia olhado a pintura impressionista e por ela se deixado envolver, uma paleta aberta cujas cores luminosas tomam o lugar das terrosas. O artista soube se apropriar dos temas de sua terra, dando-lhes um tratamento natural, mas valendo-se de distorções quase caricaturais. Recurso que, na opinião de Cláudio Valério, subtrai de seus desenhos o caráter naturalista, fazendo-os ganhar em expressividade. O importante, diz ainda o mesmo crítico, é verificar como o artista vai transformando a forma clássica - poses típicas de estudos de academia - em traços pessoais, desenhos menos laboriosos, realizados ao natural, agregando características formais inteiramente próprias.
Raimundo Cela, sendo um moderno, nunca foi um modernista. Ele apareceu justamente naquele momento de nossa história cultural em que as artes iam ser atingidas pelo radicalismo de 1922. Criou-se então o mito, que hoje vem sendo revisto pelos estudos sobre o pré-modernismo, de que havido um hiato entre os mestres do século XIX e a Semana de Arte Moderna. Neste período nada teria sido produzido de interessante e criativo. Os que surgiram naquela fase foram mantidos assim numa espécie de limbo cultural. Mas o valor da arte de Raimundo Cela deve-se ao fato de ter sido concebida à margem das escolas, de não ter sido contaminada pelos modismo passageiros. O pintor retornou ao Rio de Janeiro em 1945. Aqui tornou-se professor de gravura em metal da Escola Nacional de Belas Artes (Enba) cargo que ocuparia até a sua morte, em 1954. Nesta última fase da carreira, Raimundo Cela foi duas vezes premiado com a medalha de ouro do Salão Nacional de Belas Artes. Retirado em Niterói, viveu ali seus últimos anos apegado aos quadros dos quais vendeu muito poucos. Não que lhes faltassem compradores apenas porque o artista tinha-lhes um apego sentimental e raramente se dispunha a separar-se deles.
Além das imagens de surpreendente beleza, o que a obra de Raimundo Cela nos proporciona é uma janela para o Ceará. Um Ceará de praias oceânicas, de jangadas e de jangadeiros. Um Ceará da gente do mar, com muita luz, vento, areia e água salgada. Certamente está em seus quadros a melhor tradução pictórica dessa paisagem nordestina.
Raimundo Cela nasceu em 1890, em Sobral, no interior do Ceará, mas criou-se em uma cidade litorânea próxima: Camocim. O pai de Cela era espanhol, funcionário de uma empresa ferroviária. Sua mãe era professora. O meio familiar em que o artista foi criado era um meio culto e a superioridade de sua educação e de sua cultura se patenteiam nas poucas cartas dele para o pai. Cela veio para o Rio de Janeiro em 1910, estudar engenharia como desejava o pai e pintura como ele mesmo desejava. Aqui formou-se sob a orientação dos maiores mestres do começo do século, ficando pessoalmente ligado a Eliseu Visconti. Terminado o engenharia, chegou a trabalhar com o Marechal Rondon e, mais tarde, no escritório do então famoso arquiteto, Arquimedes Memória (autor do projeto da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, a famosa "gaiola de ouro").
Em 1917, Cela ganhou o prêmio de viagem do Salão Nacional de Belas Artes. Por causa da Guerra e da necessidade de concluir o curso de engenharia só viajou mesmo em 1920. Permaneceu na França por dois anos, quando dedicou-se ao aprendizado da gravura em metal. Suas gravuras, segundo Adir Botelho, não são apenas registros gráficos, históricos, são obras universais no sentido e na expressão.
De volta ao Brasil foi viver no Camocim, onde trabalhou durante dez anos como engenheiro de uma pequena usina elétrica. Em 1938, a pintura de um painel para o governo do Estado representando a libertação dos escravos do Ceará o trouxe de volta à vida artística. Pouco depois, em 1940, estabeleceu-se em Fortaleza onde constituiu ateliê nos autos do teatro José de Alencar. O artista francês Jean Pierre Chabloz que o conheceu nessa fase nos diz que o mais lhe agradou no estilo pessoal de Cela foi seu cunho tipicamente francês: um artista requintado, cultíssimo, dotado num alto grau de ´mesure´, daquela ´finesse´ afetuosa e ligeiramente irônica que fazem o encanto indiscutido dos espíritos e das sensibilidades verdadeiramente franceses.
Cela era um homem discreto e reservado sem, no entanto, ser antipático. Ele fazia parte daquela geração de brasileiros que se criara sob a influência da cultura francesa. E esta, aliada à influência dos mestres brasileiros do final do século XIX marcaram sua obra. Cláudio Valério Teixeira identifica em seu trabalho a simbiose da pintura com a aquarela: uma seleção de pigmentos de quem já havia olhado a pintura impressionista e por ela se deixado envolver, uma paleta aberta cujas cores luminosas tomam o lugar das terrosas. O artista soube se apropriar dos temas de sua terra, dando-lhes um tratamento natural, mas valendo-se de distorções quase caricaturais. Recurso que, na opinião de Cláudio Valério, subtrai de seus desenhos o caráter naturalista, fazendo-os ganhar em expressividade. O importante, diz ainda o mesmo crítico, é verificar como o artista vai transformando a forma clássica - poses típicas de estudos de academia - em traços pessoais, desenhos menos laboriosos, realizados ao natural, agregando características formais inteiramente próprias.
Raimundo Cela, sendo um moderno, nunca foi um modernista. Ele apareceu justamente naquele momento de nossa história cultural em que as artes iam ser atingidas pelo radicalismo de 1922. Criou-se então o mito, que hoje vem sendo revisto pelos estudos sobre o pré-modernismo, de que havido um hiato entre os mestres do século XIX e a Semana de Arte Moderna. Neste período nada teria sido produzido de interessante e criativo. Os que surgiram naquela fase foram mantidos assim numa espécie de limbo cultural. Mas o valor da arte de Raimundo Cela deve-se ao fato de ter sido concebida à margem das escolas, de não ter sido contaminada pelos modismo passageiros. O pintor retornou ao Rio de Janeiro em 1945. Aqui tornou-se professor de gravura em metal da Escola Nacional de Belas Artes (Enba) cargo que ocuparia até a sua morte, em 1954. Nesta última fase da carreira, Raimundo Cela foi duas vezes premiado com a medalha de ouro do Salão Nacional de Belas Artes. Retirado em Niterói, viveu ali seus últimos anos apegado aos quadros dos quais vendeu muito poucos. Não que lhes faltassem compradores apenas porque o artista tinha-lhes um apego sentimental e raramente se dispunha a separar-se deles.
Além das imagens de surpreendente beleza, o que a obra de Raimundo Cela nos proporciona é uma janela para o Ceará. Um Ceará de praias oceânicas, de jangadas e de jangadeiros. Um Ceará da gente do mar, com muita luz, vento, areia e água salgada. Certamente está em seus quadros a melhor tradução pictórica dessa paisagem nordestina.
Carlos Estevão (28/1/12)
Ninguém lembrou de Carlos Estêvão no seu aniversário de 90 anos. Se vivo fosse essa teria sido a idade alcançada pelo artista em 16 de setembro passado. Mas ainda podemos lembrá-lo neste ano em que se completam 40 anos de sua morte. Durante quase 30 anos Carlos Estêvão assinou duas páginas de legítimo humor brasileiro naquela que foi a mais importante revista do país nas décadas de 40 a 60: a “O Cruzeiro”.
O genial criador do “Dr. Macarra”, chegou ao Rio em 1941, com vinte anos, vindo de Pernambuco, encontrando abrigo, por indicação de Augusto Rodrigues, primeiro no “Diário da Noite”, depois em “O Jornal” e, finalmente na “O Cruzeiro”. Seu traço logo libertou-se da influência de Rodrigues para ganhar voo próprio.
À caricatura política preferiu a de costumes e foi para esta, o avesso de J. Carlos, cuja sombra se erguera soberana por toda a primeira metade deste século. Se em J. Carlos predominava o humor delicado, quase ingênuo, aliado ao desenho limpíssimo, que num único movimento definia toda a figura, em Carlos Estêvão era o jogo de sombras, o desenho carregado, do nanquim em traço grosso sobre o papel. Gostava das sombras e jogava com elas na textualidade de seu trabalho.
Uma das suas mais notáveis criações foi a série “As aparências enganam”, onde cenas em silhuetas sugerem situações terríveis que são logo desmentidas no quadro seguinte. Carlos Estêvão foi o avesso de J. Carlos também na forma como o seu humor apreendia e tratava a realidade. Em J. Carlos, o povo era visto de fora através do olhar do homem distinto e civilizado, que não se confundia jamais com ele.
Carlos Estêvão, ao contrário, encontra nas relações entre o homem e a mulher comuns o seu elemento. O homem que chama a mulher de patroa, nega, benzinho... que algumas vezes é o bruto, o dominador e, noutras é o dominado, o traído. Não é a toa, como lembra Otacílio d’Assunção, o Ota, que seus desenhos cairam no gosto popular e eram frequentemente fixados nas paredes das barbearias em cenas como aquela em que uma secretária diz ao chefe pelo interfone diante do sujeito furioso que distingue, através da porta de vidro, uma silhueta de mulher aos beijos com o tal chefe: “Já falei que o senhor está ocupado!... Mas ele insiste dizendo que é o marido da sua ocupação!”
Estêvão é o que se chamaria hoje “politicamente incorreto”. Ele se compraz em reproduzir todas aquelas situações clássicas do anedotário machista brasileiro. Pode-se dizer a seu favor, no entanto, que a forma como o seu quadro “Ser Mulher” apresentava o papel feminino na relação conjugal era tão radicalmente caricatural que talvez funcionasse como uma crítica ao machismo então reinante.
Sem dúvida, o seu personagem favorito foi o “Dr. Macarra”, tipo de mandrião sempre a contar vantagens em situações que lembram o já citado quadro “As aparências enganam”. Em geral, seu tema são as memórias do “Dr. Macarra”, versão livre narrada por ele mesmo a uma interlocutora embevecida.
Um exemplo é a série “Dr. Macarra em Cuba”. Num dos quadros ele se gaba de que em Cuba servia de exemplo à juventude. No quadro seguinte, em “flash back”, ele está caido numa calçada, completamente bêbado, enquanto uma mãe o mostra ao filho: “Myra, hijo, los hombres que beben tequilla acaban así, cahidos en las calles”. “Dr. Macarra” chegou a ter uma revista própria que, como toda revista do gênero no Brasil, teve vida curta. Durante o ano de 1962, foram lançados nove números da “Dr. Macarra”. Quando a “O Cruzeiro” resolveu criar a versão brasileira do “L’amigo del hombre”, que fazia grande sucesso na Argentina, e que aqui ganhou o nome de “O Amigo da Onça”, Nássara e Augusto Rodrigues não toparam, achavam que não ia colar.
Enganaram-se e quem se deu bem foi o tímido Péricles (tão delicado, tão gentil que, ao suicidar-se com gás, deixou apenas um bilhete: “favor não acender fósforos” ). O sucesso do “Amigo da Onça”, continuou, após a morte precoce de Péricles com Carlos Estêvão, que foi o responsável pela página até o melancólico desaparecimento da revista “O Cruzeiro”.
Como figura do humor nacional, Carlos Estêvão deve ser lembrado ainda porque, depois dele, a caricatura de costumes praticamente desapareceu das grandes revistas e jornais brasileiros, suplantada pela caricatura política. Teve uma sobrevida nas páginas de “O Pasquim”, com Ziraldo, Jaguar e Henfil. Ressurgiu nos últimos anos através das tirinhas do jornal onde hoje despontam alguns tantos novos talentos brasileiros, além dos já consagrados Angeli e Laerte.
A concepção gráfica do primeiro, aliada ao texto agressivo, muito o aproximam de Estêvão. Angeli pertence à geração de desenhista e ilustradores que sofreu nítida influência de Robert Crumb. E, de certa forma, Carlos Estêvão, guardadas as diferenças de tempo e de lugar, compartilha com o americano Crumb algumas peculiaridades: o traço grosso; o desenho sujo; o gosto pelas sombras; a representação agressiva das relações interpessoais, notadamente as entre homens e mulheres.
Bem merecia Carlos Estêvão que a editora Record, que nos anos 1980 se comprometeu a republicar sua obra em uma série de álbuns, da qual chegou a lançar dois, desse continuidade ao projeto. Enquanto isso, seus originais permanecem adormecidos lá em Belo Horizonte, depositados nos arquivos do jornal “O Estado de Minas”. Lá onde, ao que parece, foi parar toda a memória da “O Cruzeiro”, dos Diários Associados e, com ela, boa parte da memória do Brasil.
À caricatura política preferiu a de costumes e foi para esta, o avesso de J. Carlos, cuja sombra se erguera soberana por toda a primeira metade deste século. Se em J. Carlos predominava o humor delicado, quase ingênuo, aliado ao desenho limpíssimo, que num único movimento definia toda a figura, em Carlos Estêvão era o jogo de sombras, o desenho carregado, do nanquim em traço grosso sobre o papel. Gostava das sombras e jogava com elas na textualidade de seu trabalho.
Uma das suas mais notáveis criações foi a série “As aparências enganam”, onde cenas em silhuetas sugerem situações terríveis que são logo desmentidas no quadro seguinte. Carlos Estêvão foi o avesso de J. Carlos também na forma como o seu humor apreendia e tratava a realidade. Em J. Carlos, o povo era visto de fora através do olhar do homem distinto e civilizado, que não se confundia jamais com ele.
Carlos Estêvão, ao contrário, encontra nas relações entre o homem e a mulher comuns o seu elemento. O homem que chama a mulher de patroa, nega, benzinho... que algumas vezes é o bruto, o dominador e, noutras é o dominado, o traído. Não é a toa, como lembra Otacílio d’Assunção, o Ota, que seus desenhos cairam no gosto popular e eram frequentemente fixados nas paredes das barbearias em cenas como aquela em que uma secretária diz ao chefe pelo interfone diante do sujeito furioso que distingue, através da porta de vidro, uma silhueta de mulher aos beijos com o tal chefe: “Já falei que o senhor está ocupado!... Mas ele insiste dizendo que é o marido da sua ocupação!”
Estêvão é o que se chamaria hoje “politicamente incorreto”. Ele se compraz em reproduzir todas aquelas situações clássicas do anedotário machista brasileiro. Pode-se dizer a seu favor, no entanto, que a forma como o seu quadro “Ser Mulher” apresentava o papel feminino na relação conjugal era tão radicalmente caricatural que talvez funcionasse como uma crítica ao machismo então reinante.
Sem dúvida, o seu personagem favorito foi o “Dr. Macarra”, tipo de mandrião sempre a contar vantagens em situações que lembram o já citado quadro “As aparências enganam”. Em geral, seu tema são as memórias do “Dr. Macarra”, versão livre narrada por ele mesmo a uma interlocutora embevecida.
Um exemplo é a série “Dr. Macarra em Cuba”. Num dos quadros ele se gaba de que em Cuba servia de exemplo à juventude. No quadro seguinte, em “flash back”, ele está caido numa calçada, completamente bêbado, enquanto uma mãe o mostra ao filho: “Myra, hijo, los hombres que beben tequilla acaban así, cahidos en las calles”. “Dr. Macarra” chegou a ter uma revista própria que, como toda revista do gênero no Brasil, teve vida curta. Durante o ano de 1962, foram lançados nove números da “Dr. Macarra”. Quando a “O Cruzeiro” resolveu criar a versão brasileira do “L’amigo del hombre”, que fazia grande sucesso na Argentina, e que aqui ganhou o nome de “O Amigo da Onça”, Nássara e Augusto Rodrigues não toparam, achavam que não ia colar.
Enganaram-se e quem se deu bem foi o tímido Péricles (tão delicado, tão gentil que, ao suicidar-se com gás, deixou apenas um bilhete: “favor não acender fósforos” ). O sucesso do “Amigo da Onça”, continuou, após a morte precoce de Péricles com Carlos Estêvão, que foi o responsável pela página até o melancólico desaparecimento da revista “O Cruzeiro”.
Como figura do humor nacional, Carlos Estêvão deve ser lembrado ainda porque, depois dele, a caricatura de costumes praticamente desapareceu das grandes revistas e jornais brasileiros, suplantada pela caricatura política. Teve uma sobrevida nas páginas de “O Pasquim”, com Ziraldo, Jaguar e Henfil. Ressurgiu nos últimos anos através das tirinhas do jornal onde hoje despontam alguns tantos novos talentos brasileiros, além dos já consagrados Angeli e Laerte.
A concepção gráfica do primeiro, aliada ao texto agressivo, muito o aproximam de Estêvão. Angeli pertence à geração de desenhista e ilustradores que sofreu nítida influência de Robert Crumb. E, de certa forma, Carlos Estêvão, guardadas as diferenças de tempo e de lugar, compartilha com o americano Crumb algumas peculiaridades: o traço grosso; o desenho sujo; o gosto pelas sombras; a representação agressiva das relações interpessoais, notadamente as entre homens e mulheres.
Bem merecia Carlos Estêvão que a editora Record, que nos anos 1980 se comprometeu a republicar sua obra em uma série de álbuns, da qual chegou a lançar dois, desse continuidade ao projeto. Enquanto isso, seus originais permanecem adormecidos lá em Belo Horizonte, depositados nos arquivos do jornal “O Estado de Minas”. Lá onde, ao que parece, foi parar toda a memória da “O Cruzeiro”, dos Diários Associados e, com ela, boa parte da memória do Brasil.
Quem perde, ganha (21/1/12)
Não há felicidade que resista a uma sucessão de dias felizes. Não estou bem certa mas acho que essa frase é do Drummond.
E, de fato, a felicidade pede um pouco de exclusividade. Quando se torna corriqueira, banal, começa a apresentar defeitos, vem o tédio, o desinteresse.
Todo o mundo precisa de um pouco de sofrimento para dar valor aos momentos felizes. É então que eles passam a ocupar um lugar especial na galeria das lembranças. Só a infelicidade pode produzir a sensação do "eu era feliz e não sabia". Na verdade você não era feliz, apenas não era infeliz ou a vida antes era tão gratuitamente boa que você nem notava, nem dava valor.
A verdade é que um pouco de desilusão, algumas decepções, alguns insucessos fazem parte do aprendizado da vida. Se você sempre ganha, só vai saber o que vai sentir quando perder muito mais adiante, quando talvez não tenha mais capacidade de criar defesas, de achar soluções, de buscar novos caminhos.
Como aquelas pequenas celebridades que Hollywood inventa e paparica enquanto dão boa bilheteria e depois abandona quando perdem essa capacidade. Daí tantos astros mirins que se tornaram adultos complicados, auto-destrutivos. Ter sido tão amado e ser esquecido é algo difícil de absorver. Ainda mais quando não se tem maturidade e o sucesso parecia algo tão natural, tão garantido que não se pensava que a vida fosse possível sem ele.
Ganhar é muito bom. É um prazer e tanto. Mesmo em coisas bobas como um jogo entre amigos, a sensação do vencedor é prazerosa. Imagino o quanto não deve ser a felicidade de quem ganha na loteria. Menor talvez do que a daquele que ganha uma disputa em que seus talentos foram confrontados com outros e levaram a melhor. A sensação de superioridade é embriagante e a certeza de que se fez a coisa certa se estabelece. O derrotado pode até ter espírito esportivo, mas amarga sempre um certo despeito.
No entanto, é o insucesso que nos faz crescer. Insucessos são momentos bons para uma reavaliação, eles nos obrigam a esse tipo de balanço que quando tudo vai bem a gente nem pensa em fazer. Perdi. E agora? Agora é juntar os cacos. É pensar onde foi que eu errei, como fazer para acertar da próxima, que estratégia adotar diante desse insucesso. O meu mundo caiu não existe até porque o que não tem remédio, remediado está. O jeito é continuar vivendo e buscar forças para achar outro caminho.
Na minha adolescência, eu costumava anotar em agendas e cadernos longos diálogos comigo mesma. Guardo até hoje algumas dessas anotações com aquelas angústias cruciais, dores de cotovelo, frustrações e revoltas próprias da idade. Até hoje quando algo me desorienta muno-me de papel e lápis e escrevo na folha em branco: o que está pegando? É a pergunta que abre esse tipo de reflexão. Porque estou tão tensa? Porque essa sensação de dureza na nuca logo abaixo do pescoço tão característica? Quais são realmente os problemas que eu tenho?
Botar no papel o problema serve para visualizá-lo em suas reais dimensões e de forma racional e compreensiva. A sensação de estar sobrecarregado se reduz consideravelmente quando a gente faz a lista das coisas que realmente precisa fazer. Organiza-as por ordem de grandeza, por ordem de prioridade, por ordem de urgência. Depois, é preciso complementar com as ações a serem empreendidas.
Aí é que se vê que, muitas vezes os problemas pequenos misturados aos grandes é que dão essa sensação de estar carregando o mundo nas costas.
E alguns problemas são tão fácil de resolver que, às vezes, basta um simples telefonema: consertar a máquina de lavar; pagar alguma conta atrasada; marcar o dentista; trocar a lâmpada do banheiro, etc. Eliminando esses itens, a lista diminui consideravelmente.
Em seguida vêm os mais complicados. Elaborar um projeto de trabalho; escrever um texto difícil; terminar um capítulo da tese; estudar para um concurso que só vai acontecer daqui a meses. Esses problemas que pedem investimentos de longa duração e que exigem planejamento e disciplina. Para esses é preciso estabelecer uma rotina, escolher um horário para dedicar a eles e, principalmente, cumprir. Com a cabeça e a mesa arrumada, vai ficar mais fácil começar a trabalhar.
Tem situações mais dramáticas mesmo. Se você perdeu o emprego, não foi aprovado no concurso; não foi reeleito para o cargo x... é preciso traçar o plano B. Na verdade, o ideal é ter sempre um plano B, razoável e viável e não de todo incompatível com o investimento que você fez no plano A. Não dá para mudar de um dia para outro de carreira. Tudo exige investimento e o que foi investido numa área nem sempre serve para outra.
Mas conhecimento adquirido é algo que nunca se perde. Se você estava estudando para um concurso que envolvia muito conhecimento de Direito e não passou, porque não aproveitar e fazer uma graduação nessa área?
Se você investiu anos numa carreira e esta já não satisfaz porque não usar os conhecimentos e contatos adquiridos e fazer algo ligado àquela área mas que não seja exatamente a atividade principal?
Qualquer que seja a sua escolha, no entanto, o importante é ter a cabeça fria, organizada e consciente, pois a angústia e o desassossego não são bons conselheiros. Nem também é boa conselheira a alienação. A atitude daquele que, diante dos problemas, se entrega e deixa o barco correr.
A atitude daquele que deixa-se ficar inerme diante dos desafios que a realidade lhe coloca é uma forma de deserção da vida. É o caminho dos fracos e dos destinados a uma trajetória medíocre e sem brilho.
Vale lembrar, a propósito, o conselho que o pai dá ao filho na "Canção do Tamoio", de Gonçalves Dias:
"Não chores, meu filho, não chores,/que a vida é luta renhida. Viver é lutar./A vida é combate que aos fracos abate/e que aos fortes, aos bravos,/só pode exaltar".
E, de fato, a felicidade pede um pouco de exclusividade. Quando se torna corriqueira, banal, começa a apresentar defeitos, vem o tédio, o desinteresse.
Todo o mundo precisa de um pouco de sofrimento para dar valor aos momentos felizes. É então que eles passam a ocupar um lugar especial na galeria das lembranças. Só a infelicidade pode produzir a sensação do "eu era feliz e não sabia". Na verdade você não era feliz, apenas não era infeliz ou a vida antes era tão gratuitamente boa que você nem notava, nem dava valor.
A verdade é que um pouco de desilusão, algumas decepções, alguns insucessos fazem parte do aprendizado da vida. Se você sempre ganha, só vai saber o que vai sentir quando perder muito mais adiante, quando talvez não tenha mais capacidade de criar defesas, de achar soluções, de buscar novos caminhos.
Como aquelas pequenas celebridades que Hollywood inventa e paparica enquanto dão boa bilheteria e depois abandona quando perdem essa capacidade. Daí tantos astros mirins que se tornaram adultos complicados, auto-destrutivos. Ter sido tão amado e ser esquecido é algo difícil de absorver. Ainda mais quando não se tem maturidade e o sucesso parecia algo tão natural, tão garantido que não se pensava que a vida fosse possível sem ele.
Ganhar é muito bom. É um prazer e tanto. Mesmo em coisas bobas como um jogo entre amigos, a sensação do vencedor é prazerosa. Imagino o quanto não deve ser a felicidade de quem ganha na loteria. Menor talvez do que a daquele que ganha uma disputa em que seus talentos foram confrontados com outros e levaram a melhor. A sensação de superioridade é embriagante e a certeza de que se fez a coisa certa se estabelece. O derrotado pode até ter espírito esportivo, mas amarga sempre um certo despeito.
No entanto, é o insucesso que nos faz crescer. Insucessos são momentos bons para uma reavaliação, eles nos obrigam a esse tipo de balanço que quando tudo vai bem a gente nem pensa em fazer. Perdi. E agora? Agora é juntar os cacos. É pensar onde foi que eu errei, como fazer para acertar da próxima, que estratégia adotar diante desse insucesso. O meu mundo caiu não existe até porque o que não tem remédio, remediado está. O jeito é continuar vivendo e buscar forças para achar outro caminho.
Na minha adolescência, eu costumava anotar em agendas e cadernos longos diálogos comigo mesma. Guardo até hoje algumas dessas anotações com aquelas angústias cruciais, dores de cotovelo, frustrações e revoltas próprias da idade. Até hoje quando algo me desorienta muno-me de papel e lápis e escrevo na folha em branco: o que está pegando? É a pergunta que abre esse tipo de reflexão. Porque estou tão tensa? Porque essa sensação de dureza na nuca logo abaixo do pescoço tão característica? Quais são realmente os problemas que eu tenho?
Botar no papel o problema serve para visualizá-lo em suas reais dimensões e de forma racional e compreensiva. A sensação de estar sobrecarregado se reduz consideravelmente quando a gente faz a lista das coisas que realmente precisa fazer. Organiza-as por ordem de grandeza, por ordem de prioridade, por ordem de urgência. Depois, é preciso complementar com as ações a serem empreendidas.
Aí é que se vê que, muitas vezes os problemas pequenos misturados aos grandes é que dão essa sensação de estar carregando o mundo nas costas.
E alguns problemas são tão fácil de resolver que, às vezes, basta um simples telefonema: consertar a máquina de lavar; pagar alguma conta atrasada; marcar o dentista; trocar a lâmpada do banheiro, etc. Eliminando esses itens, a lista diminui consideravelmente.
Em seguida vêm os mais complicados. Elaborar um projeto de trabalho; escrever um texto difícil; terminar um capítulo da tese; estudar para um concurso que só vai acontecer daqui a meses. Esses problemas que pedem investimentos de longa duração e que exigem planejamento e disciplina. Para esses é preciso estabelecer uma rotina, escolher um horário para dedicar a eles e, principalmente, cumprir. Com a cabeça e a mesa arrumada, vai ficar mais fácil começar a trabalhar.
Tem situações mais dramáticas mesmo. Se você perdeu o emprego, não foi aprovado no concurso; não foi reeleito para o cargo x... é preciso traçar o plano B. Na verdade, o ideal é ter sempre um plano B, razoável e viável e não de todo incompatível com o investimento que você fez no plano A. Não dá para mudar de um dia para outro de carreira. Tudo exige investimento e o que foi investido numa área nem sempre serve para outra.
Mas conhecimento adquirido é algo que nunca se perde. Se você estava estudando para um concurso que envolvia muito conhecimento de Direito e não passou, porque não aproveitar e fazer uma graduação nessa área?
Se você investiu anos numa carreira e esta já não satisfaz porque não usar os conhecimentos e contatos adquiridos e fazer algo ligado àquela área mas que não seja exatamente a atividade principal?
Qualquer que seja a sua escolha, no entanto, o importante é ter a cabeça fria, organizada e consciente, pois a angústia e o desassossego não são bons conselheiros. Nem também é boa conselheira a alienação. A atitude daquele que, diante dos problemas, se entrega e deixa o barco correr.
A atitude daquele que deixa-se ficar inerme diante dos desafios que a realidade lhe coloca é uma forma de deserção da vida. É o caminho dos fracos e dos destinados a uma trajetória medíocre e sem brilho.
Vale lembrar, a propósito, o conselho que o pai dá ao filho na "Canção do Tamoio", de Gonçalves Dias:
"Não chores, meu filho, não chores,/que a vida é luta renhida. Viver é lutar./A vida é combate que aos fracos abate/e que aos fortes, aos bravos,/só pode exaltar".
Questão de sorte (14/1/12)
Tem coisas que só dependem de você. Se você se dedicar, se estiver determinado, vai empenhar todos os seus talentos e esforços e vai acabar conquistando-as.
Tem coisas que você mesmo fazendo tudo certinho, pode não conseguir fazer por causa de outros que, por incompetência ou má-fé, fazem tudo para te atrapalhar. Aí é preciso aliar ao esforço uma certa capacidade estratégica capaz de driblar os obstáculos.
Tem coisas que dependem da sorte. Você pode não fazer rigorosamente nada e elas simplesmente, acontecem. É verdade que, como na loteria, esse tipo de bilhete só sai para um em um milhão de apostadores. O resto da humanidade tem mesmo é que suar a camisa.
O problema de quem tem muita facilidade no começo da vida é ainda não saber disto.
Para quem tem pai e mãe com recursos e é bonito, talentoso, simpático e inteligente tudo vem fácil. Os amigos, as namoradas, as professoras todo o mundo te paparica. Os deveres da escola, com um pouquinho de estudo, você tira de letra. Pode até se dar ao luxo de ficar sem estudar uns meses para compensar depois e passar de ano com notas na média.Tudo é tão fácil que dá até um certo tédio. Como seria a vida se eu tivesse que batalhar por essas coisas?
Na verdade, quando se é jovem nem se sabe bem quais são essas coisas.
Afinal, na agenda de prioridades não estão pagar o aluguel; a conta de luz; o telefone; a faxineira; o supermercado; o plano de saúde; o dentista... Essas coisas parecem tão naturais, estiveram sempre tão gratuitamente ali que nem se imagina que seja preciso pagar por elas. De modo que, quem está nessas condições e pensa em batalhar pelas coisas, pensa é que vai ter que trabalhar para comprar um carro ainda melhor, viajar para o exterior, jantar em bons restaurantes.
A ficha demora a cair e pode não cair nunca. Ainda mais hoje em dia quando os jovens demoram a sair de casa. Ou melhor, não saem de casa justamente para não perderem essas facilidades. Se na casa dos pais hoje temos tudo, inclusive a liberdade que eles não tiveram de trazer amigos e namoradas na hora que quisermos?
Na minha adolescência achava uma mesquinharia que minha mãe controlasse tanto o consumo das coisas em casa. Que reclamasse quando trazíamos algum amigo para almoçar sem avisar. Foi só eu ir morar sozinha, com o dinheiro contadinho, para começar a implicar com aqueles amigos do tempo da faculdade que chegavam na sua casa e iam direto para a geladeira. Sabendo o quanto custara abastecê-la eu precisava ser rigorosa para não ficar sem comida. Todo o mundo era duro mas tinha uns mais duros. E, dentre esses havia alguns que usavam a solidariedade natural dos amigos para se encostar. Aqueles espertinhos que sentavam na mesa do bar, bebiam e comiam todas, alegando depois que não tinham como pagar.
A vida é difícil e os que não têm dinheiro inventam suas estratégias para sobreviver. Ou para pegar uma beirada nos luxos daqueles que têm a sorte de ter pais que os sustentem. É natural. Não é justo que fulaninho tenha carro, casa própria, dinheiro para comer fora e eu não tenha nem o do ônibus. Fulaninho, tomado de sentimento de solidariedade socialista, também acha e toca a trazer amigos para casa, a dar a eles comida, a emprestar roupas e até mesmo o carro. Afinal ele tem isto tudo sobrando. Só que não está sobrando. Quem financia trabalha muito e investe para dar ao filho as melhores condições possíveis para ele estudar e fazer uma brilhante carreira.
No entanto, muitas vezes, as melhores condições não ajudam e podem até atrapalhar. O que vem fácil vai fácil e seu filho pode se tornar mesmo um bom malandro. Alguém que não está nem aí para os estudos e que sonha é em fazer outras coisas bem diversas, tipo viajar para a Indonésia, abrir um bar, morar numa praia deserta. Tudo isto sem lembrar que terá que pagar a comida, a moradia, o transporte, as despesas com vestuário. Sem falar nos hábitos da modernidade a que está acostumado e dos quais dificilmente conseguirá abrir mão: celular, internet, TV a cabo, etc.
Pode ser que ele tenha sorte. Que revele um talento e tanto para alguma coisa inusitada e um dia possa, como John Lennon, achar graça do que lhe disse a tia que lhe fazia as vezes de mãe: você nunca vai ganhar dinheiro com música. Quem viu o filme sobre ele na juventude imagina o que não deve ter sofrido a tia vendo-o abandonar os estudos para criar uma banda com outros rapazes de Liverpool. Naturalmente que todo jovem que decide largar a universidade pensando em ser músico imagina que vai se tornar um beatle, ou um caetano veloso, um chico buarque, um milton nascimento. Afinal se eles conseguiram porque eu não conseguirei?
Tive um amigo de juventude que, muito cedo, recebeu uma herança que lhe permitiu viver sem trabalhar até depois dos 50 anos. Tinha talento musical mas não estava no lugar certo, na hora certa. Ou melhor, chegou no lugar um pouco depois que o interesse pelo gênero de música que ele fazia tinha passado. Poderia, com um pouco mais de garra e não precisando trabalhar para viver, ter conquistado algum espaço no mundo do show bussiness. Ou feito qualquer outra coisa de sua vida: era inteligente, era talentoso e era benquisto. Não fez. Deixou a vida escorrer junto com a herança, entre bebidas, drogas e muita farra. Foi ficando para trás, tornando-se uma figura boemia folclórica, divertida mas também pouco considerada. Seu fim foi melancólico e os que o conheceram pensam hoje como tudo poderia ter sido diferente se ele não tivesse nascido em berço de ouro.
Tem coisas que você mesmo fazendo tudo certinho, pode não conseguir fazer por causa de outros que, por incompetência ou má-fé, fazem tudo para te atrapalhar. Aí é preciso aliar ao esforço uma certa capacidade estratégica capaz de driblar os obstáculos.
Tem coisas que dependem da sorte. Você pode não fazer rigorosamente nada e elas simplesmente, acontecem. É verdade que, como na loteria, esse tipo de bilhete só sai para um em um milhão de apostadores. O resto da humanidade tem mesmo é que suar a camisa.
O problema de quem tem muita facilidade no começo da vida é ainda não saber disto.
Para quem tem pai e mãe com recursos e é bonito, talentoso, simpático e inteligente tudo vem fácil. Os amigos, as namoradas, as professoras todo o mundo te paparica. Os deveres da escola, com um pouquinho de estudo, você tira de letra. Pode até se dar ao luxo de ficar sem estudar uns meses para compensar depois e passar de ano com notas na média.Tudo é tão fácil que dá até um certo tédio. Como seria a vida se eu tivesse que batalhar por essas coisas?
Na verdade, quando se é jovem nem se sabe bem quais são essas coisas.
Afinal, na agenda de prioridades não estão pagar o aluguel; a conta de luz; o telefone; a faxineira; o supermercado; o plano de saúde; o dentista... Essas coisas parecem tão naturais, estiveram sempre tão gratuitamente ali que nem se imagina que seja preciso pagar por elas. De modo que, quem está nessas condições e pensa em batalhar pelas coisas, pensa é que vai ter que trabalhar para comprar um carro ainda melhor, viajar para o exterior, jantar em bons restaurantes.
A ficha demora a cair e pode não cair nunca. Ainda mais hoje em dia quando os jovens demoram a sair de casa. Ou melhor, não saem de casa justamente para não perderem essas facilidades. Se na casa dos pais hoje temos tudo, inclusive a liberdade que eles não tiveram de trazer amigos e namoradas na hora que quisermos?
Na minha adolescência achava uma mesquinharia que minha mãe controlasse tanto o consumo das coisas em casa. Que reclamasse quando trazíamos algum amigo para almoçar sem avisar. Foi só eu ir morar sozinha, com o dinheiro contadinho, para começar a implicar com aqueles amigos do tempo da faculdade que chegavam na sua casa e iam direto para a geladeira. Sabendo o quanto custara abastecê-la eu precisava ser rigorosa para não ficar sem comida. Todo o mundo era duro mas tinha uns mais duros. E, dentre esses havia alguns que usavam a solidariedade natural dos amigos para se encostar. Aqueles espertinhos que sentavam na mesa do bar, bebiam e comiam todas, alegando depois que não tinham como pagar.
A vida é difícil e os que não têm dinheiro inventam suas estratégias para sobreviver. Ou para pegar uma beirada nos luxos daqueles que têm a sorte de ter pais que os sustentem. É natural. Não é justo que fulaninho tenha carro, casa própria, dinheiro para comer fora e eu não tenha nem o do ônibus. Fulaninho, tomado de sentimento de solidariedade socialista, também acha e toca a trazer amigos para casa, a dar a eles comida, a emprestar roupas e até mesmo o carro. Afinal ele tem isto tudo sobrando. Só que não está sobrando. Quem financia trabalha muito e investe para dar ao filho as melhores condições possíveis para ele estudar e fazer uma brilhante carreira.
No entanto, muitas vezes, as melhores condições não ajudam e podem até atrapalhar. O que vem fácil vai fácil e seu filho pode se tornar mesmo um bom malandro. Alguém que não está nem aí para os estudos e que sonha é em fazer outras coisas bem diversas, tipo viajar para a Indonésia, abrir um bar, morar numa praia deserta. Tudo isto sem lembrar que terá que pagar a comida, a moradia, o transporte, as despesas com vestuário. Sem falar nos hábitos da modernidade a que está acostumado e dos quais dificilmente conseguirá abrir mão: celular, internet, TV a cabo, etc.
Pode ser que ele tenha sorte. Que revele um talento e tanto para alguma coisa inusitada e um dia possa, como John Lennon, achar graça do que lhe disse a tia que lhe fazia as vezes de mãe: você nunca vai ganhar dinheiro com música. Quem viu o filme sobre ele na juventude imagina o que não deve ter sofrido a tia vendo-o abandonar os estudos para criar uma banda com outros rapazes de Liverpool. Naturalmente que todo jovem que decide largar a universidade pensando em ser músico imagina que vai se tornar um beatle, ou um caetano veloso, um chico buarque, um milton nascimento. Afinal se eles conseguiram porque eu não conseguirei?
Tive um amigo de juventude que, muito cedo, recebeu uma herança que lhe permitiu viver sem trabalhar até depois dos 50 anos. Tinha talento musical mas não estava no lugar certo, na hora certa. Ou melhor, chegou no lugar um pouco depois que o interesse pelo gênero de música que ele fazia tinha passado. Poderia, com um pouco mais de garra e não precisando trabalhar para viver, ter conquistado algum espaço no mundo do show bussiness. Ou feito qualquer outra coisa de sua vida: era inteligente, era talentoso e era benquisto. Não fez. Deixou a vida escorrer junto com a herança, entre bebidas, drogas e muita farra. Foi ficando para trás, tornando-se uma figura boemia folclórica, divertida mas também pouco considerada. Seu fim foi melancólico e os que o conheceram pensam hoje como tudo poderia ter sido diferente se ele não tivesse nascido em berço de ouro.
Independência (7/1/12)
Para os de minha geração, o sonho de deixar a casa dos pais aos 20 anos era o ideal de independência. A vida sob o teto de papai e mamãe era cheia de regras e de impossibilidades. A casa era deles e nós éramos seus filhos. Deveríamos chegar a tantas horas, dizer para onde íamos, com quem íamos e o que faríamos. Quando se instalava o conflito era porque nós já não queríamos dar tantas satisfações e eles não queriam se conformar com isto. Ou melhor, eles se tornavam nossos reféns, pois sofriam temendo que algo nos acontecesse e não tinham coragem de nos dar a palavra final: rua.
Nós, o que queríamos era isso mesmo, ir para a rua, era enfrentar a vida de cara, sofrer, ganhar o pão com o suor do rosto, mesmo que não tivéssemos a menor ideia do que isto significasse. E acabávamos saindo. Íamos morar com amigos em repúblicas, quatro, cinco, seis pessoas, dividindo despesas e obrigações. Mas, para quase todos os que vem de uma família de classe média, essa independência é muito relativa e as contas da casa coletiva, ainda que modestas, não eram pagas com o suor do rosto dos ocupantes. Quase todo o mundo tinha um pai ou uma mãe aflitos em algum lugar que, ao menor sinal de sofrimento do pimpolho, abria imediatamente a bolsa. Ou movia céus e terras para arrumar uma colocação em algum lugar confortável para que o filhinho pudesse estudar em paz.
Então essa independência sem riscos reais, essa autossuficiência diante do mundo só se concretizava mesmo bem depois, quando - passados todos os níveis de formação, faculdade, mestrado e doutorado, financiados com bolsas de estudos - caíamos no mundo real: o mundo do trabalho. E esse mundo duro e competitivo nos encontrava, aos que sempre contaram com essa rede invisível de proteção familiar, desarmados e despreparados.
A verdade é que, durante esse tempo de estudos que, hoje, quase nunca ultrapassa os 30 anos, a formação pode ser mais rápida e a entrada no mundo real mais lenta. Antigamente o ideal é que fossem consumidos alguns anos no preparo da dissertação de mestrado e muitos anos no da tese de doutorado. Eram trabalhos que coroavam uma trajetória acadêmica. As teses de doutorado eram imensos tratados, às vezes compondo vários volumes de centenas de páginas. Algumas demoravam vinte anos para serem concluídas. Esse longo tempo de maturação podia resultar em teses que revolucionariam concepções cristalizadas. Mas, na maior parte das vezes, funcionava como um desestímulo, pois, com prazos tão estendidos, o sujeito ia fazer outras coisas e não concluía a tese.
No meu tempo, quem se formava tinha duas opções, correr para arrumar um emprego ou tentar o mestrado e obter uma bolsa. Dos meus colegas que logo fizeram concurso para o Banco do Brasil, a Caixa Econômica ou o Banerj, isto ainda durante o curso, poucos fizeram vida acadêmica. Eram empregos bons, bem pagos e que exigiam muito de quem os obtinha. Não dava vontade nenhuma de estudar depois do expediente. O salário era bom e o sujeito acabava constituindo família cedo e aí é que não voltava mesmo para a universidade. Este caminho, creio eu, desviou da academia alguns talentos.
Hoje, a formação universitária se democratizou mas também perdeu o valor que tinha no mercado de trabalho. Ter o diploma é essencial mas ter apenas o diploma não é mais garantia de emprego. A pós-graduação virou coisa obrigatória até para os que não fazem vida acadêmica, para os que ingressam no mundo dos negócios ou da administração empresarial ou pública. O doutorado não é mais visto como a consagração de uma carreira acadêmica mas sim como o final da formação dos que se preparam para se candidatar a uma vaga de professor ou de pesquisador.
Mas isto levou também a uma queda no padrão das teses e quem participa de bancas sabe disto. A obrigatoriedade do cumprimento do prazo sob pena da perda dos créditos para o aluno e de pontos para o programa de pós-graduação a que esteja filiado, leva a uma negociação difícil para o orientador junto aos demais membros da banca. Os colegas sabem como é penosa a vida hoje nos departamentos das universidades e se solidarizam. Acabam aprovando teses que pediriam mais tempo de pesquisa e de elaboração. Faltam ajustes para fazer com que essas teses prematuras tenham melhor qualidade. Talvez avaliações menos quantitativas e mais qualitativas sobre o que aquele programa produziu em termos de inovações ou de trabalhos que mudaram a forma de pensar determinados problemas.
De qualquer maneira, quando penso nos colegas que tiveram que desistir da faculdade para trabalhar, ou nos que, ainda hoje, não tendo pai e mãe que os amparem precisam ganhar, de fato, o pão com o suor de seus rostos, não posso deixar de sorrir diante dos que sonhavam com uma independência ilusória. Independência de mão única, pois a cada perigo que se apresentava, corríamos para papai e mamãe em busca de amparo material e mesmo psicológico.
Conheci há poucos anos uma menina, pequena e valente que perdera os pais muito cedo e que, ao lado da faculdade, tinha que trabalhar para se manter. Endurecera na luta e, contrariando o que recomendava aquele revolucionário, perdera muito de sua ternura. Sei que está destinada a vencer pois a realidade que já lhe foi tão cruel nos primeiros anos de vida, precisará ser muito adversa daqui em diante para derrubá-la. Por experiência própria sei que, os que como eu, tiveram o caminho aplainado por pai e mãe vigilantes, têm muito mais dificuldades para enfrentar os desafios que a verdadeira independência nos apresenta.
Nós, o que queríamos era isso mesmo, ir para a rua, era enfrentar a vida de cara, sofrer, ganhar o pão com o suor do rosto, mesmo que não tivéssemos a menor ideia do que isto significasse. E acabávamos saindo. Íamos morar com amigos em repúblicas, quatro, cinco, seis pessoas, dividindo despesas e obrigações. Mas, para quase todos os que vem de uma família de classe média, essa independência é muito relativa e as contas da casa coletiva, ainda que modestas, não eram pagas com o suor do rosto dos ocupantes. Quase todo o mundo tinha um pai ou uma mãe aflitos em algum lugar que, ao menor sinal de sofrimento do pimpolho, abria imediatamente a bolsa. Ou movia céus e terras para arrumar uma colocação em algum lugar confortável para que o filhinho pudesse estudar em paz.
Então essa independência sem riscos reais, essa autossuficiência diante do mundo só se concretizava mesmo bem depois, quando - passados todos os níveis de formação, faculdade, mestrado e doutorado, financiados com bolsas de estudos - caíamos no mundo real: o mundo do trabalho. E esse mundo duro e competitivo nos encontrava, aos que sempre contaram com essa rede invisível de proteção familiar, desarmados e despreparados.
A verdade é que, durante esse tempo de estudos que, hoje, quase nunca ultrapassa os 30 anos, a formação pode ser mais rápida e a entrada no mundo real mais lenta. Antigamente o ideal é que fossem consumidos alguns anos no preparo da dissertação de mestrado e muitos anos no da tese de doutorado. Eram trabalhos que coroavam uma trajetória acadêmica. As teses de doutorado eram imensos tratados, às vezes compondo vários volumes de centenas de páginas. Algumas demoravam vinte anos para serem concluídas. Esse longo tempo de maturação podia resultar em teses que revolucionariam concepções cristalizadas. Mas, na maior parte das vezes, funcionava como um desestímulo, pois, com prazos tão estendidos, o sujeito ia fazer outras coisas e não concluía a tese.
No meu tempo, quem se formava tinha duas opções, correr para arrumar um emprego ou tentar o mestrado e obter uma bolsa. Dos meus colegas que logo fizeram concurso para o Banco do Brasil, a Caixa Econômica ou o Banerj, isto ainda durante o curso, poucos fizeram vida acadêmica. Eram empregos bons, bem pagos e que exigiam muito de quem os obtinha. Não dava vontade nenhuma de estudar depois do expediente. O salário era bom e o sujeito acabava constituindo família cedo e aí é que não voltava mesmo para a universidade. Este caminho, creio eu, desviou da academia alguns talentos.
Hoje, a formação universitária se democratizou mas também perdeu o valor que tinha no mercado de trabalho. Ter o diploma é essencial mas ter apenas o diploma não é mais garantia de emprego. A pós-graduação virou coisa obrigatória até para os que não fazem vida acadêmica, para os que ingressam no mundo dos negócios ou da administração empresarial ou pública. O doutorado não é mais visto como a consagração de uma carreira acadêmica mas sim como o final da formação dos que se preparam para se candidatar a uma vaga de professor ou de pesquisador.
Mas isto levou também a uma queda no padrão das teses e quem participa de bancas sabe disto. A obrigatoriedade do cumprimento do prazo sob pena da perda dos créditos para o aluno e de pontos para o programa de pós-graduação a que esteja filiado, leva a uma negociação difícil para o orientador junto aos demais membros da banca. Os colegas sabem como é penosa a vida hoje nos departamentos das universidades e se solidarizam. Acabam aprovando teses que pediriam mais tempo de pesquisa e de elaboração. Faltam ajustes para fazer com que essas teses prematuras tenham melhor qualidade. Talvez avaliações menos quantitativas e mais qualitativas sobre o que aquele programa produziu em termos de inovações ou de trabalhos que mudaram a forma de pensar determinados problemas.
De qualquer maneira, quando penso nos colegas que tiveram que desistir da faculdade para trabalhar, ou nos que, ainda hoje, não tendo pai e mãe que os amparem precisam ganhar, de fato, o pão com o suor de seus rostos, não posso deixar de sorrir diante dos que sonhavam com uma independência ilusória. Independência de mão única, pois a cada perigo que se apresentava, corríamos para papai e mamãe em busca de amparo material e mesmo psicológico.
Conheci há poucos anos uma menina, pequena e valente que perdera os pais muito cedo e que, ao lado da faculdade, tinha que trabalhar para se manter. Endurecera na luta e, contrariando o que recomendava aquele revolucionário, perdera muito de sua ternura. Sei que está destinada a vencer pois a realidade que já lhe foi tão cruel nos primeiros anos de vida, precisará ser muito adversa daqui em diante para derrubá-la. Por experiência própria sei que, os que como eu, tiveram o caminho aplainado por pai e mãe vigilantes, têm muito mais dificuldades para enfrentar os desafios que a verdadeira independência nos apresenta.
O poeta e suas previsões para o século XX (31/12/11)
No começo do século XX, as estrelas da vida cultural brasileira eram os escritores e poetas que pontificavam nos cafés e confeitarias da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Dentre estes, a figura predominante era Olavo Bilac que receberia, em concurso promovido pela revista Careta, o título de Príncipe dos Poetas.
Boêmio, fã de Eça de Queiroz, tendo tido na juventude arroubos de espírito revolucionário, Bilac foi a principal figura da nossa Belle Époque. A vida dessa roda boêmia da qual também faziam parte Coelho Neto, Emilio de Menezes, Guimarães Passos, Martins Fontes e tantos outros se fazia entre a redação dos jornais e a mesa das confeitarias das quais as mais importantes eram a Colombo, a Pascoal e a Cailteau. Quase todas elas e também as sedes dos principais jornais ficavam na rua do Ouvidor ou em suas transversais.
As facilidades que experimentavam os jovens poetas e escritores recém-chegados ao Rio, na iniciação no meio literário, também estavam ligadas à morfologia da rua-vitrine. Era sabido em todos os cantos do Brasil que, para se encontrar Olavo Bilac, bastava estar às cinco horas na Confeitaria Colombo que ficava, como ainda hoje fica, na rua Gonçalves Dias, pertinho da Ouvidor. Antes disto, até 1894, a roda se reunia na Pascoal.
Em 1901, o estudante de 17 anos, Martins Fontes, foi apresentado a Olavo Bilac na Confeitaria Colombo. Tomado pela emoção, o jovem poeta mal conseguiu balbuciar, enquanto lágrimas brotavam-lhe dos olhos: - Senhor Olavo Bilac, consinta que lhe aperte a mão, o mais apaixonado dos seus admiradores... Eu o adoro...
Bastos Tigre também conheceu Bilac ali. Ao ser apresentado a ele por Emílio de Meneses, decepcionou-se, pois, segundo conta, quando esperava encantar-se com "pérolas do seu fino espírito de poeta", ouviu-o indagar prosaicamente a Guimarães Passos: - Seu Guima, que bicho deu?
Bilac e Coelho Neto foram os mais queridos homens de letras desse período. Quando a admiração e a amizade não conseguiam ultrapassar a barreira imposta pela timidez ou esquisitice de um Machado de Assis ou de um Rui Barbosa, era gratificante para o jovem literato do interior a receptividade simpática dos dois.
Foram Bilac e Coelho Neto os fundadores daquela vida literária feita de urbanidade e bom humor. Muito mais centrada na performance do meio social agitado do que na contemplação e no recolhimento. Esta mundanidade se manifestava, principalmente, através das tiradas de espírito, das anedotas e dos trocadilhos. A presença de espírito no salão era o cartão de visitas para adentrar neste mundo especial e ser recebido com carinho. Na esteira deste espírito risonho da época surgiram as tantas revistas de humor que terão papel de destaque nas primeiras décadas do século: O Malho, Fon-Fon, Careta, O Filhote, D. Quixote. Revistas que garantirão, daí para frente, na imprensa, o lugar do humor e da caricatura.
Nenhum período da história brasileira se igualará à virada do século XIX para o XX como era de ouro da anedota e da irreverência. Naquele momento combinaram-se circunstâncias, que, de poetas "sérios" e prestigiados, fizeram atores do grande teatro da irreverência nacional. Mas, apesar da razoável remuneração que a imprensa passara a lhes proporcionar, viviam com o orçamento apertado. Um recurso de que se valiam os literatos para completar a renda eram as quadrinhas publicitárias. Olavo Bilac, Guimarães Passos, Emílio de Meneses, Martins Fontes produziram versinhos de propaganda que ficaram na história.
Dos tantos poemas-reclame que Bilac produziu o mais interessante foi este com que termino essa crônica e que usei como epígrafe do primeiro capítulo de meu livro "Brasil pelo método confuso: humor e boêmia em Mendes Fradique" (Bertrand Brasil, 1992). Nele o poeta, para promover a Vela Brasileira, prevendo para esta vida longa, prevê ainda uma série de descobertas científicas que mudariam a vida da humanidade ao longo do século XX. Nem todas acertou o poeta neste poema que completa agora 110 anos e que segue para você, meu caro leitor, com os votos de um 2012 de muita Paz, Saúde e Prosperidade.
"Tem ano e meio apenas este século, / Mas apesar de sua tenra idade,/ Já mostra o que há de ser em eras próximas /Na adolescência e na virilidade, /Haverá coisas de espantar, escândalos / Maravilhas, surpresas, sensações, /Ardentes, estupendas e novíssimas/ Que excedam todas as suposições!/Voarão pelo mar os transatlânticos,/Comendo léguas e qualquer pessoa, /Partindo a tarde de Sebastianópolis/ Na mesma noite Ceará em Goa!/Hão de se ver aplicações elétricas/Que a alma sonha e que a expressão não diz,/ E esse que é o Deus das maravilhas, Edison,/Não passará de um reles aprendiz.../Quatro dias depois de morto e gélido,/ Qualquer sujeito-se tomar no lombo/ Dois ou três choques, saltará do túmulo/E irá comer empadas na Colombo.../ Far-se-ão crianças por processo químico,/ E, graças aos balões, há de qualquer/Ir, facilmente, de Mercúrio a Júpiter/ Como quem vai daqui ao Carceler.../ Não haverá segredos nem mistérios,/ Devassaremos todo o céu profundo,/ E o próprio Deus há de tremer no Empírio, /Arrependido de ter feito o mundo.../ Mas no meio de tais magnificências,/ Num perpétuo, num fúlgido arrebol,/ Há de uma coisa do passado pávido/ Brilhar eternamente como o sol:/ Essa coisa imortal, una de pluribus,/ Há de ser das primeiras a primeira;/ E há de chamar-se o século vigésimo. "0 século da Vela Brasileira", de Olavo Bilac, 1901.
Boêmio, fã de Eça de Queiroz, tendo tido na juventude arroubos de espírito revolucionário, Bilac foi a principal figura da nossa Belle Époque. A vida dessa roda boêmia da qual também faziam parte Coelho Neto, Emilio de Menezes, Guimarães Passos, Martins Fontes e tantos outros se fazia entre a redação dos jornais e a mesa das confeitarias das quais as mais importantes eram a Colombo, a Pascoal e a Cailteau. Quase todas elas e também as sedes dos principais jornais ficavam na rua do Ouvidor ou em suas transversais.
As facilidades que experimentavam os jovens poetas e escritores recém-chegados ao Rio, na iniciação no meio literário, também estavam ligadas à morfologia da rua-vitrine. Era sabido em todos os cantos do Brasil que, para se encontrar Olavo Bilac, bastava estar às cinco horas na Confeitaria Colombo que ficava, como ainda hoje fica, na rua Gonçalves Dias, pertinho da Ouvidor. Antes disto, até 1894, a roda se reunia na Pascoal.
Em 1901, o estudante de 17 anos, Martins Fontes, foi apresentado a Olavo Bilac na Confeitaria Colombo. Tomado pela emoção, o jovem poeta mal conseguiu balbuciar, enquanto lágrimas brotavam-lhe dos olhos: - Senhor Olavo Bilac, consinta que lhe aperte a mão, o mais apaixonado dos seus admiradores... Eu o adoro...
Bastos Tigre também conheceu Bilac ali. Ao ser apresentado a ele por Emílio de Meneses, decepcionou-se, pois, segundo conta, quando esperava encantar-se com "pérolas do seu fino espírito de poeta", ouviu-o indagar prosaicamente a Guimarães Passos: - Seu Guima, que bicho deu?
Bilac e Coelho Neto foram os mais queridos homens de letras desse período. Quando a admiração e a amizade não conseguiam ultrapassar a barreira imposta pela timidez ou esquisitice de um Machado de Assis ou de um Rui Barbosa, era gratificante para o jovem literato do interior a receptividade simpática dos dois.
Foram Bilac e Coelho Neto os fundadores daquela vida literária feita de urbanidade e bom humor. Muito mais centrada na performance do meio social agitado do que na contemplação e no recolhimento. Esta mundanidade se manifestava, principalmente, através das tiradas de espírito, das anedotas e dos trocadilhos. A presença de espírito no salão era o cartão de visitas para adentrar neste mundo especial e ser recebido com carinho. Na esteira deste espírito risonho da época surgiram as tantas revistas de humor que terão papel de destaque nas primeiras décadas do século: O Malho, Fon-Fon, Careta, O Filhote, D. Quixote. Revistas que garantirão, daí para frente, na imprensa, o lugar do humor e da caricatura.
Nenhum período da história brasileira se igualará à virada do século XIX para o XX como era de ouro da anedota e da irreverência. Naquele momento combinaram-se circunstâncias, que, de poetas "sérios" e prestigiados, fizeram atores do grande teatro da irreverência nacional. Mas, apesar da razoável remuneração que a imprensa passara a lhes proporcionar, viviam com o orçamento apertado. Um recurso de que se valiam os literatos para completar a renda eram as quadrinhas publicitárias. Olavo Bilac, Guimarães Passos, Emílio de Meneses, Martins Fontes produziram versinhos de propaganda que ficaram na história.
Dos tantos poemas-reclame que Bilac produziu o mais interessante foi este com que termino essa crônica e que usei como epígrafe do primeiro capítulo de meu livro "Brasil pelo método confuso: humor e boêmia em Mendes Fradique" (Bertrand Brasil, 1992). Nele o poeta, para promover a Vela Brasileira, prevendo para esta vida longa, prevê ainda uma série de descobertas científicas que mudariam a vida da humanidade ao longo do século XX. Nem todas acertou o poeta neste poema que completa agora 110 anos e que segue para você, meu caro leitor, com os votos de um 2012 de muita Paz, Saúde e Prosperidade.
"Tem ano e meio apenas este século, / Mas apesar de sua tenra idade,/ Já mostra o que há de ser em eras próximas /Na adolescência e na virilidade, /Haverá coisas de espantar, escândalos / Maravilhas, surpresas, sensações, /Ardentes, estupendas e novíssimas/ Que excedam todas as suposições!/Voarão pelo mar os transatlânticos,/Comendo léguas e qualquer pessoa, /Partindo a tarde de Sebastianópolis/ Na mesma noite Ceará em Goa!/Hão de se ver aplicações elétricas/Que a alma sonha e que a expressão não diz,/ E esse que é o Deus das maravilhas, Edison,/Não passará de um reles aprendiz.../Quatro dias depois de morto e gélido,/ Qualquer sujeito-se tomar no lombo/ Dois ou três choques, saltará do túmulo/E irá comer empadas na Colombo.../ Far-se-ão crianças por processo químico,/ E, graças aos balões, há de qualquer/Ir, facilmente, de Mercúrio a Júpiter/ Como quem vai daqui ao Carceler.../ Não haverá segredos nem mistérios,/ Devassaremos todo o céu profundo,/ E o próprio Deus há de tremer no Empírio, /Arrependido de ter feito o mundo.../ Mas no meio de tais magnificências,/ Num perpétuo, num fúlgido arrebol,/ Há de uma coisa do passado pávido/ Brilhar eternamente como o sol:/ Essa coisa imortal, una de pluribus,/ Há de ser das primeiras a primeira;/ E há de chamar-se o século vigésimo. "0 século da Vela Brasileira", de Olavo Bilac, 1901.
Natalinas (24/12/11)
A crônica de Natal de que mais gosto é uma do Rubem Braga sobre essas mensagens de fim de ano que nos mandam carteiros, porteiros e entregadores de jornal. O então cronista da revista Manchete acabara de receber um cartão de Natal com o desenho de um sininho badalando no verso do qual se lia: "Aqui está nosso cartão/ Em prova de amizade/ Desejando-lhe Boas Festas/ Saúde e Felicidade.// Entra ano e sai ano/Trabalhando sem cessar./São os fieis Lixeiros/ Que vêm vos cumprimentar.//Mais um ano de trabalho/ Aqui estão quem vos prestou/ Apesar de bem cansados/As vossas ordens estou.//Os vossos Lixeiros/Artur, Emílio e Agenor".
Rubem adorou o poema e recompensou os poetas com uma nota de 50 cruzeiros. Mas ficou preocupado com a perspectiva da visita de outros poetas: o da tinturaria, o da padaria, o carteiro, etc. A caixa estava fraca e o bar vazio, diz Rubem: "só com um restinho de ´Vovó Extra´ que um amigo me trouxe de Fortaleza? Ah, aqui outrora retumbaram uísques...".
Daí que ocorreu ao cronista convidar seus colegas Henrique Pongetti e Fernando Sabino para fazer uns cartões com versos destinados aos leitores. Saiu um plágio descarado do cartão dos lixeiros que dizia assim: "Entra ano e sai ano/ Escrevendo sem cessar/ São os vossos fieis Cronistas/ Que vem vos cumprimentar./Feliz Natal e Ano Novo!//Se o uísque estiver sobrando/ Lembrai-vos destes Cronistas/Que de sede estão penando/Henrique, Rubem e Fernando".
Apesar dos protestos de Rubem, argumentando que não era justo que o padeiro ganhasse festas e "o cronista, afinal de contas um padeiro espiritual" não pudesse nem pedir, o poema foi rejeitado pelos colegas, em nome dos bons princípios, da boa ética - e, completa Rubem, "desconfio, um pouco também de seus maus fígados". O cronista encerra essa deliciosa crônica natalina dizendo: "Desisto da ideia - embora, naturalmente, eu seja incapaz de fazer uma desfeita se alguém, apesar disso, insistir em mandar uísque para a casa de um cronista pobre sim, mas soberbo, nunca!".
....
O Natal de 2010 passei em Paris, junto com meu filho e a namorada, na casa de Claudia Poncioni, brasileira gentil e amável, casada com Jean-Yves Mérien, ambos intelectuais, autores de obras importante. Ela, professora da Sorbonne, defendeu em 2010 sua tese de livre docência sobre o Engenheiro Vauthier, sobre qual lançou o livro "Pontes e Ideias - Louis-Léger Vauthier, um engenheiro fourierista no Brasil". Vauthier é aquele mesmo cujo diário intimo foi publicado por Gilberto Freire. Mérien é considerado um dos maiores especialistas na obra de Aluísio Azevedo, autor de alentada biografia do escritor maranhense, estudo ao qual dedicou muito anos. Ele também foi adido cultural de seu país na Argentina e no Brasil e, com suas vastas barbas, é a cara do Monet, do qual, aliás, trouxe para o Brasil uma mega-exposição, em 1997.
Jantar de família, para o qual a brasileira solidária que conhecera poucos meses antes em Lisboa não teve dúvida em chamar a compatriota solitária sem saber que eu tinha mais dois comigo. Logo também incluídos na lista de presentes. Claudia tem três filhos homens, sendo que os dois mais velhos, gêmeos, são do primeiro casamento. Um deles tão bem sucedido no mundo dos negócios internacionais que, de tanto correr o mundo, tinha até um cartão daqueles que o George Clooney sonhava ganhar naquele filme do qual não lembro agora o nome. Jantar chiqueréssimo, com aquela combinação tão francesa de simplicidade e sofisticação... Durante a conversa, meu filho, filiado ao PSOL e liderança do movimento estudantil em sua universidade, travou acirrado debate com o bem sucedido filho da minha amiga. Depois procurei aconselhá-lo: "tudo bem, meu filho, de fato ele é o inimigo, temos que destruí-lo, mas não precisa ser na noite de Natal, diante dos pais dele e depois de termos tomado todo o seu champanhe".
...
Neste Natal, ganhei o melhor dos presentes que foi assistir, na concha acústica da UFC, à formatura do meu filho, Francisco Bento, em Física. Fui invadida por uma sensação de plena felicidade quando cantava o Hino Nacional a plenos pulmões, no meio daquela multidão de pais e filhos emocionados e felizes. Ali dava para ver como tinha gente de todas as classes sociais. Dava para ver como é democrática a universidade pública no Brasil e sempre o foi. Eu que estudei na UFRJ e tive tantos colegas da Baixada Fluminense entre os contemporâneos sei que como é falso o discurso dos que defendem a privatização do ensino superior sob o argumento de que a universidade pública só forma meninos ricos. Se o ensino de primeiro e segundo grau fosse tão bom e gratuito como nossas universidades federais e estaduais teríamos muito mais meninos pobres se formando. Felizmente os economistas descobriram, depois de anos de políticas equivocadas em que este item era sacrificado em favor de um PIB mais elevado, que a educação é a principal criadora de riqueza de um povo. Nas condições atuais, em que é tão difícil a um menino pobre chegar a uma boa universidade, os tantos pais sertanejos que vi ali, orgulhosos e emocionados se fazendo fotografar junto com os filhos, merecem parabéns reforçados.
...
Também foi bom ver ali amigos do meu tempo de juventude com seus filhos também diplomados naquela noite. Estevão e Isabelle, professores das Ciências Sociais, pais de uma linda menina chamada Raquel, formada em Biologia, e a Vevé, Tereza Veronica, cujo filho, dela e do Valmik, ambos físicos e também professores da UFC, formava-se também em Biologia e é namorado da mesma bela Raquel aqui já mencionada. Nestes últimos tempos, essas surpresas da vida promovendo associações entre passado e presente têm me comovido. Será que é por causa do Natal?
Rubem adorou o poema e recompensou os poetas com uma nota de 50 cruzeiros. Mas ficou preocupado com a perspectiva da visita de outros poetas: o da tinturaria, o da padaria, o carteiro, etc. A caixa estava fraca e o bar vazio, diz Rubem: "só com um restinho de ´Vovó Extra´ que um amigo me trouxe de Fortaleza? Ah, aqui outrora retumbaram uísques...".
Daí que ocorreu ao cronista convidar seus colegas Henrique Pongetti e Fernando Sabino para fazer uns cartões com versos destinados aos leitores. Saiu um plágio descarado do cartão dos lixeiros que dizia assim: "Entra ano e sai ano/ Escrevendo sem cessar/ São os vossos fieis Cronistas/ Que vem vos cumprimentar./Feliz Natal e Ano Novo!//Se o uísque estiver sobrando/ Lembrai-vos destes Cronistas/Que de sede estão penando/Henrique, Rubem e Fernando".
Apesar dos protestos de Rubem, argumentando que não era justo que o padeiro ganhasse festas e "o cronista, afinal de contas um padeiro espiritual" não pudesse nem pedir, o poema foi rejeitado pelos colegas, em nome dos bons princípios, da boa ética - e, completa Rubem, "desconfio, um pouco também de seus maus fígados". O cronista encerra essa deliciosa crônica natalina dizendo: "Desisto da ideia - embora, naturalmente, eu seja incapaz de fazer uma desfeita se alguém, apesar disso, insistir em mandar uísque para a casa de um cronista pobre sim, mas soberbo, nunca!".
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O Natal de 2010 passei em Paris, junto com meu filho e a namorada, na casa de Claudia Poncioni, brasileira gentil e amável, casada com Jean-Yves Mérien, ambos intelectuais, autores de obras importante. Ela, professora da Sorbonne, defendeu em 2010 sua tese de livre docência sobre o Engenheiro Vauthier, sobre qual lançou o livro "Pontes e Ideias - Louis-Léger Vauthier, um engenheiro fourierista no Brasil". Vauthier é aquele mesmo cujo diário intimo foi publicado por Gilberto Freire. Mérien é considerado um dos maiores especialistas na obra de Aluísio Azevedo, autor de alentada biografia do escritor maranhense, estudo ao qual dedicou muito anos. Ele também foi adido cultural de seu país na Argentina e no Brasil e, com suas vastas barbas, é a cara do Monet, do qual, aliás, trouxe para o Brasil uma mega-exposição, em 1997.
Jantar de família, para o qual a brasileira solidária que conhecera poucos meses antes em Lisboa não teve dúvida em chamar a compatriota solitária sem saber que eu tinha mais dois comigo. Logo também incluídos na lista de presentes. Claudia tem três filhos homens, sendo que os dois mais velhos, gêmeos, são do primeiro casamento. Um deles tão bem sucedido no mundo dos negócios internacionais que, de tanto correr o mundo, tinha até um cartão daqueles que o George Clooney sonhava ganhar naquele filme do qual não lembro agora o nome. Jantar chiqueréssimo, com aquela combinação tão francesa de simplicidade e sofisticação... Durante a conversa, meu filho, filiado ao PSOL e liderança do movimento estudantil em sua universidade, travou acirrado debate com o bem sucedido filho da minha amiga. Depois procurei aconselhá-lo: "tudo bem, meu filho, de fato ele é o inimigo, temos que destruí-lo, mas não precisa ser na noite de Natal, diante dos pais dele e depois de termos tomado todo o seu champanhe".
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Neste Natal, ganhei o melhor dos presentes que foi assistir, na concha acústica da UFC, à formatura do meu filho, Francisco Bento, em Física. Fui invadida por uma sensação de plena felicidade quando cantava o Hino Nacional a plenos pulmões, no meio daquela multidão de pais e filhos emocionados e felizes. Ali dava para ver como tinha gente de todas as classes sociais. Dava para ver como é democrática a universidade pública no Brasil e sempre o foi. Eu que estudei na UFRJ e tive tantos colegas da Baixada Fluminense entre os contemporâneos sei que como é falso o discurso dos que defendem a privatização do ensino superior sob o argumento de que a universidade pública só forma meninos ricos. Se o ensino de primeiro e segundo grau fosse tão bom e gratuito como nossas universidades federais e estaduais teríamos muito mais meninos pobres se formando. Felizmente os economistas descobriram, depois de anos de políticas equivocadas em que este item era sacrificado em favor de um PIB mais elevado, que a educação é a principal criadora de riqueza de um povo. Nas condições atuais, em que é tão difícil a um menino pobre chegar a uma boa universidade, os tantos pais sertanejos que vi ali, orgulhosos e emocionados se fazendo fotografar junto com os filhos, merecem parabéns reforçados.
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Também foi bom ver ali amigos do meu tempo de juventude com seus filhos também diplomados naquela noite. Estevão e Isabelle, professores das Ciências Sociais, pais de uma linda menina chamada Raquel, formada em Biologia, e a Vevé, Tereza Veronica, cujo filho, dela e do Valmik, ambos físicos e também professores da UFC, formava-se também em Biologia e é namorado da mesma bela Raquel aqui já mencionada. Nestes últimos tempos, essas surpresas da vida promovendo associações entre passado e presente têm me comovido. Será que é por causa do Natal?
Organização (17/12/11)
Eu queria tanto ser uma pessoa organizada. Olho em minha volta e só vejo o caos.
Duas poltronas com um monte de livros empilhados que mal se equilibram, junto com papéis, tudo misturado e desarrumado. Na mesa, a mesma coisa. Pelo chão, revistas e livros junto com sapatos, sandálias, bolsas e também sacolas onde estão reunidos os papéis que já estiveram espalhados sobre a mesa e, em arrumação anterior, foram postos ali para um dia serem separados. Só que esse dia, apesar de já terem se passado meses, ainda não chegou e outras sacolas cheias de papéis foram se somando à primeira. O dia chegará pois sempre chega a hora em que o maior desorganizado sente que não vai poder dar mais nenhum passo, nem achará mais nada se não organizar tudo.
Como eu tenho inveja dos organizados.
Inveja e admiração pois gosto de ver tudo arrumadinho, cada coisa no seu lugar: a mesa limpa; os livros nas estantes; os papéis separados; as canetas, lapiseiras e a tesoura em um copinho.
Tem gente assim. Acaba de trabalhar e a mesa está impecável. Morei com uma amiga no tempo da faculdade em um apartamento pequeno no qual dividíamos o armário. Devia ter fotografado. Do lado dela, tudo estava bem direitinho, organizado em caixinhas, com as roupas distribuídas de acordo com uma ordem previamente definida em seus cabides, os sapatos nas prateleiras. E o meu lado, não dá nem para descrever.
E olha que tenho a maior raiva de gente desorganizada. Implico mesmo. Na verdade, há uma espécie de escala de desorganização. Eu creio que estou em um nível elevado, mas já vi gente muito pior. Já vi gente um pouco melhor do que eu (devia não nomear mas não resisto, é a minha irmã, a Clélia) mas não muito, implicar com a minha desorganização. Eu tenho meu limite e quando o caos se instala como hoje, aqui em volta da minha mesa, paro tudo e vou organizar.
Assim é também com a pia da cozinha. Não deixo comidas nos pratos e panelas ou qualquer coisa assim que possa atrair bichos. Faço até um pré lavagem para quando for lavar mesmo ficar mais fácil. Mas vou acumulando e empilhando até não ter mais espaço. É aí que eu lavo tudo. O que é uma besteira pois seria muito mais fácil usar, lavar e guardar.
Assim como também com os livros, os papéis, as coisas em geral. Pois quando acumula é que dá essa sensação de que virou uma tarefa hercúlea. Isto deve vir de um dos trabalhos de Hércules, conforme aprendi com Monteiro Lobato, que teve, entre seus doze trabalhos, o de limpar as cocheiras de um determinado rei. Deviam estar imundas para a tarefa precisar de um Hércules.
Minha fantasia mesmo é aquela do filme "Fantasia" em que o Mickey, encarregado de limpar uma cozinha, por um efeito mágico vê as coisas se limparem e organizarem por elas mesmas, sem que ele possa fazer esforço. Que maravilha seria com um simples piscar de olhos, como o da Feiticeira, ver os livros se erguerem sozinhos daquelas duas poltronas e cada um por si mesmo se direcionar e se encaixar em seu lugar na estante.
Eu já comprei um livro intitulado "Como se organizar". Foi motivo de hilariedade aqui em casa pois o Mario Bag conta para todo o mundo que este logo se perdeu em meio ao caos dos livros e nunca mais foi encontrado. Não é bem assim. O problema é que o livro, tal como toda dieta milagrosa, dizia tudo que a gente já sabe.
Pois o desorganizado não é desorganizado por não saber ser organizado. Como qualquer pessoa que está acima do peso e já tentou várias dietas, ele sabe exatamente o que deveria fazer para manter tudo em ordem. O problema é que não consegue. Ele é desorganizado por um impulso da natureza, por um tipo de compulsão, talvez por ansiedade ou obsessão, pelo fato de que quando está fazendo uma coisa não queira perder tempo ou pensar em outra qualquer.
Por isso que, na mesma casa, educados pelo mesmo sistema, irmãos podem ser absolutamente diferentes nessa matéria. Minha irmã Socorro, a Dadal, por exemplo, era toda arrumadinha no tempo do colégio. Sempre com o seu uniforme bem passado, a blusa de um branco imaculado, o cabelo bem penteado. É só ver as fotos dela quando estava no Normal do Colégio das Dorotéias.
Bom, o jeito é terminar essa crônica e meter a mão na massa. Esses dias de grande faxina, como naqueles desenhos do Norman Rockwell são um espetáculo à parte. Uma das características do meu padrão é a de manter uma certa ordem no caos. Essa consiste em guardar tudo mais ou menos de acordo com uma classificação. Assim, nas sacolas onde estão todos os papéis que saíram da mesa estão contas, textos, cartas, recortes de jornal, etc. Sairão daqui para pastas destinadas a cada um desses. Éééé... eu sou desorganizada mas consegui um dia fazer isto e, desde então, no dia da grande faxina, ponho essas coisas nos seus lugares e dou uma melhorada considerável no ambiente.
O problema é que no dia seguinte, ou mesmo, no mesmo dia começa tudo de novo. Os papéis voltam a se acumular, os livros saem da estante para serem consultados e não voltam mais, o sapato tirado para poder trabalhar mais confortavelmente jaz esquecido debaixo da mesa junto com umas revistas que não sei porque foram parar ali. Isto tudo agravado pelos equipamentos e fios associados ao computador, mais telefone, impressora, luminária e ventilador.
Meu consolo é saber que o Barão do Rio Branco, maior nome da história diplomática brasileira, quando morreu deixou em seu escritório uma sucessão de mesas atulhadas de papel. Consta que ele usava uma mesa e quando esta ficava tão caótica como a minha, pedia outra. Juntava mais coisas sobre aquela, pedia outra e assim por diante. Eu, pelo menos, só uso uma mesa. É que aqui não tenho espaço para botar outras.
Duas poltronas com um monte de livros empilhados que mal se equilibram, junto com papéis, tudo misturado e desarrumado. Na mesa, a mesma coisa. Pelo chão, revistas e livros junto com sapatos, sandálias, bolsas e também sacolas onde estão reunidos os papéis que já estiveram espalhados sobre a mesa e, em arrumação anterior, foram postos ali para um dia serem separados. Só que esse dia, apesar de já terem se passado meses, ainda não chegou e outras sacolas cheias de papéis foram se somando à primeira. O dia chegará pois sempre chega a hora em que o maior desorganizado sente que não vai poder dar mais nenhum passo, nem achará mais nada se não organizar tudo.
Como eu tenho inveja dos organizados.
Inveja e admiração pois gosto de ver tudo arrumadinho, cada coisa no seu lugar: a mesa limpa; os livros nas estantes; os papéis separados; as canetas, lapiseiras e a tesoura em um copinho.
Tem gente assim. Acaba de trabalhar e a mesa está impecável. Morei com uma amiga no tempo da faculdade em um apartamento pequeno no qual dividíamos o armário. Devia ter fotografado. Do lado dela, tudo estava bem direitinho, organizado em caixinhas, com as roupas distribuídas de acordo com uma ordem previamente definida em seus cabides, os sapatos nas prateleiras. E o meu lado, não dá nem para descrever.
E olha que tenho a maior raiva de gente desorganizada. Implico mesmo. Na verdade, há uma espécie de escala de desorganização. Eu creio que estou em um nível elevado, mas já vi gente muito pior. Já vi gente um pouco melhor do que eu (devia não nomear mas não resisto, é a minha irmã, a Clélia) mas não muito, implicar com a minha desorganização. Eu tenho meu limite e quando o caos se instala como hoje, aqui em volta da minha mesa, paro tudo e vou organizar.
Assim é também com a pia da cozinha. Não deixo comidas nos pratos e panelas ou qualquer coisa assim que possa atrair bichos. Faço até um pré lavagem para quando for lavar mesmo ficar mais fácil. Mas vou acumulando e empilhando até não ter mais espaço. É aí que eu lavo tudo. O que é uma besteira pois seria muito mais fácil usar, lavar e guardar.
Assim como também com os livros, os papéis, as coisas em geral. Pois quando acumula é que dá essa sensação de que virou uma tarefa hercúlea. Isto deve vir de um dos trabalhos de Hércules, conforme aprendi com Monteiro Lobato, que teve, entre seus doze trabalhos, o de limpar as cocheiras de um determinado rei. Deviam estar imundas para a tarefa precisar de um Hércules.
Minha fantasia mesmo é aquela do filme "Fantasia" em que o Mickey, encarregado de limpar uma cozinha, por um efeito mágico vê as coisas se limparem e organizarem por elas mesmas, sem que ele possa fazer esforço. Que maravilha seria com um simples piscar de olhos, como o da Feiticeira, ver os livros se erguerem sozinhos daquelas duas poltronas e cada um por si mesmo se direcionar e se encaixar em seu lugar na estante.
Eu já comprei um livro intitulado "Como se organizar". Foi motivo de hilariedade aqui em casa pois o Mario Bag conta para todo o mundo que este logo se perdeu em meio ao caos dos livros e nunca mais foi encontrado. Não é bem assim. O problema é que o livro, tal como toda dieta milagrosa, dizia tudo que a gente já sabe.
Pois o desorganizado não é desorganizado por não saber ser organizado. Como qualquer pessoa que está acima do peso e já tentou várias dietas, ele sabe exatamente o que deveria fazer para manter tudo em ordem. O problema é que não consegue. Ele é desorganizado por um impulso da natureza, por um tipo de compulsão, talvez por ansiedade ou obsessão, pelo fato de que quando está fazendo uma coisa não queira perder tempo ou pensar em outra qualquer.
Por isso que, na mesma casa, educados pelo mesmo sistema, irmãos podem ser absolutamente diferentes nessa matéria. Minha irmã Socorro, a Dadal, por exemplo, era toda arrumadinha no tempo do colégio. Sempre com o seu uniforme bem passado, a blusa de um branco imaculado, o cabelo bem penteado. É só ver as fotos dela quando estava no Normal do Colégio das Dorotéias.
Bom, o jeito é terminar essa crônica e meter a mão na massa. Esses dias de grande faxina, como naqueles desenhos do Norman Rockwell são um espetáculo à parte. Uma das características do meu padrão é a de manter uma certa ordem no caos. Essa consiste em guardar tudo mais ou menos de acordo com uma classificação. Assim, nas sacolas onde estão todos os papéis que saíram da mesa estão contas, textos, cartas, recortes de jornal, etc. Sairão daqui para pastas destinadas a cada um desses. Éééé... eu sou desorganizada mas consegui um dia fazer isto e, desde então, no dia da grande faxina, ponho essas coisas nos seus lugares e dou uma melhorada considerável no ambiente.
O problema é que no dia seguinte, ou mesmo, no mesmo dia começa tudo de novo. Os papéis voltam a se acumular, os livros saem da estante para serem consultados e não voltam mais, o sapato tirado para poder trabalhar mais confortavelmente jaz esquecido debaixo da mesa junto com umas revistas que não sei porque foram parar ali. Isto tudo agravado pelos equipamentos e fios associados ao computador, mais telefone, impressora, luminária e ventilador.
Meu consolo é saber que o Barão do Rio Branco, maior nome da história diplomática brasileira, quando morreu deixou em seu escritório uma sucessão de mesas atulhadas de papel. Consta que ele usava uma mesa e quando esta ficava tão caótica como a minha, pedia outra. Juntava mais coisas sobre aquela, pedia outra e assim por diante. Eu, pelo menos, só uso uma mesa. É que aqui não tenho espaço para botar outras.
A solidão, o elevador e o arranha-céu (3/12/11)
Lá em casa tinha um disco do Silvio Caldas. É engraçado dizer isto hoje quando, mesmo os CDs contendo centenas de músicas tornaram-se obsoletos porque no seu iPod você pode reunir todas as músicas que ouviu ao longo da vida e ainda sobra espaço. Mas na minha infância e adolescência um disco era algo importante e a gente tinha bem poucos para a família inteira, aliás.
No meu iPod reuni todas as músicas que eu quero ouvir até morrer. Parece exagero mas como são mais de setecentas e mesmo nas mais longas viagens que fiz de carro, daqui do Rio de Janeiro até Caxambu não deu para ouvir tudo, acho que serão essas mesmas as que vão me acompanhar daqui em diante. Eu as reuni quando estava escrevendo um trabalho de fôlego. Nas horas em que batia aquele tédio saía em busca de tal ou qual canção que ouvira não sei aonde na voz de não sei quem. E com a facilidade de achar na internet tantas versões ainda pude me dar ao luxo de escolher os arranjos que mais me agradavam aos ouvidos.
Então tem todos os gêneros. Quer dizer todos os gêneros que produziram alguma coisa que gostei de ouvir. Muita MPB, é claro, mas também, algumas clássicas americanas, alguns rocks antigos, algumas canções românticas. Uma série com nome de mulheres. Uma seleção de músicas de combate, liderada pela Marselhesa na voz de Mireille Mathieu; alguns tangos; alguns boleros; algumas guarânias; alguns sambas; alguns sambas-canção; um ou outro chorinho; fados e canções tradicionais italianas; umas canções sertanejas; uns frevos; algumas canções de musicais americanos; alguns clássicos, inclusive óperas; algumas poucas músicas instrumentais. Enfim, com raras exceções, consegui todas as músicas que queria ter e sempre que tenho que gastar longas horas viajando ou caminhando, essas velhas amigas me fazem companhia.
Dia destes por obra de uma tecla que no iPod se chama "aleatório", cheguei em música cantada pelo Silvio Caldas. O mesmo do disco do começo desse artigo. Não me lembro o título do disco mas lembro de várias canções. A começar pela "Minha palhoça", muito bonitinha, (ai, se você quisesse morar na minha palhoça); tinha "a tua vida é um segredo" que terminava dizendo: "são nossas vidas/ romances sempre iguais/três atos de mentira,/ cai o pano e nada mais". Como o pessoal era desiludido naquele tempo, heim?
Mas tinha também "Até amanhã", que é bem alegre; como também era alegre uma muito divertida que dizia "Foi uma pedra que rolou na ribanceira da desilusão e resultou, e resultou na causa mortis do meu pobre coração". Simples e boa era a que dizia; "Na aldeia, oi,/ na aldeia/ quero ver o seu vestido arrastando-se na areia". Acho que tinha também "Saudades dela": "vai saudade a casa daquela ingrata que deixou você prá mim" mas creio que não tinha duas músicas emblemáticas que ficaram sempre na minha memória associadas a Silvio Caldas. A primeira é "Violões em Funeral", aquela música em homenagem ao Noel Rosa, depois de sua morte. Digam o que disserem, mas eu continuo achando-a muito bonita: "Vila Isabel veste luto/pelas esquinas escuto/violões em funeral".
A outra música faz parte de uma brincadeira do Claudio Pereira quando me fez eleger Garota Cultural, em 1977. Ele incluiu numa das tantas matérias falsas que fez uma que dizia que quando cheguei ao Bar do Anísio fui recebida por um coro de admiradores que cantava a música de Silvio Caldas: "Nos braços de Isabel eu sou mais homem/Nos braços de Isabel eu sou um Deus". É de lasca, não é mesmo?
Dentre as músicas que tenho no meu iPod incluí algumas daquele disco. Não todas para não ficar chato e nem todas no vozeirão dele pois algumas releituras deram vida nova a muitas canções daquele tempo. A que ouvi naquele dia, por acaso, foi "Arranha céu", de Orestes Barbosa e do próprio Silvio Caldas. Como é da parte do final da coleção, quase nunca consigo ouvi-la. Aí, pude saboreá-la com o mesmo prazer que a gente tem quando, inesperadamente, ouve uma música de que gosta. A música começa assim: "Cansei de esperar por ela/ toda noite na janela/ vendo a cidade a luzir./ Nesses delírios nervosos/ dos anúncios luminosos/ que são a vida a mentir".
"Os anúncios luminosos que são a vida a mentir" é tudo de bom. Condizem com o espírito angustiado do sujeito que espera por uma mulher, sabendo que a anunciada vinda dela pode ter sido uma promessa tão falsa como a dos anúncios. Desconfia que ela não vem, mas espera assim mesmo, porque no estado em que está, só lhe resta esse fiapo de esperança. Os anúncios, são também chamados de "reclames" para rimar com "e disse ao peito não ames/ se teu amor não te quer". Mas a parte central desse drama romântico urbano e moderno está no verso: "E cada vez que subia/ o elevador não trazia/ essa mulher, maldição./ E quando lento gemia/ o elevador que descia,/ subia o meu coração".
Essa gangorra de sentimentos, durante a sofrida espera pela pessoa amada, com o ouvido ligado nos menores ruídos, fica ainda mais interessante por estar associada a um cenário moderníssimo. A música é de 1937 e, tanto os elevadores, quanto os arranha-céus ainda não eram tão comuns. A solidão deveria parecer mais acachapante dentro de um apartamento, no alto de uma daquelas torres cujas vidraças refletiam a profusão de luzes da grande cidade. Tem um momento de revolta em que o sujeito fala para si mesmo, tentando convencer-se a desistir, a renunciar, a esquecer: "descansa, fecha a vidraça/ esquece aquela desgraça/ esquece aquela mulher". Mas não adianta. A paixão é mais forte, domina o inconsciente como se revela no último verso:
"Deitei-me então sobre o peito
Vieste em sonho ao meu leito
E eu acordei, que aflição
Pensando que te abraçava
Alucinado apertava
Eu mesmo meu coração".
No meu iPod reuni todas as músicas que eu quero ouvir até morrer. Parece exagero mas como são mais de setecentas e mesmo nas mais longas viagens que fiz de carro, daqui do Rio de Janeiro até Caxambu não deu para ouvir tudo, acho que serão essas mesmas as que vão me acompanhar daqui em diante. Eu as reuni quando estava escrevendo um trabalho de fôlego. Nas horas em que batia aquele tédio saía em busca de tal ou qual canção que ouvira não sei aonde na voz de não sei quem. E com a facilidade de achar na internet tantas versões ainda pude me dar ao luxo de escolher os arranjos que mais me agradavam aos ouvidos.
Então tem todos os gêneros. Quer dizer todos os gêneros que produziram alguma coisa que gostei de ouvir. Muita MPB, é claro, mas também, algumas clássicas americanas, alguns rocks antigos, algumas canções românticas. Uma série com nome de mulheres. Uma seleção de músicas de combate, liderada pela Marselhesa na voz de Mireille Mathieu; alguns tangos; alguns boleros; algumas guarânias; alguns sambas; alguns sambas-canção; um ou outro chorinho; fados e canções tradicionais italianas; umas canções sertanejas; uns frevos; algumas canções de musicais americanos; alguns clássicos, inclusive óperas; algumas poucas músicas instrumentais. Enfim, com raras exceções, consegui todas as músicas que queria ter e sempre que tenho que gastar longas horas viajando ou caminhando, essas velhas amigas me fazem companhia.
Dia destes por obra de uma tecla que no iPod se chama "aleatório", cheguei em música cantada pelo Silvio Caldas. O mesmo do disco do começo desse artigo. Não me lembro o título do disco mas lembro de várias canções. A começar pela "Minha palhoça", muito bonitinha, (ai, se você quisesse morar na minha palhoça); tinha "a tua vida é um segredo" que terminava dizendo: "são nossas vidas/ romances sempre iguais/três atos de mentira,/ cai o pano e nada mais". Como o pessoal era desiludido naquele tempo, heim?
Mas tinha também "Até amanhã", que é bem alegre; como também era alegre uma muito divertida que dizia "Foi uma pedra que rolou na ribanceira da desilusão e resultou, e resultou na causa mortis do meu pobre coração". Simples e boa era a que dizia; "Na aldeia, oi,/ na aldeia/ quero ver o seu vestido arrastando-se na areia". Acho que tinha também "Saudades dela": "vai saudade a casa daquela ingrata que deixou você prá mim" mas creio que não tinha duas músicas emblemáticas que ficaram sempre na minha memória associadas a Silvio Caldas. A primeira é "Violões em Funeral", aquela música em homenagem ao Noel Rosa, depois de sua morte. Digam o que disserem, mas eu continuo achando-a muito bonita: "Vila Isabel veste luto/pelas esquinas escuto/violões em funeral".
A outra música faz parte de uma brincadeira do Claudio Pereira quando me fez eleger Garota Cultural, em 1977. Ele incluiu numa das tantas matérias falsas que fez uma que dizia que quando cheguei ao Bar do Anísio fui recebida por um coro de admiradores que cantava a música de Silvio Caldas: "Nos braços de Isabel eu sou mais homem/Nos braços de Isabel eu sou um Deus". É de lasca, não é mesmo?
Dentre as músicas que tenho no meu iPod incluí algumas daquele disco. Não todas para não ficar chato e nem todas no vozeirão dele pois algumas releituras deram vida nova a muitas canções daquele tempo. A que ouvi naquele dia, por acaso, foi "Arranha céu", de Orestes Barbosa e do próprio Silvio Caldas. Como é da parte do final da coleção, quase nunca consigo ouvi-la. Aí, pude saboreá-la com o mesmo prazer que a gente tem quando, inesperadamente, ouve uma música de que gosta. A música começa assim: "Cansei de esperar por ela/ toda noite na janela/ vendo a cidade a luzir./ Nesses delírios nervosos/ dos anúncios luminosos/ que são a vida a mentir".
"Os anúncios luminosos que são a vida a mentir" é tudo de bom. Condizem com o espírito angustiado do sujeito que espera por uma mulher, sabendo que a anunciada vinda dela pode ter sido uma promessa tão falsa como a dos anúncios. Desconfia que ela não vem, mas espera assim mesmo, porque no estado em que está, só lhe resta esse fiapo de esperança. Os anúncios, são também chamados de "reclames" para rimar com "e disse ao peito não ames/ se teu amor não te quer". Mas a parte central desse drama romântico urbano e moderno está no verso: "E cada vez que subia/ o elevador não trazia/ essa mulher, maldição./ E quando lento gemia/ o elevador que descia,/ subia o meu coração".
Essa gangorra de sentimentos, durante a sofrida espera pela pessoa amada, com o ouvido ligado nos menores ruídos, fica ainda mais interessante por estar associada a um cenário moderníssimo. A música é de 1937 e, tanto os elevadores, quanto os arranha-céus ainda não eram tão comuns. A solidão deveria parecer mais acachapante dentro de um apartamento, no alto de uma daquelas torres cujas vidraças refletiam a profusão de luzes da grande cidade. Tem um momento de revolta em que o sujeito fala para si mesmo, tentando convencer-se a desistir, a renunciar, a esquecer: "descansa, fecha a vidraça/ esquece aquela desgraça/ esquece aquela mulher". Mas não adianta. A paixão é mais forte, domina o inconsciente como se revela no último verso:
"Deitei-me então sobre o peito
Vieste em sonho ao meu leito
E eu acordei, que aflição
Pensando que te abraçava
Alucinado apertava
Eu mesmo meu coração".
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