Quem perde, ganha (21/1/12)

Não há felicidade que resista a uma sucessão de dias felizes. Não estou bem certa mas acho que essa frase é do Drummond.

E, de fato, a felicidade pede um pouco de exclusividade. Quando se torna corriqueira, banal, começa a apresentar defeitos, vem o tédio, o desinteresse.

Todo o mundo precisa de um pouco de sofrimento para dar valor aos momentos felizes. É então que eles passam a ocupar um lugar especial na galeria das lembranças. Só a infelicidade pode produzir a sensação do "eu era feliz e não sabia". Na verdade você não era feliz, apenas não era infeliz ou a vida antes era tão gratuitamente boa que você nem notava, nem dava valor.

A verdade é que um pouco de desilusão, algumas decepções, alguns insucessos fazem parte do aprendizado da vida. Se você sempre ganha, só vai saber o que vai sentir quando perder muito mais adiante, quando talvez não tenha mais capacidade de criar defesas, de achar soluções, de buscar novos caminhos.

Como aquelas pequenas celebridades que Hollywood inventa e paparica enquanto dão boa bilheteria e depois abandona quando perdem essa capacidade. Daí tantos astros mirins que se tornaram adultos complicados, auto-destrutivos. Ter sido tão amado e ser esquecido é algo difícil de absorver. Ainda mais quando não se tem maturidade e o sucesso parecia algo tão natural, tão garantido que não se pensava que a vida fosse possível sem ele.

Ganhar é muito bom. É um prazer e tanto. Mesmo em coisas bobas como um jogo entre amigos, a sensação do vencedor é prazerosa. Imagino o quanto não deve ser a felicidade de quem ganha na loteria. Menor talvez do que a daquele que ganha uma disputa em que seus talentos foram confrontados com outros e levaram a melhor. A sensação de superioridade é embriagante e a certeza de que se fez a coisa certa se estabelece. O derrotado pode até ter espírito esportivo, mas amarga sempre um certo despeito.

No entanto, é o insucesso que nos faz crescer. Insucessos são momentos bons para uma reavaliação, eles nos obrigam a esse tipo de balanço que quando tudo vai bem a gente nem pensa em fazer. Perdi. E agora? Agora é juntar os cacos. É pensar onde foi que eu errei, como fazer para acertar da próxima, que estratégia adotar diante desse insucesso. O meu mundo caiu não existe até porque o que não tem remédio, remediado está. O jeito é continuar vivendo e buscar forças para achar outro caminho.

Na minha adolescência, eu costumava anotar em agendas e cadernos longos diálogos comigo mesma. Guardo até hoje algumas dessas anotações com aquelas angústias cruciais, dores de cotovelo, frustrações e revoltas próprias da idade. Até hoje quando algo me desorienta muno-me de papel e lápis e escrevo na folha em branco: o que está pegando? É a pergunta que abre esse tipo de reflexão. Porque estou tão tensa? Porque essa sensação de dureza na nuca logo abaixo do pescoço tão característica? Quais são realmente os problemas que eu tenho?

Botar no papel o problema serve para visualizá-lo em suas reais dimensões e de forma racional e compreensiva. A sensação de estar sobrecarregado se reduz consideravelmente quando a gente faz a lista das coisas que realmente precisa fazer. Organiza-as por ordem de grandeza, por ordem de prioridade, por ordem de urgência. Depois, é preciso complementar com as ações a serem empreendidas.

Aí é que se vê que, muitas vezes os problemas pequenos misturados aos grandes é que dão essa sensação de estar carregando o mundo nas costas.

E alguns problemas são tão fácil de resolver que, às vezes, basta um simples telefonema: consertar a máquina de lavar; pagar alguma conta atrasada; marcar o dentista; trocar a lâmpada do banheiro, etc. Eliminando esses itens, a lista diminui consideravelmente.

Em seguida vêm os mais complicados. Elaborar um projeto de trabalho; escrever um texto difícil; terminar um capítulo da tese; estudar para um concurso que só vai acontecer daqui a meses. Esses problemas que pedem investimentos de longa duração e que exigem planejamento e disciplina. Para esses é preciso estabelecer uma rotina, escolher um horário para dedicar a eles e, principalmente, cumprir. Com a cabeça e a mesa arrumada, vai ficar mais fácil começar a trabalhar.

Tem situações mais dramáticas mesmo. Se você perdeu o emprego, não foi aprovado no concurso; não foi reeleito para o cargo x... é preciso traçar o plano B. Na verdade, o ideal é ter sempre um plano B, razoável e viável e não de todo incompatível com o investimento que você fez no plano A. Não dá para mudar de um dia para outro de carreira. Tudo exige investimento e o que foi investido numa área nem sempre serve para outra.

Mas conhecimento adquirido é algo que nunca se perde. Se você estava estudando para um concurso que envolvia muito conhecimento de Direito e não passou, porque não aproveitar e fazer uma graduação nessa área?

Se você investiu anos numa carreira e esta já não satisfaz porque não usar os conhecimentos e contatos adquiridos e fazer algo ligado àquela área mas que não seja exatamente a atividade principal?

Qualquer que seja a sua escolha, no entanto, o importante é ter a cabeça fria, organizada e consciente, pois a angústia e o desassossego não são bons conselheiros. Nem também é boa conselheira a alienação. A atitude daquele que, diante dos problemas, se entrega e deixa o barco correr.

A atitude daquele que deixa-se ficar inerme diante dos desafios que a realidade lhe coloca é uma forma de deserção da vida. É o caminho dos fracos e dos destinados a uma trajetória medíocre e sem brilho.

Vale lembrar, a propósito, o conselho que o pai dá ao filho na "Canção do Tamoio", de Gonçalves Dias:

"Não chores, meu filho, não chores,/que a vida é luta renhida. Viver é lutar./A vida é combate que aos fracos abate/e que aos fortes, aos bravos,/só pode exaltar".

Nenhum comentário:

Postar um comentário