Independência (7/1/12)

Para os de minha geração, o sonho de deixar a casa dos pais aos 20 anos era o ideal de independência. A vida sob o teto de papai e mamãe era cheia de regras e de impossibilidades. A casa era deles e nós éramos seus filhos. Deveríamos chegar a tantas horas, dizer para onde íamos, com quem íamos e o que faríamos. Quando se instalava o conflito era porque nós já não queríamos dar tantas satisfações e eles não queriam se conformar com isto. Ou melhor, eles se tornavam nossos reféns, pois sofriam temendo que algo nos acontecesse e não tinham coragem de nos dar a palavra final: rua.

Nós, o que queríamos era isso mesmo, ir para a rua, era enfrentar a vida de cara, sofrer, ganhar o pão com o suor do rosto, mesmo que não tivéssemos a menor ideia do que isto significasse. E acabávamos saindo. Íamos morar com amigos em repúblicas, quatro, cinco, seis pessoas, dividindo despesas e obrigações. Mas, para quase todos os que vem de uma família de classe média, essa independência é muito relativa e as contas da casa coletiva, ainda que modestas, não eram pagas com o suor do rosto dos ocupantes. Quase todo o mundo tinha um pai ou uma mãe aflitos em algum lugar que, ao menor sinal de sofrimento do pimpolho, abria imediatamente a bolsa. Ou movia céus e terras para arrumar uma colocação em algum lugar confortável para que o filhinho pudesse estudar em paz.

Então essa independência sem riscos reais, essa autossuficiência diante do mundo só se concretizava mesmo bem depois, quando - passados todos os níveis de formação, faculdade, mestrado e doutorado, financiados com bolsas de estudos - caíamos no mundo real: o mundo do trabalho. E esse mundo duro e competitivo nos encontrava, aos que sempre contaram com essa rede invisível de proteção familiar, desarmados e despreparados.

A verdade é que, durante esse tempo de estudos que, hoje, quase nunca ultrapassa os 30 anos, a formação pode ser mais rápida e a entrada no mundo real mais lenta. Antigamente o ideal é que fossem consumidos alguns anos no preparo da dissertação de mestrado e muitos anos no da tese de doutorado. Eram trabalhos que coroavam uma trajetória acadêmica. As teses de doutorado eram imensos tratados, às vezes compondo vários volumes de centenas de páginas. Algumas demoravam vinte anos para serem concluídas. Esse longo tempo de maturação podia resultar em teses que revolucionariam concepções cristalizadas. Mas, na maior parte das vezes, funcionava como um desestímulo, pois, com prazos tão estendidos, o sujeito ia fazer outras coisas e não concluía a tese.

No meu tempo, quem se formava tinha duas opções, correr para arrumar um emprego ou tentar o mestrado e obter uma bolsa. Dos meus colegas que logo fizeram concurso para o Banco do Brasil, a Caixa Econômica ou o Banerj, isto ainda durante o curso, poucos fizeram vida acadêmica. Eram empregos bons, bem pagos e que exigiam muito de quem os obtinha. Não dava vontade nenhuma de estudar depois do expediente. O salário era bom e o sujeito acabava constituindo família cedo e aí é que não voltava mesmo para a universidade. Este caminho, creio eu, desviou da academia alguns talentos.

Hoje, a formação universitária se democratizou mas também perdeu o valor que tinha no mercado de trabalho. Ter o diploma é essencial mas ter apenas o diploma não é mais garantia de emprego. A pós-graduação virou coisa obrigatória até para os que não fazem vida acadêmica, para os que ingressam no mundo dos negócios ou da administração empresarial ou pública. O doutorado não é mais visto como a consagração de uma carreira acadêmica mas sim como o final da formação dos que se preparam para se candidatar a uma vaga de professor ou de pesquisador.

Mas isto levou também a uma queda no padrão das teses e quem participa de bancas sabe disto. A obrigatoriedade do cumprimento do prazo sob pena da perda dos créditos para o aluno e de pontos para o programa de pós-graduação a que esteja filiado, leva a uma negociação difícil para o orientador junto aos demais membros da banca. Os colegas sabem como é penosa a vida hoje nos departamentos das universidades e se solidarizam. Acabam aprovando teses que pediriam mais tempo de pesquisa e de elaboração. Faltam ajustes para fazer com que essas teses prematuras tenham melhor qualidade. Talvez avaliações menos quantitativas e mais qualitativas sobre o que aquele programa produziu em termos de inovações ou de trabalhos que mudaram a forma de pensar determinados problemas.

De qualquer maneira, quando penso nos colegas que tiveram que desistir da faculdade para trabalhar, ou nos que, ainda hoje, não tendo pai e mãe que os amparem precisam ganhar, de fato, o pão com o suor de seus rostos, não posso deixar de sorrir diante dos que sonhavam com uma independência ilusória. Independência de mão única, pois a cada perigo que se apresentava, corríamos para papai e mamãe em busca de amparo material e mesmo psicológico.

Conheci há poucos anos uma menina, pequena e valente que perdera os pais muito cedo e que, ao lado da faculdade, tinha que trabalhar para se manter. Endurecera na luta e, contrariando o que recomendava aquele revolucionário, perdera muito de sua ternura. Sei que está destinada a vencer pois a realidade que já lhe foi tão cruel nos primeiros anos de vida, precisará ser muito adversa daqui em diante para derrubá-la. Por experiência própria sei que, os que como eu, tiveram o caminho aplainado por pai e mãe vigilantes, têm muito mais dificuldades para enfrentar os desafios que a verdadeira independência nos apresenta.

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