No começo do século XX, as estrelas da vida cultural brasileira eram os escritores e poetas que pontificavam nos cafés e confeitarias da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Dentre estes, a figura predominante era Olavo Bilac que receberia, em concurso promovido pela revista Careta, o título de Príncipe dos Poetas.
Boêmio, fã de Eça de Queiroz, tendo tido na juventude arroubos de espírito revolucionário, Bilac foi a principal figura da nossa Belle Époque. A vida dessa roda boêmia da qual também faziam parte Coelho Neto, Emilio de Menezes, Guimarães Passos, Martins Fontes e tantos outros se fazia entre a redação dos jornais e a mesa das confeitarias das quais as mais importantes eram a Colombo, a Pascoal e a Cailteau. Quase todas elas e também as sedes dos principais jornais ficavam na rua do Ouvidor ou em suas transversais.
As facilidades que experimentavam os jovens poetas e escritores recém-chegados ao Rio, na iniciação no meio literário, também estavam ligadas à morfologia da rua-vitrine. Era sabido em todos os cantos do Brasil que, para se encontrar Olavo Bilac, bastava estar às cinco horas na Confeitaria Colombo que ficava, como ainda hoje fica, na rua Gonçalves Dias, pertinho da Ouvidor. Antes disto, até 1894, a roda se reunia na Pascoal.
Em 1901, o estudante de 17 anos, Martins Fontes, foi apresentado a Olavo Bilac na Confeitaria Colombo. Tomado pela emoção, o jovem poeta mal conseguiu balbuciar, enquanto lágrimas brotavam-lhe dos olhos: - Senhor Olavo Bilac, consinta que lhe aperte a mão, o mais apaixonado dos seus admiradores... Eu o adoro...
Bastos Tigre também conheceu Bilac ali. Ao ser apresentado a ele por Emílio de Meneses, decepcionou-se, pois, segundo conta, quando esperava encantar-se com "pérolas do seu fino espírito de poeta", ouviu-o indagar prosaicamente a Guimarães Passos: - Seu Guima, que bicho deu?
Bilac e Coelho Neto foram os mais queridos homens de letras desse período. Quando a admiração e a amizade não conseguiam ultrapassar a barreira imposta pela timidez ou esquisitice de um Machado de Assis ou de um Rui Barbosa, era gratificante para o jovem literato do interior a receptividade simpática dos dois.
Foram Bilac e Coelho Neto os fundadores daquela vida literária feita de urbanidade e bom humor. Muito mais centrada na performance do meio social agitado do que na contemplação e no recolhimento. Esta mundanidade se manifestava, principalmente, através das tiradas de espírito, das anedotas e dos trocadilhos. A presença de espírito no salão era o cartão de visitas para adentrar neste mundo especial e ser recebido com carinho. Na esteira deste espírito risonho da época surgiram as tantas revistas de humor que terão papel de destaque nas primeiras décadas do século: O Malho, Fon-Fon, Careta, O Filhote, D. Quixote. Revistas que garantirão, daí para frente, na imprensa, o lugar do humor e da caricatura.
Nenhum período da história brasileira se igualará à virada do século XIX para o XX como era de ouro da anedota e da irreverência. Naquele momento combinaram-se circunstâncias, que, de poetas "sérios" e prestigiados, fizeram atores do grande teatro da irreverência nacional. Mas, apesar da razoável remuneração que a imprensa passara a lhes proporcionar, viviam com o orçamento apertado. Um recurso de que se valiam os literatos para completar a renda eram as quadrinhas publicitárias. Olavo Bilac, Guimarães Passos, Emílio de Meneses, Martins Fontes produziram versinhos de propaganda que ficaram na história.
Dos tantos poemas-reclame que Bilac produziu o mais interessante foi este com que termino essa crônica e que usei como epígrafe do primeiro capítulo de meu livro "Brasil pelo método confuso: humor e boêmia em Mendes Fradique" (Bertrand Brasil, 1992). Nele o poeta, para promover a Vela Brasileira, prevendo para esta vida longa, prevê ainda uma série de descobertas científicas que mudariam a vida da humanidade ao longo do século XX. Nem todas acertou o poeta neste poema que completa agora 110 anos e que segue para você, meu caro leitor, com os votos de um 2012 de muita Paz, Saúde e Prosperidade.
"Tem ano e meio apenas este século, / Mas apesar de sua tenra idade,/ Já mostra o que há de ser em eras próximas /Na adolescência e na virilidade, /Haverá coisas de espantar, escândalos / Maravilhas, surpresas, sensações, /Ardentes, estupendas e novíssimas/ Que excedam todas as suposições!/Voarão pelo mar os transatlânticos,/Comendo léguas e qualquer pessoa, /Partindo a tarde de Sebastianópolis/ Na mesma noite Ceará em Goa!/Hão de se ver aplicações elétricas/Que a alma sonha e que a expressão não diz,/ E esse que é o Deus das maravilhas, Edison,/Não passará de um reles aprendiz.../Quatro dias depois de morto e gélido,/ Qualquer sujeito-se tomar no lombo/ Dois ou três choques, saltará do túmulo/E irá comer empadas na Colombo.../ Far-se-ão crianças por processo químico,/ E, graças aos balões, há de qualquer/Ir, facilmente, de Mercúrio a Júpiter/ Como quem vai daqui ao Carceler.../ Não haverá segredos nem mistérios,/ Devassaremos todo o céu profundo,/ E o próprio Deus há de tremer no Empírio, /Arrependido de ter feito o mundo.../ Mas no meio de tais magnificências,/ Num perpétuo, num fúlgido arrebol,/ Há de uma coisa do passado pávido/ Brilhar eternamente como o sol:/ Essa coisa imortal, una de pluribus,/ Há de ser das primeiras a primeira;/ E há de chamar-se o século vigésimo. "0 século da Vela Brasileira", de Olavo Bilac, 1901.
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