Paixões e decepções: a velha história (15/2/14)

Outro dia, em uma festa, encontrei com uma amiga, pouco mais nova que eu, que me apresentou ao novo namorado. Sujeito simpático, mais velho que ela (ao contrário do namorado anterior) e muito bem situado na vida. Em momento em que ficamos a sós, perguntei como estava indo o relacionamento e ela disse sem pestanejar que aquele namorado era não só o melhor que já tinha tido como também a pessoa mais legal que ela já conhecera na vida. Naturalmente que o estado de evidente apaixonamento da minha amiga responde por 90% do dito, isto sem demérito do felizardo que é objeto de tanta admiração. É que quando a gente está apaixonada nenhum dos defeitos da pessoa parece evidente. Ou, melhor dizendo, podem até parecer evidentes mas em tudo a gente acha graça.

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Vi na televisão um filme do Ben Stiller, comédia bobinha sobre um sujeito complicado, meio solteirão que o acaso fez encontrar uma garota maravilhosa. Rola um envolvimento, a moça é adorável, adora fazer sexo com ele e eles parecem ter tudo em comum. Ele ainda hesita, mas todo mundo à sua volta diz que ele tem que casar com ela. Casam e partem em lua-de-mel para o México. A viagem começa ótima, com os dois cantando uma canção de que ambos gostavam. Mas foi o restante da trilha musical que começou a marcar a diferença. Não só o repertório que a moça apreciava era insuportável quanto a energia com que ela cantava, aos berros, tornaram o restante da viagem um tormento. E o México ficava longe. Daí para diante o casamento foi ladeira abaixo e não sobreviveu à lua-de-mel.

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A meu ver não é o pouco tempo que dura a relação que define o desastre. Às vezes, uma simples mudança de lugar ou de rotina pode destruir um casamento que vinha sendo, até ali, feliz. Lembro de uma amiga do tempo da faculdade que reencontrei na praia, em Ipanema, muitos anos depois e que vivia há algum tempo com um estrangeiro. Pareciam felizes, o sujeito era meio reservado com os amigos dela, mas entre eles parecia que tudo ia bem. Fui à festa de despedida que os dois promoveram quando, finalmente, depois de anos juntando dinheiro e se preparando, conseguiram comprar e equipar o veleiro onde pretendiam viajar por um ano. Pouco depois, eu soube: o casamento acabou durante o convívio entre o exíguo compartimento que servia de habitação e o tombadilho do veleiro. Não chegaram nem à Bahia.

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Também não foi bom para a relação de 25 anos entre um famoso escritor e uma bela mulher a decisão de viverem juntos. Iam bem, se amavam, mas cada um vivendo na própria casa, cada qual no seu quadrado, como se diz. Daí, resolveram se juntar e a experiência foi tão traumática que se tornaram inimigos para o resto da vida dele, que morreu primeiro e fez questão de apagar o nome da ex-amada de todas as dedicatórias nas novas edições de seus livros.

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Mas há os eternos otimistas, os que não aprendem nunca com a experiência ou talvez tenham uma vontade tão grande de viver de novo o começo de uma paixão que prefiram esquecer tudo o que foi sofrido nas anteriores. Tenho uma amiga que é um verdadeiro fenômeno de repetição. O ciclo já é bem conhecido. Conhece um cara, se encanta por ele, acha que é a pessoa mais incrível do mundo, não sossega enquanto não o conquista e, mais grave ainda, enquanto não casa com o tal sujeito. Aí começa a vida a dois, a compra dos móveis e eletrodoméstico, a decoração da casa, os finais de semana felizes na companhia dos filhos de um e da outra. Mas depois a coisa normaliza, tudo vira rotina e se estabelece o tédio. O marido maravilhoso começa a dar defeito. Quando a gente quer achar defeito em alguém pode procurar que acha mesmo. A infelicidade dela é real e se revela no chorado da voz, no desleixo com a aparência, no aumento de peso e na roupa largada, em meio a um cotidiano de disputas que, com muita frequência, envolvem os filhos. O casamento acaba, ela comemora, começa a se cuidar de novo, fica magra, elegante, bela e, fatalmente, acaba encontrando outro alguém maravilhoso. E a história se repete, se repete, se repete e se repete. Com muito sofrimento para todo os envolvidos.

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Todo o mundo já se apaixonou, se deslumbrou e se decepcionou. E com o tempo isto vai criando um certo ceticismo diante das relações. Aí quando você conhece alguém novo não entra mais de peito aberto e começa a avaliar de forma fria e calculada qualidades e defeitos. Exemplar disto foi uma amiga que me ligou, depois de uma festa de aniversário minha, para pedir referências sobre um ex-namorado meu, que estava lá e com quem iniciara um flerte. Achei a medida muito sensata pois, na verdade, se você pede referências a quem vai trabalhar na sua casa, mais razão ainda tem de pedir sobre um sujeito que vai entrar lá, dormir, conviver com seus amigos e filhos, etc. Nestes tempos de mulheres canalhas como as criadas para o GNT pela sobrinha de Mario Bag, Martha Mendonça, seria o caso mesmo de criar uma tabela como a das escolas de samba, com notas para vários quesitos: evolução, harmonia, bateria. Ou dos dados que se pedem para domésticas: pontualidade, organização, limpeza, confiabilidade, se dorme no emprego...

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Conviver é uma difícil arte. E quem já conviveu muito em relações dos mais diversos estilos sabe que entre o encanto inicial e o tédio de um dia a dia compartilhado não vai uma distância muito grande. Melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar, já dizia Machado. O fato é que se o tempo não prepara a gente para tudo nos deixa com a casca mais grossa para suportar as feridas. Mas também marca a nossa vida com uma dose de melancolia e de desencanto. Por isto não pude deixar de invejar a alegria e a confiança de minha amiga com relação ao seu novo amor, o brilho nos seus lindos olhos verdes. Torço por ela que é sensata e inteligente e talvez dê um jeito de não mudar nada do que está dando certo até agora.

Meus mortos e sua geografia (8/2/14)

Tem uma esquina na rua Voluntários da Pátria, onde, sempre que por ela passo me lembro de meu falecido amigo Luis Carlos Saroldi. Apenas porque ali, uma ou duas vezes o peguei, eu dirigindo meu carro para irmos a algum lugar. Saroldi voltara a morar ali junto com mãe de seus filhos depois que tivera um câncer. Tratara-se e parecia curado pois também o  via nas manhãs na Lagoa fazendo seus exercícios. Numa das vezes em que o encontrei na Voluntários e fomos a algum lançamento de livro de amigo comum, falamos da morte. Eu falei da morte e do medo da morte. Como se tanto a morte quanto o medo dela tivessem sido espantados da vida dele. Homem da poesia, da música, do teatro e do rádio que o acaso fizera meu amigo, deixou saudosos a mim e a uma legião de outros tantos amigos.
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Também me lembro de Plínio Doyle sempre que passo pelo Jardim de Alah, em Ipanema. Era ali que ficava seu apartamento, com sala ampla o bastante para reunir toda a confraria do Sabadoyle. Muitos dos que tinham sido os primeiros freqüentadores daquelas reuniões singelas já tinham desaparecido mas a tradição se mantinha por determinação do dono da casa. Era bom saber que todos os sábados de tarde naquele ponto do Jardim de Alah estava o Plínio reunido com seus amigos, em animada conversa, seguida da cerimônia de leitura da ata e do cafezinho com biscoitos. Ali voltei algumas vezes durante a semana em companhia de Homero Senna para entrevistar o dono da casa. Íamos fazer um livro reunindo suas memórias. O livro não saiu, acabou sendo feito pelo próprio Plínio que se animou com as conversas mas preferiu escrevê-lo.
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Junto com Homero Senna visitei também a Américo Jacobina Lacombe em seu apartamento na rua 19 de fevereiro, em Botafogo. Era um prédio muito do bonitinho, com janelas verdes se não me engano e de poucos apartamentos. O prédio foi derrubado e em seu lugar ergueu-se um outro e sempre que passo por aquela rua fico pensando em qual lugar mesmo era o prédio do Lacombe. O presidente da Casa de Rui Barbosa, historiador de mão cheia que na narrativa juntava a história do Brasil à historia de seus ancestrais, contou-nos histórias formidáveis que reuni numa pequena publicação da Casa.
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Homero Senna, ele mesmo já partiu e a última lembrança que tenho dele é sentado em um banco do Largo dos Leões, no Humaitá. Vi-o apenas de longe pois há muito se aposentara. Era uma sombra daquele senhor alto, forte e de aparência sóbria e reservada. Alguns golpes da vida o tinham maltratado. Morava ali perto, numa casa muito boa, em rua agradável sombreada por arvores e sempre que passo pelo Largo dos Leões me lembro da última visão que tive desse antigo diretor do Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa, último dos velhos servidores que davam ao lugar uma aura tão especial.
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Toda vez que vou na Tijuca e paramos nas Casas Pedro para comprar castanhas-do-pará me lembro de Aparecida Saramago. Nunca a encontrei ali. Mas a casa dela fica em uma rua que passa detrás daquela loja e a qual se pode chegar por um beco que fica entre a mesma e uma igreja. Rua muito simpática, chama-se Carlos de Laet, toda ela de casas boas onde ainda conheci a viúva de José Madeira de Freitas, o Mendes Fradique, pai de Aparecida. Da pesquisa e do livro que escrevi sobre o autor da “Historia do Brasil pelo método confuso” restou uma amizade com essa dama alta, elegante, de pele e olhos muito claros, nariz aquilino e todos os modos de uma aristocrata inglesa associados à bondade e à delicadeza de uma dona de casa carioca. Quando Aparecida morreu eu estava em Caxambu, participando da ANPOCS e senti muito quando me deram a notícia. Ela me queria tanto bem. Era tão grata pelo reconhecimento tardio que o meu trabalho significou para a memória do pai que dizia que eu era o filha mais nova de Mendes Fradique.
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Não passo pela rua André Cavalcanti, na Lapa, sem tentar identificar o prédio onde morou meu amigo Juarez Araújo. Colega de faculdade, gente boa toda a vida, Juarez era o tipo do cara despachado, virador, muito pobre que estava sempre achando uma forma de ganhar algum dinheiro, dessas pequenas oportunidades que só existem em grandes cidades. Coisa que eu não sabia então e por isso aconselhei Juarez e ir tentar a vida em Fortaleza. Apesar da boa acolhida na casa do Pereira, na Beira-Mar, em Fortaleza não havia os expedientes que um cara virador encontra no Rio de Janeiro para sobreviver. A cidade grande assustadora para quase todo o mundo é o espaço onde um tipo assim sempre pode achar o que fazer. Voltou logo e a última coisa que o vi tentando foi vender livros raros. Achava coisa boa no sebo e procurava vender aos conhecidos do tempo da faculdade. A diabete crônica que o deixara desmaiado uma vez na minha casa, acabou levando cedo esse bom camarada do qual todos nós gostávamos.
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Ficava num pedaço de rua meio escondido de Laranjeiras o apartamento da Rejane. Raramente passo por lá pois é uma espécie de atalho para se voltar de Laranjeiras para Botafogo. Mas quando passo, olho os prédios e tento me lembrar em qual deles morava a minha amiga. Em qual deles ficava aquele apartamento arejado, claro, com o piso de taco muito bem cuidado e na porta do qual se lia: “visitas são bem vindas, especialmente as visitas descalças”. Pois para entrar na casa de Rejane a gente tinha que tirar os sapatos. E sua casa era a casa de todos nós e de nossos filhos. Ela que não os teve, fazia com gosto o papel de tia e madrinha. Pequena, magra, loura e valente era também alguém que trabalhava duramente para viver. E se garantia com a competência e a seriedade com que encarava as tarefas que lhe davam. Apesar de ter desistido da vida acadêmica ainda no mestrado, esteve sempre envolvidas em trabalhos que exigiam pesquisa, conhecimento e boa escrita. Coisas nas quais era craque.  

Desgraça pouca é bobagem (4/1/14)

Um momento de desgraça pode arruinar uma vida. Dias vividos em uma situação desgraçada deixam marcas para o resto da vida. Agora quando a desgraça acompanha alguém por muitos anos, desde o berço até a idade adulta é bem possível que esse alguém tenha seu caráter, sua personalidade e mesmo sua sanidade mental conformados pela desgraça em que viveu. Será um revoltado ou mesmo alguém que revolveu devolver ao mundo todo o mal que sofreu se tornando um criminoso cruel. No entanto, tem gente que passa pelas maiores desgraças e sai lá do outro lado com a alma leve, a capacidade de amar e perdoar e mesmo o senso de humor integralmente preservados.

Conheço poucos casos assim, mas conheço. Essas pessoas não cansam de me surpreender. É o caso da Fátima que vai uma vez por semana na casa da minha mãe passar roupa. Sabia pouco sobre ela, pois quando começou a trabalhar para os meus pais eu já tinha saído de casa. Sempre com um sorriso amável, um ar meio brincalhão mas muito respeitoso, tem um jeito singelo de falar e contar as coisas que é, a meu ver, verdadeiramente cativante. Da última vez a conversa se prolongou entre um cafezinho e outro na área de serviço. Ouvi-a falar ao telefone sobre um tal de Marreco que tinha sido morto lá no Pirambu, perto de onde ela mora. Marreco parece que era mau feito um pica-pau, tinha 25 anos, mas barbarizava na vizinhança desde os doze. Apelidado de Marreco por que andava meio de banda pois levava alojadas nas pernas algumas tantas balas. Pelo que me contou a Fátima, o Marreco é o exemplo mais bem acabado do que disse no primeiro parágrafo sobre gente deformadas pela desgraça. Sua mãe, que nunca dele se ocupou de verdade, teve 17 filhos, dos quais 4 morreram de tiro. Dois porque a bala que os procurava os achou, e outros dois porque foram achados por balas perdidas. Talvez enquanto devaneando em algum trabalho humilde sobre um destino diverso daquele dos irmãos criminosos.

Para a Fátima todo morto é finado. Até o “finado Marreco” e seus irmãos. Entre os mortos de Fátima não tem distinção de classe. Ela é do interior do Ceará, um lugar prá lá de Sobral que se chama Croatá. Sua mãe a vendeu quando ela tinha 10 anos, junto com mais duas irmãs menores, a um sujeito que as distribuiu em casas de famílias de Fortaleza. Antes disto a infância da Fátima também não foi bolinho. Ela e os irmãos pediam esmola nas portas das casas, percorrendo longas estradas escaldadas pelo sol do sertão, às vezes por três dias seguidos. Voltavam com seu quinhão de farinha que a mãe vendia para tomar cachaça.

Por isso o trabalho em uma casa de família de Fortaleza fazendo todo o serviço foi até um refresco. Já mocinha foi a uma festa e na volta aceitou a companhia de dois sujeitos que se ofereceram para levá-la em casa. No caminho, abusaram dela e Fátima descobriu-se grávida com uns 14 ou 15 anos. Seis anos depois, com a morte da patroa, Fátima se viu na rua com filha e sem emprego. Teve a sorte de alguém lhe recomendar como engomadeira para trabalhar na casa do “finado Costa”. Finado Costa, como Fátima o chama, era meu pai, Francisco Ferreira Costa, que sempre teve um tremendo “feeling” para reconhecer gente boa, honesta e trabalhadora. E foi assim que Fátima entrou para o elenco de pessoas que estão integradas à minha família de forma definitiva.

O finado Costa também merece a eterna gratidão da Fátima porque ajudou-a na construção de sua primeira casinha no Pirambu, dando-lhe as portas e janelas. Fátima então, já estava vivendo com outro sujeito do qual teve mais dois filhos. O casamento acabou mas apareceu outro amor, o último marido do qual Fátima não teve filhos mas, como em casa do pobre sempre cabe mais um, adotou outras duas crianças. Eu perguntei: mas, Fátima como é que tu já tinha quatro filhos para criar e ainda arrumou mais dois? Ela disse que botaram na porta dela e, por isto, ela teve de ficar com elas.

Fátima não faz distinção entre os filhos naturais e adotivos. O amor é o mesmo. Talvez até maior. Um dos adotados, aliás, se meteu em confusão e esteve preso duas vezes. Da  primeira ficou um ano e, é claro, saiu de lá pior do que entrou. Fátima conhece como é a vida no interior dos presídios e sofreu na pele a chantagem de um bandido português que dominava a cela em que o filho estava e exigia pagamento para tudo. Até para o sujeito dormir no chão tinha que pagar uma taxa. Para receber a visita da mãe, outra. Os recalcitrantes eram levados a um canto da cela onde a fiação elétrica estava exposta e eram eletrocutados. Ela conseguiu que o defensor público tirasse o filho das garras do português sem ter que pagar a verdadeira fortuna que este exigira fosse depositada em sua conta no banco. O filho da Fátima acabou saindo da prisão onde a mãe nunca deixou de visitá-lo. Hoje está recuperado e é um trabalhador.

Depois que a vida se organizou na casinha do Pirambu, a mãe de Fátima resolveu aparecer na vida dela. Veio a Fortaleza e convenceu a filha a mudar-se para Croatá afim de viver perto dela e dos outros irmãos que por lá tinham ficado. A vontade de ser aceita por uma mãe que fora tão desalmada foi maior do que a memória do sofrimento. Fátima que tinha se separado do segundo marido, vendeu a casa e partiu para o sertão. Ficou lá apenas 9 dias. Tempo suficiente para recuperar a consciência da boa bisca que era a mãe  e do interesse exclusivo que tinha no dinheiro da venda da casa. Como ela disse concluindo esta história: “Eu descobri que ela não era minha mãe. Porque mãe é quem cuida, é quem dá as coisas para os filhos e não quem tira dos filhos”. Sorte e visão prática adquirida ao longo da vida fizeram com que Fátima encontrasse outra casa boa no Pirambu e comprasse. É lá que ela vive agora com filhos e netos, casa sempre cheia de gente, coisa da qual fala como quem fala de um rico patrimônio, pois é desse jeito que ela é feliz. A filha mais velha de Fátima formou-se em Letra pela UFC e faz pós-graduação.

Em casa (28/12/13)

Não sei se acontece o mesmo com vocês mas para mim não há outro lugar além da minha casa em que eu me sinta tão em casa como na casa de mamãe. É reconfortante chegar e ver a mesma grande mesa da sala de jantar com suas cadeiras simples, quase rústicas; o móvel da sala com um imenso espelho que ninguém sabe o que foi originalmente, (talvez  penteadeira?); a enorme gravura do Sagrado Coração de Jesus que eu achava que era coisa rara até ver, desapontada, reproduções à venda nos camelôs do Rio; o santuário com todas as estátuas de santos, com destaque para a de Jesus, Maria e José, diante da qual rezamos tantas vezes o terço em família e as fotos de todos nas paredes e nos porta-retratos. E no centro de tudo, mamãe. Ver e conversar com ela, capturando ainda algo do seu ótimo humor, apesar das tantas mazelas que os cem anos a serem completados em junho de 2014 trazem, é tudo de bom. Quando Lúcia perguntou-lhe se achava que ela, Lúcia ia também viver cem anos, ouviu um “não”. A filha não iria viver tanto porque, segundo a mamãe, cem anos é tempo demais. Parece que mamãe, ao contrário de nós, não está achando muita graça no centenário.

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Outro conforto de ter uma família grande como a nossa e do qual sinto a maior falta no Rio é contar com os serviços dessa verdadeira comunidade formada por meus tantos sobrinhos. Se eu precisar de um “personal trainer” conto com minha linda afilhada, Luanda. Se o caso merecer a atenção de um endocrinologista, corro para outra sobrinha, Fabiana Coretti. Também temos dentista: Gemina, filha do Carlos. Quando quis vestir modelo exclusivo para receber a Sereia de Ouro no Teatro José de Alencar, a estilista da família, minha sobrinha-neta Beatrice Melo, não só desenhou um lindo vestido como orientou sua confecção. Precisando de polícia, chamo o delegado Raufilio Vidal, marido da Juliana ou o Benone, marido da Silvia. Se o caso é consultar advogado, não me aperto, pois posso a qualquer momento recorrer ao Max Camara, marido da Sellene ou à jovem e promissora especialista em justiça do trabalho, Liana Alencar, mulher do Cláudio. Se eu ganhar na Sena peço orientação sobre o que fazer com o dinheiro ao financista da família, Célio Fernando, marido da Evelucia e pai da Beatrice. E acho que quando me tornar milionária, solicitarei à dona Iolanda que libere minha sobrinha, Mirian, contadora do grupo Edson Queiroz para gerir minha fortuna.

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Fui com minha irmã Clélia e Vera Mamede visitar o Estrigas no Mondubim e com alegria o vimos vir lá de sua casinha de telhas, no meio das mangueiras, com suas pernas ainda ágeis nos abrir o portão. Ali, na mesma velha varanda, a mesma conversa boa de sempre fluiu amável com a presença espiritual da Nice pairando em cada canto do jardim/quintal que ela cultivava com tanto amor. Na conversa, relembramos do velho pintor João Maria Siqueira (tema, aliás, de ótimo artigo de Flavio Paiva publicado no DN em 19/07/2007). Por iniciativa do Lustosa tive umas poucas aulas de pintura com ele na Casa de Cultura Raimundo Cela criada pela recentemente desaparecida dama das artes cearenses, Heloísa Juaçaba. Estrigas me contou que o Siqueira foi ordenado frade mas depois que largou o hábito nunca mais sossegou: foi pintor, cineasta e um monte de outras coisas. A meu ver conservou sempre alguma coisa de monacal no estilo sóbrio e reservado. Eu sabia de um filme feito por ele: “Rede de dormir”, mas Estrigas me contou que ele fez mais dois, um deles sobre outro pintor, Antonio  Bandeira. O Estrigas acha que Siqueira como pintor queria ser moderno mas era irremediavelmente acadêmico. Esperava produzir obra como a de Raimundo Cela. Apesar dos seus inegáveis méritos não conseguiu.

Estrigas disse que o médico ainda queria operá-lo de novo para colocar mais um stent. Mas ele garante que não se opera de novo. Acha que se viver um ou dois anos a mais está no lucro. Continua morando sozinho na casa-museu, com a mesma modéstia e atitude zen diante da vida. Bem que o Pedro Eimar – que também foi meu professor de desenho na pré-história – e dirige com a maior competência o Museu de Arte da UFC, podia dar uma alegria ao velho reabrindo a sala Aldemir Martins com a coleção de 22 originais doados pelo Estrigas. Quem sabe pondo ali uma plaquinha registrando este gesto de extrema generosidade de um artista pobre para com uma universidade rica. Lustosa dizia que depois que morresse queria, como na música, “prece e nada mais”.  Preferia receber todas as homenagens a que tinha direito em vida. Desconfio que o agnóstico Estrigas também é da mesma filosofia.

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Mas o melhor de vir a Fortaleza é mesmo reencontrar Fortaleza. Não chego ao ponto de ter aquela paixão que tinha o Lustosa e que ficou eternizada na frase: “Fortaleza, voltei meu lugar é aqui. Além de Messejana estou no exílio...” pois,  depois de 36 anos de Rio, acho que meu lugar é lá. Mas aqui em Fortaleza me sinto muito mais em casa. Ainda no caminho do aeroporto para o apartamento de mamãe bate alguma sensação indefinida, talvez por causa da brisa que balança levemente os galhos das arvores, ou por conta de um cheiro característico que sobe da terra junto com o calor; enfim por algo que remete a tantas lembranças remotas e essenciais. Sensação que se completa com o mergulho neste universo familiar em torno de mãe, da qual eu e minhas três irmãs, Lúcia, Socorro e Clélia formamos uma espécie de corte. Ambiente que me enreda e absorve de tal maneira que faz com que, às vezes, eu me sinta como o protagonista de “Cem anos de solidão”. Sempre penso em escapar dele para ver e abraçar os tantos amigos a quem quero bem e que fiz na adolescência e no começo da vida adulta antes de partir para o Rio. Quase nunca consigo. Por isso, daqui desta página, mando a todos eles o meu abraço afetuoso e os votos de um 2014 cheio de alegrias e da esperança de que consigamos nos ver mais vezes. Vocês também fazem parte dessa minha Fortaleza feita de memória e saudade.

O resgate de Napoleão Bonaparte no Recife (21/12/13)

A causa da prisão de Edmond Dantès, logo no início do “Conde de Monte Cristo”, foi uma coisa que me intrigou quando o li pela primeira vez, ainda na infância (numa daquelas maravilhosas edições condensadas da Melhoramentos). Ele teria sido portador de uma carta para Napoleão Bonaparte durante a curta escala de seu navio na ilha de Santa Helena. Dantès foi acusado de envolvimento uma conspiração bonapartista e daí decorreram todas as suas desgraças. Aquilo então me parecia um detalhe pouco interessante diante do resto da trama, sua prisão na fortaleza de IF; a educação que lhe deu o abade que ali encontrou; a fuga sensacional; o tesouro escondido em uma ilha e, finalmente sua ressurreição como Monte Cristo e sua tremenda vingança. Afinal porque uma simples carta levada a um prisioneiro poderia ser tão perigosa? Na época me dava uma certa preguiça tentar entender o fato justificava toda a trama. Agora que conheço a dimensão de Bonaparte, o fascínio que ele exercia sobre seus compatriotas e mesmo sobre pessoas outras nações, entendo o cuidado dos ingleses em mantê-lo isolado em uma ilha minúscula, no meio do Atlântico.

Recentemente descobri que houve mesmo pelo menos um projeto de resgatar Napoleão de seu penoso confinamento. Pesquisando por informações sobre Henri Plasson, comerciante e jornalista francês que viveu no Brasil entre 1816 e 1831, ligando-se a d. Pedro I a quem acompanhou na partida para a Europa, achei artigo do historiador Patrick Puigmal que revela que alguns desses projetos tiveram o Brasil como base (“Brasil bajo influencia napoleónica y francesa. Los mensajeros de la Independencia: militares, libreros y periodistas”, disponível em  file:///Users/Admin/Desktop/Abdicacao/franceses%20no%20brasil.webarchive.

O tema do artigo de Puigmal em si já é por demais interessante. Seu objetivo é provar que no Brasil, remanescentes do exército napoleônico tiveram um papel importante no nosso processo de emancipação. De acordo com os dados que levantou, alguns desses oficiais napoleônicos não só tiveram ação decisiva nas guerras da independência como foram os formadores de nossos Exército e Marinha. Ficando no Brasil eles foram distinguidos com elevadas patentes e títulos de nobreza, passando a fazer parte das melhores famílias da classe dominante do país.

Mas o episódio que inspira este artigo aconteceu em 1817 no âmbito da Revolução Pernambucana. Um navio vindo dos EUA, trazendo a bordo 25 oficiais e 70 soldados europeus e soldados e americanos foi apreendido no porto do Recife logo após o fracasso daquela revolução. O objetivo declarado daquela expedição era ajudar a jovem república, mas, quando interrogado, o coronel francês Latapie revelou que o projeto era resgatar Napoleão Bonaparte em Santa Helena.

A trama envolvia o Almirante Cochrane que viria do Chile trazendo em seus navios tropas do exército dos Andes comandadas pelo general Brayer, outro fiel soldado de Napoleão. Dali, os navios de Cochrane ancorados na ilha Fernando de Noronha seguiriam com destino a Santa Helena, resgatariam Napoleão e o trariam de volta para o Recife. O projeto fora concebido por seu irmão José Bonaparte, que vivia exilado em Estados Unidos. Pouco depois da detenção do Parangon, esse era o nome do navio, chegaram ao porto do Recife o Pengouin trazendo as armas compradas por Antonio Gonçalves da Cruz que fora aos EUA obter apoio para a Revolução Pernambucana e outro navio, vindo do Havre, na França, o “Les trois frères”, trazendo mais oficiais e soldados franceses. 

Segundo Puigmal, a proximidade geográfica entre a ilha de Santa Helena e a costa do Brasil foi elemento poderoso a favorecer esse tipo de projeto. A seu ver o estabelecimento no Rio de Janeiro do general holandês Dirk van Hogendorp, em 1816, não teria sido uma escolha aleatória. Hogendorp era tão ligado a Napoleão que foi contemplado em seu testamento e até morrer, em 1822, foi presença marcante na vida carioca, recebendo a visita de viajantes célebres e tornado-se próximo de D. Pedro I, que pagou as despesas de seu funeral. Hogendorp teria indicado ao Imperador o futuro Marechal Pierre Labatut que teve papel decisivo na guerras da Independência da Bahia como comandante do chamado Exército Pacificador. Além Hogendorp, outro francês também chegado ao Brasil em 1816, liderando a missão artística francesa, Joachim Lebreton, e que se ligaria estreitamente ao holandês, era suspeito de ser espião bonapartista.

A circulação de europeus inspirados pelos ideais românticos da grande Revolução pelo Brasil, é um capítulo fascinante da nossa história e que ainda está por ser mais investigado. O fim do ciclo napoleônico, com sua derrota e exílio em 1815, com a subseqüente Restauração e a tentativa das antigas monarquias européias de passar uma borracha no que fora feito até então não arrefeceu o ânimo dessa gente. Se, quinze anos depois, outra revolução liberal, a de Julho de 1830, derrubou novamente os Bourbons do trono francês e provocou uma onda de revoluções liberais na Europa, isto se deveu, em grande parte, à permanente militância dos herdeiros de 1789 e de Napoleão Bonaparte. A obra recentemente lançada “La liberté guidant les peuples – les révolutions de 1830 en Europe”, conta como uma verdadeira internacional liberal composta de voluntários que se deslocavam para onde preciso fosse, atuou em todos os movimentos revolucionários que agitaram aquele continente durante a década de 1820.  Organizada por Silvie Aprile, Jean-Claude Caron e Emmanuel Fureix, este livro demonstra que a história dos acontecimentos políticos nacionais decisivos precisa ser investigada do ponto de vista de suas conexões internacionais.

            Um novo e promissor campo de estudos está se abrindo: o da História Conectada. O Brasil tem aí muito a revelar pois, como o artigo de Patrick Puigmal demonstra. Há caminhos ainda não percorridos a serem desbravados pelo historiador que se dispuser a ampliar os horizontes e lançar os olhos em múltiplas direções.

O poeta sistemático (14/12/13)

Inez Cabral me deu de presente o livro que acaba de publicar com texto inédito de seu pai. Um luxo duplo: ser amiga de Inez Cabral, que conheci na casa de Silvia Escorel e que o facebook tornou próxima e ganhar este livro que é um presente único para todo admirador da obra de João Cabral de Melo Neto. “Notas sobre uma possível A casa de farinha”, lançado pela editora Alfagura, reúne os originais manuscritos, datilografados e anotados pelo poeta para um peça teatral, mais precisamente um auto, escrita em 1966 (há uma anotação datada em uma das primeiras péginas). É uma fonte fabulosa para quem quiser entender a mecânica da produção de João Cabral de Melo Neto.

Trata-se de verdadeira carpintaria do texto. Melhor dizendo: verdadeira engenharia do texto. Ao contrário do que se pensa dos poetas, que tirariam dos seus devaneios os poemas que compõem seus livros, vemos aqui um trabalho prévio de pesquisa, de estruturação, de composição que faz lembrar o trabalho investido na produção de um texto acadêmico. Segundo Armando de Freitas Filho que assina um dos dois prefácios, (o outro é de Luís Pimentel) “este extenso e exigente planejamento” era uma característica da forma de João Cabral trabalhar. Ele preferia “preparar de antemão o arcabouço do livro, o seu alcance, do que escrever aleatoriamente os poemas que irão lhe dar volume.”

O projeto era escrever um auto em torno do último dia de funcionamento de uma casa de farinha no interior de Pernambuco, com os trabalhadores especulando sobre o que irá de fato acontecer, que destino será dado à casa de farinha e, por decorrência, a eles mesmos. João Cabral organiza os personagens de sua obra como um engenheiro organiza sua equipe de trabalho. Ele os divide em grupos, classifica-os pelas especialidades que as várias etapas do trabalho de produção da farinha exige e atribui a cada grupo uma função dramática de forma a garantir a dinâmica do espetáculo. Assim o grupo otimista das raspadoras se contrapõe ao grupo pessimista das raladoras; estes reagem aos ambíguos carregadores de mandioca que trazem de fora as noticias, ora apontando para um desfecho feliz, ora nem tanto.

O quebrador, o prensador e o forneiro são as únicas atividades que não são realizadas em grupo. Se o primeiro é otimista, o forneiro é realista e o prensador ambíguo, desempenhando na trama o papel do comentarista meio irônico, meio filosófico, pontuando suas lacônicas falas por meio de provérbios. O forneiro, descrito em texto de Gustavo Barroso incluído nas anotações de João Cabral, deveria fechar o auto sozinho, pois a sua é a última etapa da produção. Com uma espécie de rodo com que espalha a farinha no forno para não queimar, em movimentos que fazem lembrar o de um croupiê de casa de jogo, ele murmuraria seus comentários irônicos, como que para si mesmo.

O esquema é tão matematicamente planejado que João Cabral chega a fazer gráficos e a estabelecer uma estratégia para as disputas de forma que em alguns momentos otimistas estejam vencendo e pessimistas perdendo e vice-versa. Algumas páginas trazem títulos indicando os tópicos que virão abaixo: “Psicologia-ideologia dos personagens”; “Coisas que o texto tem que deixar claro”; “Suposições possíveis para o fechamento da casa de farinha”, etc. Há citações de autores como Karl Jasper, James Joyce mas as mais direcionadas para a atividade teatral são as de P. A. Touchard. A que parece mais influir nas decisões do autor é que a que diz que “la durée” (o prolongamento) é o inimigo no teatro, pois uma situação que se prolonga perde sua intensidade dramática.

Há mais de uma referência a “Esperando Godot” de Samuel Beckett. No auto, o dr. SUDENE é o personagem correspondente a Godot e que João Cabral diz querer evitar que se pareçam (“É preciso de qualquer maneira que não fique Godot o dr. SUDENE”). A SUDENE, Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, que fora criada em 1959, aparece no imaginário dos trabalhadores da casa de farinha como um “sujeito fabuloso, do Recife e do Rio. Manda de longe, em todo mundo. Pode tudo. Ninguém o viu mas todo mundo acredita nele.”

Há, como não poderia deixar de ser, uma relação entre este auto, “A Casa de Farinha” e “Morte e vida Severina” (Auto de Natal). Ela é mais explicita na passagem em que Cabral diz que “Casa de farinha não tem a dramaticidade-viagem fácil do Auto de Natal.” Naquele em que não havia disputa, não havia discussões fortes: “no auto não há discussões, há conversas. A única discussão e fraca é Carpina x Severino”. Na Casa de Farinha a intenção de João Cabral é promover disputas violentas entre grupos e personagens chegando quase às vias de fato. Mas, a meu ver, um dos aspectos literariamente mais férteis desses originais são o que João Cabral chama de infúndios (palavra que, creio adaptou da espanhola “infundio” que é sinônimo de “mentira”). Infundios seriam mentiras para ajudar a viver e que seriam produzidas pelos personagens supostamente mais simplórios e otimistas: as raspadeiras de mandioca. E com um trecho que João Cabral conta como usará este recurso em seu auto da Casa da Farinha, finalizo meus comentários sobre este livro singular que certamente será um dia tema de tese de doutorado.

“Quando as raspadeiras estão juntas, sozinhas, para esquecer a preocupação que vem das ordens do dono da casa de farinha, elas deslizam para a conversa de infúndios: e começam a descrever o que estão fazendo – raspar mandioca - , a casa de farinha velha, as roupas, etc. como coisas do passado, de quando elas eram meninas. Mas isso não pode ser muito longo e tem de ficar claro. Inclusive deve ser introduzido pela pergunta: vamos imaginar mentira? Vamos contar infúndios; vamos imaginar coisas? etc. Assim, a gorda se imagina magra, a preta, mulata; falar de sapato e mostrar o pé descalço; falar do dinheiro que tem no lenço e na mesma hora se vê que não tem, etc. (Essa conversa é uma: imaginar o presente como passado).”

Intelectuais da educação (30/11/13)

Esta semana participei no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o IFCS, da UFRJ, do encontro extraordinário do Grupo de Pensamento Social no Brasil da ANPOCS, que já vem se firmando como atividade paralela ao encontro anual. Este ano, além da apresentação dos trabalhos dos jovens pesquisadores que escolheram essa área do conhecimento para estudar, por iniciativa de André Botelho, o encontro homenageou três grandes damas das Ciências Sociais Brasileiras: Ângela Castro Gomes, Lucia Lippi de Oliveira e Elide Rugai Bastos. Uma homenagem de trabalho, digamos assim, pois os textos apresentados pelos que homenageavam, faziam um balanço crítico da produção acadêmica das autoras. Isto deu à homenagem um caráter consistente que permitirá a divulgação das análises em publicações acadêmicas. De qualquer maneira não deixou de haver muita emoção por parte das homenageadas e da platéia, um combinado de gente que se conhece há muito tempo e de gente jovem, empenhada em conhecer o Brasil do ponto de vista dos pensamentos concebidos sobre ele.

Na platéia estava também Helena Bomeny e revendo agora os comentários que fiz sobre um dos trabalhos que fui convidada a analisar, percebo que cometi falha grave ao não citar e recomendar à jovem doutoranda Ana Cristina Rocha que se dedica ao estudo da influência norte-americana nos métodos da educação básica no Brasil dos anos 1930, o livro de Helena, Os intelectuais da educação. Lançado em 2000 pela editora Zahar, em suas 85 páginas obtemos um panorama da história do ensino fundamental no Brasil, além de um diagnóstico de seus problemas e dos projetos alternativos que se apresentaram ao longo do século XX para enfrentá-los.

A ênfase do livro de Helena recai sobre as propostas de Anísio Teixeira e de seus contemporâneos da chamada Escola Nova. O livro conta como o problema da educação foi tratado (ou ignorado) no Império; como eram precárias as estatísticas até o começo do século XX e como a elite sempre priorizou o ensino superior em detrimento da escola primária. Não sei se é possível concordar com o argumento de que havia intencionalidade na exclusão da grande massa do sistema educacional mas, de qualquer maneira, a própria insensibilidade com que o problema foi tratado seria tão ou mais criminosa do que a intenção. Mais dramática ainda foi a forma como os excluídos da sociedade, a massa formada pelos negros e pardos após a Abolição, foi posta de lado como inútil e irrecuperável, priorizando-se o aprimoramento da mão-de-obra através da imigração européia. Pior para quem assim pensou. Pois os imigrantes vinham de países onde o problema da educação tinha outro tratamento e com uma consciência de seus direitos que era totalmente o avesso da prática do mercado de trabalho num Brasil recém saído da escravidão.

A década de 1910 viu o surgimento de inúmeras ligas de defesa nacional que desempenhariam papel importante na luta pela educação popular. Este projeto seria aprimorado nos anos 1920 pela Associação Brasileira de Educação, no movimento que ficou conhecido como Escola Nova. Novos ventos sopravam da América e o maravilhoso encontro de Anísio Teixeira com Monteiro Lobato no Estados Unidos proporcionaria um outro encontro fundamental para o pensamento educacional no Brasil. Lobato aproximou Anísio de Fernando de Azevedo em 1929. A amizade e a colaboração entre esses dois últimos se prolongaria por toda a vida. O Manifesto dos pioneiros da educação nova, redigido por Fernando de Azevedo e lançado em 1932 com a assinatura de 26 educadores brasileiros, foi o primeiro grande documento sobre o problema da educação no Brasil. Os pioneiros defendiam com fervor a escola pública, gratuita e laica e esta bandeira encontraria na Igreja Católica o seu mais ferrenho adversário.

As escolas católicas ocupavam a maior parte do mercado de escolas particulares no Brasil, uma tradição que vinha da colônia, do tempo dos jesuítas: educação era assunto de padre. Em defesa dessa tradição Alceu Amoroso Lima, o maior intelectual católico da década de trinta se lançará, junto com o Padre Leonel Franca, num combate intenso contra as propostas da Escola Nova. Com o fracassado golpe comunista de 1935, a reação aproveitou o momento e juntou os inimigos no mesmo saco, condenando os liberais inspirados no modelo educacional norte-americano, Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo ao ostracismo. Mais uma vez a educação pública foi posta para escanteio.

Os anos 1950 marcam a entrada das massas na cena política. As imagens das multidões no enterro de Vargas, em 1954, e no comício da Central, em 1963, são inequívocas. Aquele gente se agita e se manifesta. As coisas haviam mudado. Mas o discurso das elites continuava o mesmo. Exemplar é o debate entre Darcy Ribeiro e Carlos Lacerda. Darcy acusa Lacerda de ser o coveiro da escola pública. Os pioneiros da educação, em 1959, lançariam novo documento: o “Manifesto dos educadores mais uma vez convocados”, redigido ainda por Fernando de Azevedo foi assinado por 189 pessoas. Mas o projeto da Escola Nova era um sonho condenado. O regime militar implantado em 1964 que se estenderia até meados dos anos 70 nada fez pela educação de base. Antes, impediu a continuação do trabalho inspirado na obra de Paulo Freire: a educação pela liberdade. O MOBRAL, programa de alfabetização de adultos, único projeto educacional em que os militares investiram, destinava-se mais a maquilar as estatísticas sobre o analfabetismo no Brasil do que a resolver o problema.

Resumindo aqui o livro de Helena Bomeny, presto também minha homenagem a ela, Ângela, Elide e Lúcia, colegas e amigas, todas elas também professoras que, ao lado da obra impressa, podem se orgulhar de terem formado levas de outros brilhantes intelectuais que darão continuidade às reflexões sobre este mesmo velho Brasil que tanto nos intriga, apaixona e desafia.

Aproveite: esta oferta é por tempo limitado (23/11/13)

Uma daquelas coisas que me ficaram presas na memória, ocupando espaço no HD sem nenhuma utilidade aparente foi o slogan de uma liquidação de loja de tecidos na Fortaleza de minha infância: Loucuras de setembro. Até começar a escrever essas mal traçadas nunca havia parado para pensar no sentido oculto desse tipo de mensagem que os lojistas mandam aos seus usuais ou virtuais fregueses: liquidação, queima, venda extraordinária, ocasião única, vá correndo aproveitar. Todas remetem a uma situação limite, à possibilidade iminente de perda de uma oportunidade que pode ser a última. O dono enlouqueceu, quer vender por preço irrisório, quer acabar de qualquer maneira com o seu estoque, cabe a você aproveitar, pois o estado de insânia é momentâneo. Dura, em geral, um mês, tempo para mudar as vitrines e apresentar a nova coleção. 
 
Apelos assim batem no coração de quem desejou mas não pôde ser uma das primeiras a usar a última moda. A liquidação resolve o problema proporcionando a você a posse de coisas antes inacessíveis, ainda a tempo de serem exibidas no finalzinho da estação, que, com sorte, pode se estender por dias que vão além do seu tempo metereologicamente regulamentar. Liquidação é coisa de mulher, ser desejante e determinado, capaz de mergulhar numa caixa de saldos em pleno shopping para resgatar do meio de muita coisa desprezível aquela blusinha maravilhosa da grife do momento.

Folheando revistas antigas achei muitos anúncios de liquidações no Rio de Janeiro do começo do século XX. A primeira revista de moda publicada no Brasil foi A Estação: Jornal ilustrado para a família. Publicação quinzenal, A Estação que saiu regularmente de 1879 a 1904, era a versão em português da revista francesa La Saison que circulara no Brasil até o ano anterior e dividia-se em duas partes: um “Jornal de modas” e um suplemento literário. O primeiro era traduzido da publicação européia, trazia grande quantidade de moldes, riscos e figurinos. Mas o principal problema da revista era o fato de que seus figurinos, concebidos na Europa, estavam sempre em desacordo com as nossas estações climáticas. Problema inevitável sob pena das leitoras não se trajarem de acordo com a última moda de Paris. A Estação prometia, no entanto, dar sugestões para que as toaletes pudessem ser adaptadas. E acreditava que com isto ajudaria a revelar “todo o gosto e engenho de sua gentil leitora.”

Nos anos 1920, o que melhor se vestia no país aparecia primeiro nas lojas da rua do Ouvidor. A via dolorosa dos maridos pobres, como a chamou Machado de Assis, abrigava lojas de roupas e acessórios como a Notre Dame, a Torre Eiffel, a Royal Store, a Casa Raunier e a Sloper. A fama da Ouvidor, no entanto vinha sendo eclipsada desde a inauguração da Avenida Central (Rio Branco), em 1904. Nela ficavam, dentre outras, a Barbosa Freitas & Cia., a Casa Colombo, de roupas e uniformes para crianças e o Ao Barateiro, que, apesar do nome, era especializado em roupas finas para senhoras. No largo de São Francisco de Paula ficavam a Parc Royal, A’ Brazileira e A’ Paulicéa (que, em seu anúncio detalhava a localização: junto aos Fenianos).

Na revista D. Quixote, de 23 de março de 1921, o Parc Royal, “a maior e a melhor casa do Brasil”, anunciava o início de sua grande venda de saldos de fim de estação para o dia 1o de abril. No que fora antecedida pela casa Barbosa Freitas e Cia. que, em “sua venda extraordinária por motivo de excesso de stock” prometia descontos de 20%, 30% e até 50% em todos os artigos sem exceção. A’ Paulicéa, garantia enorme redução no preço de todo o seu “grandioso stock de artigos de verão”: sedas, roupas brancas, morins, cretones, meias e vestidos para crianças. A Casa Isidoro, na Sete de setembro, promovia vendas por preços excepcionais mas apenas por pouco tempo “para dar lugar às grandes entradas de nossos artigos de inverno”.

Já outro anúncio nos advertia que comprar A’ Brazileira era “acompanhar a moda parisiense, fazendo economia e cultuando o bom gosto”. Em número posterior, a loja era ainda mais enfática: “É escusado procurar vantagens em preços iguais aos que oferece A’ Brazileira”. A disputa pela clientela naquele final de verão parece ter pegado fogo, pois, em seguida, A’ Paulicéa, tomada de brios, contra-atacava anunciando que “A’ Paulicéa não anuncia descontos imaginários, mas os seus preços, bem visíveis, provam à evidência que” (assim mesmo, em caixa alta): “NINGUÉM VENDE MAIS BARATO”. E, no final, desafiava: “Confrontem os preços”.

Entre o final de abril e o começo de maio, os anúncios começam a ser substituídos por outros mais elaborados em que se mostram as coleções de inverno. A liquidação de inverno, no entanto, que acontecia entre agosto e setembro, parecia ser bem mais doída para o lojista. Pesarosa, A‘ Paulicéa anunciava “a sensacional venda de todo o seu stock de tecidos de lã, flanelas, boás, cobertores e mais agasalhos, a preços sem precedentes contramarcados pelo custo e outros com grande prejuízo”. Até o Parc Royal, apesar de garantir que ia em “pleno êxito” a sua grande venda de saldos “verdadeiros” (uma alfinetada na concorrência), apelava: “tudo marcado por preços que não nos será possível repetir”.

Os apelos dos lojistas podiam ser sóbrios como em anúncio na revista Careta de setembro 1923 em que a Notre Dame, o Ao Barateiro e A’ Brazileira, juntas prometiam “mais conforto e economia sensível na compra de todos os agasalhos da moda de seu stock: manteaux, costumes, peles e casacos de malha”; podiam prometer descontos modestos, como o da Casa Raunier: 15%, ou serem pretensamente técnicos como o da Casa Colombo, cujo “sistema de venda de saldos uma só vez por ano”, garantia, era único no mercado. O que importa é que apelavam todos para aquele sentimento legitimamente humano, comum a homens e mulheres, que é a vontade de possuir. Ainda que seja de liquidação.

Historiadores x jornalistas: um falso conflito (16/11/13)

De vez em quando se tenta estabelecer uma polêmica entre jornalistas e historiadores no que diz respeito ao resultado final de seus trabalhos quando tratam da História. A meu ver essa é uma falsa polêmica pois não vejo manifestações hostis da parte de historiadores contra jornalistas que se aventuram em obras históricas, nem vice-versa. Creio que essa ausência de conflito se deve a uma diferença importante entre os livros de historiadores e de jornalistas. Ela diz respeito à questão que o historiador se propõe a responder quando começa a fazer seu trabalho. Ou seja, a escolha do tema de um trabalho acadêmico tem como elemento detonador uma questão e é em torno daquela questão que ele se desenvolverá. Isto pode tornar a leitura do texto final do historiador menos interessante do que a de um livro-reportagem, por exemplo, no qual muitos e variados caminhos podem ser percorridos pelo redator sem que isto comprometa a qualidade da obra. Ao contrário, essa variedade é que torna alguns desses livros tão empolgantes. No caso do livro do historiador (ou do autor de trabalho acadêmico em geral), sua maior qualidade estará associada não só à quantidade e à qualidade do novo conhecimento que ele agrega mas também ao tratamento analítico que deu ao tema. Fazer isto e ainda produzir texto final capaz de interessar e ser compreensível a um público mais amplo do que o de seus pares continua a ser um desafio para a maior parte desses autores. 

Outro aspecto que merece reflexão diz respeito aos prazos oficiais para a realização de teses e dissertações que foram encurtados há alguns anos. Antigamente uma tese de doutorado era considerada o trabalho final que coroava a carreira universitária. Muita gente levava dezenas de anos para concluir a sua que devia ser uma obra de excelência capaz de modificar a visão que se tinha até então sobre o tema analisado. Hoje, os mestrandos tem que estar com a dissertação pronta em dois anos e os doutorandos com a teses defendida em quatro. A pressão para que teses de doutorado sejam concluídas dentro do prazo, me parece, tem resultado em muitos trabalhos insatisfatórios ou mesmo incompletos. Mesmo assim, sendo uma produção em que estão implicadas muitas questões subjetivas, é difícil avaliar se, com um prazo maior, aqueles trabalhos teriam saído melhores. Até porque, a tese, o livro, o artigo, são apenas produtos de um “self” que um intelectual passa a vida construindo e a pós-graduação é apenas um dos primeiros degraus dessa escada. Isto também, com as devidas ressalvas, torna diferentes os trabalhos de historiadores e jornalistas. Afinal se o trabalho acadêmico hoje pode ser sempre melhorado, modificado, revisto a partir do diálogo com a obra de outros colegas, o livro do jornalista pretende ser, até por razões comerciais, a última e definitiva palavra sobre aquele assunto.

Atualmente, com a ampliação das pós-graduções, com a obrigatoriedade da publicação de trabalhos para pontuar o Currículo Lattes, há uma verdadeira montanha de textos acadêmicos produzidos ou em vias de produção que nem mesmo as editoras universitárias conseguem atender. Por outro lado, aada vez menos as editoras comerciais embarcam na publicação de obras acadêmicas e, quando o fazem estabelecem restrições que descaracterizam a obra para livrá-la do chamado “ranço acadêmico”. Com tais cortes o imenso trabalho investido nas notas e nas discussões teóricas se perde e isto, muitas vezes, compromete o resultado do livro editado. Muitas obras “difíceis” perdem muito de seu valor se apresentadas sob a forma de “vulgatas”.

É preciso preservar, estimular e garantir a divulgação desse tipo de trabalho que é o que, de fato, promove o desenvolvimento cientifico do país. É preciso que haja espaço para que obras que pensam o Brasil como as de Oliveira Viana, Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre,Viana Moog, Caio Prado Junior, Florestan Fernandes, Guerreiro Ramos e Celso Furtado venham à luz. Por isso, me parece que o futuro editorial desse tipo de obra está na exclusiva publicação on-line. Hoje, através dos sites de grandes universidades e bibliotecas brasileiras e estrangeiras já se tem acesso a um grande volumes de trabalhos acadêmicas especializados, com um alcance e uma agilidade que nenhuma editora de livros impressos consegue atingir.  Se essas obras não têm tantos leitores é grande seu poder transformador e multiplicador, através da divulgação que delas os professores nas universidades ou outros autores de trabalhos acadêmicos ao citá-las e comentá-las, ou mesmo os formadores de opinião em seus artigos na imprensa. É evidente que, por caminhos variados, as idéias de alguns dos clássicos citados acima estão presentes também na forma com que jornalistas e escritores apresentam a História do Brasil em seus livros voltados para o grande público.


Acredito que há lugar para todos e a cada livro corresponde um tipo de leitor. Há livros de história escritos por não historiadores que atendem perfeitamente a um leitor de cultura mediana e, ao meu ver, suprem o nível de conhecimento que o não especialista precisa ter sobre o assunto. Muitas deles, aliás, são corretamente pesquisados, bem escritos e, por vezes, representam o primeiro ou o único contato que o leitor vai ter com aquele assunto. Outros são trabalhos que apresentam análises discussões tão consistentes quanto as que se desenvolvem na academia. Aliás, é sempre bom lembrar que, no Brasil, antes da criação dos cursos de História, grande parte da produção historiográfica era feita por jornalistas. Jornalistas como Raimundo de Magalhães Júnior e Francisco de Assis Barbosa produziram obra de fôlego como as biografias - nunca superadas em qualidade - de Deodoro da Fonseca, o primeiro, e de Lima Barreto, o segundo. Qualquer historiador deve se sentir honrado com tão boas companhias.

Pequenos assaltos (2/11/13)

Bato três vezes na madeira antes de dizer que, nestes 36 anos de Rio de Janeiro nunca fui assaltada. Quer dizer, isto se não contar aquele dia em que passando de carro em frente da Cobal de Botafogo, numa retenção de trânsito, fui abordada por um garoto de seus 14 anos, magro, amarelo, muito franzino, como um desses personagens de filme sobre a seca no Nordeste. A diferença é que havia nele algo de gasto, de desmoralizado, de cínico e aquela ousadia do que sabe que não tem nada a perder, tão característica dos meninos de rua da cidade grande. Ele encostou na janela do carro e me disse alguma coisa que me pareceu “isto é um assalto”. Ou nem precisou dizer pois, por conta das tantas histórias que a gente ouve de meninos assaltando carros armados com caco de vidro, eu lhe dei o dinheiro que tinha em um movimento automático. Isto faz tanto tempo que o carro nem tinha ar condicionado, pois ainda não tinha virado uma regra essencial de sobrevivência na selva andar com os vidros fechados.

Por causa desse história de ar condicionado me lembrei de outra. Foi em São Paulo, numa breve viagem, daquelas bate e volta, para participar do júri de um concurso da Folha. Eu ia para o aeroporto e o taxi contratado pelo jornal para me levar não tinha ou estava com o ar condicionado quebrado. Por alguma razão que só a realidade paulistana pode explicar, os taxistas que pego ali não costumam ligar o ar. O fato é que o calor do dia abafado me fez ficar de janelas abertas, durante um daqueles engarrafamentos tradicionais da cidade. Estávamos em cima de um viaduto, eu tinha posto a maleta com notebook no chão, justamente temendo um roubo, mas conservava a bolsa no colo. Eis que, senão quando, dois jovens magros, altos e claros que vinham andando pela margem, passaram por mim e, de repente, um deles meteu a mão pela janela, arrancou minha bolsa e saiu correndo. O susto foi grande mas o medo de ficar sem os documentos para voltar para casa foi maior.

Abri a porta do taxi e corri atrás deles. Ainda os vi de cima do viaduto, lá em baixo, correndo para uma das ruas daquela região, creio que Bela Vista, e de lá fiquei gritando para eles: devolve, devolve! Eles me viram, me ouviram, creio até que sorriram e seguiram caminho. Pedi ajuda a dois guardas de trânsito mas eles não me deram a menor bola. Não era da alçada deles, eu acho. O taxi teve que seguir adiante pois o trânsito andou e eu me vi ali em cima de um viaduto daquela estranha cidade (como os cariocas gostam de chamar) sem dinheiro, sem documentos, sem celular, pensando no que fazer. Confesso que não entrei em pânico. Lá de baixo, enquanto eu esperava alguma coisa acontecer, alguém me chamou: Isabel, Isabel! Olhei e vi um sujeito moreno, junto com outras pessoas, todas com cara de gente trabalhadora que, lá de baixo, acenavam para mim perguntando: Você é Isabel? Desci. Ele estava com os meus documentos, por isso me chamava pelo nome.

Os ladrões tinham largado minha bolsa na calçada em frente da oficina dele. Era uma oficina de conserto de bombas d’água, creio eu e a turma que trabalhava lá era super simpática. Pareciam personagens de música do Adoniran Barbosa, aquela mistura popular tão paulistana que inclui sempre um italiano, um negro e um nordestino e mais um que mistura isto tudo. Minha bolsa estava esvaziada, sem dinheiro, sem celular, sem óculos, sem... enfim, só sobrou o que não valia nada. Para o ladrão, claro, porque para mim foi ótimo achar o telefone do pessoal da Folha que, acionado, logo entrou em contato com o taxi dizendo onde eu estava. Chegou o taxi junto com uma patrulhinha. O policial – sem muito interesse - perguntou se eu queria ir à delegacia prestar queixa. Imagine. Eu só queria conseguir chegar em casa. Fui para o aeroporto com o número do bilhete e embarquei sem um tostão e com um medo danado que acontecesse mais algum imprevisto.

Mas isto não vale porque foi em São Paulo. No Rio, além do episódio do menino amarelo, uma vez me levaram cinqüenta reais. Não foi exatamente um roubo. Estacionei meu carro atrás do Circo Voador, ali na Lapa. Era de noite mas era relativamente cedo, o lugar estava cheio de carros mas meio vazio de gente. O rapaz disse que olharia o carro para mim e me pediu adiantado os dois reais de praxe, eu abri a bolsa peguei uma nota de cinqüenta que era o que eu tinha e, estupidamente disse, com a nota na mão, não tenho dois reais, só cinqüenta. Ele rapidamente respondeu: eu troco. Pegou a nota e saiu correndo pelos becos escuros do entorno da rua do Lavradio e nunca mais foi visto. Eu fiquei com cara de trouxa. Ainda procurei uns guardas que estavam no Largo conversando com os ambulantes, para reclamar. Afinal cinqüenta reais ainda eram alguma coisa e, nem era tanto pelo dinheiro, mas pela forma como me tinha sido levado. Os guardas me olharam como quem olha para alguma marciana, como quem diz: Hellôôô, isto é a Lapa, madame, se toca. Só mesmo sendo muito otária para ficar ali à noite, numa esquina deserta, com uma nota de cinqüenta na mão.


Essas histórias me voltaram agora que sou atormentada por uma dúvida. Desconfio que me cobraram preço extorsivo pelo serviço de colocação das minhas janelas de guilhotina. O sujeito que cortava a madeira indicou o que colocava a janela que indicou o que fazia os pesos. O que cortava cobrou um preço muito elevado, o que colocou cobrou outro tanto e o dos pesos foi na mesma toada. A alegação de todos é de que era um serviço exclusivo, ninguém mais fazia. Como não pude fazer uma profunda pesquisa de mercado, fiquei com o que me disseram e paguei o que me pediram. Mesmo assim, restou a dúvida: será que eles não combinaram tudo entre si, incorrendo no artigo do código penal que tipifica a formação de quadrilha? De qualquer maneira, como não posso fazer nada mesmo fico com sensação igual a que tive naquela esquina da Lapa, vendo o garoto que se escafedia lépido e certamente feliz com a minha nota de cinqüenta muito bem presa em uma das mãos.