Outro dia, em uma festa, encontrei com uma amiga, pouco mais nova que eu, que me apresentou ao novo namorado. Sujeito simpático, mais velho que ela (ao contrário do namorado anterior) e muito bem situado na vida. Em momento em que ficamos a sós, perguntei como estava indo o relacionamento e ela disse sem pestanejar que aquele namorado era não só o melhor que já tinha tido como também a pessoa mais legal que ela já conhecera na vida. Naturalmente que o estado de evidente apaixonamento da minha amiga responde por 90% do dito, isto sem demérito do felizardo que é objeto de tanta admiração. É que quando a gente está apaixonada nenhum dos defeitos da pessoa parece evidente. Ou, melhor dizendo, podem até parecer evidentes mas em tudo a gente acha graça.
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Vi na televisão um filme do Ben Stiller, comédia bobinha sobre um sujeito complicado, meio solteirão que o acaso fez encontrar uma garota maravilhosa. Rola um envolvimento, a moça é adorável, adora fazer sexo com ele e eles parecem ter tudo em comum. Ele ainda hesita, mas todo mundo à sua volta diz que ele tem que casar com ela. Casam e partem em lua-de-mel para o México. A viagem começa ótima, com os dois cantando uma canção de que ambos gostavam. Mas foi o restante da trilha musical que começou a marcar a diferença. Não só o repertório que a moça apreciava era insuportável quanto a energia com que ela cantava, aos berros, tornaram o restante da viagem um tormento. E o México ficava longe. Daí para diante o casamento foi ladeira abaixo e não sobreviveu à lua-de-mel.
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A meu ver não é o pouco tempo que dura a relação que define o desastre. Às vezes, uma simples mudança de lugar ou de rotina pode destruir um casamento que vinha sendo, até ali, feliz. Lembro de uma amiga do tempo da faculdade que reencontrei na praia, em Ipanema, muitos anos depois e que vivia há algum tempo com um estrangeiro. Pareciam felizes, o sujeito era meio reservado com os amigos dela, mas entre eles parecia que tudo ia bem. Fui à festa de despedida que os dois promoveram quando, finalmente, depois de anos juntando dinheiro e se preparando, conseguiram comprar e equipar o veleiro onde pretendiam viajar por um ano. Pouco depois, eu soube: o casamento acabou durante o convívio entre o exíguo compartimento que servia de habitação e o tombadilho do veleiro. Não chegaram nem à Bahia.
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Também não foi bom para a relação de 25 anos entre um famoso escritor e uma bela mulher a decisão de viverem juntos. Iam bem, se amavam, mas cada um vivendo na própria casa, cada qual no seu quadrado, como se diz. Daí, resolveram se juntar e a experiência foi tão traumática que se tornaram inimigos para o resto da vida dele, que morreu primeiro e fez questão de apagar o nome da ex-amada de todas as dedicatórias nas novas edições de seus livros.
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Mas há os eternos otimistas, os que não aprendem nunca com a experiência ou talvez tenham uma vontade tão grande de viver de novo o começo de uma paixão que prefiram esquecer tudo o que foi sofrido nas anteriores. Tenho uma amiga que é um verdadeiro fenômeno de repetição. O ciclo já é bem conhecido. Conhece um cara, se encanta por ele, acha que é a pessoa mais incrível do mundo, não sossega enquanto não o conquista e, mais grave ainda, enquanto não casa com o tal sujeito. Aí começa a vida a dois, a compra dos móveis e eletrodoméstico, a decoração da casa, os finais de semana felizes na companhia dos filhos de um e da outra. Mas depois a coisa normaliza, tudo vira rotina e se estabelece o tédio. O marido maravilhoso começa a dar defeito. Quando a gente quer achar defeito em alguém pode procurar que acha mesmo. A infelicidade dela é real e se revela no chorado da voz, no desleixo com a aparência, no aumento de peso e na roupa largada, em meio a um cotidiano de disputas que, com muita frequência, envolvem os filhos. O casamento acaba, ela comemora, começa a se cuidar de novo, fica magra, elegante, bela e, fatalmente, acaba encontrando outro alguém maravilhoso. E a história se repete, se repete, se repete e se repete. Com muito sofrimento para todo os envolvidos.
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Todo o mundo já se apaixonou, se deslumbrou e se decepcionou. E com o tempo isto vai criando um certo ceticismo diante das relações. Aí quando você conhece alguém novo não entra mais de peito aberto e começa a avaliar de forma fria e calculada qualidades e defeitos. Exemplar disto foi uma amiga que me ligou, depois de uma festa de aniversário minha, para pedir referências sobre um ex-namorado meu, que estava lá e com quem iniciara um flerte. Achei a medida muito sensata pois, na verdade, se você pede referências a quem vai trabalhar na sua casa, mais razão ainda tem de pedir sobre um sujeito que vai entrar lá, dormir, conviver com seus amigos e filhos, etc. Nestes tempos de mulheres canalhas como as criadas para o GNT pela sobrinha de Mario Bag, Martha Mendonça, seria o caso mesmo de criar uma tabela como a das escolas de samba, com notas para vários quesitos: evolução, harmonia, bateria. Ou dos dados que se pedem para domésticas: pontualidade, organização, limpeza, confiabilidade, se dorme no emprego...
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Conviver é uma difícil arte. E quem já conviveu muito em relações dos mais diversos estilos sabe que entre o encanto inicial e o tédio de um dia a dia compartilhado não vai uma distância muito grande. Melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar, já dizia Machado. O fato é que se o tempo não prepara a gente para tudo nos deixa com a casca mais grossa para suportar as feridas. Mas também marca a nossa vida com uma dose de melancolia e de desencanto. Por isto não pude deixar de invejar a alegria e a confiança de minha amiga com relação ao seu novo amor, o brilho nos seus lindos olhos verdes. Torço por ela que é sensata e inteligente e talvez dê um jeito de não mudar nada do que está dando certo até agora.