O primeiro ano do resto de nossas vidas (17/11/12)

Ontem, conversando com mamãe, perguntei-lhe se Iazinha já tinha morrido. Iazinha era uma prima dela que morava em algum lugar para os lados da Lauro Maia, creio eu e que a gente visitava de tempos em tempos. Tenho vaga lembrança da casa e do resto de sua família mas lembro bem de sua cara larga, meio quadrada, tão paraibana e tão característica das mulheres da família de mamãe. Eu não tinha como saber se Iazinha morrera, desconfiava que sim e perguntei até para puxar assunto. Mamãe respondeu que não e ficou indignada com a possibilidade da prima, a que era mais chegada, ter morrido sem que lhe tivessem contado. Mais tarde, chegou a Dadal e ficou confirmado que de fato a Iazinha já tinha morrido há muito tempo. Mamãe é que tinha esquecido.
Mas mesmo com esses lapsos de memória - afinal são 98 anos - a cabeça de mamãe continua excelente. Ela é capaz de lembrar telefones, datas, de fazer humor às custas dos outros e de achar graças nas nossas piadas.  Ultimamente tem ajudado o Kiko a dar aulas de português ao Gabriel. Clélia me contou que dá exemplos para diferenciar “expiar” de “espiar”: “Gabriel expiou suas dívidas”. Kiko, aliás, é agora sua melhor e mais constante companhia. O filho mais velho do Lustosa, do qual a Clélia é tutora desde que ele era bem mocinho, encontrou nos cuidados com a avó algo importante para fazer.
Afetuoso, o contrário do resto da família, sempre querendo contato, Kiko insiste em perguntar se é o mais querido e ouve, depois da terceira vez, o “deixe de besteira, menino” tão característico de dona Dolores que já disse em entrevista de sua aversão ao excesso de afagos físicos. Se não declara seu amor por este neto especial, dona Dolores, no entanto, diante do desejo dele de viajar a Europa, o que ele não pode fazer sem companhia, declarou que se tivesse 95 anos, iria. Kiko é o alvo preferencial de suas broncas e piadas. Ontem mesmo ela o criticou por ter respondido a alguém que lhe perguntara o que fazia que não fazia nada. Mamãe insistiu para que ele repetisse que da próxima vez dirá: dou assistência à minha avó.
Se a cabeça lhe prega peças, ela consegue dar a volta por cima rapidamente. Assim é que disse outro dia que o Parsifal, seu filho tão problemático, morto há alguns anos, estivera aqui em casa. Quando lembramos que o Parsifal já tinha morrido ela parou, refletiu um pouco e completou: esteve em sonhos, eu o vi entrando aqui na sala bem de mansinho.  Não se deixou apanhar. E está sempre atenta para essas armadilhas que a cabeça lhe prega. Talvez por isso esteja tão bem, tão lúcida e ainda tão necessária em nossas vidas.
Por tudo isto fiquei surpresa com a reação dela diante da possibilidade que lhe sonegassem informação tão importante quanto a da morte de Iazinha. Por isso também não achei justo que se pensasse, em um primeiro momento, em não lhe contar da morte do filho mais velho e, nos últimos 18 anos, o mais próximo, por passar boa parte do tempo em sua companhia. Na verdade, nos meses que o Lustosa ficou sem vir, por causa do tratamento, ela foi sendo informada, com cuidado, é claro, da gravidade do caso. Informada porque, de sua cadeira, em posição central na sala, ela acompanha tudo à sua volta. Assim os telefonemas, as conversas sussurradas, o ar de preocupação e de tristeza do povo não lhe passaram despercebidos e ela insistiu em saber o que estava acontecendo.
Recebeu a notícia da morte do filho com um ar de perplexidade. Sem lágrimas. Falando com o Paulo ao telefone, em meio a outros assuntos disse que, de novo, só a morte do Lustosa. Quando voltamos de Sobral, depois da linda cerimônia de lançamento de suas cinzas no rio Acarau, a encontramos a postos em sua cadeira. Ao abraçá-la, ela me perguntou como tinha sido, se tinha muita gente, como correra a homenagem. No entanto, esse terrível acontecimento, talvez por lhe parecer tão impossível, foi logo esquecido. De modo que, há poucos dias ela perguntou à Clélia se o Lustosa tinha sido despedido do “Diário do Nordeste”, pois sua coluna não estava mais saindo. Depois de lembrada, mostrou surpresa por ter sido tudo tão rápido e perguntou como vai ficar a situação da Verônica. Mas, em poucos minutos, indagou se o Lustosa ia escrever em outro jornal.
Ontem, me perguntou porque o Lustosa não tem mais vindo e quando ele virá. Eu lhe disse apenas que ia demorar. Olhei para ela e entendi que entendera. Achei melhor não insistir nessa informação que ela prefere não “realizar” (no sentido que a expressão tem em inglês). Na verdade, não quer lembrar. Mas também não quer esquecer do filho. Quer ficar nesse limbo que lhe possibilita ainda esperar pela volta dele. Pois com uma consciência tão aguda de tudo, com uma capacidade de participar de qualquer conversar, de falar com segurança ao telefone (conversas prejudicadas apenas por sua má audição), seu esquecimento é seletivo.
De resto, este ano de 2012 que vai chegando ao fim de forma tão melancólica foi um ano de grandes perdas para a família. Perdas inéditas por terem sido marcadas por uma nota trágica. Perdas que implicam numa inflexão na vida que levamos até agora. Pois, como na música do Milton Nascimento, a partir delas, sabemos que nada será como antes. Felipe Mello, filho de Evelucia e Célio, neto de Lucia e Benevides, foi embora em meio a um drama de repercussão internacional que se estendeu por semanas e em que se misturaram esperança e angústia. Lustosa partiu pouco depois, quase imediatamente após o diagnóstico da doença. Sem essas duas criaturas tão amadas, tão importantes nas nossas vidas, ficamos mais pobres, mais vazios. Só nos resta o consolo de imaginar que, a essa hora, lá no céu, Felipe com sua graça, seu charme e sua inteligência faz rir ao tio-avô que tanto apreciava descobrir tais qualidades entre os membros de sua vasta família.

Memórias pitorescas e sentimentais: O Patuá (10/11/12)

O Patuá começou a ser escrito nas escadarias que ligavam o segundo ao terceiro andar do IFCS. O projeto gráfico e quase todos os desenhos eram do Cesar da Mata mas o cérebro por trás daquela perigosa organização criminosa era mesmo o Julio Cesar Adiala. O Pátua tinha sua origem na Frente Alienada do IFCS criada pelo Julio e pelo Dico (Jurandyr Leite). A FA-IFCS era anarquista e costumava anotar na margem dos cartazes pregados nas paredes do corredor. Lembro bem de um que trazia o verso de João Cabral: um galo sozinho não tece uma manhã, abaixo do qual Julio escreveu: Mas dá um bom ensopadinho.
O Patuá trazia como subtítulo: o jornal da Coobagana (braço armado da coosativa), entidade que se auto-intitulava como a maior frente desarticuladora do pensamento formal e metafísico do IFCS. O lema da Coobagana se inspirava na célebre frase do Che: hay que travar-se pero, sin perder la bagana jamás. Sua tiragem era uma ironia com a Hora do Povo: rumo aos 100.000. O jornal oferecia um brinde do mês (coisas como uma bagana, uma seda, um pilão) sempre associado a um slogan do tipo: mais erva ou paramos o Brasil, voar é com os ácidos e outros que tais.
O personagem que dava nome ao jornal, Basílio Patuá, era produto de uma criação coletiva, mas o redator de sua biografia era o Macarrão. O primeiro editorial lembrava uma das bandeiras de Basílio: ópio para o povo e anunciava que sua obra seria divulgada através do Instituto histórico e cultural pela preservação da memória de Basílio Patuá. Para combater a influência perniciosa do Patuá, Luís Carlos Prestes publicaria carta (naturalmente forjada pelos redatores), em que Basílio é apresentado como um agente do imperialismo que vivia a desvirtuar a juventude mundial:
Camaradas patuístas de norte a sul, de leste a oeste, quem aqui vos fala é Luís Carlos Prestes. Quero nesta missiva manifestar minha indignação com o lançamento deste periódico difamador, que se lança contra instituições democráticas arduamente conquistadas pelo proletariado. (...) O grande Stálin, em 1932, denunciava no Comintern a contribuição negativa de Basílio Patuá para o avanço da consciência socialista. Conclamo todos os comunistas a cerrarem fileiras contra esse ser viciado combatendo desde já o jornal Patuá. Saudações Proletárias. L. C. Prestes.    
Boa parte da publicação se dedicava a ironizar os colegas da própria equipe. Dentre estes, o alvo preferido era o Washington que se propunha a publicar artigos sérios, invariavelmente atacados (tanto o autor quanto o texto) nos números seguintes. No número dois, foi publicada uma prova de sociologia forjada pelo Julio e atribuída ao Macarrão, onde se liam pérolas como: P: Porque Marx afirma que a consciência não determina o ser social? R: Marx afirma que a consciência não determina o ser social porque ele acredita que a consciência não determina o ser social. Das colunas sociais, a melhor foi a que dava conta do casamento de dois colegas nossos, radicais militantes do Oito: o Tonho e a Lenaura. O jornal explicava: não eles não vão casar um com o outro, amados leitores. Nem eles mesmos agüentariam. O casamento seria realizado na igreja de São Judas Iscariotes, em Duque de Caxias:
Após a cerimônia, os dois casais oferecerão animada festa na redação do jornal “Hora do Povo”, com direito a coquetéis molotov e empadas de gasolina. Haverá também baile animado pela orquestra do maestro Luís Carlos e seus Cavaleiros da Esperança. Lembrete: os casamentos, em caso de revolução, serão adiados para depois da reconstrução nacional.
Uma das vítimas do humor patuísta foi o Aldemísio Cordeiro, o Aldo, um colega mais velho que vendia caramelos e apostava numa política avessa à agressividade do movimento estudantil mas que também nada tinha a ver com o humor cínico e corrosivo daquela turma. Pacifista, Aldemelo Caramísio (como o apelidou o pessoal do Patuá), resolveu lançar um jornal: O Espaço. Segundo os redatores do Patuá, o jornal deveria se chamar Espaço Sideral, “vista a tamanha façanha de materialização do nada”.
“Morte ao deficiente físico” seria o lema de nosso colega Antônio, “o popular Padeiro que, em sua transloucada batalha vencera o primeiro round dando uma rasteira na muleta” de um dos nossos professores. Noticiando o aniversário de Cléber, um dos colaboradores, o jornal dizia que naquela data ele completaria “mais um ano estéril e inútil em sua inútil e estéril vida”. Mas, de todas as maldades do Patuá nenhuma foi mais cruel do que a referência a um nosso colega da História que, no ano anterior surtara e vagava pelos corredores da escola completamente fora de si. A causa fora o concurso O esquerdinha do ano do qual fora vencedor e, quando soube da notícia, diz o Patuá: enlouqueceu de alegria.  Aliás, o concurso O esquerdinha do ano, tinha como objetivo premiar o revolucionário mais revolucionário. O texto de apresentação dizia:
“O que mais caracteriza o ano de 1979 no Brasil não é o fato de ele não ser um ano bissexto, mas sim de ser o ano do despertar político da sociedade civil brasileira. (...) Fora do Brasil, o mundo via a liberdade brilhar em raios fúlgidos no horizonte. A Nicarágua conquistava sua liberdade, Reza-Pahlev era expulso do Irã, morria Talcott Parsons.”
Dentro desde clima é que tinha sido criado o concurso. No regulamento havia uma cláusula que dizia: “Proibida a participação de comunistas de mais de oitenta anos.” À qual se acrescentava um único parágrafo: Prestes a completar oitenta pode. Referência naturalmente ao velho Prestes que acabara de voltar do exílio e ia fazer 80 anos. Lembro bem de sua visita ao IFCS: moreno, sequinho, de pequena estatura, vestido com camisa azul clara e calça azul marinho de tecido barato (indústria soviética). Quando Juarez o viu, perguntou: “Aquele é o Prestes?” Pensei que fosse o motorneiro do bonde de Santa Tereza.

Memórias pitorescas e sentimentais: o IFCS (3/11/12)

Foi em 1978 que entrei no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. O IFCS funciona no edifício da antiga Escola Politécnica, cujo nome gravado na pedra ainda se lê no frontispício do majestoso prédio que dá vista para a estátua de José Bonifácio, no Largo de S. Francisco. Com suas escadarias de granito, suas portas altas, o belo assoalho da entrada, o prédio impressiona à primeira vista. O portal se abre para o pátio interno, onde funcionavam os antigos laboratórios da Politécnica que, no tempo que cheguei, estavam abandonados, prestando-se a usos bem menos nobres.  Apesar do aspecto histórico do prédio, havia e há ainda um péssimo odor em virtude dos tantos mendigos que ocupam as calçadas de seu entorno.
O que me surpreendeu quando lá fui pela primeira vez, foi a agitação do movimento estudantil. No painel principal do terceiro andar, havia um enorme cartaz com fotos relembrando os dez anos da morte do estudante Edson Luís. Morri de medo. Era no final do tenebroso reinado de Eremildo Viana e a chamada Abertura estava apenas começando. Mas, logo tivemos o privilégio de participar da festa que foi a volta dos professores cassados. Deles, o mais famoso era Darcy Ribeiro que aparece no cento da foto que registrou esse belo momento da minha vida universitária. 
Vida que, aliás, no IFCS, acontecia nos corredores pois as salas de aula viviam quase às moscas. Havia uma ebulição constante, permeada por acalorados debates entre as muitas tendências do Movimento Estudantil. Eu, que não era muito familiarizada com as idas e vindas da esquerda internacional ou mesmo nacional, não conseguia entender a que se devia tanta disputa. Para falar a verdade, minha alienação era tanta que, quando entrei na escola, padecia de dois medos antagônicos: o de que os comunistas pensassem que eu era da polícia ou que a polícia pensasse que eu era comunista.
Havia os do partidão, aos quais os mais avançados chamavam de reformistas. Concentravam-se mais no curso de História. A tendência com que eu mais simpatizava era o MEP, Movimento de Emancipação do Proletário (que nome, heim?), um dos tantos movimentos de esquerda que estiveram na origem do PT do Rio. Simpatizava porque achava as pessoas mais sensatas, mais equilibradas, não que eu soubesse a fundo o que distinguia o MEP dos demais. Havia outras tendências menores ou que vimos nascer, como a Libelu (Liberdade e Luta), tão pequena que só tinha duas representantes, duas irmãs do Amazonas que foram logo apelidadas de Libe e Lu. A Convergência Socialista apareceu depois, puxando gente insatisfeita com o MEP. Tudo isso era agitado pelas lideranças, pessoas com um pensamento organizado, que tinham opinião definida e definitiva sobre aqueles assuntos. Gente que se esgoelava nas assembléias, que travava verdadeiros duelos verbais entre si e que, nos corredores, trocava olhares irônicos, piadas, provocações.
Também havia a chamada massa atrasada. Aqueles que apenas percebiam o que estava rolando e que acabavam sendo manipulados por um ou por outro lado. Um desses colegas era o Alan, ou Alien, como o apelidou o Julio Adiala, por causa do filme “Alien: o 8º passageiro” e porque o Alan era mesmo muito alienado. Lembro claramente dele na aula do prof. Hausseman, magro, branco, bonito e completamente tolo. Menino pobre da Lapa que, quando entrou no IFCS, trazia um daqueles cadernos com o retrato da Sônia Braga na capa e tinha a ingenuidade de ser fã do John Travolta. Não desse Travolta que está hoje na moda, mas daquele dos Embalos de sábado à noite que era execrado pelo presunçoso pessoal do IFCS. Alan imitava direitinho os passos de dança do seu ídolo e não tinha pejo de fazê-lo para os colegas sempre que solicitado. Simpático e bem falante, encantado com as meninas tão modernas e liberadas que encontrava ali, se comportava de maneira inadequada e logo virou o “pele” da escola.
Alan pode ser considerado assim como uma espécie de vítima do movimento estudantil. Pois, influenciado por esse, logo mudou de ídolo e de visual: no lugar do cabelo cheio de brilhantina do Travolta, adotou a cabeleira revolta, adornada pela boina revolucionária do Che, deixou de lado o sapato de bico fino e as calças com vinco por botinas e roupas negras. Mas, rejeitado pelas lideranças, Alan fez seus próprios planos para a Revolução. Tinha até um mapa sobre onde seriam colocadas as bombas, no Galeão, na Rodoviária e não me lembro mais aonde. Para ele a revolução era assim como aquelas guerras dos Meninos da Rua Paulo, algo para se fazer nas férias. Ele quis até organizar um grupo para ir lutar na Nicarágua depois do final do período letivo. Ainda na Faculdade, o Alan desapareceu. Nunca mais soubemos dele. Corriam boatos de que teria sido preso. Mas nada que se comprovasse. O mais provável é que tenha pirado de vez, como aconteceu a outros tantos daquele tempo.
Do movimento estudantil, os mais furiosos eram os nossos amigos do Oito. O MR8 comandava o diretório quando cheguei lá e ali ficou até quase o final do meu curso, em 1981. Curiosamente nossos melhores amigos, aqueles com quem confraternizávamos, de quem ficamos amigos da vida inteira eram do Oito. Fazíamos piada com eles, riamos do seu exagerado entusiasmo, de sua fúria, do empenho que dedicavam à causa, indo de manhã cedinho vender A Hora do Povo na Central do Brasil, mas os adorávamos e estávamos sempre juntos deles. Na verdade nossos amigos do Oito (alguns são meus grandes amigos até hoje), faziam contraste com aquela imagem intransigente de sua organização pelo espírito mais alternativo, mais Santa Teresa que tinham. Nenhum deles chegava ao exagero de vestir luto no dia oito de outubro (dia da morte de Che Guevara), como a Lenaura, por exemplo.

35 anos de RJ: memórias pitorescas e sentimentais (27/10/12)

Só agora me dei conta que vivo no Rio de Janeiro há mais de 35 anos pois cheguei do Ceará em 1977, numa daquelas levas de cearenses que por aqui desembarcaram. O primeiro bairro em que morei foi o Leblon que ainda não era o baixo famoso das novelas do Manoel Carlos. No tempo da porta aberta, quem me deu abrigo foi a artista gráfica Vera Duarte, em sua linda e charmosa casa à Rita Ludolf, um apartamento no andar térreo de um prédio antigo que já não existe mais. Vera, carioquíssima, era amiga de Fausto Nilo e promovia grandes almoços que se estendiam pela noite a dentro, naquela desordem que nos era tão familiar, a nós que deixáramos para trás a boa vida boêmia do bares da Praia de Iracema, em Fortaleza.

A moda da boêmia carioca do tempo era o Baixo Leblon e nos dividíamos entre o Diagonal, a Pizzaria Guanabara, o Luna Bar, e mais tarde, bem mais tarde, o Real Astória. Havia alguns que se arriscavam a freqüentar o Degrau, mas esse não era para o nosso bico pois era muito caro. Apesar da constante presença em seus bares, Leblon, Jardim Botânico e Gávea faziam parte de um país distante, pois a maioria de nós morava mesmo era em Botafogo, no Flamengo ou em Copacabana.

Eu, por exemplo, logo fui morar ali na esquina da Marquês de Abrantes com a Praia de Botafogo, no último andar do Edifício Audax, um prédio modesto mas decente, tipo de quarto-e-sala amplo e arejado, bem diverso dos apartamentos que se fazem hoje. Nele tinham morado a Maíra e a Maura, mulher do Bené. Diante de sua confortável varanda se oferecia por inteiro a vista deslumbrante do Pão de Açúcar. Dali vi passar lá em baixo, no Aterro, os cortejos fúnebres de Jardel Filho e de Clara Nunes. No térreo ficava um restaurante italiano, o Giotto (que fazia o melhor petit four da cidade), mas eu e meus amigos de IFCS preferíamos o vizinho La Mole, ali no novo prédio da antiga embaixada da Argentina, por causa do couvert farto e barato. Preferência que, naturalmente, despertava o ódio dos garçons.

Para quem mora naquela esquina, o bairro é mais Flamengo que Botafogo. E os serviços que se usam ficam nas ruas Marquês de Abrantes e Senador Vergueiro. Bem no começo da Marquês de Abrantes fica o Lamas, na época que cheguei a grande e tradicional opção de bar e restaurante. Mas para a minha turma do IFICS o lazer mesmo se fazia no Largo do Machado. Lá tinha um ou duas adegas (de onde vem este hábito de adega no calor do Rio?), onde a gente, curiosamente, ia para tomar chopp com bolinho de bacalhau. Outra característica eram os muitos restaurantes árabes, todos numa mesma galeria, a dos cinemas. Nela também a gente encontrava aquele comércio simples, de alfaiates e pequenas boutiques de marcas desconhecidas. A seqüência Botafogo, Flamengo, Catete, faz assim uma espécie de dégradé da cidade do mais novo para o mais antigo que a gente encontra mesmo é na Lapa e no Centro. Pois a cidade moderna, a cidade que a gente queria ver, vinha antecedida pela fama e pelo glamour de Copacabana e Ipanema.

A impressão mais assustadora de grande cidade que tive foi a de Copacabana. A Copacabana que eu conhecia das páginas da revista O Cruzeiro era chique, era o Copacabana Palace, as calçadas com seus desenhos maravilhosos, as misses com aqueles maiôs que tinham uma espécie de barrinha na parte de baixo, tipo Maria Yeda Vargas, nossa miss universo.  E Copacabana nos idos da década de 1970 já não era nada daquilo. Era o paredão de prédios quase indistintos da Av. Nossa Senhora de Copacabana, detrás do qual escorria o quotidiano pobre dos quitinetes, habitação da gente simples que se amontoava em beliches para pegar no batente cedo nas lojas do bairro, ou das garotas de programa.

Copacabana apavorava o imigrante com a multidão compacta que fervilhava em suas calçadas, com a miséria dos pedintes contrastando com a riqueza das vitrines. Era uma São Paulo transportada para detrás da Avenida Atlântica. Pois Copacabana cabe direitinho no verso de Sampa: quem teve outro sonho feliz de cidade/ aprende depressa a chamar de realidade/ porque és o avesso do avesso do avesso do avesso. Odiei Copacabana, mas, em compensação amei e espero amar sempre Ipanema, com seus prédios baixos e o eterno Posto 9. Difícil falar do Posto 9 porque ele não muda, ainda andam por ali as mesmas pessoas, sofreram a ação do tempo, mas continuam lá, firmes, misturando-se duas ou três gerações.

Mas se a gente gostava de Ipanema por toda a mítica que se criou ou por seu encanto real, paixão mesmo para toda a vida, era Santa Teresa. Lá, onde tanta gente boa morava ou acabava indo morar em apartamentos antigos e amplos de aluguel barato, divididos pôr dois, três, quatro ou até mesmo cinco colegas, rapazes e moças. E Santa Teresa tinha e continua a ter aquele charme boêmio despojado que lhe conferem o velho casario, o clima mais fresco e seus habitantes. Mantiveram-se ali, a velha arquitetura, a mata virgem, o bonde, o jeito de vizinhança  que se conhece. Daí o encanto peculiar desse bairro, atraindo para os seus cantos escondidos a vida mais boêmia, mais alternativa, mais sentimental.

Bairro da gente que gosta da natureza, dos doidões, dos artistas, dos poetas e dos lunáticos. Dos que fazem pão em casa. Dos que não comem carne. Dos que só comem arroz integral. Dos que tomam pó de guaraná ralado na língua do pirarucu. Dos que usam incenso. Dos que botam Tarô. Dos que iam e voltavam de Mauá. Dos seguidores do Rajnish. Dos que bebem no Sobrenatural, no Curvelo, no Arnaldo, no Largo das Neves. Dos que bebem em geral. Dos que acham aventura andar de pé no estribo do bonde. Dos adeptos das formas menos ortodoxas de amar. Das belas moças desgrenhadas, em vestidões amplos (da Índia ou de Bali), cheirando a patchouli. Cama de tatame, pela vida a fora... Bairro bicho-grilo. Deus o conserve assim, bem como tanta coisa boa que ainda no encanta nessa Cidade que continua a ser maravilhosa.

O Filho de J. Carlos (20/10/12)

Na quinta-feira fui ao São João Batista dizer adeus a um amigo muito especial: Eduardo de Brito e Cunha. Estavam lá seus filhos, netos e muitos amigos. A mesma gente que encontrei quando estive com ele pela última vez na sua festa de 90 anos em Petrópolis. Elegante, alegre, muito firme, ele recebia os convidados na porta, saudando todo o mundo pelo nome, pois tinha excelente memória. Era uma festa de família com direito a apresentação de fotografias da vida do aniversariante e fiquei muito feliz em ser convidada e ainda por cima aparecer em uma das imagens.

Antes de ter me tornado amiga do Eduardo eu era amiga de seu filho, Oscar Henrique, que conheci no Museu da República, em 1983, onde ambos trabalhávamos. Quando publiquei meu primeiro livro, "Histórias de Presidentes", em 1989, precisei da autorização dos filhos para usar imagens de J. Carlos. Foi aí que Oscar me apresentou a seu pai, Eduardo, que não só me deu a autorização como ficou feliz em ver a capa do livro, concebida por Adriana Moreno, com aquela maravilhosa caricatura do Getúlio na frente do Palácio do Catete. Sei do quanto gostava dessa capa porque uma cópia dela ficava lá na parede de sua casa em Petrópolis.

Em 1994, fui indicada por Paulo Herckenhoff para escrever artigo sobre J. Carlos para "The Journal of Decorative and Propaganda Arts", da Wolfson Foundation cujo número do ano seguinte, homenagearia o Brasil. Para a pesquisa, Eduardo me aconselhou procurar seu irmão, Luiz Carlos que morava aqui pertinho de mim, na rua J. Carlos, no Jardim Botânico. Luiz Carlos se desdobrou para me dar o máximo de informações possíveis e, graças a ele pude conhecer material biográfico sobre o artista que, até então, nunca tinha sido divulgado.

Inclusive os detalhes da história que me fora contada também pelo Nássara do convite que Walt Disney fizera ao J. Carlos para ir trabalhar nos EUA. O convite não foi aceito mas, com a entrada do Brasil na Guerra, J. Carlos mandou a Disney o desenho de um papagaio vestido de pracinha e abraçado ao Pato Donald, em uniforme de mariner. O esboço desse desenho que ficava emoldurado na parede de Luiz Carlos é igualzinho ao futuro personagem de quadrinhos o Zé Carioca. E pude contar essa história no meu artigo.

Creio que foi Eduardo que me mostrou o álbum de fotografias lindamente organizado por J. Carlos em que se mostra a construção da casa deles no Jardim Botânico. Ali, o capricho do artista gráfico genial se destaca nas legendas e na distribuição das fotos. Mas a epígrafe do álbum é que diz muito de quem foi o J. Carlos pai de família. É assim: "sob a ponta fina de um lápis, ergueu-se essa casa". Pois foi exclusivamente com seu trabalho de artista, exercido de forma contínua e responsável, ao longo de quase cinquenta anos que J. Carlos criou seus quatro filhos: Luiz Carlos, Eduardo, Lourdes e Lúcia. Deles apenas a caçula, minha querida amiga Lúcia, continua viva. Aliás, em ótima forma. A gente frequenta a mesma academia de ginástica.

Depois da morte de Luiz Carlos, Eduardo concentrou a maior parte do acervo do pai e à conservação dele dedicou a vida e quase todo o espaço útil de sua casa em Petrópolis. Visitei-o lá algumas vezes. Todas as vezes fui recebida com um carinho e uma amizade que sempre me comoveram.

A sua casinha acolhedora, em meio ao verde, tinha as paredes das duas salas decoradas com originais de J. Carlos. As estantes repletas de coleções das revistas em que trabalhou, especialmente "A Careta". No gabinete, espaço contíguo à sala, ficavam as pastas com os recortes e as mapotecas repletas de originais. Nas paredes cartazes e imagens impressas de eventos que homenageavam J. Carlos. Tudo isto tinha um só zelador, um só conservador, era Eduardo de Brito e Cunha. Sozinho ele cuidava para que o tempo e a umidade não estragassem a obra do pai. Sozinho ele se encarregava de receber os convidados e mostrar o acervo, de dar sugestões sobre onde encontrar alguma coisa que pudesse não constar do mesmo (o que era raro).

E fazia tudo isto com gosto, e fazia tudo isto com prazer, e fazia tudo isto com verdadeira devoção filial. Zelar pela memória e conservar a obra do pai foi a grande missão de sua vida. Generoso e criterioso. Sempre que uma obra de qualidade pudesse servir para divulgar e tornar mais conhecida e valorizada a arte de J. Carlos, tinha pronta autorização dele para usar alguma imagem. No entanto, foi firme na cobrança dos direitos dos herdeiros quanto alguém tratava de obter lucro às custas da mesma. Assim não hesitou em acionar empresas que agiram de má-fé neste sentido.

Estava atento a tudo que dizia a J. Carlos. Era ao Eduardo que se procurava para esclarecer sobre a autenticidade de algum desenho apresentado para venda em leilões ou em galerias. Me orgulho de ter sido consultada algumas vezes por ele a respeito dessas questões. Era bom receber seu telefonema sempre amável, sempre brincalhão, com aquele jeito de falar que, não sei porque, parecia de mineiro. Da última vez que me ligou foi logo depois do aniversário de 90 anos para cobrar o autógrafo no livro que eu lhe dera de presente e esquecera de assinar. Quando abracei seu filho mais velho, José Carlos, tal como ele funcionário de carreira do Banco do Brasil, fiz questão de felicitá-lo pela graça de ter tido um pai como Eduardo bondoso, honesto e afetuoso. Pai e filho dedicado, cuja falta será sentida aqui e lá no céu, onde agora certamente está ao lado de J. Carlos, tendo deixado para trás um acervo cuja conservação dava sentido à sua vida. Tomara que o grande sonho do Eduardo, o da criação de um Museu em torno de J. Carlos venha a se concretizar. Quem sabe na sua linda casinha de Petrópolis, de forma a que a memória de pai e filho se conserve associada para sempre?

Orgulho Sobralense (13/10/12)

Só na quinta-feira conheci a Biblioteca Municipal de Sobral: Lustosa da Costa.

Chegamos na cidade no final do dia, eu, Fred, Elza e Valmir, marido da Clélia que tinha ido nos buscar no Pinto Martins para seguirmos viagem no carro dele. A estrada, especialmente no começo, tem trechos muito áridos, quase desérticos, mas passamos por alguns lugarejos agradáveis e, quanto mais perto estávamos de chegar a Sobral tínhamos o prazer de constatar que a vegetação ia se tornava mais verde, pontuadas por alguns olhos d´água que, ainda mesmo modestos, tornavam menos inóspita a paisagem.

A entrada da cidade então foi pra mim grata surpresa. Vim poucas vezes a Sobral e, da última, há uns dez anos, questões de trabalho me fizeram apressar o retorno para decepção do Lustosa que insistia em me levar para ver os lugares e as pessoas. De modo que fiquei surpresa com a avenida larga, nova e bem cuidada pela qual se entra em Sobral. Também gostei de ver o colorido das casinhas bem pintadas que a margeiam. O que dá menos prazer hoje em dia quando se visita algumas cidades do interior é ser recebido na entrada por um amontoado de lojas de material de construção mal distribuídas e mal ajambradas. Em Sobral não é assim. Até a placa de uma loja chamada "Sinhá Sabóia", personagem de família tradicional do lugar, dá um certo charme à essa entrada. E é muito bom chegar ao centro histórico e ver logo o pequeno e singelo arco do triunfo. Adoro dizer que na cidade em que nasci tem arco do triunfo. De resto, Sobral toda tá muito bonitinha.

Estávamos atrasados e corremos para chegar a tempo de assistir à cerimônia que marcava a despedida final de Lustosa da cidade que ele tanto amava. Tive um certo impacto ao avistar, debruçado sobre o Rio Acaraú, o prédio amplo, moderno e imponente, projeto do arquiteto Antonio Carlos Campelo. A biblioteca harmoniza-se maravilhosamente com seu entorno, especialmente com a belíssima ponte nova que se avista ao longe e que dá certo ar cosmopolita a Sobral.

Não estava preparada para a delicada singeleza de tudo que se passou. Toda a cerimônia, organizada pelo nosso querido amigo, o escritor e acadêmico José Luis Lira em parceria com Ana Linhares, diretora da biblioteca, foi feita diante dessa bela paisagem. Tinha tanta gente na homenagem ao Lustosa. A maior parte era aquela mesma gente boa de Sobral que eu só conhecia de nome, de ouvir falar nos artigos e livros do Lustosa. Vieram de Brasília, sua mulher Verônica, seus filhos Raquel, Sara, Carlos, junto com sua linda Paula, Tomás, filho de Raquel e a sobrinha e afilhada Joanna. Estávamos também muitos dos irmãos, Lúcia, Paulo, Socorro, Pacelli, Clélia, eu e Fred. Os cunhados Valmir e Benevides, as cunhadas, Rosa e Elza. As sobrinhas Sellene, Mirian, Marina e Mariana. O sobrinho Gabriel. Seus amigos queridos que foram de Fortaleza a Sobral: Paulo Elpídio, Zuleide e Marinha, Lauro Vinhas e Marildes, e o Juarez Leitão. Este último, companheiro inseparável do Lustosa nos últimos anos, solidário, leal e, principalmente, de divertidíssima prosa.

Quando chegamos, a banda tocava um dobrado e o presidente da Academia Sobralense de Letras, José Luis Lira deu início à cerimônia. Com elegância e distinção fez as saudações de praxe e pronunciou tocante discurso. Seguido pela fala eloquente e apaixonada de Juarez Leitão e do texto do Carlos Eduardo, falando em nome dos filhos, que levou todo o mundo às lágrimas. Em seguida Sara e Carlos se dirigiram à lancha que os levou ao meio do Acaraú para jogar ali, tal como era o desejo dele, as cinzas do Lustosa. Parte delas ficará depositada na biblioteca para ser colocada, mais tarde, na base do busto do jornalista a ser esculpido. Sua biblioteca particular vai, segundo me anunciaram seus filhos, enriquecer o acervo da Biblioteca Lustosa da Costa. E não poderia ser de outro jeito.

Paulo, meu irmão, me disse que o rio Acaraú de sua infância era seco e que fora perenizado por obra e graça dos esforços das competentes administrações que vêm contribuindo para devolver a Sobral seu protagonismo. Inclusive seu atual prefeito, José Clodoveu de Arruda Neto, que o povo chama carinhosamente de Veveu. Conversando com ele ao final da cerimônia, elogiei a beleza da cidade, o fato de ver tudo muito bonitinho e bem cuidado. Ele expôs seu principio. O principio da vidraça quebrada. Ou seja, se numa casa, uma vidraça quebra e você deixa ficar assim mesmo, daqui a pouco, outra janela de outro lado também se deteriora, a tinta da parede descasca, o muro tomba, enfim... o imóvel se degrada. Com as cidades é a mesma coisa. Portanto o negócio é não deixar nem a primeira vidraça ficar quebrada. É zelar para manter tudo direitinho, sem lixo, sem sujeira, com as ruas bem calçadas e sinalizadas. E é isto, ao meu ver que é o que faz a diferença entre o bom e o mau prefeito.

Depois fomos todos jantar em restaurante aprazível, bem em frente a igreja de Nossa Senhora do Rosário, recém restaurada. No caminho fui conversando com o Campelo, velho e querido amigo, atual Secretário de Cultura de Sobral. Ele e sua mulher, Alja, ambos tendo vivido sempre em Fortaleza, estão perfeitamente integrados à vida da cidade. Gostam do lugar, gostam da brisa do entardecer, gostam dos tesouros arquitetônicos prodigiosamente conservados mas, principalmente, gostam das pessoas. Gostam dessa simplicidade que nossa Fortaleza perdeu.

Sobral conservou seus valores materiais e imateriais, e a eles agregou de forma equilibrada a modernização urbana necessária. Gosto de pensar que o Lustosa tem parte nisto. Gosto de pensar que essa obsessão dele por Sobral, expressa em seus tantos livros, sua vontade de desvendar a história desse lugar em que viveu infância e adolescência, com seu elenco de personagens e questões que o fascinaram para o resto da vida, ajudaram Sobral a se redescobrir e a conservar elevada a sua já tradicionalmente elevada autoestima.

Lustosa da Costa, meu irmão (6/10/12)

No dia em que o Lustosa morreu, minha amiga de adolescência, Juraci Bessa Maia, hoje professora da UFC, lembrou que foi por influência dele que nós duas escolhemos fazer o curso de Ciências Sociais. Eu não me lembrava disto. Lembrava sim do seu entusiasmo pela Sociologia, do fato de que, quando entrei na universidade, em 1977, ele me deu logo um livro de sua biblioteca "A redução sociológica", de Guerreiro Ramos, e a nova edição do "Raízes do Brasil", de Sergio Buarque de Holanda. Eu me esquecera desse dado tão importante. De que meu primeiro contato não só com as Ciências Sociais mas também com a grande literatura francesa, graças ao acesso fácil aos livros de sua maravilhosa biblioteca, me foram proporcionado por meu irmão. Graças também aos tantos outros livros que comprava para nós, e aos artigos de jornal que gostaria que lêssemos, anotadas com nosso nome em sua letra tão característica.

Porque a influência do Lustosa sobre minha vida é feita de coisas assim essenciais. Acredito que, como, na bela e banalizada sentença do "Pequeno Príncipe": o essencial é invisível ao olhos, só se vê bem com o coração. E só agora com o coração ferido pela perda do meu irmão e amigo posso ver coisas essenciais. Posso lembrar de que, na minha infância, com um talento razoável para o desenho, fui levada por ele a estudar pintura no centro de artes de Heloísa Juaçaba, onde tive o privilégio de ter aulas com o pintor e cineasta J. Siqueira. Posso lembrar também que, antes disto mesmo, convenceu papai a nos comprar um piano e nos pagar aulas pois era de bom tom que mocinhas bem educadas tivessem uma educação musical. O investimento não prosperou porque eu e Clélia éramos totalmente desprovidas de dotes musicais.

Certamente foi ele ainda que convenceu nossos pais a me deixar entrar nas Bandeirantes, movimento que então era o que havia de mais moderno e que integrava meninas de várias classe sociais. Lembro do meu deslumbramento ao participar de atividade na casa de Edson Queiroz, com seus lindos jardins, pois uma das filhas dele, Lenise, era minha colega das fadinhas. Na adolescência, ainda preocupado em fazer de nós, meninas chucras da Piedade, encabuladas, matutésimas, tão desenvoltas e elegantes como as mocinhas da Aldeota, nos matriculou em curso que a Socila estava oferecendo no Ideal Club.

Era assim, o irmão mais velho, o amigo de seus irmãos, o tio e o pai empolgado pelo sucesso dos filhos e dos sobrinhos. Mas, principalmente, o filho que esteve sempre ao lado do pai e da mãe. O filho que honrou a memória do pai, fazendo das histórias que este lhe contou elemento base de sua obra sobre Sobral. Pois foram personalidades complementares: o Lustosa e seu Costa. Tão diferentes entre si e tão próximos, tão amigos. Respeitando-se e amando-se, pai e filho. O pai amável, todo doçura, todo sedução, todo habilidade para as coisas práticas e para as costuras da vida em família e na sociedade local. O filho mais sério, mais zangado, estabanado como a mãe, capaz de guardar mágoas profundas, mas também homem do mundo e da sociedade, construtor de amizades sólidas e duradouras. Amizades da vida inteira: Dorian Sampaio, Lúcio Alcântara, Paulo Elpídio, Helio Barros, Lúcio Brasileiro, Antenor Barros Leal, Claudio Castelo. Essa gente andou lá em casa desde que eu era pequena, eram os amigos-irmãos, como ele chamava. Essa gente esteve na rua Nossa Senhora da Piedade, 126, para a festa de 15 anos de Maria Clélia. Festa hippie, cujo convite foi desenhado pelo então já famoso Mino. Coisa que só o enorme prestígio do Lustosa poderia angariar para a família.

Pois foi ele que fez do sobrenome Lustosa da Costa uma marca e uma legenda que todos nós que viemos depois procuramos espelhar e valorizar. Sermos irmãos do grande jornalista, conhecido de todo o mundo no Ceará, não só por sua presença na imprensa, mas por fazer dessa presença espaço de boa literatura nos fez importantes, nos fez altaneiros. Ele nos pertencia e nós a ele. Sua crônica diária, quase sempre intimista, quase sempre falava da família. Era até motivo de piada. Mas é que o Lustosa era a sua família. Ele vibrava com nossas conquistas mais até do que nós mesmos. E tudo que fazíamos era para ele sempre como a confirmação de que aqueles irmãozinhos menores, lá do Beco da Piedade, valiam alguma coisa.

Na hora em que a gente perde alguém tão importante na vida, a culpa do que não fizemos é o complemento amargo das boas lembranças. Se minhas dívidas com meu irmão são imensas, a culpa de não tê-lo dito e demonstrado enquanto ele estava aqui, pertinho, entre nós, disponível e doido para estar perto, é enorme. Ele queria sempre me levar para estar com seus amigos. Amigos que eu não conhecia bem e que eram da geração dele. Blasé, eu preferia estar com aquela turma boemia do Pereira, nos bares da vida, contando histórias da minha própria mocidade. Eu não fui tantas vezes em que ele me convidou. E me custava tão pouco ter ido.

Quando a gente tem na vida alguém assim, que sempre esteve entre nós, que sempre pairou sobre nós, com o qual divergimos e com cujas manias implicamos, a gente não dá valor. A gente acha que vai ter muito tempo para atender ao que ele nos pede. Que da próxima a gente vai... etc. etc. Só que agora sabemos que não vai ter próxima, que na próxima vez que formos a Fortaleza ficar uns dias com mamãe não vamos ter a presença dele por lá. Companhia mais constante da mãe nonagenária, Lustosa era cada vez mais caseiro, cada vez mais família e cada vez mais feliz de poder participar daqueles animados e barulhentos almoços de domingo da casa de D. Dolores.

Depois de nos despedirmos dele, em Brasília, fomos eu, Roberto e Fred, junto com um grupo grande de sobrinhos e sobrinhas, almoçar. Barulhentos, cheios de histórias, os primos reencontravam primos que não se viam há muito tempo, apesar de viverem na mesa cidade. Não pude deixar de agradecer ao Lustosa me proporcionar mais esse encontro feliz. Não pude também deixar de lamentar que ele, que gostava tanto de ver a família toda reunida, não estivesse ali para rir conosco como fizemos tantas vezes.

Afrânio Coutinho: literatura como missão (29/9/12)

Para Afrânio Coutinho, baiano que chegou ao Rio de Janeiro em 1947, com 36 anos de idade, bem vale o lema: literatura como missão. Afrânio Coutinho, que nasceu em 1911, formou-se em medicina em 1931, mas nunca exerceu a profissão pois, desde cedo, sua paixão foi a literatura. Começando como professor de Literatura e História no curso secundário, foi convidado, em 1941, a fazer parte do corpo docente da Faculdade de Filosofia da Bahia.

No ano seguinte, caiu-lhe no colo o emprego dos sonhos: o cargo de redator-secretário da revista "Seleções", em Nova York. Este posto que ocupou durante cinco anos, os cursos que frequentou na Universidade de Columbia e em outras universidades norte-americanas, aperfeiçoando-se em crítica, história literária e Barroco, mudaram o rumo de sua trajetória.

Se a vocação para a crítica literária já estava nele, a maneira de a fazer, a essência da arte ou da ciência da crítica, ele aprenderia lá na América. Sua atividade posterior no Brasil foi definitivamente marcada pela influência da moderna crítica americana e, para fazer dela a ferramenta de trabalho por excelência dos estudiosos da matéria, empreendeu uma verdadeira cruzada através da imprensa. De volta ao Brasil, inaugurou, em 1948, no Suplemento Literário do Diário de Notícias, a seção "Correntes Cruzadas", debatendo problemas de crítica e teoria literária. Manteve constante colaboração na imprensa e em revistas literárias, do país e do estrangeiro e dirigiu, entre 1951 e 1960, a revista "Coletânea".

Polêmico, agressivo, direto, sem papas na língua, cioso de seu lugar e de seu papel na história da crítica literária, Afrânio defendia uma atitude mais séria por parte dos que faziam e promoviam a literatura no Brasil. Protestando contra as "igrejinhas" que, através da proteção aos do grupo, faziam com que muito falsos valores emergissem enquanto talentos verdadeiros permaneciam desconhecidos, ele dizia que sua missão era promover "a renovação da crítica literária, que, no Brasil, estava dominada pelo impressionismo, velho e sovado, e, pior ainda, transformado ou degenerado em simples jornalismo, ou achismo, do gostei ou não gostei, praticado à larga pelos donos de rodapés de crítica literária".

Amava a polêmica e nela estava em seu elemento, se sentia perfeitamente à vontade: "Minha paixão é o assalto à praça", dizia. Quando assumiu a cadeira de número 33 da Academia Brasileira de Letras, disse em seu discurso de posse: "ao me escolherdes para a vossa ilustre companhia, escolhestes a própria controvérsia". E continuou, lembrando que nunca foram amenas as suas relações com os grupos literários, desconfiados dele, um solitário que: "se recusava a submeter-se ao ritual de admissão nas confrarias e igrejinhas e reagia contra o predomínio, habitual entre nós, da vida literária sobre a literatura". Apesar dessa aparente vocação de demolidor, Afrânio Coutinho foi um semeador, sua obra vastíssima foi construída ao lado de uma trajetória de professor dedicado, em função da qual sacrificou empregos que teriam lhe proporcionado melhor rendimento.

Porque, de sua missão em prol da literatura brasileira fazia parte a educação, desde seu primeiro ofício em um colégio na Bahia. Depois do período nos EUA, passou pelo Colégio Pedro II, no Rio e outros tantos cursos e universidades. Até concluir sua trajetória na Universidade Federal do Rio de Janeiro, formou gerações e gerações de especialistas qualificados. Mesmo depois da aposentadoria, prosseguiu no ofício de professor através das atividades da Oficina Literária Afrânio Coutinho onde, tendo por base sua vasta biblioteca particular, promovia estudos na área da literatura, ministrava cursos, proferia conferências e recebia escritores nacionais e estrangeiros.

Sua obra variada se inicia com a publicação, em 1940, de Filosofia de Machado de Assis, depois revista em função dos novos conceitos. Coordenou, a partir de 1950, a elaboração e publicação da monumental A literatura no Brasil. Foi naquele ano que publicou também a tese que defendeu para o concurso do colégio Pedro II, Aspectos da literatura barroca, que seria depois complementada pela Bibliografia para o estudo do barroco. Da longa sucessão de livros que publicou, se destacam as edições críticas da obra de grandes autores brasileiros e a elaboração, junto com J. Galante de Sousa e Eduardo Coutinho, da "Enciclopédia de Literatura Brasileira", publicada em 1990.

Dois trabalhos de Afrânio Coutinho merecem destaque: a organização dos textos e o belo prefácio à polêmica Alencar/Nabuco e o pequeno "Euclides, Capistrano e Araripe". Neste último, especialmente a parte em que fala de Capistrano de Abreu e do contexto de sua formação: o Ceará do século XIX. Ali, Afrânio Coutinho se superou na recuperação do universo de referências que conformaram o perfil do intelectual especialíssimo que foi Capistrano, apresentando um panorama rico e original da situação cultura do Ceará naquele período. Ao mesmo tempo, é notável a maneira como demonstra o papel fundamental de uma educação básica de qualidade na trajetória de toda uma geração de escritores.

Creio que este é um aspecto da história cultural do Ceará que merecia ser mais investigado. Quando se analisa o perfil dos fundadores da Padaria Espiritual que eram, em sua maioria rapazes do comércio, colocam-se algumas questões: onde eles adquiriram aquela cultura? Como tiveram alcance aos livros que citam, alguns deles em línguas estrangeiras? Onde fizeram sua formação? Imagino que tanto o Liceu do Ceará, quanto os seminários de padres, quanto as escolas primárias são os lugares onde se deve procurar as repostas.

O interessante seria descobrir como foi que esse ensino de qualidade se difundiu no nordeste do século XIX e, mais importante, em que momento ele deixou de existir.

"Quem seus inimigos poupa... (22/9/12)

Nas mãos lhes morre” – é esse o complemento do adágio popular que achei em um dos jornais da Independência. Refrões, adágios, provérbios ou aforismos, são os nomes que, com ligeiras variações de sentido, designam aquela expressão sucinta, quase sempre doutrinal ou sentenciosa, cuja legitimidade se baseia na antiguidade e na aprovação pelo senso comum. Formula sintética e direta, o que dá titulo a este artigo, como alguns de seus congêneres, é repleto de significados e fornece uma lição digna de Maquiavel que analisaremos no final.

Don José Maria Sbarbi, presbítero premiado pela Biblioteca Nacional de Espanha, em 1871, por sua monografia sobre “Los refranes, adagios e proverbios castellanos”, acreditava que estudar os provérbios era adquirir ciência de modo “más llevadero, consumando el difícil maridaje de lo útil com lo agradable”. Segundo Monsenhor Sbarbi, Aristóteles já os definia como “preciosas relíquias da venerável antiguidade preservadas pela memória dos homens”.

Atribui-se a Horácio aquele que se usa até hoje: “quando vires as barbas do teu vizinho arder, deita as tuas de molho”. E a Sêneca, um de que muita gostava o Visconde de Cairu: “Quem bate primeiro, bate duas vezes”. Os que mais apareciam nos jornais brasileiros de 1822 eram mesmo os de origem obscura: “palavras loucas, orelhas moucas”; “quem não tem padrinho morre mouro”; “na barba do tolo aprende o barbeiro novo”; “cada louco com sua teima”, etc.

Analisando a cultura do século XVI, na Europa do Norte, Natalie Zemon Davis mostra que, apesar da distância que havia entre a linguagem clerical e/ou literária e a fala do homem do campo, elas tinham algo em comum: ambas compartilhavam o uso do provérbio. Isso se deveria, entre outras coisas, ao fato de que o nível de alfabetização entre os leigos na Europa do Norte se conservara baixo até o século XV.

Para os padres, os provérbios comuns eram uma maneira de invocar um universo de discurso familiar e de ajudar as pessoas a lembrarem a mensagem do sermão. Os advogados, por sua vez, se encantavam com a estrutura harmoniosa e a brevidade, acreditando que, por sua densidade, os provérbios ajudavam a persuadir.

Mas, segundo Davis, com o advento do Racionalismo e do Iluminismo, os provérbios foram postos de lado: passaram a ser vistos como produto de falsas associações. Não sendo passíveis de provas adequadas, não se recomendavam nem por sua concisão nem por sua familiaridade, tampouco por sua longa existência.

Talvez seu uso não tenha sido tão deixado de lado assim. Em meu livro “Insultos impressos” (Cia. das Letras, 2000) demonstro como eram frequentemente usados pelos jornalistas que fizeram a Independência do Brasil.

Muito me impressionou o uso que todos os que escreviam nos jornais daquele tempo – de Hipólito da Costa, passando por Gonçalves Ledo e o Visconde de Cairu, até chegar aos jornalistas mais populares, como João Soares Lisboa e Luís Augusto May – faziam deles. E, vindo mais perto, nos surpreendemos ao verificar que Rui
Barbosa parece ter sido senão um estudioso pelo menos um colecionador de obras que tratavam do assunto.

De sua admirável biblioteca constam 15 títulos relacionados a aforismos, provérbios ou refrões. Um deles, de Gustave Le Bon.

Acreditava Don José Sbarbi que o império dos provérbios era universal e tão antigo como o mundo e que sua duração alcançaria até o fim das gerações. Decerto esse império não é tão poderoso hoje quanto em seu tempo. Mas um dicionário de provérbios lançado há poucos anos pela Lacerda Editores, ao estabelecer as diversas formas que um mesmo provérbio pode assumir em vários idiomas, surpreende ao nos revelar a universalidade de alguns que considerávamos tipicamente brasileiros.

O que escolhi para dar titulo a esse artigo, “quem seus inimigos poupa nas mãos lhes morre”, me veio à mente a propósito exatamente da política. Neste terreno, mais do que em outros, a lição curta e direta daquele provérbio deve ser sempre lembrada. Especialmente pelos bons, aqueles que veem a política e a humanidade com olhos diversos dos de Maquiavel. Seu sentido é de que se você tem o poder e a oportunidade de neutralizar forças que estão empenhadas em lhe destruir e não o faz, não tenha dúvida, quando a situação se inverter, você será destruído.

Os bem intencionados e os abnegados que só veem na política uma forma de fazer o bem, de ajudar aos que mais precisam, esquecem essa lição fundamental: para os que já são ricos e poderosos e estão se lixando para o destino dos outros, o dinheiro e o poder nunca são demais. Há no mundo um contingente considerável de pessoas para as quais o sofrimento, a miséria e a degradação do próximo são perfeitamente indiferentes. Aí vale outro refrão: não tome os outros por si.

Proteja o seu legado, neutralize os inimigos de seu projeto, faça o que estiver ao seu alcance para impedi-los de destruir o que foi conquistado. Quem conhece a história das lutas sociais sabe que foi um processo longo, sofrido e difícil cujo resultado precisa ser guardado dia e noite contra os que estão empenhados em vê-lo naufragar. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, já foi um slogan do liberalismo de direita mas que vale para qualquer situação.

Na verdade não só o da liberdade mas também o preço da igualdade, dos direitos, da distribuição mais justa das riquezas, da manutenção de um estado de bem-estar social. O que vemos hoje acontecer nos países desenvolvidos é exatamente o resultado da falta de vigilância dos que estavam acostumados a ter tudo e não se deram conta do valor do que lhes estava sendo tirado. As novas gerações não tinham ideia do quanto aquelas conquistas tinham custado aos seus pais e avós. Leva-se muito tempo para erguer uma nação mais justa e igualitária. Reduzi-la rapidamente à situação anterior é só questão de recursos e de oportunidade.

No centenário da Independência (15/9/12)

Em pequeno e admirável livro, " A Nação faz 100 anos" hoje disponível na internet, a historiadora Marly Motta analisou o ambiente e o caráter das festas que marcaram o centenário da Independência do Brasil, em 1922. Segundo Marly, uma espécie de "vigilância comemorativa" já teria tomado conta da sociedade brasileira alguns anos antes da data. Como sói acontecer em momentos como este, a Nação, através de suas elites, passou por um processo de auto-análise, revendo o passado, criticando o presente, antecipando o que deveria ser o futuro. Como disse, em tom bem humorado a revista "Careta": "os grandes momentos da vida sugerem grandes idéias; o gigante vai fazer cem anos de vida independente. É possível que nessa ocasião lhe acuda a idéia (...) de tomar um bom lombrigueiro".

O passado marcado pela colonização portuguesa favorecia a produção de diagnósticos negativos. De acordo com eles não tínhamos progredido, não éramos iguais aos Estados Unidos por conta dos portugueses. Portugueses estes que continuavam visíveis na paisagem da Capital Federal, dominando o comércio, os transportes e o aluguel das habitações pobres. Portugueses execrados desde o começo da República, quando os florianistas os tinham escolhido como alvo preferencial de sua revolta. Sentimento que a aproximação do Centenário da Independência contribuía para fazer renascer. Era preciso apagar a mancha do colonizador para afirmar a brasilidade.

E este também foi um dos argumentos usados pelos que defendiam o arrasamento do Morro do Castelo, primeiro núcleo urbano do Rio de janeiro. Alegaram que aquela herança colonial era um estafermo a encobrir a beleza natural do Rio, que era foco de mazelas e doenças e que impedia a circulação do ar na cidade. Desde o tempo da colônia o morro do Castelo viera perdendo prestigio para outros espaços da cidade, acabando por se converter em um bairro pobre e abandonado. As cabrinhas que se via pastando na sua encosta, segundo o "Revista da Semana", faziam contraste com a vizinhança elegante, onde sobressaiam os edifícios modernos e imponentes do Teatro Municipal, da Biblioteca Nacional e do STF.

Poucas foram as vozes que se levantaram em defesa do velho morro. Delas a mais revoltada era a de Lima Barreto que acusava o governo de deixar de lado obras de utilidade social para "pensar só nesses arremedos parisienses, nessas fachadas e ilusões cenográficas". Numa cidade onde havia falta de moradia para o povo, dizia Lima Barreto, o governo pretendia destruir, por causa de uma festa, a área habitada por milhares de pessoas, em sua maioria pobres, sem lhes oferecer nada em troca. Lima Barreto denunciava, já naquele tempo, o deslumbramento da elite expresso na tola indagação que estava nas entrelinhas de todas as matérias jornalistas sobre os festejos: o que vão pensar de nós os estrangeiros? De fato, para o brasileiro parecer civilizado diante do visitante europeu era preciso, como disse a revista "Careta": "saber envergar uma casaca, fumar charuto sem se engasgar (...) e rir de boca fechada para não cuspir na cara do vizinho".

O morro foi abaixo para dar lugar aos magníficos pavilhões que compuseram a Grande Exposição Internacional comemorativa do centenário da Independência. Do elenco de grandes obras erguidas então, restaram os prédios que abrigam hoje a ABL, o MIS/RJ, o Serviço de Saúde dos Portos e parte do MHN. Outra obra que se fez por conta da festa foi a construção do Hotel Gloria. O Hotel Gloria, onde se hospedaram os visitantes mais ilustres foi, aliás, o "point" para onde acorriam os jornalistas em busca das celebridas. Foi no seu hall que Viriato Correia entrevistou a nora do Conde D´Eu que, junto com dois dos netos da princesa Isabel, acompanharam o avô na travessia do Atlântico.

Com o fim do banimento da família imperial decretado no final de 1920, os despojos de d. Pedro II e de d. Teresa Cristina foram trazidos para o Rio de Janeiro. Chegaram no começo de 1921, acompanhados pelo conde D´Eu. Viriato Correa acompanhou o velho Conde em suas andanças pelo Rio e registrou, em entrevista publicada no Correio da Manhã, a emoção de seu reencontro com antigos soldados da Guerra do Paraguai que tinham lutado sob suas ordens. Entusiasmado pela acolhida calorosa que recebeu, o Conde d´Eu aceitou o convite para voltar em 1922 para os festejos pelo centenário da Independência. A morte o colheu durante a travessia do Atlântico.

Se a imagem de d. Pedro II e de seu reinado foi valorizada naquele contexto sendo louvado por Assis Chateaubriand, como "ultimo governo honesto que teve o Brasil" , o mesmo louvor não foi dedicado a seu pai. Segundo a imprensa do tempo d. Pedro I "não passou de um mero oportunista que refreou o quanto pode as arrancadas independentistas." Ao invés de dar destaque ao "estróina" que, apesar de "suas decisões repentinas, vacilações de caráter, incultura de espírito e falta de austeridade em seus costumes privados" proclamou a Independência, as celebrações, especialmente as realizadas em São Paulo, preferiram valorizar o papel de José Bonifácio.

Era parte do esforço paulista para garantir para São Paulo um lugar central nas comemorações. Um monumento aos Andrada foi erguido em Santos e, segundo Marly Motta, as próprias manifestações artísticas da Semana de Arte Moderna em sua critica à cultura da "Belle Epoque" traziam embutidas uma censura ao Rio de Janeiro. Através de Mario de Andrade, São Paulo reivindicava para si papel central na renovação da cultura brasileira apontando a decadência do Rio de Janeiro. Assim, como demonstra o livro de Marly Motta, os festejos pelo Centenário da Independência marcaram também a irrupção de São Paulo no cenário cultural brasileiro de maneira avassaladora e definitiva.