A Padaria Espiritual (26/5/12)

Uma heroica agremiação de homens de letras viu a luz no longínquo dia 28 de maio de 1892. Foi em Fortaleza e a Padaria Espiritual, movimento literário que animou essa capital na última década do século, integrou o Ceará ao cenário das letras nacionais. Não era um cenáculo de estudiosos, artistas renomados, personagens da elite local banhada bissextamente de cultura nas Europas. A Padaria Espiritual tinha uma peculiaridade que talvez até empreste maior poesia à sua história. Ela era composta, em sua maioria, por moços do comércio. Estes rapazes também estiveram na origem de uma instituição que durante décadas teve presença importante no cenário da capital cearense: a Fênix Caixeiral, espécie de associação cultural dos comerciários.

O programa de instalação da Padaria preconizava que seu fim era "fornecer pão de espírito aos sócios em particular e ao povo em geral" e, como o de toda organização de jovens, registrava propósitos maiores do que a barriga. Dentro do espírito da época o regulamento proibia o uso de expressões estranhas ao vernáculo e vetava as peças literárias que fizessem referência a animais ou plantas estranhos à flora e à fauna brasileira. Atenta às coisas da terra de origem, a Padaria se comprometia a produzir um cancioneiro popular "genuinamente cearense" e um livro contando as aventuras do "extraordinário" Padre Verdeixa. Apesar de, pelo regulamento, padres, alfaiates e a polícia, serem considerados inimigos naturais dos Padeiros, alertava-se que seria registrado o "facto de apparecer algum padeiro com collarinho de nitidez e alvura contestáveis".

A Padaria também se propunha a intervir no problema da educação no Ceará prevendo, em seu regulamento, a nomeação de comissões para averiguar as condições dos estabelecimentos de instrução pública e particular de Fortaleza. Dentro do mesmo espírito, a Padaria manifestava o desejo de "criar aulas noturnas para a infância desvalida". Conscientes da dificuldade da empreitada, os padeiros se comprometiam, no entanto, a lutar por tornar obrigatória a instrução pública primária. Também pretendiam influir no sentido de tornar Fortaleza mais formosa, mais civilizada. Por isso os padeiros elegem como a mais útil e civilizadora das instituições a Avenida Caio Prado; se comprometem a pugnar pelo aformoseamento do Parque da Liberdade; pela boa conservação da cidade em geral e para compelir "o Mané Coco a terminar o serviço da Avenida Ferreira". O Mané Coco era o dono do Café Java, onde a Padaria Espiritual fez a sua estreia. O Café Java ficava a um dos quatro cantos da Praça do Ferreira, bem no coração de Fortaleza.

Eram 20 os rapazes que fundaram a Padaria. Destes alguns emigraram para o Rio logo, outros fizeram carreira na política, outros simplesmente mergulharam em radical anonimato. Da primeira safra, a da fase irreverente e irresponsável, que vai de 1892 a 1894, destacam-se Antônio Sales e Adolfo Caminha. Temperamentos avessos, Antônio Sales foi, assim uma espécie de "public relations" das letras cearenses e das próprias, estabelecendo uma teia de relações no sul do país. Viveu no Rio, entre 1897 e 1920, escrevendo para os jornais, exercitando a veia humorística, grande atrativo da imprensa do tempo. Adolfo Caminha, ao contrário, tinha uma natureza intempestiva, apaixonada, de uma impetuosidade febril. Também radicado no Rio, onde morreu, prematuramente em 1897, Adolfo Caminha faz lembrar Raul Pompéia, na forma com que investe contra os figurões das letras e os preconceitos do tempo. Não podiam se dar e não se davam. Por Antônio Sales não, que era do time das relações polidas, na linha de Coelho Neto e Olavo Bilac. Mas por Caminha, o briguento, o criador de caso, seguidor de Emile Zola, sempre a por o dedo na ferida.

A boa aceitação que a Padaria teve pelos literatos do Sul estimulou a sua sobrevida. E, na segunda fase, que vai de 1894 a 1898, o destaque é para o homem de ciências e de letras, Rodolfo Teófilo. O sanitarista caboclo, farmacêutico ilustrado que enfrentou a oligarquia Acioli promovendo por conta própria a campanha da vacinação contra a varíola no Ceará. É na agradável casa de Rodolfo Teófilo, em reuniões regadas a refresco de cajá que se reúne pelas últimas vezes a Padaria Espiritual. Durante os seis anos de sua existência, a Padaria produziu 36 exemplares d´O Pão, seu jornal. Na fase aventureira, o jornal sai espaçadamente, quatro vezes. Mas na fase institucional ele mantém sua periodicidade e recebe artigos de colaboradores ilustres do cenário das letras nacionais.

Havia muito de cópia, de imitação tanto nas maneiras, quanto na produção literária da Padaria. Tentavam os moços integrar o Ceará da seca, da pobreza, no contexto da civilização. Esforçavam-se os intelectuais da província por serem reconhecidos na Rua do Ouvidor. Sonhavam em frequentar as confeitarias Pascoal e Colombo, encontrar com naturalidade a Artur Azevedo, José do Patrocínio, Olavo Bilac, Coelho Neto. Ressentiam-se do meio acanhado em que viviam e, como sói acontecer, imaginavam-se milhões de vezes mais talentosos do que eram. Não eram fantasias diversas das dos literatos da Capital Federal, sempre com os olhos voltados para Paris.

A maior parte deles fracassou, vítima da pobreza ou do meio. Talentos que ficaram esquecidos atrás de um bureau de repartição pública, de um balcão de farmácia, ou que se afogaram no álcool, perdidos nas mesas de bar da cidade provinciana, sem cacife para partir rumo ao Sul e provar a si e ao mundo o seu gênio. Casos piores houve, dos que partiram e, derrotados pela competição na grande cidade ou confrontados com a realidade das limitações do próprio, retornaram, amargando o sabor do fracasso e das "ilusões perdidas".

Novos e velhos desafios (19/5/12)

Diz a música que "quando a gente está contente, tanto faz o quente tanto faz o frio". E, de fato, quando a gente está bem consigo, com o lugar em que vive, com as pessoas que nos cercam, com o trabalho que faz, qualquer coisa é boa. Pode ser o botequim mais vagabundo, a sala de trabalho mas sem graça, o apartamento mais modesto: não importa. A gente está tão contente que tanto faz. O resto é só o resto. O essencial está bem preenchido

Mas quando a gente não está contente? Quando a gente está se sentindo mal dentro da própria pele, quando a gente tem um mal-estar geral? Quando a gente se sente inadequada? Aí é justamente o contrário: tudo fica meio sem graça e sem sentido. Tudo o que você faz e sente fica meio misturado com aquele saber amargo que está na vida e está em você. Dá um desanimo danado e a tendência a perder a fé no próprio valor é grande.

É interessante olhar a vida dessa perspectiva, de vez em quando. Não ser aceito, não ser querido, não ser desejado são situações difíceis de suportar, especialmente se você é jovem. Mas também não são um passeio quando você já passou dos 50 e está em ambiente estranho em que não te conhecem, não sabem quem você é, não sabem o que você fez e se o que você fez tem algum interesse. O que fazer? A melhor coisa a fazer, me parece, é tentar se segurar nas suas referências. Nas coisas que você sabe que faz bem e que, em outras circunstâncias, te ajudaram a viver, a conquistar seu lugar no mundo.

Quando me sinto assim, penso nas pessoas que foram submetidas a situações limite. Nas pessoas que tiveram que se submeter a chefes autoritários por falta de alternativa pois só havia aquele emprego e dele dependia a subsistência de sua família. Nas pessoas que estiveram sob o domínio de alguém: mulheres de maridos tirânicos que não tinham meios de lhes opor resistência; prisioneiros em situações de injustiça, sob o domínio de guardas sádicos; pessoas que estão sequestradas e submetidas a criminosos cruéis; os presos e torturados da ditadura. Nessas situações limite, até onde a gente vai? Como a natureza da gente faz para não ser destroçada? Como sobreviver inteiro e sem sequelas a experiências assim?

Claro que nada tem a ver com o pequeno mal estar de viver no estrangeiro temporariamente, sendo um total desconhecido e tendo que lidar com questões práticas totalmente inéditas na sua vida. Claro que a sensação de desamparo nem se aproxima da que viveram as pessoas que enfrentaram experiências como as que citei acima.

Mas quando a gente vive há alguns anos na zona de conforto, quando a gente passa muito tempo sendo bem tratada pela vida, pode ser pego no contra-pé diante de uma situação menos acolhedora, menos receptiva, menos amigável. Aí é preciso lembrar do choque que foi viver isto no primeiro emprego. No momento em que você chegou sozinha ao lugar onde ia trabalhar e sentiu a hostilidade à sua volta. No tanto que aquela rejeição fez você sofrer e no tanto que você aprendeu com ela. Faz tanto tempo, não é mesmo? O mundo ainda não era esse lugar tão fácil de se mover, onde em cada esquina a gente encontra um conhecido. Onde você passou a fazer parte de uma pequena comunidade que tem entrada em quase todo lugar.

Outro dia vi um filme antigo sobre a vida do Émile Zola. Não era grande coisa e o Paul Muni estava bastante caricato no papel do Zola. O filme era ingênuo e até mesmo a situação que vou relatar aqui tem um quê de ingenuidade. O Zola, que tinha começado a carreira literária publicando títulos chocantes, romances denúncia sobre a realidade das mulheres da rua, dos operários, dos pobres em geral havia, no final da vida, se tornado uma celebridade. Estava a ponto de entrar para a Académie Française. Gordo, rico e bem situado na vida, Zola não queria mais saber de confusão. Queria gozar as conquistas que suas lutas anteriores tinham lhe proporcionado.

Foi então que a mulher do Dreyfus foi procurá-lo, demonstrando, através de documentos, a enorme injustiça que estava sendo cometida contra seu marido. O Zola não queria nem saber, disse que agora queria era sossego, que não ia se meter naquela batalha já perdida naquele momento de sua vida. Decepcionada, a mulher do Dreyfus foi embora e o Zola retomou a leitura da carta da Academia anunciando que ele seria aceito, creio que também em virtude de seu comportamento tão de acordo com o que recomendava a boa sociedade.

Foi aí que ele resolveu chutar o balde, como se diz. Pegou os papéis do Dreyfus, concluiu que realmente ele estava condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, por conta de uma injustiça clamorosa, um verdadeiro crime cometido pelas altas patentes do exército francês. E o Zola publicou no jornal L´Aurore o seu artigo "J´accuse...!".

E comprou sarna para se coçar pois como o caso Dreyfus estava encerrado, ele é que foi a julgamento por ofensa às forças armadas. A campanha que esta fez, através da grande imprensa contra o Zola, acusando-o de inimigo da Pátria, foi tão bem sucedida que seus livros foram queimados em praça pública, que ele foi condenado e teve que fugir para Londres. Mesmo assim, os depoimentos das testemunhas de seu julgamento demonstraram as falhas do processo contra Dreyfus e deram o pretexto para que ele fosse novamente julgado. Enfim, a história tem muitos aspectos bem conhecidos, no filme, o Zola faz um belo discurso no final do julgamento, no qual prova por a+b a verdade dos fatos. O Dreyfus foi reabilitado e o episódio ficou para sempre na história da França.

Mas o aspecto para o qual eu quis chamar a atenção aqui foi sobre a escolha do Zola. Ele estava acomodado, ele resistiu a entrar na briga pelo Dreyfus, mas, depois, pensou bem e viu que a vida precisa de desafios, que a gente pode perfeitamente ficar bem lá no seu canto, fruindo as glórias que já alcançou mas que é muito mais digno e muito mais gratificante, estando no jogo, enfrentar novos desafios, arriscar tudo em uma outra causa que, sendo justa e honrada, só contribuirá para tornar o mundo melhor. E também, para que, mesmo que, em um primeiro momento, tudo pareça estar contra você, fazer com que você reconquiste, ainda com mais direito, o seu lugar.

Naturalmente que nem todos os desafios da vida envolvem uma causa da dimensão do caso Dreyfus. Mas, a gente se prova também, quando, saindo de nossa zona de conforto, daquele espaço que a gente pensa em que vai viver até o final dos dias, decide enfrentar um novo desafio, contando apenas com as armas que a natureza e a experiência de vida lhe deram. De vez em quando é preciso sair na chuva e se molhar: ajuda a estar em contato com o que você foi e com o que você sempre será. Com a sua essência.

Efemérides do dia 13 de Maio (12/5/12)

Hoje é véspera do 13 de maio e, quando penso no 13 de Maio, não penso logo na Abolição. Penso, primeiro, naquela música que a gente cantava na escola, na igreja e em casa, e que dizia assim: "A 13 de Maio na Cova da Iria, no céu aparece a virgem Maria". Depois do refrão bisado, "Ave, ave, ave Maria", vinha a história dos três pastorinhos: "Aos três pastorinhos, cercados de luz, visita Maria, a mãe de Jesus".
 

A devoção a Nossa Senhora de Fátima era tão forte lá em casa que a intenção de meus pais era dar aos três filhos que queriam ter os nomes de Francisco, Lúcia e Jacinta. Mas depois da Lúcia, vieram Alberto, Parsifal, Elcias (o que morreu pequeno e cujo nome foi herdado pelo outro, que nasceu depois), Paulo e, só depois dessa sucessão de rapazes, veio uma menina. Mas aí a linhagem já tinha sido quebrada e eles prefiram chamá-la de Maria do Socorro. Nós, os irmãos mais novos só a chamávamos de Dadal. Eu a chamo assim até hoje.
 

A história dos três pastorinhos não era algo muito claro para mim na infância. Tinha aquela imagem em gesso das criancinhas ajoelhadas diante de Nossa Senhora, sob um céu de um azul celeste excessivamente azul. Eu pensava que era algo que tinha acontecido num passado imemorial, algo tão antigo quanto a própria vida de Cristo. Na verdade, no meu imaginário todas as coisas ligadas à religião pareciam ter acontecidos no mesmo período. Por isso me parecia tão estranho aquele retratinho de São Domingos Sávio, com seu terninho e sua gravata borboleta, que até hoje está na parede da casa da mamãe. Aquela roupa não combinava com o tempo em que eu situava os santos.
 

Descobrir depois que os três pastorinhos não só eram do mesmo século que eu e que a irmã mais velha, Lucia, ainda estava viva lá em Portugal foi uma grande decepção. Viva e bem velhinha com uma figura que, pelas fotos, não tinha nada a ver com aquela menininha de gesso com quem eu me acostumara. Lúcia parecia com qualquer uma daquelas freirinhas do Colégio das Dorotéias com as quais eu encontrava todos os dias. E isto tirava toda a magia da história.
 

Eu preferia ficar com a memória dos três pastorinhos cercados de luz e mesmo com a versão irreverente que se cantava lá em casa. Dizia assim: "Flora Monte, você que é mais alta, mais alta que eu, olhai qual o bicho, o bicho que deu". Em seguida vinha o refrão: "Ave, ave, ave-estruz\ave, ave, ave-estruz".
 

Flora Monte era uma velha amiga dos meus pais, solteirona como então se dizia, que sempre nos visitava. Ela usava o cabelo, de um branco amarelo arrumado em duas grossas tranças que eram presas em torno da cabeça. E hoje pensando nisto me dou conta que D. Flora Monte devia ter cabelos bem compridos. Era muito magra e alta e não suportava que espirrassem perto dela. Medo de pegar gripe.
 

Hoje, o 13 de maio é para mim e creio, que para todos os brasileiros que conhecem a história, a data da Abolição da Escravatura. Foi um momento de grandes festas em muitas cidades brasileiras, verdadeira apoteose de um movimento que congregou homens como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, André Rebouças, Luis Gama, Rui Barbosa e muitos outros. A assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, no último ano da Monarquia no Brasil, foi um gesto que talvez tenha consolado D. Pedro II, nos dois anos em que sobreviveu ao exílio. Afinal, deixara o trono sem deixar atrás de si a escravidão contra a qual ele e sua filha foram, durante quase todo o seu reinado, forças vencidas em um sistema onde a política e a economia eram dominadas pelos escravocratas, os grandes produtores de café.
 

O 13 de maio é também o dia do aniversário de D. João VI. No primeiro aniversário que passou no Brasil, ele mandou publicar uma série de decretos pela Impressão Régia que tinha acabado de ser inaugurada a partir da gráfica que vieram nos porões do navio Medusa. Foi na rua das Marrecas, na casa do Conde da Barca, que a tinha trazido, que ficou funcionando a primeira gráfica brasileira. Dela sairiam os primeiros livros publicados no Brasil e o primeiro jornal a circular entre nós: a "Gazeta do Rio de Janeiro", lançada em setembro de 1808.
 

E porque era o aniversário de D. João, seu sogro, é que D. Leopoldina, coitada, talvez até prevendo o que o futuro lhe traria, teve que casar no dia 13 de maio de 1817. Foi em Viena e o casamento, feito por procuração como eram os casamentos reais, teve muita pompa e circunstância. O Marquês de Marialva, encarregado de acertar o negócio, distribuía pedras preciosas como quem distribui biscoitos. E tudo por ordem Del Rei D. João, manhoso como ele só, que queria dar aos austríacos a impressão de que no Brasil, era assim, a pessoa tropeçava nas ruas em diamantes, esmeraldas e rubis.
 

Pobre princesa que não pensava nas pedras pelo seu valor de revenda mas apenas, com seus olhos azul-violeta, procurava-lhes o nome científico, pois tinha a vocação da ciência, da mineralogia em particular. Enganada por Marialva que lhe garantiu que o príncipe, cuja bela figura já a deslumbrava no retrato, era rapaz fino e educado. Para cúmulo de sua felicidade quando indagado se o príncipe gostava de mineralogia, ouviu da boca do Marques: "Adora". Ah, esses diplomatas...
 

Bem que ela não queria casar no dia 13. Quando chegou no Brasil, encontrou um príncipe realmente belo, mas sem modos nenhum e que, se a amou no começo, mesmo traindo-a com o que visse pela frente, acabou por maltratá-la e desprezá-la da forma mais terrível que uma mulher apaixonada pode ser maltratada e desprezada. Pobre princesa. Bem que ela não queria casar no dia 13 de maio.

Carência e cobrança (5/5/12)

Uma das coisas que mais me chamou atenção, quando, há alguns anos, li toda a correspondência de D. Pedro II com a condessa de Barral, foi a imensa carência afetiva do Imperador. Em suas cartas são frequentes os queixumes. Ele se queixa que ela não o escreve, que não gosta dele, que esqueceu dele. Assim também, ainda que de forma atenuada, são suas cartas para uma cantora lírica de sua afeição, que li alguns anos depois.

O imperador tinha seus motivos para ser um carente. Ele teve a infância triste de menino órfão. Sua mãe morreu quando ele acabara de completar um ano de idade e seu pai partira para o exílio quando ele tinha cinco anos. D. Pedro II foi criado sem a presença protetora dos pais por pessoas estranhas que, mesmo lhe querendo bem, misturavam interesses com esse afeto e que, certamente, o manipulavam no sentido de tê-lo como protetor no futuro.

Rapaz triste, sem namoradas, sem amigos, sem confidentes, desconfiado de tudo e de todos, cercado por um pesado esquema de vigilância dos que cuidavam de sua educação para que ele não se parecesse nem um pouco com o doidivanas do pai, D. Pedro II viu com alegria a perspectiva do casamento com uma princesa italiana.

Magra e bela no retrato, no entanto, D. Tereza Cristina, quando desembarcou no Rio quase fez o noivo desmaiar como seu pai quase desmaiara diante da beleza de D. Amélia. Só que o mal-estar do filho nada tinha ver com deslumbramento e sim com decepção: gorda e manca era a princesa que lhe tinham arrumado seus representantes na Europa.

Com 17 anos, o rapaz foi chorar nos braços da condessa de Belmonte que lhe fazia as vezes de mãe de criação. Esta lhe recomendou que ele cumprisse com o seu dever. Demorou um pouco, mas o casal acabou se entendendo e, algum tempo depois, vieram os filhos.

No diário do Imperador, a melancólica morte da Imperatriz, na cidade do Porto, em dezembro de 1889, depois do trauma do forçado embarque da família imperial que se seguiu à Proclamação da República, é chorada com uma dor profunda e sincera.

Fora sua companheira leal, solidária e silenciosa. Uma outra mãe a substituir o afeto que lhe dera na infância a condessa de Belmonte. Mas não fora nunca uma paixão, um enamoramento.

Este, D. Pedro II experimentou apenas, pelo menos suas cartas o evidenciam, pela condessa de Barral. Mas essa verdadeira "femme du monde" que viveu toda a vida em Paris, frequentando os círculos da alta nobreza, ao que parece, jogava com a evidente carência do apaixonado. Usava-o como o tinham usado os seus educadores e amas na infância.

A profusão de cartas de D. Pedro II para a Condessa de Barral faz contraste com a economia de mensagens dela. (É bem verdade que ele queimava as dela, como D. Pedro I fazia com as poucas que a amante semianalfabeta lhe escreveu). A Barral, às vezes, se contentava em fazer meras anotações nas margens das cartas do Imperador apaixonado. Ele a sufocava com sua carência que nenhum amor correspondido seria capaz de preencher. E ela apenas o tolerava, benevolente e indiferente.

Era uma paixão de mão única. Até porque que apaixonado cacete era o imperador. Merecia ouvir o que o pierrô apaixonado da música de Noel ouviu: "pierrô cacete, vai tomar sorvete com o arlequim".

Porque não tem nada mais chato do que um namorado carente. Aquele que passa o tempo todo cobrando amor, cobrando reciprocidade, cobrando respostas, cobrando atenções.

O namorado mais bonito, mais charmoso e mais inteligente se torna opressivo quando adota essa linha de ação. E quando o faz através de longos telefonemas em que sua atenção tem que ser exclusivamente voltada para ele, sai de baixo. Que tédio!

Não há amor que resista há um telefonema de duas horas. E se este se repete a cada dia, a gente vai repensando a relação. Não há amor que resista a um namorado que está na nossa vida em tempo integral, sem nos deixar um segundo sentir saudade dele.

Naturalmente que esse não é um problema exclusivamente masculino. Ao contrário. Mas alguns homens juntam essa carência a uma atitude autoritária, impositiva que torna a relação ainda mais sufocante. Tive um namorado que, jantando comigo em um restaurante, se eu tirava, por alguns instantes, os olhos dele para olhar em volta, perguntava: "tem algo muito interessante aí atrás de mim?".

Quando a gente está carente, fragilizado, solitário, tende a se tornar chato, mesmo sem querer. E essa chatice aumenta ainda mais quando a gente sente que o outro lado está se afastando de nós, justamente por causa disso. É quase como uma forma de sabotagem interna que faz com que aquela tristeza ponha na nossa voz um tom chorado, no nosso olhar um ar de súplica e na própria postura corporal algo de previamente derrotado que, ao invés de atrair, faz com que o objeto de nossa afeição tenha vontade de fugir para bem longe.

Amar é um jogo complicado. Parece até que quando você ama, quando você cai nas teias do amor, o amor do outro lado arrefece. Daí que tanta gente resiste, teme, foge do amor. Daí que na juventude o amor é tão fugaz.

Por isso é preciso saber dosar suas porções, fazer dos encontros coisas especiais; fazer das conversas momentos bonitos, delicados; fazer das datas importantes da história dos dois, ocasiões a serem comemoradas com um tempo maior juntos, um final de semana em um lugar bacana.

É um tremendo lugar comum mas, para ser amado, é preciso estar bem abastecido de amor próprio. É preciso ter uma certa altivez, um certo desprendimento. É preciso ter a capacidade de abrir mão da companhia da pessoa que se ama para vê-la crescer. Não é desinteresse, não é desamor, é amizade.

E, como disse o Caetano quando comparou amizade com amor: "e quem há de negar que esta lhe é superior?".

Lágrimas (28/4/12)

Li todos os livrinhos do "Petit Nicolas", de René Goscinny, autor sempre feliz em todas as coisas que fez. O brilho de sua inteligência formidável, a gente percebe quando contrasta os volumes do "Asterix", em que ele foi autor do roteiro e do texto, com os outros feitos apenas por seu parceiro, Albert Urdezo.

Os livrinhos do Petit Nicolas, que comecei a ler para melhorar meu francês, podem também ser contrastados com o filme que tanto sucesso fez. O que tem de bom no filme está nos livrinhos, o que tem de ruim é criação nova. Assim é que aquela cena, inspirada no Asterix, dos garotos tomando a poção mágica ou contratando um bandido para sequestrar alguém, ou ainda aquele final relativo ao sexo da irmãzinha do garoto, não sairia jamais da pena de Goscinny. Sua sutileza reside justamente na capacidade que ele tem de representar o mundo, realmente, com o olhar de curiosidade e surpresa de uma criança comum. Um menino de classe média cuja vida que se desenrola quase toda em um único quarteirão, entre a casa e a escola, com um elenco pequeno de personagens. É um mundo absolutamente banal, sem qualquer coisa de inusitado, cuja graça reside toda no talento do narrador.

Engraçado contrastar as tantas sensações da infância do garoto delicado, sensível e carente criado por Marcel Proust, a partir de suas próprias lembranças, com esse tão comum e simpático Petit Nicolas. Tem algo de muito efeminado - e desculpem a expressão politicamente incorreta, mas acho que é a mais adequada - naquela fixação do garoto na mãe, na descrição minuciosa de suas sensações enquanto aguarda ansiosamente o beijo materno. É verdade que a genialidade de Proust está, a meu ver, justamente na tradução dessa hipersensibilidade em uma obra literária única e nunca superada.

A infância do Petit Nicolas também é repleta de sensações mas essas são mais terrestres, mais parecidas com as de um menino criado em contato com a rua. Uma coisa que adoro é quando ele se revolta contra o pai ou a mãe e diz, com seus botões, que vai fugir de casa e só então eles logo vão sentir o que perderam, ficarão arrependidíssimos de não o terem deixado ir ao cinema ou de o terem obrigado a fazer o dever de matemática.

Quando eu era criança e me recusavam alguma coisa ou me punham de castigo, eu também ficava como o Petit Nicolas. Só que eu era mais dramática e imagina como seria bom se seu morresse. Imaginava, entre lágrimas, meus pais e toda a família chorando, culpados de me terem tratado daquele jeito. Aí eles iriam se arrepender do que fizeram. Iam ficar pensado como tudo teria sido diferente se eles não tivessem me contrariado. Não me lembro se eu pensava em me matar ou simplesmente morrer de desgosto. O fato é que imaginar o sofrimento que minha morte causaria me provocava um prazer verdadeiramente voluptuoso. Eu acabava por dormir totalmente pacificada.

Hoje me ocorreu contrastar essa sensação com a que tenho agora, quando penso em meu pai morto. O sentimento que me vem é de arrependimento por não ter sido uma filha mais legal, por não ter aproveitado mais de sua companhia e de seus ensinamentos, por conta de nossos atritos durante minha adolescência. Arrependimento de ter tratado meu pai tão mal, pois eu o via como um opressor que tentava impedir minha felicidade. E esta estava na vida boêmia na companhia de meus amigos, nas noitadas no Anísio, nas viagens malucas com a turma do Pereira.

Do ponto em que me encontro hoje na vida, talvez com a mesma idade que ele tinha naquela época, vejo claro, como na música do The Who. Que opressor que nada! Quanto de sofrimento não lhe deve ter causado o medo que sua filha se perdesse numa vida corrompida e desregrada, sem respeito, sem estudo, sem trabalho e sem família. A sensação de impotência e de fraqueza que meu pai não deve ter experimentado diante da minha arrogância juvenil. Aquela prepotência de quem foi mimada, tendo os estudos e as despesas pagas por um pai assalariado e que nem imaginava quanto devia custar a ele manter equilibrado o orçamento doméstico. Como compreendo hoje sua angústia, o esforço que devia ter que fazer para aparentar ser um pai rigoroso, ele, cuja natureza era sempre afável, prazenteira, amigável, o quanto deve ter lhe custado se afastar para não acompanhar algo que ele temia que ia acabar mal, para sua filha caçula.

Tive sorte, não foi assim. Por uma série de circunstâncias, o destino me sorriu. Em algum ponto do caminho, talvez por conta do apoio permanente da minha mãe, talvez por conta dos valores que, desde a infância, me foram inculcados, eu me achei, tomei o prumo da minha vida e venci.

As lágrimas que eu imaginava que seriam choradas por meus pais na infância se eu morresse de repente, choro-as hoje por meu pai morto. E me vejo como ele, temendo pelo futuro do meu filho, tendo que usar de um rigor que não usara nunca antes, tendo que vencer minha natureza. As lágrimas que choro hoje por meu pai, serão as que meu filho chorará um dia por mim. Mas de que adianta, não é mesmo? Melhor seria se eu tivesse tido tempo e oportunidade para dizer-lhe dito que hoje compreendo suas razões

Para quem não acredita, como eu (a não ser literariamente), que os mortos estão nos espiando lá, de algum lugar do além, não há aquele sentimento de compensação que me ajudava a dormir na infância. E que pena não acreditar nisto. Fico com essa consciência de que meu pai não tira nenhuma proveito das lágrimas que derramo hoje por ele e por mim. Hoje, eu entendo o que não entendia na infância e adolescência: não são os pais que choram de culpa por terem feito o seu dever de pais. Somos nós que choramos depois, bem mais tarde, quando já não podemos agradecer por aquela prova de amor tão dolorosamente concedida.

Mendes Fradique (21/4/12)

Hoje é dia do Descobrimento do Brasil. Ou será que é o dia em que enforcaram o Tiradentes? Não é o dia do índio, porque esse foi 19. Eu soube porque vi uns protestos no Facebook.

De qualquer modo, abril tem 30 dias, nome de um filme que vi no século passado, e é tomado por datas históricas. A quase coincidência da data do descobrimento com a data do enforcamento proporcionou uma página divertida no livro do Mendes Fradique "História do Brasil pelo método confuso", publicado entre o final da década de 1910 e o começo da década de 1920.

Diz Mendes Fradique que uma das coisas que Cabral primeiro viu quando desembarcou foi o corpo de Tiradentes pendurado na forca. Indagando sobre de quem se tratava lhe responderam que era o alferes Joaquim José da Silva Xavier que, na véspera tinha sido enforcado como maximalista. "Maximilistas" era como naquele tempo eles chamavam os comunistas e não tem nada a ver com Marx. É apenas a tradução da palavra russa "bolchevique". Mendes Fradique usa e abusa do termo, misturando revolucionários de várias épocas e lugares sob essa nomenclatura que esteve tão presente nos jornais brasileiros na época da Revolução Russa (1917).

E é esse o espírito do livro de Mendes Fradique que me caiu nas mãos por acaso em 1984, quando, trabalhando no Museu da República, eu pesquisava para o meu primeiro livro: "Histórias de presidentes: a República no Catete". Fiquei realmente fascinada pelo livro de Mendes Fradique e procurei saber mais sobre o personagem.

Correndo os sebos do Rio, acabei encontrando em uma livraria, creio que na Av. Marechal Floriano, Seu Santana, velho livreiro que o tinha conhecido pessoalmente. Contou-me que Mendes Fradique - pseudônimo adotado pelo médico capixaba José Madeira de Freitas, tanto em seus artigos quanto nas caricaturas que também fazia -, fora um ativo militante integralista. Ele fora preso e torturado depois do fracassado "putsch" integralista de 1938. Afastado de seus empregos pela ditadura do Estado Novo, sofrera uma sucessão de AVCs e acabara morrendo, triste e esquecido, em seu apartamento na rua Carlos de Laet, na Tijuca.

Foi lá que fui, na sequência de minha pesquisa, encontrar sua viúva, bem velhinha, e ficar amiga para o resto da vida de sua filha, Apparecida Saramago. Daí em diante, só pensei em Mendes Fradique, dedicando ao estudo de sua vida e obra a minha tese de mestrado. Defendida em 1991, no IUPERJ ela foi publicada em 1993, pela editora Bertrand, com o título de "Brasil pelo método confuso: humor e boêmia em Mendes Fradique".

O tema de minha reflexão era o contraste entre aquele humor tão carnavalizado, tão próximo do humor dos modernistas de 1922 com a opção integralista de Mendes Fradique/Madeira de Freitas, dez anos depois. Se o Modernismo teve uma vertente que desaguou no Integralismo- representada pelo seu principal líder, Plínio Salgado, autor de umas tantos romances de qualidade discutível - o tipo de humor de Mendes Fradique nada tinha a ver com aquilo. É um humor muito próximo do de Oswald de Andrade no movimento antropofágico, (mais até do que da "Poesia Pau-Brasil").

Na "História do Brasil pelo método confuso", a mistura de tempos, lugares e referências culturais proporciona uma narrativa absolutamente viva, divertida, inusitada. Ao fazer Cabral desembarcar em um Rio de Janeiro tal como era a cidade no começo de século XX; ser recepcionado por alguns notáveis do País; metê-lo em desconfortável pensão da Rua São José; pegar o bonde; cair em conto do vigário aplicado por um personagem da vida boêmia e, finalmente, casá-lo com Suzana Casterá, a cafetina mais conhecida do Rio, Mendes Fradique antecipa muito do que o humor brasileiro só faria muito tempo depois.

O exemplo mais conhecido desse recurso é o "Samba do crioulo doido", do Stanislaw Ponte Preta. Sobre o qual, aliás, Artur Xexéo, depois de ser repreendido por citá-lo, pois "crioulo" é politicamente incorreto, pensou em renomeá-lo como "Samba do afro-descendente doido". Mas como, lhe disseram que "doido" é conceito que também já entrou para o índex, seria preciso pensar em outro nome.

Minha intenção na tese, e digo tese e não dissertação, porque no tempo em que a fiz ainda se exigia muito de quem a escrevesse, foi entender - a partir da análise tanto de seus livros quanto de seus artigos publicados na imprensa -, sua maneira de pensar o Brasil. E esta era, a meu ver, herdeira da mentalidade que caracterizava a geração boêmia da qual ele foi uma espécie de "benjamin". Mendes Fradique só chegou ao Rio, em 1910. Pegou os últimos tempos da roda boêmia de Olavo Bilac e de Emílio de Menezes. Desde último, aliás, se tornou uma espécie de pupilo. Tendo mesmo acompanhado Emílio naquele viagem histórica a São Paulo em que o grande satírico, recepcionado por Oswald de Andrade, conheceu a fina flor da juventude culta e rica paulistana, que depois aderiria ao Modernismo.

Oswald depois rejeitaria não só Emílio como também tudo o que ele sua geração tinham representado: a poesia parnasiana, o academicismo, o francesismo, etc, etc. Em meu trabalho procurei mostrar o que aproximava e o que afastava aquelas duas maneiras de fazer humor e cultura no Brasil. Para a geração de Bilac o humor era algo que nada tinha a ver com a verdadeira arte. Para os modernistas, o humor era uma forma de expressão artística tão válida como outra qualquer. Oswald foi, entre estes, o que mais abusou dessa forma de expressão tão característicamente nossa, e da qual a geração anterior só se valia como forma de recreação.

Herdeiro dos valores da geração que desaparecia, Mendes Fradique reagiu, não só ao futurismo, ao futebol e ao jazz, quanto ao carnaval e às manifestações da cultura brasileira mais identificadas com nossas raízes africanas. Ele se apegaria a uma visão do Brasil ultrapassada e conservadora que, junto com seu catolicismo profundo, encontraria no Integralismo a forma de militância mais adequada.

Partir, chegar, voltar (14/4/12)

Quando mudei para o Rio de Janeiro em 1977, o repertório de canções que falavam de partidas e chegadas era imenso. A geração dos artistas que cantava os nossos sentimentos vivia ou vivera experiências iguais. Encontrávamos em suas canções, as palavras e os sons que rimavam com o que estávamos sentido.

Tinha aquela do Caetano que dizia: "no dia em que eu vim m´embora/não teve nada de mais". A parte que eu mais gostava era a que dizia: "mala de couro forrada com pano forte, brim cáqui". A mala voltava mais adiante quando o poeta diz que quando se viu sozinho, viu que não sentia nada, nem do porque ia indo, nem do sonhos que sonhara, sentia apenas que a mala de couro que carregava, fedia, cheirava mal.

O mau cheiro da mala tinha a ver com aquela insegurança que a gente que está chegando em um lugar estranho. O medo que a roupa seja de mau gosto, que o sapato esteja furado, que o sotaque da gente seja motivo de deboche ou de chamar a atenção por um detalhe tão desagradável quanto é estar carregando uma mala fedorenta.

Chegar é difícil. Acostumar com o lugar, descobrir onde compra pão, qual o ônibus que se pega para ir a não sei onde, como é que o pessoal daqui faz para... E os finais de semana? Os finais de semana são terríveis. (Lembrei agora, não sei porque, do poeta e arquiteto Antonio Brandão, em algum dos tantos bares que frequentávamos no começo dos anos 1970, depois de alguns tantos goles, bradando, a propósito de nada: as quartas-feiras são terríveis!).

Mas é de outro tipo de terror que eu falava, o terror do final de semana em que você tem que se programar para não passá-lo, à toa, sozinho em casa. Não foi logo que descobri que a solução para todos os meus problemas de final de semana se chamava Posto 9: região da praia de Ipanema onde a gente encontrava todo o mundo e quem tem vinte anos continua encontrando até hoje.

Eu ia à praia no Leblon com os amigos do Ceará que chegaram ao Rio na mesma época que eu. Íamos porque nossa amiga e protetora, Vera Duarte, morava em um apartamento antigo, amplo e charmoso em prédio que já não existe mais na rua Rita Ludolf, no chamado Baixo Leblon. Então menos do que Ipanema, era o Leblon a nossa praia. De dia menos animada, de noite movimentadíssima entre a calçada da Pizzaria Guanabara e a do Diagonal, bem em frente.

Depois que essa turma se dispersou é que eu descobri Ipanema. Acho que já aluna do IFCS/UFRJ. Primeiro só ia lá junto com amigos, depois passei a ir mesmo sozinha. Você, quando é jovem tem um certo pudor de ir à praia sozinha. Sei lá, acha que vão achar que você é uma coitadinha do tipo "pobre menina não tem ninguém". Depois, você descobre que vai sozinha e dá uma andada, acaba encontrando uns conhecidos. Bota a toalha ali do lado, pede por pessoal dar uma olhada e na volta se, a turma for interessante, se encosta por ali mesmo.

Demora um tempo também para você achar a sua turma na praia. Conhecidos tem muito, mas pessoas que tornam uma tarde na praia divertida não são tantas assim. Depois que você acha, aí não só o seu programa diurno como também o noturno estão arranjados. Porque era no posto nove que a gente que ficava na praia até o por-do-sol, se informava sobre onde ia ser a festa, o show, o bar em que aquela turma ia se estar à noite.

Por isso, quando recebi no Rio um alemão que me fora bem recomendado por amigos de lá, Lutz Taufer, personagem de biografia difícil de ser absorvida pela sociedade convencional - fora do Baader Meinhof e, por conta de suas atividades, ficara uns 20 anos preso - deixe-lhe duas orientações que foram decisivas para o seu sucesso na cidade maravilhosa. Recomendei a ele que fosse morar em Santa Teresa - bairro tão alternativo que a história dele seria apenas mais uma dentre outras - e levei-o imediatamente ao Posto 9.

Era o verão de 1998, praia lotada, apresentei-o a uns três ou quatro ex-presos políticos em suas sungas minúsculas, como então ainda se usava; a uma professora de literatura que falava perfeitamente o alemão e à editora do caderno feminino de um grande jornal que achou a história dele ótima e deu um jeito de incluí-lo em uma coluna de futilidades com direito a foto e tudo. Como o Lutz se dedicava a fazer pães integrais para viver, ela não teve dúvidas, tascou na legenda: "ele fazia bombas, agora faz pães".

Porque tem isto também no Rio: a futilidade. Meu amigo alemão, quando entrevistado sobre suas impressões, declarou: o Rio de Janeiro é aquela cidade que, em dez minutos, você se torna o maior amigo de alguém. Depois ele se queixou um pouco da superficialidade dessas amizades, de como logo esses amigos te esqueciam... fazer o que, não é mesmo?

Ainda é melhor chegar em um lugar que te acolhe e que depois te deixa por tua conta do que chegar em um lugar hostil, onde cada espaço tem que ser penosamente conquistado, mesmo que no final você chegue, destroçado, ao próprio Jardim do Éden.

Voltando ao tema das músicas com que abri essa coluna: depois de umas tantas provas difíceis vividas no processo de conquista da cidade maravilhosa, a música que adotei como minha foi aquela do Torquato Neto que começa assim: "Mamãe, mamãe não chore/ A vida é assim mesmo, eu fui embora". Me identificava especialmente com o final: "Eu por aqui vou indo muito bem/ De vez em quando brinco carnaval/ E vou vivendo assim, felicidade na cidade/ que eu plantei pra mim/ E que não tem mais fim, não tem mais fim".

Não foi tão feliz assim a vida do Torquato na cidade que ele plantou para si. O poeta renunciou. Em 10 de novembro de 1972, ele ligou o gás e se deixou morrer na Tijuca, onde morava, aos 28 anos. Eu não. Eu segurei o tranco e segui em frente. Como outros tantos que imigraram do Nordeste para o Rio, naqueles, a um só tempo, amargurados e felizes anos 1970.

Anísio Teixeira (7/4/12)

Dia desses encontrei por acaso na internet foto de Anísio Teixeira, entre Jorge Amado e Gilberto Freyre. Os três já maduros, grisalhos, na casa dos 50 anos. Estranhei um pouco aquele Anísio pois o que conheci bem, através das tantas imagens dele constantes dos arquivos de Pedro Ernesto Batista, foi o Anísio moço. Figura franzina, metida nuns ternos grandões, com os cabelos muito lisos, fixados pela força da gomalina, o rosto magro escondido atrás dos óculos de grau. Imagem típica de intelectual latino, assim era o jovem Anísio, recém-chegado da América do Norte, cheio de ideias arrojadas sobre educação.

Aquele Anísio que encontrou na vocação radicalmente democrática do prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, um aliado corajoso para a implementação de seu projeto educacional. Foi com Anísio Teixeira que se difundiram as bibliotecas de bairro e que se criou a Escola-Rádio, dirigida por Roquette Pinto. Foram construídas então, no Rio de Janeiro, 28 escolas, cada uma com capacidade para mil alunos. Espalhadas por todo o município, suas localizações foram definidas após cuidadosos estudos, privilegiando as áreas mais pobres. Em 1933, a primeira escola construída numa favela foi inaugurada no Morro da Mangueira. O Instituto de Educação formou, durante aqueles quatro anos, 800 novos professores dentro do espírito da Escola Nova. A sofisticação dos cursos do Instituto era tanta que se chegava a exigir pleno conhecimento de francês e inglês dos futuros professores primários. O nível destes, com o aprimoramento dos cursos do Instituto de Educação, alcançou padrão universitário.

Este mesmo Anísio que aparece nas dezenas de fotos arquivadas no CPDOC-FGV, inaugurando escolas em Bangu, Campo Grande, Olaria, Marechal Hermes. Realizando, enfim, pela primeira vez na História do país, um projeto de efetiva democratização do ensino. Anísio não entendeu o recado violento da reação e recusou-se a implementar, por considerá-la avessa ao projeto de uma escola democrática e laica, a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas, pela qual se batiam os setores mais conservadores da Igreja Católica.

Curiosamente, o Anísio que brigava com a igreja nos anos 1930, quase se tornara seu sacerdote nos anos 1920. Clarice Nunes, em "Anísio Teixeira: a poesia da ação", revela o conflito em que se debateu a sua alma entre as atrações do mundo da política e a vida sacerdotal. Narra também o choque que foi para ele, no final da década de 1920, a descoberta da América. Choque que eliminou o sacerdócio como alternativa mas que revelou o caminho para um outro sacerdócio, a serviço da educação. Educação para a democracia.

Em Nova York, Anísio tornou-se íntimo de Monteiro Lobato - então adido comercial do Brasil nos Estados Unidos - e de sua família.. Pela correspondência que mantêm, depois do retorno de Anísio, percebe-se que ele se tornou algo assim como o darling de toda a família Lobato. Todos morem de saudade dele. Todos relembram o companheiro insubstituível, sua prosa admirável.

É assim também que dele se recordavam os filhos de Pedro Ernesto: Odilon e Iolanda Baptista. Em fotos do álbum de família aparecem o jovem e atlético Odilon ao lado do franzino Anísio. Os dois, de calção, jogam nas águas do mar do Recife uma rede que a incompetência dos pescadores teima em trazer vazia. Foi durante uma viagem, naquele fatídico ano de 35. Pedro Ernesto, então prestigiadíssimo, foi com a família e alguns secretários assistir à posse do governador de Pernambuco, Carlos de Lima Cavalcanti. A bordo, nas fotos da viagem, aparece o grupo bronzeado e alegre: Pedro Ernesto, sua mulher, d. Evangelina, Iolanda, Odilon, Anísio e Emília. São fotos de uma gente feliz. Durante a viagem, o navio foi sobrevoado pelo dirigível Hindemburgo, numa homenagem ao prefeito do Rio.

Em meados de 1935, aquele rapaz míope e franzino, marcava o seu tento mais ambicioso: coroava a sua obra inaugurando a Universidade do Distrito Federal. Uma universidade sem prédio, sem instalações adequadas e que, no entanto, tinha em seu quadro importantes professores de universidades estrangeiras, além da prata da cada: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Heitor Villa-Lobos, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, José Maria Bello, Jorge de Lima, Álvaro Vieira Pinto, José de Castro, Afonso Arinos de Melo Franco, Arnaldo Estrela, Lúcio Costa...

A UDF tinha um currículo absolutamente inédito para os padrões da universidade brasileira: cursos de urbanismo, arquitetura paisagista, drama e cinema, arquitetura cenográfica, bailados, além de outros mais sisudos, porém igualmente inovadores como os de filosofia e história do pensamento, filologia, literatura e sua história, jornalismo e publicidade, biblioteconomia e arquivo. A contratação de professores comunistas como Hermes Lima, Castro Rabelo e Leônidas Rezende, contribuiu para reforçar a identificação de Anísio como comunista e forneceu o motivo para a perseguição que sofreria depois.

As conseqüências do desastrado levante comunista de novembro de 1935 foram trágicas para os que, naquela década, não somavam com as correntes mais conservadoras. Em 2 de dezembro, Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto (então reitor da UDF) e boa parte de seus colaboradores, que haviam se transformado no alvo predileto dos que queriam derrubar Pedro Ernesto, apresentaram suas cartas de demissão. Alguns foram imediatamente presos. No lugar de Anísio, assumiu a Secretaria de Educação o ex-ministro Francisco Campos. Foi o fim do sonho.

Neste momento em se procura recuperar da degradação a que foram submetidos, nos últimos 40 anos o ensino público primário e secundário, estabelecendo um piso salarial decente para seus professores, vale a pena lembrar o projeto que Anísio Teixeira tentou implementar no Rio de Janeiro dos anos 1930.

Chico e Millôr (31/3/12)

Deve haver algum sentido na partida quase simultânea de Millôr Fernandes e Chico Anysio. Algo talvez relacionado ao senso de humor da "indesejada das gentes" que, de alguma forma, quis rir por último.

Foram ambos, certamente os maiores em sua arte, pois o humor literário e a comédia são formas bem diferentes de expressão.


Não sei se era Chico quem criava a maior parte de seus textos. Mas, certamente, era na interpretação deles, em sua galeria imensa de personagens que seu talento de ator versátil, aliado à sua capacidade inata de fazer rir, se realizava plenamente.


Às vezes, o texto nem era tão bom, mas a gente saboreava o prazer de ver um ator fenomenal fazendo um tipo tão natural que até parecia com algum velho conhecido da vizinhança. Assim a gente se acostumou a ver toda semana, na telinha: o pai de santo baiano, amigo dos famosos; o Bozó, funcionário da Globo; o Alberto Roberto, ator canastrão; Bento Carneiro, o vampiro brasileiro; o Coronel Limoeiro e o político corrupto Justo Veríssimo; o Haroldo, a bicha de língua presa que resolveu ser hétero e é que sempre convidada a voltar para o antigo reduto por outra, a Paulete; o Silva, nordestino que exclamava, com sotaque bem carregado: "Têrcero Mundo me dana!".


No entanto, não se deve esquecer que há muito Chico Anysio não tinha um programa seu. E não se pode culpar a Rede Globo por isto. Na verdade, seu programa, graças ao prestígio de Chico junto a Roberto Marinho, até se prolongou para muito além do tempo em que fazia sucesso. Me parece que esse é um pouco o destino dos comediantes. Chega um tempo que o público não consegue achar mais graça neles. Ou porque o público já não é mais o mesmo, ou porque cansou de repetir os bordões, ou porque o próprio artista se tornou sentimental.


Com Chico Anysio aconteceu um pouco de tudo isto. Lembro que na última fase de seu programa ele encerrava com um tipo de profeta falando frases que nada tinham de humorístico. Eram mensagens morais que precisavam ser decifradas e que, a meu ver tiravam a graça do que tinha sido visto antes.


Nada disto diminui Chico Anysio e, agora que ele se foi, a gente fica com uma pena danada de que não tenham lhe dado mais valor nos últimos anos de sua vida. Alguém com o enorme talento e a versatilidade de Chico Anysio poderia facilmente ter migrado do programa de humor para as telenovelas. Excelente ator dramático que só recentemente veio a participar de uma delas, merecia ter sido lembrado antes. Acredito que a televisão brasileira teria ganho registros tão memoráveis quanto os que deixou um Paulo Gracindo, por exemplo.


....


Encontrei Millôr duas vezes. Uma para pegar originais dele que eu queria incluir em uma exposição sobre os presidentes da República que eu organizava no BNDES e a outra para devolver os desenhos.


Conhecendo a sua verrina manifesta nas charges diárias do JB em que demolia durante semanas seus alvos preferidos, temia encontrar alguém de temperamento difícil. Mas, ao contrário, o Millôr que conheci era amabilíssimo. Conversamos longamente sobre os mais variados assuntos. E, aproveitando a boa disposição em que ele estava perguntei sobre alguns de seus velhos amigos. Sobre um deles, me disse: "Fulano é assim como aquele irmão mais novo que você tem. Você deixa a carteira de dinheiro na mesa dando sopa, ele vai e leva. Você tem uma filha mocinha, menor de idade, ele vai e transa..". Era um descrição que casava bem com a imagem do dito fulano. E não havia ninguém melhor para fazê-la do que Millôr que o conhecia há tantos anos.


Ele foi, certamente, a maior inteligência do humor brasileiro de todos os tempos. Suas pequenas construções frasísticas resumiam da forma mais sintética possível uma concepção filosófica sobre a natureza humana. Mas esta concepção não era cética como a expressa, por exemplo, no humor machadiano. Era tão pessimista como a de Jonathan Swift.


Aliás, Millôr tinha com Swift também a semelhança no humor ferino e demolidor, que não perdoava seu alvo, vasculhando e denunciando seus defeitos, suas fraquezas, suas vilanias. Ser escolhido como tema de suas charges era se ver massacrado com tanta persistência que, tal como acontece muitas vezes, em situações assim, sua vítima podia até vir a obter a simpatia do público leitor. Millôr era engraçado até quando era perverso. Ou, aliás, era engraçado e se conservou assim até o final até porque continuou perverso em seu humor.


No entanto foi o artista inspirado também de tiradas de humor delicadas como na "Poesia matemática" e na crítica inteligente que fez à substituição dos hábitos de leitura de livros impressos sobre o papel pela leitura dos mesmos nas telas dos computadores. Em texto que continua atual (tão atual que chegou a ser plagiado em vídeo em espanhol hoje popular na internet), intitulado "Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação" ele descreve o que chama de "Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas", cuja sigla é: L.I.V.R.O."


Mas, geniais mesmo foram suas máximas, das quais seleciono alguns para fechar essa coluna em que me despeço de dois dos meus ídolos da adolescência e da juventude: Chico Anysio e Millôr Fernandes.


Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem./ Ser pobre não é crime mas ajuda muito a chegar lá./ Já que não conseguimos aumentar a grita dos descontentes, precisamos pelo menos diminuir o sorriso dos satisfeitos./ O crime não compensa. Mas de que é que vivem os juízes do Supremo Tribunal?/ Antigamente os animais falavam. Hoje escrevem./ Todo dia leio os avisos fúnebres dos jornais; às vezes a gente tem surpresas agradabilíssimas./ Feliz é o que você vai perceber que era algum tempo depois.

Marion Aubrée na UFC (24/3/12)

Merece parabéns o Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará pela contratação temporária dessa grande antropóloga francesa que é Marion Aubrée. As práticas religiosas do Ceará, especialmente o espiritismo e o pentecostalismo, temas tão importantes, também ganham a possibilidade de serem observadas por alguém que, há muitos anos, vem se dedicando ao seu estudo.
 

O livro escrito por Marion Aubrée em parceria com François Laplantine, "A mesa, o livro e os espíritos: Gênese, evolução e atualidade do movimento social espírita entre França e Brasil" (Edufal), publicado na França em 1990, foi lançado no Brasil em 2009. Em resenha dessa obra publicada na Revista Brasileira de História das Religiões, da ANPUH, em 2010, o professor de História da Universidade Estadual do Ceará Marcos José Diniz da Silva ressalta seu valor e sua atualidade. Qualidades que se deveriam às "suas características metodológicas, pela amplitude de questões que aborda, pelo caráter comparativo que estabelece". Ele cita Renato Ortiz que descreveu o livro como "uma construção analítica envolvendo diferentes níveis: histórico, sociológico e antropológico".

As tantas viagens que fez ao Brasil para realizar as pesquisas que deram origem àquele livro despertaram o interesse de Marion Aubrée também para a crescente importância do pentecostalismo entre nós. Deste então, este tem sido o tema mais frequente de suas muitas publicações.

A expansão dos chamados cultos evangélicos entre as classes menos favorecidas no Brasil é um fenômeno de massas irreversível. O povo aderiu gostosamente às igrejas evangélicas. A oratória evangélica, o êxtase coletivo, as cenas dramáticas propiciadas pelas confissões públicas durante os cultos, tudo isto ajuda a conquistar, a manter e a ampliar cada vez mais o rebanho dos evangélicos. Mas, igualmente importante é, ao meu ver, a figura do pastor que, no bairro, passou a representar a autoridade espiritual da qual os pobres sentiam falta. Em estreita ligação com sua pequena comunidade, valendo-se de passagens da Bíblia para encontrar as palavras de conforto e orientação aos fieis, o pastor evangélico se converte numa autoridade não só religiosa mas também intelectual e moral - mesmo que muitos sejam quase tão incultos quanto seus seguidores.

Conversando com Marion Aubrée, em Paris, no Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo (CRBC / EHESS), onde ela trabalha desde 1985, contei-lhe da devoção que lá em casa tínhamos ao Espírito Santo. Na tradição familiar sempre que tínhamos alguma prova importante, mamãe acendia uma velha no altar para que o Espírito Santo iluminasse a nossa mente. Ela me explicou, pois eu não sabia, que a imagem do Espírito Santo é a única admitida em igrejas pentecostais. Lendo seu artigo sobre "A visão da mulher no imaginário pentencostal", (Revista Antropolítica, nº 9, 2º semestre de 2000), fiquei surpreendida com a semelhança da visão que católicos e pentecostais têm do Espírito Santo. Diz Marion Aubrée:

"De fato, em razão da iconoclastia que acaba de ser mencionada, não há qualquer representação antropomórfica de Deus Pai nem de Jesus nos templos pentecostais. Apenas nos lugares de culto mais importantes pode-se encontrar um ícone do Espírito Santo - cuja importância é primordial na corrente pentecostal -, representado simbolicamente por uma pomba com as asas abertas, geralmente sobre a parede do coro, atrás do altar. (..) Vêem-se também, em raras ocasiões, algumas labaredas de fogo em torno da pomba. Elas representam a inspiração do Espírito Santo, que desceu sobre os apóstolos no dia de Pentecostes, quando, segundo a Bíblia, eles falaram em um idioma que todas as pessoas presentes compreenderam, qualquer que fosse sua língua natal. (... ) Este dom é por eles considerado como o primeiro e mais comum de todos os dons do Espírito Santo, a partir da exegese de uma Carta de Paulo aos Coríntios (I.12 8-10) abordando os carismas outorgados aos humanos através do Espírito Santo".

As multidões que se reúnem nas grandes cidades por ocasião dos grandes eventos religiosos promovidos pela Igreja Universal ou pela Assembleia de Deus e outras tantas que vem aparecendo, não são desprezíveis. A força dos dirigentes dessas igrejas se transformou em força política capaz de deter no Congresso decisões sobre temas importantes como o direito das mulheres ao aborto e as pesquisas com células tronco. Também as questões relativas aos direitos dos homossexuais têm encontrado por parte da bancada evangélica forte oposição à qual não é insensível o governo. Afinal, por mais progressista que se seja, em um democracia, precisa-se dos votos dos eleitores. E, se uma parte significativa deles vota orientada por seus valores morais e religiosos, é preciso respeitar o peso que isto tem na sociedade brasileira.

Conheci certa vez um empresário que preferia contratar operário evangélicos. Eram mais ordeiros, disciplinados, não bebiam, tinham famílias estáveis e, todos os dias, durante o intervalo das refeições, liam trechos da Bíblia. Se os pastores acusados de enriquecimento às custas do dízimo pago por essa gente podem não ser tão respeitáveis quanto tentam parecer, os conselhos que dão, certamente, contribuem para ordenar e dar sentido à vida de muitos brasileiros. Se parte de seus ensinamentos estimulam o preconceito e o atraso, no entanto, cabe a nós que temos outros valores combater essas forças no terreno da política, respeitando a opção religiosa de nossos compatriotas, sem cair também no preconceito.

Daí ser importante ter alguém como Marion Aubrée no Ceará. Alguém que, com o olhar mais generoso da Antropologia, mas nem por isso menos isento, consegue lidar com esse tema sem qualquer dos tantos preconceitos com que nós, da classe média brasileira, tantas vezes, o vemos.