Tutoyer e vouvoyer (15/3/14)

Há alguns anos atrás, visitei Roger Chartier no College de France. Pensava em fazer um pós-doc em Paris e o havia conhecido, através de Sandra Pesavento em um seminário na Casa de Rui Barbosa. Naquela ocasião, eu tivera a oportunidade de entrevistá-lo para o site editado por Alcino Leite Neto, Trópico e, como é do feitio de Chartier, sempre franco, simpático e cordial, fizemos boa camaradagem. Recomendo a leitura dessa entrevista aos que ainda não o conhecem para um primeiro contato com as idéias e a personalidade desse admirável historiador contemporâneo.  A entrevista ainda está disponível no seguinte endereço: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2479,1.shl

Mas a referência a Chartier aqui se prende ao diálogo que tivemos naquele setembro de 2009. Meu francês era ainda mais precário do que é hoje e a concordância verbal certamente deixavam muito a desejar. A toda hora eu trocava a segunda pessoa do plural pela do singular e vice-versa. Eu já sabia que havia certo rigor entre os franceses a propósito do “tu” e do “vous”. Quando se era amigo de alguém valia o “tu”, quando se era apenas conhecido ou mesmo quando se estava em uma relação hierárquica diferenciada, digamos assim, valia o “vous”. Na conversa, brincamos um pouco sobre isto e ele me disse que nós, em português, temos uma solução intermediária para o problema a partir do uso do “você”. Me ocorreu dizer-lhe, sem muita convicção, que o “você” viera do “Vossa Mercê”, que me parecia ser o tratamento corriqueiro entre as pessoas no Brasil do século XIX. De forma que no interior, onde os costumes se conservavam preservados por conta do isolamento que então havia, e nas comédias que se encenavam antigamente durante as festas juninas, o tratamento de “vosmicê” entre o sujeito e a pretendida noiva era uma forma de mostrar uma certa formalidade entre um casal que ainda estava se conhecendo. Disse sem convicção porque imagino que haja estudos onde algum bom filólogo certamente deve ter tratado de forma mais profissional desse tema.  

Uma vez, quando dei aulas no IHEAL (Institut des Hautes Etudes de L'Amérique Latine – Paris 3 – Sorbonne Nouvelle), ao consultar o chefe da secretaria, homem jovem e bastante informal, depois de alguns minutos de conversa, ele me perguntou: “On peut se tutoyer?”. Claro que eu respondi, “bien sûr”. Mas fiquei desconcertada pela pergunta. Eu mesma nunca a fiz. Até hoje, conversando com colegas franceses, eu misturo o “tu” com o “vous” o tempo todo. Começo com o “vous”, mudo para o “tu” e volto ao “vous” com a maior desenvoltura. Minha professora de francês, Enza Palamara, me alertou, no entanto, para um aspecto que eu desconhecia. Eu pensava que o “vous” estava necessariamente associado a uma situação hierárquica ou formal, mas ela me disse que hoje, na França, os imigrantes africanos ou árabes tem apresentado queixa contra a polícia francesa que os trata por “tu”. Segundo ela, os árabes, por questões relacionadas ao aprendizado da língua tem o hábito de empregar o “tu” de forma generalizada. O costume teria passado para a polícia que, “as usual”, está sempre lidando com árabes, africanos e gente do terceiro mundo em geral. Acontece que, nestes tempos sensíveis de identificação de novos direitos a cada dia, esses mesmos árabes e africanos passaram a considerar o serem tratados por “tu” em vez de “vous” uma atitude ofensiva, humilhante e discriminatória da polícia contra eles. Agora, por via das dúvidas, passei a usar o “vous” para todos os franceses que encontro e me concentro no estudo de sua conjugação.

Enza também me falou de como o “tu” é, ao mesmo tempo, uma linguagem agressiva mas é também a linguagem da intimidade entre os casais, os amigos, pais e filhos. No primeiro caso, quando, por exemplo, duas pessoas se desentendem no trânsito, é o “tu” que predomina até a conversa chegar a um “tais-tois” (cale-se !) seguido de algumas expressões de baixo calão todas conjugadas na segunda pessoa do singular. Se entre alguns casais antigos ainda há os que se falam na base do “se vouvouyer”, como se diz, a prática dos que são íntimos é mesmo a de “se tutoyer”.

A declaração de amor de Hans Castorp a Claudia Chauchat na “Montanha mágica” de Thomas Mann, é a melhor demonstração do que me explicou Enza. Tomando coragem para declarar seu amor, depois que ela o tratou por “vous”, Castorp lhe diz: “Jamais, Clavdia - respondeu. - Jamais je te dirai “vous”, jamais de la vie ni de la mort”. A seu ver o “vous”, forma que no ocidente cultivado se usa para se dirigir às pessoas seria francamente burguês e pedante. É depois deste protesto que vem a parte mais bonita do livro que é a longa e sensual declaração de amor de Castorp, toda ela em francês, toda ela na segunda pessoa do singular. Ele lhe diz que a febre que sente “ce n’est rien d’autre, rien d’autre que mon amour pour toi”.

E que aquele amor o tinha aprisionado desde que seus olhos a viram pela primeira vez, ou melhor, desde que a reconheceram. Pois que, na verdade, ele já conhecia de muito antes, “toi et tes yeux merveilleusement obliques et ta bouche et ta voix”. Ele já havia ouvido sua voz quando era estudante, no primário quando lhe pedira emprestado um lápis apenas para poder falar com ela. Desde aquele tempo, ele a amaria irracionalmente e era esse amor que lhe dava a febre que o havia feito se internar no sanatório, pois desde sempre ele estivera doente de amor. Castorp conclui seu discurso amoroso com uma frase onde o “toi” ganha uma dimensão ainda mais intensa, pois é como um prolongamento do próprio eu.

“Je t’aime, je t’ai aimée de tout temps, car tu es le Toi de ma vie, mon rêve, mon sort, mon éternel désir...”

A russa Claudia Chauchat não caiu na maravilhosa cantada de Hans Castorp. Fez piada de todo aquele amor do alemão por ela: “Tu es en effet un galant qui sait solliciter d’une manière profonde, à l’allemande” (você é um rapaz galante, que sabe pedir de uma maneira profunda, à moda alemã) e se despediu dizendo: “N’oubliez pas de me rendre mon crayon” (não esqueça de devolver meu lápis).

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