Uma vez, durante a ANPOCS, em um desses encontros paralelos que tanto têm de agradáveis quanto de ilustrativos, brincávamos eu e outros colegas do grupo de Pensamento Social no Brasil em torno de uma mesa de bar na aprazível cidade de Caxambu, sobre os azares da vida acadêmica. O tema era o fato de algumas palavras ou conceitos, como se queira, se tornarem subitamente malditas e interditas a qualquer texto acadêmico que se queria mostrar como tal.
Eu falava da palavra “influência” que recentemente descobrira ter sido incluída nesse índex. O fato é que há algum tempo, a palavra foi renegada pelos historiadores mais conspícuos, de tal maneira que virou uma verdadeira heresia a pessoa produzir um estudo sobre, por exemplo, “a influência dos franceses sobre alguns aspectos da cultura brasileira”. Não pode, segundo me disseram, porque “influência” teria algo de colonizador e inferiorizante, o que é decisivo para a maldição de um conceito, nestes tempos pós-modernos em que nenhuma cultura é jamais inferior à outra. Apesar de ser um fato nós termos adotado tanta coisa que foi criada lá na França pelos franceses sem que a recíproca seja verdadeira.
Outra palavra que descobri maldita foi “tribo”. “Tribo” não pode mais. Acho que o que agora vale é etnia, povo, nação. Escrevi um artigo em que falava em uma tribo lá do começo do século XIX e o parecerista gostou muito mas pediu para substituir a palavra “tribo”. Eu que não sou besta nem nada, substituí logo. Imagina se meu artigo é recusado e parecerista ainda diz por aí que era até um bom artigo, mas, coitada da autora ainda é daquelas que diz “tribo”. Não pude porém mudar no meu primeiro livro, “Histórias de presidentes”, lançado em 1989, o termo “República velha”, outro que foi para o índex.
Parece que a expressão foi uma forma pejorativa do pessoal do pós-30 se referir ao período que vai de 1889 até àquele ano, de maneira que o conceito estaria impregnado de preconceito. Uma colega que defende a obrigatoriedade do uso de “Primeira República” para nomear o período, reconhece, no entanto, que o uso da nova expressão no lugar da outrora consagrada e agora rejeitada “República Velha” trazia um problema. É que ninguém chama o que vem depois de 1930 de 2a República, nem o que vem depois de 1945 de 3a e muito menos o que vem depois de 1964 de 4a República. Por essa lógica estaríamos na 5a República, pois também caiu a expressão hoje igualmente esquecida “Nova República”, que teria sido inaugurada depois da Ditadura Militar com a eleição de Fernando Collor.
Eu gostaria de ter acompanhado a gênese de alguma dessas interdições. Posso imaginar que surja em algum congresso quando um especialista consagrado, durante a solene conferência de abertura, faz um comentário cheio de erudição e ironia sobre os pobres mortais que até então usavam uma daquelas expressões. O comentário é acompanhado por um sorriso inteligente da platéia como se todos sempre tivessem pensado o mesmo. A partir de então a crítica é internalizada, a tal palavra é substituída por outras até desaparecer dos textos acadêmicos. Daí em diante, coitados dos que ainda a elas recorrerem...
Mas naquela mesa da ANPOCS, a brincadeira ficou boa mesmo quando começamos a imaginar como no meio acadêmico, tão suscetível à competição e à inveja como outro qualquer, alguém pudesse usar isto, cientificamente para crescer em cima de um antecessor de sucesso. Imaginamos que o antropólogo x teria ganho fama e reconhecimento por conta do conceito de “relacionismo” durante os anos 1990. Convidado para as universidades do mundo inteiro, citado mais de mil vezes em trabalhos de colegas e alunos, homenageado com medalhas e títulos honoríficos, o nosso sábio tinha entre seus alunos um jovem tão humilde e dedicado quanto brilhante. Certo que estava formando um herdeiro que levaria adiante a fama estabelecida pelo conceito consagrado, o sábio abriu para o pupilo as portas da fama, incluindo-o em congressos e publicações altamente bem avaliadas pelas instituições competentes.
O pupilo cresce e aparece e um belo dia surge com um artigo intitulado “A falácia do relacionismo”, onde, com competência científica e argumentos sólidos, destrói a essência do conceito do antigo mestre, demonstrando o quanto ele era frágil e inadequado para o que se propunha a identificar. O artigo faz sucesso, repercute em outros trabalhos. O conceito cai em desgraça e com ele toda a obra do ex-famoso antropólogo dos anos 1990 que, neste Terceiro Milênio, passa a ser vista como ultrapassada e inútil. As citações mínguam e em pouco tempo ninguém fala mais nele. Talvez o pupilo, agora ele mesmo uma celebridade, tenha o gesto complacente de lhe prestar uma daquelas homenagens que se prestam a velhos professores aposentados. Isto se lhe tiver sobrado alguma generosidade ou se o despeito rancoroso do velho mestre não os tiver tornado inimigos irreconciliáveis.
Parece um pouco dramático mas eu não acho que seja muito diferente disto não. Há muito de estratégia política na construção de um renome acadêmico. Evidentemente que o campo do conhecimento é muito mais do que isto e de embates assim resultaram grandes contribuições para a História das Idéias. Mas os que estudam a História dos Conceitos vêm demonstrado sua maleabilidade e porosidade, de como estes vão se adequando aos tempos e são infiltrados por outros conceitos, por vezes, até se distanciarem totalmente de seu sentido original. E isto acontece pela própria dinâmica de renovação do campo acadêmico. Esses movimentos servem para arejar e/ou mesmo para provocar discussões sobre o verdadeiro sentido das palavras. Talvez para impedir que elas acabem se revelando totalmente faltas de sentido e caíamos no futuro assustador prenunciado pelos pós-modernistas em que “todo es igual; nada es mejor, lo mismo un burro que un gran profesor”, como no tango de Discépolo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário